quinta-feira, 21 de abril de 2016

o sushiman

Ler esse livro (sobretudo apreciar suas reproduções fotográficas e ilustrações) é um descanso na loucura, um exercício zen, um mergulho sem fim em alegrias. Ganhei-o de presente de final de ano, não do ano passado, mas sim de um já remoto natal de 2014. Ganhei-o de um grande amigo que eu, ai de mim, vejo raramente, muito pouco, mas que sabe melhor que eu manter contato, contar histórias e tornar o acúmulo de aborrecimentos dos dias mais tolerável. Ganhei-o do Renato Cohen, amigo dos bons. Das dezenas de receitas que o livro oferece ao leitor fiz só umas poucas, aquelas que experimento sempre mas gosto de aprimorar. Trata-se de um livro de procedimentos, de técnicas, de métodos. Num dia apressado você esquece como cortar e retirar filés de peixes; como preparar uma omelete japonesa realmente fina e retangular; como não-temperar o arroz do sushi; como preparar um gengibre em conserva; ou quais são mesmo os molhos, caldos e cremes adequados para cada prato. O autor é um reconhecido especialista na área, Ronaldo Catão, empresário brasiliense, professor de culinária e dono da franquia O sushiman Sushi Express. Claro, um cozinheiro mais disciplinado e vocacionado que eu aproveitaria melhor o livro, já que há dias em que um sujeito quer mesmo é apenas inspirar-se, aguçar um tanto o olhar antes de ligar para um serviço de tele entrega (para talvez, só então, imaginar-se flanando em Akasaka, Ginza ou Shinjuku, como em uma cena do "Lost in translation" ou do "Tampopo", saciado, farto, agradecido). Kanpai Renato, kanpai!
[início: 25/12/2014 -fim: 17/04/2016]
"O sushiman: Técnicas, receitas e segredos", Ronaldo Catão, Brasília: Editora Senac-DF, 3a. edição (2014), brochura 21x28 cm., 356 págs., ISBN: 978-85-62564-36-9

quarta-feira, 20 de abril de 2016

o homem que corrompeu hadleyburg

Mark Twain conta nesta pequena história um rito de vingança, uma parábola sobre a queda do homem, uma descrição de como funciona uma sociedade disfuncional, povoada por pessoas inescrupulosas, uma sociedade incapaz de reconhecer seus muitos defeitos, sua vocação para o erro e a mentira. O narrador de Twain fala da sociedade norte-americana do final do século XIX, mas aos olhos de um leitor brasileiro, já acostumado com a podridão irreversível em que afundou esse desgraçado país, trata-se de uma história bastante ingênua, um conto de fadas infantil. Bueno. A trama da história é um bocado intrincada e não vale a pena eu detalhada toda aqui. Um sujeito decide expor a enorme hipocrisia e falta de caráter dos moradores de uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Para acabar com a reputação da cidade e de seus moradores ele deixa aos cuidados de um casal um saco de ouro e instruções para que ele seja entregue a única pessoa dali que num passado remoto emprestou-lhe dinheiro e o fez largar o vício do jogo. Num envelope selado, que deveria ser aberto pelas autoridades da cidade, em uma cerimônia pública, o sujeito escreve uma frase que apenas ele e o bom samaritano que o acolheu deveriam saber e decifrar. O morador que assim fosse identificado, assim revelar-se, teria direito ao ouro. O caso ganha repercussão nacional e todos os probos cidadãos da cidade de alguma forma imaginam ser merecedores do prêmio. Twain mantém o suspense até os parágrafos finais, mas o leitor não tem tempo de afeiçoar-se a qualquer um dos personagens para poder torcer para que um deles seja o vencedor. O curioso da história é o procedimento do autor em ir revelando só aos poucos, em episódios algo cômicos, algo sarcásticos, as falhas de caráter dos personagens, as tentações que experimentam, os argumentos que utilizam para se auto-enganar. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, da qual já li "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass", "O véu erguido" e "O homem que queria ser rei"). 
[início: 16/04/2016 - fim: 17/04/2016]
"O homem que corrompeu Hadleyburg", Mark Twain, tradução de Ronaldo Bressane, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2015), brochura 13x18 cm., 95 págs., ISBN: 978-85-61578-50-3 [edição original: The man that corrupted Hadleyburgh / (New York: Harper & Brothers) 1900]

