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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

juro no decir nunca la verdad

Em "Juro no decir nunca la verdad" encontramos 95 crônicas publicadas originalmente no El País Semanal entre 10 de fevereiro de 2013 e 01 de fevereiro deste terrível 2015 que se encerra. Mesmo passados os muitos meses de sua publicação nenhuma das crônicas parece datada ou envelhecida, nenhuma soa incongruente ou irrelevante. O estilista Javier Marías dos romances e contos é também um inventor inspirado em suas crônicas. Marías sobretudo argumenta, defende uma posição, contrasta seu entendimento das coisas com o senso comum ou com opiniões de terceiros. Ele sempre é implacável em seu juízo, mas nunca mal educado ou descortês. É justo (como sabem ser Eáco, Minos e Radamanto, os juízes do inferno), seja com os políticos de seu país, com o patético ex-treinador do seu time de futebol, com os funcionários de um aeroporto em Londres que roubaram pertences seus, com  colegas escritores, ou ainda com vizinhos de bairro e conterrâneos madrilleños. Trinta ou quarenta por cento dos textos são marcadamente políticos, onde Marías interpreta o momento político e econômico do seu e dos demais países da comunidade européia, mas há um número maior de textos sobre outros assuntos, como seu ofício, suas influências literárias, sua família e amigos, sua memória das coisas da infância ou juventude, seu azedume em relação a onipresença da igreja no cotidiano espanhol, sua paixão pelo cinema ou sua prática como acadêmico nas reuniões da Real Academia Española de la Lengua. Dos disparates que presencia ou lê brotam crônicas nada ligeiras. Produzidas para emular falsa simplicidade, elas se deixar ler nos domingos pela manhã ora com sorriso ora com esgar. Nelas encontramos argumentos vigorosos e complexos, seminais e definidores. Ele nunca é panfletário ou engajado (no mau sentido da palavra, ou seja, no sentido que experimentamos, por exemplo, na quase totalidade das opiniões de intelectuais e escritores brasileiros contemporâneos). Ele nunca se ilude com a aparência do que vê, reproduz versões oficiais, aceita as promessas ou regras dos jogos de poder (coisa que os servis jornalistas brasileiros, quase todos escravos mentais de alguma forma pagos com dinheiro público, fazem rotineiramente). Quando ele acusa um erro ou atenta para um problema sempre encadeia seus argumentos com lógica e método. Ele antecipa movimentos e/ou desdobramentos dos fatos aparentemente corriqueiros que registra. Apesar de reiteradas mostras de sabedoria Marías nunca é pedante (seu humor é algo que encanta o leitor mesmo quando o assunto é árido, complicado, de entendimento sutil). Como não rir do sarcasmo de um "Si los tontos volaran no se vería el sol"? Pois então. Quer ler algo não ficcional de Javier Marías? Experimente a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover, Demasiada nieve alrededor, Ni se les ocurra disparar e Tiempos ridículos. Em todos encontramos aulas exemplares da história recente da Espanha. Bom divertimento. Cabe aqui uma última nota. Há um causo que vou lamentar por muitos anos ainda. Acontece que perdi a oportunidade, em fevereiro último, de cumprimentar don Javier Marías. O vi na Calle Cava Baja, em Madrid. Estávamos Lola, Manolo e eu saindo da Taberna e Posada de la Villa, onde havíamos tomado umas copas e fazíamos planos para jantar. Lola chamou nossa atenção e disse que o Marías estava ali, na diagonal, do outro lado da rua, fumando calmo seu cigarro debaixo do dintel de uma porta. Fiz menção de irmos lá cumprimentá-lo, porém Lola lembrou do quão zeloso de sua privacidade era ele. Estava frio naquele inverno e o lusco-fusco do início da noite fazia as luzes bruxulearem. Ficamos uns minutos ali parados, indecisos, em quase transe. Manolo bromeava como sempre faz, nos incentivando a cruzarmos a rua e eventualmente recebermos nossa cota de impropérios marianos. Lola lembrou de uma amiga que não foi exatamente bem recebida em circunstâncias parecidas. Fomos covardes, ai de nós, decidimos deixá-lo na paz de seu santo cigarro. Seguimos no sentido oposto, Cava Baja abaixo e ficamos um bom tempo falando dele e de seus livros. Manolo ria de nossa continuada timidez. Nem Lola nem eu sabíamos explicar o que de fato nos impediu. Era tarde. Como teria sido divertido ter ao menos balbuciado um par de frases com ele naquele dia. Vale.
[início: 07/10/2015 - fim: 05/12/2015]
"Juro no decir nunca la verdad", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2015), brochura 14x22 cm, 378 págs. ISBN: 978-84-204-1210-8
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Balanço final [25.12.2015]
Ninguém intelectualmente honesto pode dizer que 2015 foi um bom ano para o Brasil e para os brasileiros. E mais não digo sobre a irreversível miséria mental e moral que se abateu sobre esse desgraçado país. Ponto. Li um bocado, 109 livros, mas não consegui produzir as resenhas no mesmo ritmo das leituras (o fato de mudar de apartamento e queimar meu computador semanas atrás explica um tanto, mas não tudo deste descompasso). Estou devendo escrever registros de livros que li ainda no início de novembro. Paciência. Esse foi o ano dos romances. Foram 41 (38% do total). Só em 2009 havia lido tantas narrativas longas (talvez para compensar o fato de ter-me dedicado no ano passado a ler muitos ensaios e outros volumes de não-ficção). Nessa cota de romances quase um terço é invenção do Patrick Modiano, prêmio Nobel do ano passado, que li com disciplina e método (a obra dele é mesmo um interessante mosaico de livros curtos e potentes). Li um bom conjunto de livros em espanhol e vários em inglês comprados em Dublin, livros que tratam do mundo de James Joyce, pomos de ouro colhidos numa viagem há tanto tempo planejada. Li volumes do Haruki Murakami que não me agradaram nada, coisas da Natalia Ginzburg que me agradaram um bocado e reli o ciclo Fundação do Asimov com pouco mais que tédio (Noigandres, eh noigandres). Gostei dos vários Joseph Roth que li e fiquei realmente impressionado com o poder da narrativa do romeno Mircea Cartarescu (haverá vários dele em 2016, seguro que sim). Dediquei bom tempo ao robusto conjunto de ensaios sobre J.M. Coetzee editado pelo Lawrence Flores e a Kathrin Rosenfield. Aproveitei cada minuto da leitura da tradução que o Lawrence fez do Hamlet. Ouro puro. Li vários livros independentes (digamos assim), livros editados por pequenas editoras, de gente que acredita sobretudo no poder da palavra e de sua capacidade de contribuir com algo seu no mar revolto da literatura (autores que ou são vaidosos o suficiente ou muito seguros de si para se atreverem-se a publicar algo numa época em que a maioria das pessoas mais se orgulha de ser imbecil e/ou analfabeta do que qualquer outra coisa). Fiz 109 registros de leitura, um tanto acima da média dos três anteriores, mas algo abaixo da média histórica, iniciada em 2007, que é agora de 113 livros por ano. Foram 41 romances; 17 de crônicas e ensaios; 14 de contos; 7 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 6 novelas; 5 de poesia; 3 de perfis, biografias, memórias e relatos; outros 3 de ficção científica; 2 de fotografias e 2 de turismo; além de apenas um dos seguintes nove gêneros: romances policiais; infanto-juvenis; gastronomia; arte; didáticos; dramas; cartas; catálogos e de divulgação científica. Abandonei uma miríade de projetos, desisti de coisas que sabia serem fundamentais, importantes até demais, mas que não resistiram a meu caótico processo de leitura. Ultrapassei a mítica marca dos 1000 livros lidos desde que comecei a fazer esses registros (sabe-se lá quantos livros li antes, entre meados dos anos 1970 e o final de 2006, mas sei que foram mais de 2000). Falei sobre a vertigem de fazer essa lista de livros lidos num artigo publicado na Revista Cândido (da Biblioteca Pública do Paraná). Fizemos a festa dos 90 anos para meu pai, o original Aguinaldo Severino, grande festa, grandes alegrias. O Sr. BB, o mais jovem de nossos gatos, morreu. A Pato, a nova mais jovem gata, apareceu. Helga e Natália seguem bem. Estamos a sair do #403 para o #902, animados. Organizei com ajuda da CESMA e do Ponto de Cinema mais uma edição do Bloomsday Santa Maria, a vigésima-segunda da série. No ano que vem faremos a edição número 23 e comemoraremos os cinquenta anos da tradução que o Antônio Houaiss fez do Ulysses (o Galindo até reclamou da escolha, mas para ele já tenho planos, em 2022). Viajei para Dublin, Pamplona e Madrid. Em Dublin tive a sorte de conhecer dois arquitetos, o Kevin e seu irmão John, esse último um sujeito que sabia um bocado de coisas sobre o Joyce e me abriu um bocado de portas mágicas (sem ele não teria conhecido o mercurial Brendan e sua James Joyce House, nem as casas onde viveu James Joyce, nos subúrbios ao sul de Dublin, Rathgar e Rathmines). Conhecer o adorável P.J. Murphy, o industrioso Conor Fennell e o povo amigo da Martello Tower também foram experiências dos diabos. Nunca há timidez quando se trata de verdadeiros viciados em James Joyce e sua obra. A cidade tratou-me com cortesia e eu soube bem minha cota de Guinness. Sláinte. Ah! E em 2016 começo o décimo ano desta série de registros de leitura. Veremos.
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domingo, 30 de dezembro de 2012