domingo, 17 de abril de 2016

só faltou o título

Contar muito do que é narrado em "Só faltou o título" rouba alguma coisa dele. É um livro que se deixa ler com facilidade, um bom thriller que oferece hilários momentos para o leitor. Edmund, o protagonista, é um homem de quarenta e poucos anos, gaúcho, diplomado em escrita criativa, porém escritor fracassado; inepto para quase tudo na vida, mas que alcança ser um assassino eficaz. É autoindulgente e caricato o tempo todo. Ele conta os sucessos de sua vida, prisão e julgamento. O ritmo é frenético, um truque para não deixar o leitor se cansar deste protagonista com quem não suportaríamos conviver no mundo real (nem tampouco no mundo mágico das letras). Edmundo é o rei dos clichês, das platitudes, dos lugares comuns, dos epítetos verborrágicos, frasista intoxicado pela própria voz, contador de histórias de ninar bêbados. No jogo proposto por Pujol seu personagem flerta com a realidade, busca tornar sua patética vida em material digno para um romance definitivo, campeão de vendas, admirado pela crítica; mas passa o tempo todo espalhando pistas falsas sobre si, sua vítima, seu livro ainda não escrito, lentamente se dissociando, fugindo das mãos do narrador (ou talvez sendo abandonado por ele, numa brincadeira metaliterária). A Porto Alegre que brota das páginas do livro é uma cidade culturalmente paralisada, narcisista, uma cidade aprisionada em estereótipos. O romance é uma longa descida aos infernos da mente do protagonista, guiado por um Nietzsche de almanaque (o narrador da história afinal, o litero-gaudério criador do romance). Dá para se divertir um bocado com esse livro. Vale.
[início: 11/04/2016 - fim: 13/04/2016]
"Só faltou o título", Reginaldo Pujol Filho, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2015), brochura 15,5x23 cm., 320 págs., ISBN: 978-85-01-10566-0

sábado, 16 de abril de 2016

sim, eu digo sim

Em um de seus poemas Auden pergunta: "para onde?" (é no A Voyage, no início da última seção -Whither-: "Where does this journey look which the watcher upon  the quay, / Sanding under his evil star, so bitterly envies, / As the mountain swim away with slow calm strokes / And the gulls abandon their vow? / Does it promise a juster life?". Pois eu senti-me assim, perguntando-me "para onde?", quando abri no sábado passado esse volume mágico do Caetano Galindo, esse volume todo dedicado a sua leitura do Ulysses, de James Joyce, livro que ele tão bem traduziu. Acontece que o Galindo, capitão de longo curso nas cousas joyceanas, optou por não publicar esse seu guia de leitura junto com sua tradução, em 2012. Reclamo disto há tempos, mas ele teve lá suas boas razões. Se é que entendi bem sua ideia é que um neófito das cousas do Ulysses deveria tentar ler o livro ao menos uma vez (quem somos nós para furtar de um leitor do prazer de ler o Ulysses pela primeira vez?). Terminado o portento (maldição), aí sim esse leitor deveria iniciar uma nova leitura, desta feita guiado por ele, metamorfoseado numa Ariadne, num Virgílio, num Milton, um guia que não apenas apenas explica as passagens mais bizarras e cifradas do livro, mas antes apresenta o jogo de leitura proposto por Joyce, oferece alguma luz para que cada leitor possa entender mais, aprender mais, divertir-se mais. Galindo explicita que seu guia possibilita uma leitura acompanhada, uma leitura que chama a atenção aos detalhes que não podem passar despercebidos. A parte inicial do livro, dedicada a apresentação de seu projeto, de sua proposta de como seu livro deve ser usado, merece destaque. São quase cinquenta páginas poderosas, dedicadas ao que é o livro, ao que é crítica literária, ao que são vozes narrativas, a quais são os temas, as simetrias e estrutura do livro. Trata-se de um texto não acadêmico, mas construído com todo o rigor que um texto acadêmico precisa ter. Um leitor curioso pode até parar ali e, inspirado por ele, ir ler algo do Bakhtin, do Anthony Burgess, do Harold Bloom, fortalecer os músculos um tanto, para logo voltar ao bom combate com o Joyce arbitrado por ele. Após essa introdução Galindo apresenta cada um dos dezoito episódios do livro. Aprendi um bocado em cada um deles. Um leitor já calejado, curioso sobre o formato proposto por ele, pode ler suas considerações sobre seu capítulo favorito, pode comparar suas impressões com as dele. Estou seguro que quanto maior é o conhecimento prévio de um hipotético leitor sobre o Ulysses maior é o aproveitamento deste guia (o Galindo, talvez por conta daqueles olhos míopes dele, sabe ver camadas e camadas de coisas no Ulysses). O livro termina com as inevitáveis listas de leituras recomendadas e um útil índice remissivo. Deixo aqui apenas a remisssão fundamental, aquela onde ele mantém atualizadas uma miríade de informações sobre o Ulysses (Sim, eu digo sim), uma página onde a geografia do livro pode ser melhor entendida (Walking Ulysses) e uma lista de traduções para o português dos textos do Joyce, trabalho feito pela Denise Bottmann (Não gosto de plágio). Se eu tivesse um guia deste tipo, lá em 1982, quando, inspirado pelo Ivan Lessa, decidi embarcar em uma primeira leitura, em fazer uma primeira viagem de descobrimento do Ulysses, talvez o mundo fosse diferente hoje. Sei lá. O que devemos mesmo é agradecer ao Galindo por nos mimosear com um livro tão bom. E bom divertimento. Estamos a dois meses do Bloomsday afinal de contas. Ainda dá tempo de começar a ler o Ulysses.
[início: 09/04/2016 - fim: 15/04/2016]
"Sim, eu digo sim: Uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce", Caetano W. Galindo, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 375 págs., ISBN: 978-85-359-2700-9

sexta-feira, 15 de abril de 2016

brincando com o conta-gotas

O Antonio Rodrigues Neto foi meu colega no IFUSP. Ele sempre preocupou-se em encontrar o jeito certo de ensinar as coisas que sabia. E era também sempre o sujeito com o humor mais refinado, irônico, da turma. Em uma sexta-feira de abril de 1986 ele convidou um pequeno bando de físicos para vermos o cometa Halley, lá nos altos da Serra da Cantareira. Foi um fiasco, não por culpa dele, claro, mas sim do Halley, que ficou tímido no céu, decepcionando a todos. Mas nós nos divertimos à beça e esperamos o sol nascer, já algo intoxicados e prometemos nos reunir na próxima aparição, em 2061. Bons tempos. Neste seu pequeno livro, primeiro volume de uma coleção da editora SESI-SP, ele apresenta uma proposta para despertar a curiosidade pelo conhecimento matemático. Ele parte de um conta-gotas, objeto do cotidiano de qualquer criança que toma vacinas ou remédios, e propõe uma brincadeira, um método, cujo objetivo é calcular o número de gotas que podem ser encontradas em frascos, copos, garrafas, baldes, caixas d'água, até que, progressivamente aumentando a escala,  chegar ao volume dos grandes reservatórios de uma cidade. Claro, o que ele disfarçadamente alcança é ensinar ao leitor conceitos matemáticos básicos: as quatro operações matemáticas, frações, unidades de medida, regra de três. No final do livro ele incluiu uma seção dedicada a preservação ambiental e aos hábitos saudáveis que possibilitam alguma economia de água. A linguagem é simples, descontraída, mas também precisa, correta. Seguro que esse pequeno livro vai divertir e ensinar muita gente. Parabéns Toninho.
[início: 11/04/2016 - fim: 13/04/2016]
"Brincando com o conta-gotas", Antonio Rodrigues Neto, São Paulo: SESI-SP editora (Educação; Coleção: Para gostar de matemática), 1a. edição (2014), brochura 12x18 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-8205-272-3