on grief and reason

Esse livro encontrou-me no 12/12/12 e o encantamento provocado pelas idéias de Joseph Brodsky me manteve, até há bem poucos minutos, nesta manhã vagabunda de domingo, penúltimo dia deste 2012, absolutamente "stingless, drowning in honey", imerso em delícias sem fim. "On Grief and Reason" foi publicado em 1995 e reúne 21 ensaios muito bons. Um é de 1978, oito deles são dos anos 1980, doze dos anos 1990. Dois dos ensaios são abertamente nostálgicos. O que abre o livro reúne memórias esparas dos dias de infância e juventude no pós guerra (Brodsky nasceu em São Petesburgo/Leningrado, em 1940). Ele fala de seus primeiros contatos com a lingua inglesa (e com a literatura, cinema e cultura dos não russos), no início da guerra fria. O que encerra é um texto em homenagem a um grande amigo (o poeta e ativista inglês Stephen Spender), escrito uns poucos dias após sua morte. Os demais são ensaios convencionais na forma, transbordantes de erudição, mas escritos também com alguma ironia e bom humor (num inglês que eu não consigo avaliar completamente - menor dos anões que sou - mas que pareceu-me mais que exótico, certamente exuberante, diferente, algo latinizado). Neste conjunto encontramos seu discurso de aceitação do prêmio Nobel (de 1987), assim como textos dirigidos a alunos em cerimônias de formatura (Brodsky foi professor universitário por muitos anos) e aulas magnas de poesia, onde Brodsky discute detalhadamente - linha a linha, palavra a palavra, poemas (de Robert Frost, Rainer Maria Rilke, Thomas Hardy); vários textos longos sobre a experiência de ser poeta, sobre poesia, linguagem, o treinamento desejável à esse ofício e a existência ou não de talento natural (ou de musas inspiradoras); textos políticos - de intervenção política -, nos quais Brodsky reflete sobre o valor intrínsico da liberdade e se contrapõe a opressão. O ensaio que mais gostei é uma espécie de carta, dirigida ao poeta e filósofo Romano Horácio (Quintus Horatius Flaccus). Nele Brodsky explica - ao leitor afinal de contas - as afinidades entre seu estilo e o de Horácio. O texto mais divertido (e cruel) é o de 1978, onde ele conta experiências de uma viagem que fez ao Brasil. Toda vez que eu voltar a encontrar um ufanista delirante, daqueles orgulhosos das singularidades brasileiras, arautos de nossa provável transcendência sobre os demais povos da terra (e como brotam ufanistas assim nestes últimos tempos) lembrarei dos comentários de Brodsky sobre o Rio de Janeiro e sobre o que ele lá viu. Todas as lembranças que tenho de Brodsky são boas. Lembro-me das maravilhas de um outro livro de ensaios seu ("Menos que um", publicado no Brasil em meados dos 1990); de ter encontrado sua casa em Veneza (mas não pude ir a San Michele ver seu túmulo, paciência); de ter conhecido a poesia de Anna Akhmatova, Osip Mandelstam e Marina Tsvetáyeva atráves dele. Enfim, terminar o ano com um livro tão bom foi um presente insuspeitado.
[início 12/12/2012 - fim 30/12/2012] 
"On Grief and Reason: Essays", Joseph Brodsky, Londres: Penguin Books (modern classics), 1a. edição (2011) brochura 13x19,5 cm, 422 págs. ISBN: 978-0-241-95271-9 [edição original: (New York: Farrar Straus Giroux) 1995]
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Balanço final [30.12.2012]
Esse foi um ano de muitas viagens, algumas alegrias e também, claro, uns poucos aborrecimentos. Doña Natália terminou o primeiro ano de psicologia e está animada com o curso; doña Helga defendou o doutoramento, tomou muitos cavas e começou vários projetos novos; o povo de São Paulo segue bem, com o velho timoneiro Aachnald Severinovich no comando. Temos um novo gato. Leon - o Felpudo juntou-se a Salen, Lilica, Nihan e Kyo. Emagreci um pouco, ma non troppo. Revi amigos do IFUSP que não via há quase 30 anos, em um encontro memorável. Em outra oportunidade revi don Marcelo Racy e don Péricles Turnes, amigos dos bons. Marcelo Tápia me fez uma gentileza das grandes, mostrando-me a Casa de Cultura Guilherme de Almeida e me dando a chance de ter nas mãos um legítimo Ulysses de 1927 (uma reimpressão da primeira edição). Dividi uma noite de conversas sobre James Joyce no FestiPOA (capitaneada pelo Fernando Ramos) com o industrioso Caetano Galindo. Conheci as terras altas de Inhotim, em Brumadinho. Flanei com don Renato Cohen pela São Paulo dos Campos de Piratininga. Fiz uma palestra sobre o tempo e o infinito, para um povo das letras da UFSM, que gostei muito de fazer. Roí várias cordas, espantei uns fantasmas, chutei uns traseiros, diminui minha cota de brigas por bobagens, mas fiquei em falta com um punhado de gente, cousas da vida. Organizei as festividades do décimo-nono Bloomsday em Santa Maria. Já no mundo da literatura, terminei a releitura do Proust antes de completar 51 anos como havia planejado; achei vários Javier Marías novos, principalmente suas crônicas e os contos reunidos; li bastante poesia - mais ou menos o dobro do que costumo ler por ano; diminui a média anual de romances policiais, crônicas e ensaios e graphic novels; li mais livros de contos do que usualmente faço; mantive número de romances, novelas e livros com perfis e relatos dentro da média anual; li vários Ian McEwan e vários Joseph Conrad; descobri o quanto John Cheever é bom. Li vários livros de amigos e conhecidos, sempre um terreno incerto, mas não acho que me afastei de produzir registros realmente objetivos afinal de contas. Li as coisas de James Joyce recém publicadas nesse ano por conta de sua obra estar agora em domínio público. Deixei várias destas novidades para reler no ano que vem. Mantive a média de um terço das leituras dedicadas a originais em espanhol, por supuesto. Li apenas quatro livros em inglês, o mais interessante deles o ensaio sobre a obra de Javier Marías assinado por David Herzberger. Ao final foram 105 livros (31 romances; 18 de contos; 11 de poesia; 11 com perfis e relatos; 8 novelas; 3 de histórias em quadrinhos - graphic novels, cartuns ou mangás; 3 romances policiais, 2 infanto-juvenis, 2 catálogos de exposição; 2 peças de teatro; 1 didático; 1 de cartas e 1 breviário). Como sempre quase tudo foi lido com muita alegria. Esse último livro de 2012, "On Grief and Reason" de Joseph Brodsky completei a septingentésima postagem deste blog, 700 registros cronológicos de minhas leituras desde que comecei a contagem, no início de 2007. Sem pressa em três anos alcanço os 1000 registros, antes dos fatídicos Jogos Olímpicos, logo depois dos desastres da Copa do Mundo de Futebol. Cousa boa. Em 2013 quero recomeçar o Nagib Mahfuz; voltar aos clássicos gregos e latinos, à mitologia, certamente que sim; reler algo do Thomas Mann; ler o Tristram Shandy (traduzido pelo Javier Marías); criar mais coragem e enfrentar ao menos um par de russos; treinar mais meu inglês, talvez com Anthony Burgess ou com o Issac Singer; reler o Cervantes. Vamos a ver. São os livros afinal que escolherão me encontrar em 2013. Vale.
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