segunda-feira, 11 de abril de 2016

el levante

Publicado originalmente em 1990 "El Levante" foi escrito por Mircea Cartarescu entre 1987 e 1989, período em que a Romênia estava nos estágios finais da desastrada ditadura comunista presidida por Nicolae Ceausescu. Originalmente tratava-se de um extenso poema épico, com seus 7000 versos alexandrinos divididos em doze cantos. Posteriormente (não consegui apurar esta informação com precisão, talvez em 1998) Mircea Cartarescu metamorfoseou sua epopeia em algo mais parecido com um romance, uma narrativa em prosa, que mantém várias e longas inserções poéticas do original (ele imaginou que esse procedimento facilitaria as traduções de sua história). Entendi no prólogo incluído no livro (assinado por Carlos Pardo) que a versão em prosa é substancialmente diferente da original, pois essa teria sido inspirada e teria alcançado o efeito produzido por James Joyce em um dos episódios de seu "Ulysses" (O gado do Sol), sendo afinal um exercício linguístico sobre o romeno completo e poderoso. "Levantul" (no original romeno) é um conto de fadas, um livro de aventuras, o divertido roteiro de uma história em quadrinhos, um exercício brutal de pós-modernismo. Mesmo com tudo aquilo que deve estar "lost in translation", primeiro do romeno para o espanhol (obra da tradutora Maria Ochoa), e depois deste para o português (minha tradução mental afinal de contas), ri o tempo todo e consegui entender parte das alusões, jogos de palavras, citações da cultura pop, referências filosóficas e literárias distribuídas pelo livro. Há várias camadas de leitura (Cartarescu é um professor universitário e trabalha justamente com teoria literária, crítica, história da literatura romena). Assim como nos romances de Umberto Eco encontramos fusões entre o erudito e o popular. Ao lado de uma digressão sobre Diegese (por Bakhtin) ou Clínamem e Téssera  (por Harold Bloom) ou ainda sobre o Aleph (por Borges), seguem-se diálogos banais de personagens que parecem pertencer ao universo de Homero, Cervantes, Robert Louis Stevenson, Jonathan Swift e Júlio Verne; parecem brotar das histórias das 1001 noites contadas por Sherazade para o Sultão. Há vezes em que a ironia do autor parece endereçada a algum contemporâneo seu (talvez a um mau escritor ou mau político, quem sabe). A cada um dos doze cantos acompanhamos os sucessos da viagem de Manoil, um poeta, rumo a uma Bucareste tiranizada, seguindo o caminho que um dia Jasão fez com seus argonautas em busca do Velocino de Ouro, das ilhas gregas do Mar Egeu às enseadas do Mar Negro. Ele progressivamente arrebanha um grupo de revolucionários, todos comprometidos com a libertação dos Valacos, seu povo, dominado por invasores romanos. Segundo o projeto revolucionário deles é o mundo oriental quem liberta. Em algum momento Cartarescu é abduzido para o poema e passa a interagir com os personagens e auxiliá-los nas façanhas heroicas. Quase no final do poema o próprio sujeito que lê (eu, no presente caso) é incluído no livro e se entende com os protagonistas da história. Faz-se um balanço crítico do resultado poético e da empreitada revolucionária, entre taças de café ("o espelho negro do qual nasce o poema", diz um dos narradores) e Jidvei (um vinho popular romeno), reunidos todos ao redor do fogo, como todos os povos fazem quando querem ouvir um poeta contar suas histórias, um aedo recitar seus versos. É um 30 de outubro, a mulher do escritor serve petiscos. O bebê, filho do escritor, finalmente dorme. Alguém encontra um livro, já desgastado pelo tempo, perdido num berço, o abre, começa a ler a história, infinitas vezes. Bem divertido esse Cartarescu. Taruki! Paluki?
[início: 04/03/2016 - fim: 08/04/2016]
"El Levante", Mircea Cartarescu, tradução de Maria Ochoa de Eribe Urdinguio, Madrid: editorial Impedimenta, 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 237 págs., ISBN: 978-84-15979-38-8 [edição original: Levantul (Bucaresti: Cartea Romanesca), 1990]

sexta-feira, 1 de abril de 2016

killing and dying

Já registrei aqui pelo menos seis outros livros de Adrian Tomine ("Sleepwalk and Other Stories", "Summer Blonde", "Shortcomings", "32 Stories", "New York Drawings" e "Scenes from an impending marriage"). "Killing and Dying" é seu trabalho mais recente. São seis histórias, muito distintas entre si, cada uma delas muito especial. Li algumas várias vezes, sempre extraindo delas algo novo a cada leitura. Dizer que trata-se de um livro de histórias em quadrinhos (ou em bom português de uma graphic novel) não dá a real dimensão do trabalho de Tomine. Ele sabe contar histórias, descrever sentimentos, fazer com que o leitor se interesse pelo destino de seus personagens, partilhar de suas escolhas. Suas histórias são urbanas, contemporâneas, de um mundo complexo e em constante transformação. Ele foca sempre a condição humana, o impacto de experiências cotidianas, sempre banais e irrelevantes, no destino de cada um. Em quase todas elas se expõe um conflito entre gerações ou, ao menos, entre um grupo social e um outro, imediatamente mais velho ou mais novo. Em todas os protagonistas vivem angustiados e/ou em crise, mas não há exatamente tristeza neles, antes parecem anestesiados da vida, displicentes e conformados. Tomine usa técnicas de ilustração distintas para cada história, contrasta imagens coloridas e em preto e branco, as enquadra e narra de forma diferente, sabe quando o silêncio torna-se mais poderoso que uma enxurrada de frases, nunca esgota o assunto, tornando múltiplas as interpretações. Os temas parecem simples: um sujeito que trabalha com jardinagem decide experimentar o mundo das artes plásticas; uma garota tem seu perfil modificado em uma rede social; um casal descobre só ter em comum a paixão por um time de beisebol; uma mulher escreve para o filho uma história de sua infância; uma garota tímida acredita ser capaz de tornar-se uma comediante profissional; um rapaz tem a compulsão de viver parte da vida de outra pessoa. Olho. Esse é o tipo de sujeito que vale a pena acompanhar. 
[início: 04/03/2016 - fim: 31/03/2016]
"Killing and dying: stories", Adrian Tomine, Montreal: Drawn and Quarterly, 1a. edição (2015), capa-dura 17x24 cm., 124 págs., ISBN: 978-1-77046-209-0