pasiones pasadas

Estávamos os três, Lola, Manolo e eu, em uma terraza da Calle de Huertas de Madrid, mas precisamente no "La plateria bar museo", bem perto do Museu do Prado, como não citar isto também. Manolo dizia que a señora camarera era vasca, que era educada, que sabia alemão. Lola retrucava que seria impossível ele afirmar isto pois a señora apenas havia trocado uma ou duas frases conosco, como poderia ele saber quem era ela, de onde vinha? Eu me divertia com a conversa rápida e contei o que estava lendo naquela época mesmo, a história dos personagens Deza e Tupra do "Tu rostro mañana" do também madrileño (como eles) Javier Marías. Manolo parecia estar emulando a habilidade que os dois personagens tinham de interpretar rapidamente seus interlocutores. Falei de minha admiração por Marías, mas Lola me advertiu que ele escrevia bons livros, mas se comportava como uma "pessoa mayor". Na hora não entendi bem. Agora que comecei a ler seus ensaios e crônicas (li três livros, este é o primeiro que resenho) acho que entendi um tanto melhor. Neste "Pasiones pasadas" estão reunidas 31 crônicas publicadas em jornal entre os anos 1982 e 1990 (um terço deles neste último ano). São crônicas publicadas antes de seu primeiro grande sucesso de público e crítica (Corazón tan blanco, de 1992). Não é preciso ler muitas das crônicas para perceber que Marías é um anarquista (mas que soa conservador), um elitista (bem à sua maneira), politicamente incorreto quase sempre, zeloso e orgulhoso de sua individualidade. O desprezo que ele tem à memória de Franco e do franquismo é algo que pode levar o leitor ligeiro a incluí-lo ao campo dos intelectuais de esquerda, mas ele me parece muito honesto intelectualmente e esgrime seus argumentos sobre os mais variados temas atingindo, seguro que sim, sujeitos à esquerda e à direita do espectro político, sem piedade e sem temor. A edição que li tem um excelente prólogo de Elide Pittarello, as procedências de todas as crônicas e duas notas do próprio autor, a original de 1991 e uma outra de 1999, quando as recompilou. Nesta última nota ele reflete sobre as venturas pelas quais os textos passaram desde a primeira publicação. As crônicas são apresentadas por temas: lugares e viagens, pessoas e amigos, a sociedade e as transformações pelas quais passava a España, a literatura e a arte de escrever. O livro termina com um texto inédito em livro, apresentado originalmente na forma de conferência em uma universidade, onde ele descreve como foi sua inserção no mundo literário e como era o processo de manter-se nele mantendo alguma qualidade, originalidade e honestidade. Gostei do livro. Seguro que haverá mais do que falar sobre Marías nas próximas resenhas de seus livros de crônicas. Quando poderei convidar Lola e Manolo novamente para discutir Marías, perguntar para a señora camarera se ela sabe mesmo alemão, bebericar bons vinhos, tapear pela estival Madrid? [início 19/10/2009 - fim 23/10/2009]
"Pasiones Pasadas", Javier Marías, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2008, brochura 13x19, 216 págs. ISBN: 978-987-566-379-4

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

cuando los tontos mandan

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Quando soube, ainda em 2017, do pré-lançamento de "Cuando los tontos mandan", preparei-me bem. Graças aos bons serviços da Casa del Libro espanhola e da DHL o livro saiu de Madrid no dia 15 de fevereiro à tardinha e chegou aqui, no interior do interior do Rio Grande do Sul, no dia 20 de fevereiro, fresco como pão quente, ainda com cheiro de livro novíssimo que era. Já conhecia todas as 95 crônicas de Javier Marías reunidas nele, pois as leio todos os domingos assim que são publicadas no El Pais Semanal. As reli ainda nas férias e antes do início das aulas, em março, mas deixei para fazer esse registro só agora, ao finalizar os registros possíveis em 2018 no Livros que eu li. Esse volume sintetiza meu ano, meu humor, meu entendimento da vida. Vivemos sim numa desgraçada época onde os tontos mandam. É insuportável. Paciência. Como não concordar com Marías? As crônicas são variadas. Sua curiosidade intelectual é vasta. As crônicas foram publicadas entre 8 de fevereiro de 2015 e 29 de janeiro de 2017. Ele fala de política espanhola e política internacional; de costumes e modismos; de Cervantes e Shakespeare; recupera fragmentos de sua biografia, louvando amigos e vergastando inimigos; fala de filmes antigos, de religião, de guerras, de terrorismo, da Europa e de linguagem, de literatura contemporânea, de questões filológicas discutidas na RAE e de sexo discutido com amigos, da vaidade e de suas obsessões literárias, seus hábitos, sua rotina e seu oficio. Poucas pessoas me parecem tão honestas intelectualmente quanto ele (como nos ensinou Isaiah Berlin, ato que exatamente define verdadeiramente um intelectual). Poucas pessoas me parecem tão corajosas, implacáveis com a má-fé, com a mentira e a desfaçatez. Seu sarcasmo é sempre onipotente, ferino, necessário. A mediocridade o importuna, mas ele dá exemplos de como faz para blindar-se dela e da legião de escravos mentais que nela vicejam. Ele fala da tragédia que é o pensamento politicamente correto. Fala do curral mental em que se transformaram as escolas, onde muitos professores praticam sem pudor o que pior alguém pode fazer a um aluno: mentir, desinformar, falsear. Sempre é implacável justamente com os indivíduos que deveriam ser exemplares e confiáveis, mas são exatamente o contrário: filisteus acadêmicos, juízes venais, jornalistas que nem fazem mais questão de esconder sua estupidez, políticos profissionais e seus assessores amestrados, professores universitários, maus críticos e pensadores ruins. De qualquer forma um humor sereno percorre as crônicas, um humor que desarma qualquer fascista ou canalha de plantão. É possível escolher uma como a melhor dentre elas? Não consigo. Em todas encontra-se reflexões de alguém que sempre respeita seus leitores, convida-os a raciocinar, a pensar com lógica e independência, a devotar nosso bem mais valioso, que é o tempo, em ações que promovam a liberdade, a democracia, a correção, a verdade, valores morais e a boa educação, a vida bem vivida. Recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover,  Demasiada nieve alrededor, Ni se les ocurra disparar, Tiempos ridículos e Juro no decir nunca la verdad. Em todos encontramos aulas exemplares da história recente da Espanha e de como opera um intelectual notável em todos os sentidos. Bom divertimento. Evoé Marías, evoé! Vale!
Registro #1354 (crônicas e ensaios #240)
[início: 20/02/2018 - fim: 04/03/2018]
"Cuando los tontos mandam", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2018), brochura 15x24 cm, 301 págs. ISBN: 978-84-204-3231-1

quinta-feira, 11 de junho de 2020

salvajes y sentimentales

Ao tentar arrumar meus guardados, cansado, nestes dias canalhas de pandemia, eis que descubro que não havia lido ainda dois volumes de artigos de Javier Marías. Um deles é esse "Salvajes y sentimentales", onde estão reunidos 72 artigos, publicados originalmente entre 1992 e 2010. A bem da verdade eu já havia lido boa parte deles, quando enfeixados nos volumes em que Marías reúne suas contribuições em jornal a cada dois anos (clika!: Javier Marías). Todavia, neste volume em especial há vários textos que foram produzidos por encomenda, para livros que rendiam homenagem à efemérides do Real Madrid ou do Barcelona, e também escritos para encartes especiais dedicados a cobertura da Copa do Mundo de futebol de 1994. Como tudo que Javier Marías produz os artigos são exemplares, tanto pela técnica literária e argumentativa quanto por conta dos efeitos que provoca no leitor, convidando-o a refletir sobre uma miríade de assuntos. Bom observador e juiz de caráter, Marías sabe destacar nos artigos a dimensão dramática do jogo ("En este juego, si no hay drama no hay nada"); as infinitas possibilidades de interpretação da qualidade e/ou resultado de uma partida ("Como con las traducciones, uno se pregunta cómo una partida puede ser tan distinta según el intérprete, y sin embargo la misma"); o impacto social do jogo ("Ser aficionado al fútbol y a algun que otro deporte no me impide darme conta del carácter enfermizo y perverso que afecta y rige a ese mundo, que tal vez refleja mejor que ningún otro el descabezado espíritu competitivo que domina cada vez más nuestras sociedades"); o porco papel dos dirigentes esportivos ("Si para seguir el fútbol hay que ver a menudo a estos sujetos broncos, será cuestión de ir pensando en quitarse"); a nefasta ligação entre políticos e futebol, quase uma usurpação (canalhas como Havelange, Blatter, Berlusconi e tantos outros são vergastados sem dó); as sadias provocações cruzadas com outros aficionados (Juan García Hortelano, inolvidable colchonero; Manuel Vázquez Montalbán, culé de leyenda);  a ligação do esporte com a euforia e alegrias da infância; o fato das alegrias e vitórias passadas não poderem mitigar a angústia das derrotas de hoje, do presente. De tempos em tempos, rende homenagens a seu santo particular, o argentino Alfredo Di Stéfano, que jogou no Real Madrid, entre 1953 e 1964. A seleção e edição dos artigos foi feita por Paul Ingendaay, um jornalista alemão. Foram publicados neste formato primeiro na Alemanha, país onde os livros de Marías são muito apreciados, para depois ganharem edição na Espanha. Livro bacana, mesmo para um sujeito quase avesso ao futebol, como eu. Vale! 
Registro #1540 (crônicas e ensaios #272) 
[início: 26/05/2020 - fim: 31/05/2020]
"Salvajes y sentimentales: Letras de fútbol", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2010), brochura 15x24 cm, 317 págs. ISBN: 978-84-204-0536-0

segunda-feira, 29 de junho de 2020

donde todo ha sucedido

Já contei aqui como descobri perdidos em meus guardados dois livros de crônicas do Javier Marías. Um deles era uma antologia de textos sobre futebol, "Salvajes y sentimentales", que já registrei aqui. O outro é "Donde todo ha sucedido", textos sobre cinema, sobre os quais falo agora. São 63 crônicas, publicadas originalmente em jornais, entre 1993 e 2004, e já reunidas em livro anteriormente. O interessante da releitura destas crônicas, no meu caso, é receber de uma só vez o impacto das impressões dele sobre este assunto. Quem já leu algum romance de Javier Marías sabe o quão influenciados pelo cinema eles são. O primeiro deles, "Los domínios del lobo", é uma colagem brutal de cenas cinematográficas, que emulam os filmes americanos que retratam o período que vai da guerra civil, no século XIX, até a grande depressão, nos anos 1930. Em todos os demais é comum encontrarmos alguma reflexão ou memória de uma cena de um determinado filme ou seguir a narrativa, pelos personagens de seus livros, dos atos de algum ator, num contraste sempre especial. Marías fala sobre questões técnicas de apreciação, o papel do cinema em sua geração de escritores e de seus filmes favoritos (que é uma coisa de momento, cambiante), mas que à época destas reflexões sobre cinema ele afirma serem The River, de Jean Renoir; The Man Who Shot Liberty Valance, de John Ford; Campanadas a medianoche, de Orson Welles; The Ghost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz; The Life and Death of Colonel Blimp, de Michael Powell e Emeric Pressburger; Singin' in the Rain, de Stanley Donen e Gene Kelly; North by Northwest, de Alfred Hitchcock; The Apartment, de Billy Wilder; The Wild Bunch, de Sam Peckinpah; The Dead, de John Houston. Escreve bastante sobre John Ford e sobre Orson Welles, seus diretores favoritos. Gostei particularmente de uma crônica sobre Leni Riefenstahl; outra sobre o dia em que dividiu uma mesa de bar madrileña com Hanna Schygulla; ainda outra sobre a influência de um tio seu, cineasta algo maldito, chamado Jesús Franco. Javier Marías fala sobre os grandes temas do cinema (que também são os grandes temas literários): a liberdade, a morte e a dor, o ódio e o amor, o ressentimento e o orgulho, a lei, a justiça e a maldade, a renúncia e a força. Também fala da política, sociedade, boa educação e questões de seu tempo. Nunca me canso de ler o que produz esse especial escritor, já se sabe. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1547 (crônicas e ensaios #274) 
[início: 10/06/2020 - fim: 13/06/2020]
"Donde todo ha sucedido: Al salir del cine", Javier Marías, edicíon de Inés Blanca y Reyes Pinzás, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Círculo de Lectores), 1a. edição (2005), capa-dura 13x21 cm., 286 págs., ISBN: 978-84-8109-513-3