quinta-feira, 31 de março de 2016

vermeer of delft

No início de março, quando fiz aniversário, decidi me dar um presente. Escolhi ler algo realmente agradável, incontroverso, uma coisa com a qual poderia me envolver sem risco algum de aborrecimentos, que poderia folhear e ler sem medo ou temor de qualquer incômodo. Lembrei-me de uma das obsessões de Charles Swann e dos dias de alegria com meu bom Proust. Não foi preciso muitas associações para que eu lembrasse deste pequeno livro sobre Vermeer (que Helga trouxe em uma de suas viagens). Carreguei-o displicente, sempre ao alcance das mãos, nestas últimas três semanas. Claro, li outras coisas boas neste período: um Claudio Magris, um Cees Nooteboom, um Haruki Murakami, um Isaiah Berlin e um Mempo Giardinelli, mas esse pequeno volume sobre Vermeer serviu-me sempre como uma fonte de saúde, um real descanso da loucura em que mergulhamos todos neste desgraçado país. Trata-se de um livro de apresentação ligeira, não um estudo exaustivo, definitivo. No livro encontramos reproduções coloridas de todos os trabalhos conhecidos de Vermeer. Encontramos também um longo ensaio sobre o que se sabe de sua vida. De sua sua infância e juventude praticamente nada se sabe além de quem eram seus pais e da data em que foi registrado numa igreja em Delft (sua biografia é muito pouco conhecida quando comparada com a de contemporâneos seus, como Rembrandt ou Frans Hals). O texto é assinado por Michel van Maarseveen, um respeitado historiador da arte e atualmente diretor do Paleis Het Loo, um dos museus nacionais holandeses. Maarseveen descreve Delft como um local periférico no campo da arte e da pintura, mas que alcançou notabilidade na segunda metade do século XVII. Ele fala sobre aspectos técnicos do desenvolvimento artístico de Vermeer, eventuais influências e viagens de aprendizado, da importância da sua pintura. Vermeer pintava lentamente, somente duas ou três telas por ano e deve ter produzido no máximo 50 trabalhos (dos quais restam hoje apenas 31 indubitavelmente identificados como dele, além de outros 4 ou 5 a ele atribuídos). Ele morreu jovem, com 43 anos. O fato da maioria delas ter sido feita por encomenda para comerciantes e políticos de sua cidade fez com que o valor de sua obra só passasse a ser reconhecido no final do século XIX, quando começaram a circular, adquiridas por museus. Sabe-se também que no século XVIII ele foi praticamente esquecido e muitas obras suas haviam sido retocadas com a assinatura de outros pintores, mais famosos. Vermeer não foi exatamente um inovador ou alguém que tenha contribuído com novas técnicas de pintura, mas sim um sujeito cuja habilidade elevou em muito o padrão e a qualidade da arte produzidas em seu tempo (considerando suas notáveis soluções para perspectiva, transparências, luminosidade, equilíbrio e forma). Maarseveen percorre a cidade e localiza em sua arquitetura os pontos de referência utilizados pelo artista, os locais onde viveu, o local de sua tumba e as referências modernas dedicadas a ele. Maarseveem dedica duas longas seções a dois de seus quadros mais famosos: View of Delft e The Little Street, mas fala um tanto sobre cada um deles. Belo livro. Cabe dizer que o melhor site que conheço sobre Vermeer, onde seus quadros podem ser apreciados em detalhe é o The Essential Vermeer. Há de tudo ali. Vale mesmo a pena consultar (o site é mantido por um sujeito genial, Jonathan Janson).
[início: 04/03/2016 - fim: 30/03/2016]
"Vermeer of Delft: 1632 - 1675 / His life and times", Michel van Maarseveen, tradução de M.E. Bennet, Amersfoort/The Netherlands: Bekking & Blitz Uitgevers (Miniaturen Reeks, part 8), 2a. edição (2006), capa-dura 11x16,5 cm., 120 págs., ISBN: 90-6109-574-3 [edição original: Vermeer in Delft (Nederlands) 1996]

quarta-feira, 30 de março de 2016

¿por qué prohibieron el circo?