domingo, 2 de junho de 2019

cuando la sociedad es el tirano

Neste volume estão reunidas 96 crônicas de Javier Marías que foram publicadas originalmente nos domingos entre 05/02/2017 e 27/01/2019, no suplemento El País Semanal. Quarenta e quatro são de 2017, quarenta e oito de 2018 e quatro já deste terrível 2019. Todas estas crônicas podem ser lidas também em seu blog: javiermariasblog. As crônicas não são monotemáticas, em geral ele enfeixa vários assuntos e propõe uma síntese, um ponto de vista original e sempre rico. De qualquer forma tentei organizá-las nos temas mais dominantes e as reduzi a quatro conjuntos: vinte e sete são basicamente sobre questões políticas (seja da madrilenha, catalã - viveu-se a tentativa de independência da catalunya nestes dias, espanhola ou europeia, mas também tratam de intolerância, terrorismo, o debate entre esquerda e direita no mundo); quarenta e três gravitam a sociologia (a vida em sociedade, comportamento, questões de gênero, o mundanismo, percepção da realidade, a boa educação); nove correspondem a registros ou fragmentos da memória (da família, dos amigos, do futebol, de experiências pessoais) e dezessete de questões culturais (do ofício da literatura, do cinema, das artes plásticas, da música, de questões linguísticas ecoadas na RAE, da estética, de ideias e ideais). Marías é um sujeito que percebe tendências, não se deixa enganar pelas aparências, pelo convencional. Ali de seu apartamento na Madrid de los Austrias, aquela região mítica do centro-oeste de Madrid, ele acompanha os sucessos do mundo e reflete, digita em sua vetusta Olympia Carre de Luxe suas seminais crônicas. Cada uma delas é um pequeno bálsamo semanal, um lenitivo aos aborrecimentos e surpresas da vida. Pouco importa se sua matéria prima cultural seja a Espanha, já que suas digressões falam do mundo contemporâneo, dos homo sapiens de hoje, daquilo que repercute em todo o globo. Ele não se furta de provocar tribos organizadas, de denunciar a estupidez daqueles que defendem temas ditos politicamente corretos, de lamentar o vitimismo e a absoluta falta de educação que grassa nestes dias. Ele aceita as limitações humanas, entende sua complexidade, acompanha as metamorfoses e o ritmo deste tempo. Lamentavelmente não há no Brasil nenhum articulista que emule uma fração de sua honestidade intelectual e argumentação clara. Nenhum registro substitui o genuíno prazer de ler sua prosa.  Recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover,  Demasiada nieve alrededor, Lo que no vengo a decir, Ni se les ocurra disparar, Tiempos ridículos, Cuando los tontos mandan e Juro no decir nunca la verdad. A bem da verdade recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus livros, há 50 registros deles aqui no Livros que eu li. Vale!
Registro #1408 (crônicas e ensaios #257)
[início: 22/05/2019 - fim: 25/05/2019]
"Cuando la sociedad es el tirano", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2019), brochura 15x24 cm, 304 págs. ISBN: 978-84-204-3781-1

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

aquella mitad de mi tiempo

Em "Aquela mitad de mi tiempo" encontramos oitenta e dois artigos e ensaios de Javier Marías, publicados originalmente em jornais e revistas espanhóis ao longo de um pouco mais que vinte anos (o mais antigo é de 1987 e o mais recente é de 2008). Um quarto destes artigos eu já havia lido em outras compilações dele (pasiones pasadas, vida del fantasma), mas a releitura das crônicas de Marías (que tem as ressonâncias de ensaios algo filosóficos admiravelmente bem escritos) nunca é aborrecida. Sempre aprendemos algo novo ao acompanharmos seu raciocínio. Os textos desta compilação em particular são bastante pessoais, falam de temas que gravitam a vida pessoal de Marías de uma forma que está longe de ser piegas. Há muito sobre a morte (da mãe, do pai, de ex-professores, de amigos, de colegas). Neles lembro o fatalismo de Flaubert ("meu coração está se transformando em uma necrópole"). Mas há também textos onde encontramos uma reiterada louvação aos livros, ao poder que os livros tem de educar e transformar as pessoas. Enfim, há muito sobre o que refletir lendo a prosa sofisticada de Javier Marías. As abordagens em geral começam de forma ligeira, descrevendo algo sobre sua família, seus amigos, seu cotidiano, alguma tradição particular de um lugar, mas evoluem logo para reflexões de caráter universal, realmente atemporais. Incluídos como apêndices, os dois textos finais são os mais poderosos da compilação: um é uma espécie de diário literário, escrito durante uma temporada de trabalho de divulgação de seus livros e recebimento de prêmios (publicado originalmente em uma revista suiça); o outro é uma longa entrevista feita para a revista francesa The Paris Review. Ambos são longos o suficiente para que Javier Marías detalhe melhor seu comprometimento com a produção literária, com seus anseios de criador, com suas preocupações sociais e políticas. A edição é muito bem cuidada, dividindo os textos em sessões temáticas que permitem ao leitor escolher ora temas mais áridos ora cousas mais ligeiras. Lembro-me de ter encontrado este livro em uma bonita livraria das terras altas de Navarra (na bela cidade de Pamplona, quando visitava Cristina Polo). Que lugar maravilhoso. Leio os textos e lembro das largas e limpas avenidas da cidade, de seus parques extensos e lindíssimos, da paisagem carregada de signos e história, que leva o visitante a pensar um tanto sobre si e os outros. Ao mirar atrás (como faz Marías nestes textos) nos conhecemos mesmo um tanto melhor. [início 08/01/2010 - fim 28/01/2010]
"Aquella mitad de mi tiempo: al mirar atrás", Javier Marías, editora Circulo de Lectores (Galaxia Gutenberg), 1a. edição (1999), capa-dura 13x21 cm, 408 págs. ISBN: 978-84-8109-725-2

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

demasiada nieve alrededor

Javier Marías reúne em "Demasiada nieve alrededor" 96 crônicas, publicadas originalmente na revista El País Semanal entre fevereiro de 2005 e fevereiro de 2007. São um misto de crônicas, reflexões e ensaios (como sói acontecer com Marías), textos que respeitam, sobretudo, a inteligência do leitor, sua capacidade de análise e compreensão da realidade. O título sai de uma história muito boa, na qual Marías fala dos sucessos da vida de John Gawsworth (o terceiro rei do reino literário de Redonda, ilha do Caribe cujo rei literário atualmente é próprio Javier/Xavier Marías, mas esta é uma história intrincada demais para ser discutida aqui). Assim como nas séries de artigos dominicais anteriormente publicados (Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover) não há assunto que seja inadequado para ele. Há ponderações sobre os contumazes aborrecimentos na rotina de sua vida madrilleña; há o martelar incessante contra os desmandos dos poderosos de plantão (não apenas de seu país, mas de todo o orbe); há artigos que falam da nostalgia dos dias de juventude, dos amigos que se perderam - e que se perdem, a cada instante da vida, num sopro; há discussões etimológicas, sobre os usos da língua espanhola - sobretudo do mal uso dela praticado por seus concidadãos; há sua prosa envolvente e desafiadora; há vergastadas nos hipócritas e mentirosos de seu tempo. O Marías dos romances e contos é bem diferente deste Marías cronista, que compartilha conosco suas impressões sobre as coisas banais do dia a dia, mas não é menos convincente que aquele grande inventor de histórias e narrativas. O humor e a ironia dominam os textos e seus comentários parecem obrigar cada um de nós parar um pouco e pensar. Não é uma coisa ordinária ou menor. O que não me canso louvar em seus artigos é a lógica impecável das argumentações. Javier Marías sabe lembrar ao leitor que a realidade é insistente demais para que nos furtemos dela. [início 21/01/2012 - fim 26/01/2012]
"Demasiada nieve alrededor"", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2007), brochura 14x22 cm, 305 págs. ISBN: 978-84-204-7202-7