Do argentino Mempo Giardinelli já li cousas bem boas, como a novela "Luna Caliente" e as três séries de contos reunidos em "Luminoso Amarillo", "La noche del tren" e "9 histórias de amor". Ainda em maio do ano passado don Miguel, da porto-alegrense Calle Corrientes, sempre eficiente no garimpo literário e nas negociações fronteiriças, conseguiu-me esse "¿Por qué prohibieron el circo?". Trata-se de um romance típico dos anos de guerra fria, de forte engajamento político, no limite do panfletário, no qual o narrador toma partido num conflito social real e discute literariamente teses marxistas (lembra um bocado os primeiros livros de Jorge Amado e os romances de Sartre reunidos em "Os caminhos da liberdade"). No caso de Giardinelli seu narrador denuncia a forma com que os indígenas da região do Chaco argentino eram explorados, fala da miséria a que estavam condenados, expõe a luta de classes e desigualdade social, discorre sobre a ignorância que inibe a vontade dos homens. O determinismo marxista, a impotência dos homens que acreditam ser incapazes de mudar sua história e a história de seu tempo, contamina todo o livro. Passados quase cinquenta anos esses temas e o tratamento dado a eles identificaria um livro anacrônico, de interesse restrito, uma peça sonolenta. Mas o que surpreende no livro são a multiplicidade de vozes narrativas; as inserções teatrais, dramáticas; o feliz uso do monólogo interior e os diálogos, que mimetizam diferentes estratos sociais da região, através dos quais Giardinelli registra os vários níveis do espanhol falado no norte argentino e no Paraguai, incluindo fusões do espanhol com as línguas guaraní e toba. Na história que se conta um sujeito chamado Toño Oroño chega a Colonia Perdida, uma pequena cidade do Chaco argentino, assumindo as aulas na escola local. Sua chegada perturba o equilíbrio de poder da cidade, onde todos vivem isolados das notícias da capital, como encapsulados no tempo e no espaço. Assim como os demais personagens do livro o leitor só conhece o passado de Toño aos poucos, demora para descobrir do quê ele foge, o quê o perturba, saber das coisas que ele abandonou na capital. Toño não tem nada de heroico, nenhuma vocação para a ação, antes é um cínico desiludido, sempre embriagado pelo álcool e o sexo. Os sucessos e desastres que provoca lhe são indiferentes. Quero registrar ainda a curiosa história editorial desse romance. Mempo Giardinelli escreveu-o ainda jovem, com pouco mais de vinte anos, no início dos anos 1970. Em 1973 inscreveu o livro em um concurso literário cujo corpo de jurados era composto por quatro sujeitos poderosos: Juan Carlos Onetti, Augusto Roa Bastos, Julio Cortázar e Rodolfo Walsh. Quem ganhou o concurso foi outra pessoa (Juan Carlos Martelli), mas Roa Bastos e Walsh destacaram os méritos do romance de Giardinelli. Um editor importante daquela época, Jorge Lafforgue, decidiu publicá-lo, mas com o golpe militar argentino de 1976 toda a edição foi apreendida e incinerada (junto com dezenas de outros títulos considerados subversivos). Em função do golpe Giardinelli foge para o exílio, passa a morar no México. Mesmo considerando que havia evoluído como escritor e era capaz de perceber os defeitos de seu livro de estreia, Giardinelli, no início dos anos 1980, usou a única cópia tipográfica restante da edição argentina original para reescrevê-lo e publicá-lo. Ao sair do México e voltar para a Argentina esqueceu completamente do livro. Passados trinta anos, em 2012, encontrou por acaso um exemplar desta edição mexicana em uma biblioteca pública dos Estados Unidos e um tanto por nostalgia e outro tanto por vaidade decidiu reeditá-lo na Argentina, afinal o livro nunca havia sido comercializado por lá. Retrabalhou o livro (modificou nomes, aperfeiçoou a oralidade, eliminou alusões que haviam perdido o sentido da edição original) e publicou-o novamente. Interessante, mas dá pena reconhecer que muitos brasileiros e latino-americanos ainda acreditam que o marxismo e as ideias socialistas tem algo nobre ou bom para acrescentar à civilização moderna, parecem querer repetir todos os erros do passado, viver como escravos mentais e massa de manobra de tiranetes e ditadores, com uma vocação quase suicida para o desastre (quer dizer, dá pena, mas não muita pena).
[início: 25/03/2016 - fim: 28/03/2016]
"¿Por qué prohibieron el circo?", Mempo Giardinelli, Buenos Aires: Edhasa, 1a. edição (2015), brochura 14x22,5 cm., 208 págs., ISBN: 978-84-628-282-6 [edição original: México: Editorial Oasis (colección El Nido del Ave Roc) 1983]