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

las huellas dispersas

Neste volume não há textos inéditos. Todos podem ser encontrados nos demais livros de Javier Marías, principalmente aqueles onde estão compilados seus artigos escritos para jornais e revistas. Todavia trata-se de um livro que propicia algo precioso, a imersão nas narrativas de Marías diretamente relacionados a seu Ciclo de Oxford, ou seja, ao conjunto de romances: "Todas las almas", "Negra espalada del tiempo" e "Tu rostro mañana". A organização e apresentação do livro é assinada por Inés Blanca, uma conhecida especialista na obra de Marías, que nos informa que a primeira pessoa a investigar esses volumes como um conjunto foi José María Pozuelo Yvancos (no "Figuraciones del yo in la narrativa"). São cinquenta e sete textos, organizados tematicamente. Em "Los que sí han cruzado el mundo" encontramos 17 narrativas de Marías dedicadas a personagens reais que foram incorporados de alguma forma à sua ficção (ele é um mestre neste tipo de aproveitamento); em "Un país de novela" 5 textos que falam de sua experiência em viver na Inglaterra; em "Reino de redonda" 4 textos onde ele explica o acaso de sua investidura como rei Xavier I (da ilha de Redonda). A parte mais interessante do livro é a seção "El autor ante sus libros", onde encontramos 11 ensaios nos quais Marías explica um tanto de seu ofício como escritor, seu método de trabalho, a gênese de suas histórias (especificamente das três citadas acima). Na seção "Los tiempos y sus hechos" estão reunidas 11 crônicas sobre os aborrecimentos decorrentes da versão cinematográfica de "Todas las almas" e também alguns textos sobre política, história e economia do período que começa na queda do muro de Berlim (1989) e termina com o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque (2001), temas que dão fundamento os romances desse ciclo. Na seção "El autor se asocia y callejea" Marías fala de sebos e antiquários, de sociedades e festividades literárias. O volume se encerra com dois contos (já incluídos no "Mientras ellas duermen") e diversos apêndices, de procedência e estilos variados, quase todos produzidos por terceiros (há resenhas e apresentações de Ángeles García, Eduardo Mendoza e Cabrera Infante por exemplo), além de uma lista atualizada da aristocracia do reino de Redonda, dos ganhadores do prêmio literário de mesmo nome concebido por Marías e algumas entrevistas. O texto mais antigo é de 1985, o mais recente de 2013. O leitor que já tenha experimentado aqueles três romances aproveita melhor esse livro, mas ler Javier Marías nunca aborrece ninguém, mesmo um eventual, porém curioso, neófito. Vale.
[início: 15/11/2014 - fim: 25/11/2014]
"Las huellas dispersas", Javier Marías, organização de Inés Blanca, Barcelona: Debolsillo (Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2013), brochura 12,5x19 cm., 388 págs., ISBN: 978-84-9032-781-4

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

the schooldays of jesus

Há três anos, quando li "A infância de Jesus", não tinha ideia que esse livro do Coetzee seria o primeiro de uma nova trilogia (como aquela dos bons "Boyhood", "Youth" e "Summertime"). Lembro do espanto com a proposta, algo amalucada, sobre Novílla, uma cidade onde os habitantes, vindos de um lugar inominado, do qual nada lembram, começam uma nova vida. Como numa espécie de repovoamento da Terra pós dilúvio, eles chegam até Novílla de barco, concebidos imaculadamente, sem parentescos entre si, ganham novos nomes e ocupações. A organização social dali parece ser como o sonho de um velho comunista que vê seus projetos utópicos consagrados. Todos falam espanhol. Pensei no livro como uma alegoria, um contido e mágico realismo, um enigmático romance de fantasia, onde encontramos releituras de passagens bíblicas e literárias (algo do "Don Quijote" e de alguns contos de fada, algo do "Cândido" e do "Admirável Mundo Novo"). Coetzee faz seus personagens discutirem temas filosóficos importantes (a natureza do mal, a origem da cognição, a lei do terceiro excluído). Apesar da estranheza o leitor fica preso ao destino daqueles personagens bizarros, cujos nomes parecem definir sua vocação. No início deste 2016 Coetzee publicou a continuação de sua história, um volume intitulado "The Schooldays of Jesus".  Entende-se melhor o primeiro livro, mas novos enigmas são apresentados. Trata-se de um romance onde a ênfase continua na discussão de temas metafísicos, desta vez sobre a teoria dos números, a harmonia das esferas de Pitágoras, a húbris grega. O volume anterior termina com a fuga de Inés, Simón e Davíd de Novílla (devido as dificuldades de Davíd adaptar-se ao sistema escolar da cidade). Eles rumam para Estrella, uma cidade menor, mais rural que urbana, onde temporariamente trabalham numa fazenda, coletando frutas. A questão escolar de Davíd ainda precisa ser solucionada. As proprietárias da fazenda onde Inés e Simón trabalham se oferecem para zelar pelos estudos de Davíd (são as três graças, ou as três parcas, gregas. Inicialmente ele é apresentado a um engenheiro que lhe dá noções básicas de matemática, mas ele é um aluno difícil e esse tutor sugere que ele entre para uma das academias da cidade (além das escolas convencionais Estrella tem três "academias": uma dedicada ao "canto", outra a "dança" e uma terceira ao "átomo"). A narrativa prossegue, cheia de desvios, acumulando personagens e histórias curtas (que discutem a natureza das paixões humanas, teoria musical; o aprendizado de técnicas de escrita como o ato de criar vida; definições para amor, ego e liberdade; as relações entre crime e castigo, o livre-arbítrio e o poder do estado). Com o tempo Davíd aprende a "dançar números", uma forma de conexão pura entre os homens e as estrelas. O livro termina com Davíd em transe, girando continuamente com um dervixe, experimentando algum tipo de contato com as esferas celestes, vendo estrelas como um Tycho Brahe, acoplado ao transcendental. A cada capítulo um leitor obcecado com associações (como eu) encontra diversos temas estimulantes. Mas este mar de associações intoxicou-me, ou melhor, intoxiquei-me sozinho tentando fazer associações. Talvez o inusitado dos nomes e atos dos personagens seja um tropo proposital de Coetzee, produzidos para induzir o leitor a buscar pistas falsas. Talvez o certo seja ignorar essa compulsão por entender o que há de criptografado na narrativa (se é que tais associações realmente existem, afinal não há Jesus algum na história e o simples paralelo bíblico aos sucessos do livro é algo óbvio demais). Talvez devamos aceitar apenas o que diz e faz Simón, o narrador, o personagem que ordena o caos de ideias e paixões dos demais, que guia o leitor pelas ilhas serpeantes das digressões de Coetzee, que predica como um profeta e acompanha diálogos como um filósofo. Definitivamente, enredo e venturas dos muitos personagens parecem ser apenas distração, cenografia, truques de um mágico habilidoso. Contar histórias é fácil, filosofar é difícil. O que verdadeiramente estimula, desafia e ilumina os homo sapiens sapiens é a filosofia, parece nos lembrar, professoral, Coetzee). Vamos ver como ele apresentará os novos sucessos de Simón, Inés e Davíd no último volume da trilogia. Daí, talvez, possamos entender mais. Vale. Em tempo: esse é o último registro de leitura do ano. Antes do solstício farei um balanço dos livros lidos no ano.
[início: 23/11/2016 - fim: 01/12/2016]
"The Schooldays of Jesus", J.M. Coetzee, London: Harvill Secker / Vintage (Penguin Random House UK), 1a. edição (206). brochura 13,5x21,5 cm., 260 págs., ISBN: 978-1-911-21536-3
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Balanço final: 21/12/2016 [solstício de verão]
Esse foi um ano bastante complicado, terrível, aborrecido, pesado, dominado pela estupidez reinante deste desgraçado país, repleto de pequenos dissabores que conseguiram ofuscar as poucas alegrias que vivi (seria hipocrisia não ficar satisfeito com os sucessos de Helga e Natália, ou com a saúde dos gatos, ou com as descobertas no novo apartamento). De qualquer forma, assim como num dia disse Flaubert, meu coração está transformado em uma necrópole. Arre! Vamos em frente. Ao finalizar 2016 alcancei o décimo ano de registros deste “Livros que eu li”. Se 2015 foi o ano de uma maioria folgada de romances, esse 2016 foi o ano dos livros de crônicas, dos livros de ensaios, dos livros de não-ficção. Fiz 111 registros de leitura, bem próximo da média dos dez anos do blog. Foram 30 de crônicas e ensaios (27% do total); 20 romances (18%); 11 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 10 de poesia; 8 de contos; 7 de perfis, biografias, memórias e relatos; 4 novelas; 4 dedicados ao público infanto-juvenil; 4 livros de arte; 3 romances policiais; 2 de gastronomia; 2 coleções de aforismos; 2 de turismo e apenas um dos seguintes quatro gêneros: didáticos; catálogos; divulgação científica e música (o adorável livrinho de canções irlandesas do Robert Gogan, joyceano dos bons que conheci em Dublin). Aliás li um bocado de coisas relacionadas a Joyce e a Irlanda: o fenomenal guia de leitura do Ulysses assinado pelo Caetano Galindo; três ou quatro guias literários de Dublin; a biografia do tradutor argentino do Ulysses, Salas Subirat; o livro dedicado a cerveja Guinness; os poemas reunidos em Pomes Pennyeach; o belo The Ondt and the Gracehoper (parte do Finnegans Wake); a divertida versão em mangá do Ulysses; e o bom livro da catarinense Dirce Waltrick do Amarante sobre os tradutores brasileiros de Joyce. Li três livros do romeno Cartarescu, sempre uma surpresa; três do bom holandês Nooteboom (inclusive um comemorativo dos 500 anos de morte do Bosch) e três do argentino Giardinelli. Gostei muito do catálogo de uma exposição que não vi, a "Rastros", do piauiense Weaver Lima. Li com calma várias coletâneas de poesias: a do Mautner, a da Szymborska, a do Marco de Menezes, da Cristina Macedo, do Ricardo Freire, entre outros. Consegui ler um Javier Marías (suas notas de aula dedicadas ao Quijote, neste quarto centenário da morte de Cervantes), e dei sorte, pois um ano sem ler Javier Marías é um ano perdido. Não cumpri várias promessas (não terminei o Tristram Shandy, nem o Quijote, nem os contos do Tolstói, nem os ensaios do Haroldo de Campos compilados pelo Marcelo Tápia, nem os poemas do Waly Salomão). Não consegui terminar de organizar o livro do Abdon Grillo. Organizei um Bloomsday em homenagem ao Antônio Houaiss (por conta dos 50 anos de sua tradução do Ulysses). Enfim, consegui manter minha cota de livros em inglês (11% do total) e em espanhol (24% do total); alcancei ultrapassar os 300 registros de romances, os 200 registros de livros de ensaios e os 125 de coletâneas de contos; tive a sorte de encontrar algum descanso com a leitura de mais de cem escritores diferentes, companheiros de viagem neste 2016. Logo veremos os sucessos de 2017. Vale. E viva a dona Vic.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

refusões

"Refusões", de Marcelo Tápia, é o maior portento poético que li no ano (o maior portento que li em prosa foi "Berta Isla", de Javier Marías). "Refusões" desdobra-se em seis volumes, reunindo a produção poética de Tápia, de 1982 a 2017. Trinta e cinco anos de boa poesia é para poucos. Tápia fez girar sua roda da fortuna, acrescentando a "Primitipo" (1982), "O Bagatelista" (1985), "Rótulo" (1990), "Pedra Volátil" (1996) e "Valor de Uso" (2009), um novíssimo e estimulante volume, "Expirais". Conhecia já quase todos desde os tempos de minha encarnação paulista, quando frequentava a USP e os Bloomsday paulistanos, capitaneados por Haroldo de Campos e secundados pelos cavaleiros da távola haroldina, Tápia dentre eles sempre o mais industrioso. Sobre "Valor de Uso", de 2009, já registrei algo aqui (clica!). Foi um bom exercício voltar a cada um dos volumes, sair do "Expirais" e lentamente acompanhar o corsi e ricorsi marcelotapiano. Na curta e seminal introdução, Tápia explica tudo o que precisa ser dito com a chave da inteligência sobre o "Refusões". Ele precisa seu procedimento, informando que nem todos os poemas originais foram republicados, que alguns foram alterados, cortados, ilustrando que após nossas contínuas metamorfoses eventualmente temos a fortuna de nos tornar mais sábios e melhores leitores de nós mesmos, compreendendo melhor com as cãs da experiência aquilo  que forjamos no tempo. Tápia, também um Janus redivivo, nos diz em sua introdução como vê a gênese e a lógica de sua produção do passado e decifra algo daquilo que agora entende como seu projeto (ele chama esse procedimento de emancipação de "uma 'fórmula' antes enunciada"). Para usar um símile da mecânica, Tápia parece aplicar o princípio de Hamilton à seu ofício, encontrando nesse conjunto de livros/poemas antigos e no novo "Expirais" a trajetória artística que sempre alcançou o valor extremo de sua ação, sua poesia. A refinada edição da Perspectiva inclui textos críticos de Jaa Torrano, Susana Busato, Antonio Vicente Pietroforte,  Aurora Bernardini e Rodrigo Bravo. Cada um desses textos oferece ao leitor ferramentas de entendimento e apreciação à poesia do Tápia. E o leitor não pode deixar de acessar a página do livro no site da editora Perspectiva. Tápia lê trinta de seus poemas. Vale a pena conferir e desfrutar da dicção e entonação dele: Clica!. Enfim, não será nesse curto registro de leitura que alcançarei apresentar a potência e riqueza de soluções poéticas de cada um dos seis livros reunidos. Na falta de um registro próprio para cada um dos livros, só sintetizo aqui: (i) que no último poema de "Primitipo",  seu primeiro livro, o poeta já cantava que "expira espirais do tempo / que rola no rio d'infância", remetendo o leitor à ideia geral de seu livro mais recente; (ii) que no "O Bagatelista" encontramos poemas visuais à la Bossa, à la e.e. cummings, poemas signo; (iii) que "Rótulo" é um livro de ismos, de um homem sociológico que usa as ferramentas de ofício e ironia bruta, para perscrutar verdades e mentiras; (iv) que em "Pedra Volátil" se fala da paisagem urbana, de causos históricos e políticos, explicita o Tápia forte, leitor de outros poetas fortes; (v) que "Valor de uso" talvez seja o mais musical, é o que mais gosto de ler em voz alta; (vi) que "Expirais" é puro deleite, em imagens, invocações, sínteses. O aedo procura uma musa perdida, é menos explícito quanto às fontes e inspirações, labuta para não deixar oxidados poemas, faz anamnese da vida inteira, faz brotar a memória caipira, concretiza tudo, sai a navegar, mediterrâneo e genealogia afora. Que conjunto, que alegria. Evoé Marcelo, Evoé. ÔBeleza. E Vale! 
Registro #1250 (poesia #91)
[início: 16/06/2016 - fim: 19/12/2017]
"Refusões: poesia reunida 2017-1982", Marcelo Tápia, São Paulo: Editora Perspectiva, 1a. edição (2017), brochura 15x20,5 cm., 448 págs., ISBN: 978-85-273-1099-4
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Balanço final 2017
Em 2017 entendi na prática as palavras de Flaubert que li há tantos anos: "Meu coração está se transformando numa necrópole". À morte de minha mãe, no final de dezembro de 2016, seguiu-se a de meu pai, no meio de junho. Perdemos também uma de nossas gatas, a Niham. Que praga! Enterrei alguns amigos, perdi-me de outros. Acontece. Li bastante poesia e peças de teatro em 2017. De fato, desde o início de 2007, quando esse "Livros que eu li" fez-se às ondas do rumoroso mar digital, só em 2012 li tantos e bons volumes de poesia. Bueno. Em 2017 fiz 125 registros de leitura, aumentando um tanto a media dos dez anos do blog. Foram 28 romances (22% do total), 19 livros de crônicas ou de ensaios (15%), 19 de contos, 10 de poesia, 10 romances policiais, 7 livros de arte, 6 novelas, 6 peças de teatro, 4 de perfis e memórias, 4 histórias em quadrinhos, 3 infantojuvenis, 3 de turismo, 2 de gastronomia, e um mais ou menos dentro da seguinte classificação: de fotografias, de cartas, catálogo de uma exposição de arte e de aforismos (talvez o mais fundamental deles, o do Ambrose Bierce). Já disse que li bastante boa poesia (Tápia, Medeiros e Aleixo, entre outros) e bons dramas (Shakespeare, nas estimulantes traduções de Botelho, Lawrence e O'Shea; Sófocles, na da Kathrin ); li cousas boas japas (Tanizaki, Kafu, Buson, Murakami); li a excelente biografia de Von Hunboldt; oito bons romances policiais de Donna Leon, 4 belas plaquetes do povo da At it Again. Li os quatro volumes da Série Napolitana de Elena Ferrante. Li o bom Pamuk mais recente. Li poucos livros em inglês (só 5% do total) e em espanhol (6%), talvez meu pior registro histórico. Paciência. Isso se deu pois nunca havia lido tantos autores nacionais. Foram 40 volumes, 32% do total. Alguns foram gratas surpresas, outros merecem uma releitura, mas não me entusiasmaram tanto assim. Aqueles que deixei de 2016 para ler em 2017 continuaram no limbo das promessas e dos planos, aquela zona fantasma, muito embora eu tenha avançado um bocado no Tristram Shandy traduzido pelo Javier Marías. Foram 0,35 livros por dia, 2,46 por semana, 10,5 por mês. Foram aproximadamente 2/3 livros de ficção, 1/5 de não ficção e 1/5 de bons divertimentos, seguindo o bom conselho do Montaigne. Ajudei minimamente o industrioso Abdon Grillo a editar seu estudo sobre o Ulysses, que será lançado no início de fevereiro, no dia de aniversário do Joyce. Que alegria. Acompanhei os sucessos das meninas da famiglia, Helga e Natália, que receberá seu título de bacharelado em Psicologia em breve, no próximo dia 06. Viajei bastante, conheci alguns lugares realmente interessantes do interior do Brasil. Em 2018 haverá mais boa poesia, haverá os haikus do Bachô editados em Portugal, os novos livros de Sérgio Medeiros e Ricardo Aleixo, a leitura do Finnegans Wake da Dirce do Amarante, as novas transcrições caetnogalindescas, a sempre postergada biografia do Johnson. Haverá mais Donna Leon, gostei do estilo dela. O Javier Marías deverá lançar mais um livro com suas crônicas semanais reunidas. Haverá mais biografias e coisas musicais. Pretendo voltar aos gregos e aos mitos. Talvez irei seguir o conselho de um amigo de longe, para fazer registros das leituras antigas, prévias a existência do blog. É uma ideia ainda bruxuleante. Haverá Copa do mundo de futebol, eleições, um Bloomsday Santa Maria novo. Talvez eu volte para a Irlanda, desta vez com a Helga. Logo veremos. É isso. Vale!

sábado, 26 de junho de 2010

mano de sombra

Consegui este livro graças aos esforços do Miguel, paciente mercador da Calle Corrientes. A edição é muito boa, parte de uma coleção da Alfaguara chamada "textos de escritor", e reune textos publicados originalmente em jornais em 1995 e 1996. São 104 artigos, um para cada domingo destes dois anos. Gosto muito do Javier Marías escritor de ficção (já li seus romances e boa parte de seus livros de contos), mas suas crônicas e seus ensaios formam um conjunto que não me canso de recomendar. No caso deste conjunto de crônicas o arrebatamento continua. Não há nada que me pareça datado, nenhum texto que me parecesse irrelevante ou dispensável. Não conheço nenhum outro escritor e/ou jornalista que mantenha tal qualidade em textos que a princípio são produzidos para consumo rápido e descompromissado em jornais. Nestes textos Javier Marías demonstra ser um bom observador, é sempre incisivo e opinativo, mas também bem humorado e irônico, didático quando é possível sê-lo. As crônicas parecem contadas por ele em um encontro privado, em uma conversa compartida de final da tarde, no qual acompanhamos seu raciocínio, sua forma de pensar os temas. Não há como sintetizar este belo livro em poucas frases, mas cito aqui uma: " Dizia Ortega y Gasset que os imbecis são muito mais perigosos que os homens maus, pois estes descansam de sua maldade, enquanto que aqueles nunca são capazes de abandonar sua imbecilidade. Supounho que é por isto que não basta rir dos sintomas grotescos de nosso tempo. Suponho que é por isto que não devemos nos permitir desdenhá-los e nos omitir, pois os imbecis são perigosos e os imbecis são numerosos." Haverá descrição mais perfeita de nosso país, de nosso povo, de nosso patético governo, hoje mesmo, mais de quinze anos após este texto ter sido escrito? [início 27/05/2010 - fim 19/06/2010]
"Mano de sombra", Javier Marías, editora Alfaguara, 2a. edição (1997), capa-dura 13,5x22,5 cm, 333 págs. ISBN: 84-204-8357-5