segunda-feira, 7 de março de 2011

à sombra das raparigas em flor

"À sombra das raparigas em flor" é um livro que fala dos prazeres - e dos perigos - da inteligência. No volume anterior de "Em busca do tempo perdido" aprendemos algo do amor e da paixão, experimentamos como podem ser mutáveis o tempo e a memória, comparamos nosso comportamento na juventude e na maturidade. Já neste segundo volume somos apresentados ao processo de entendimento do mundo, ou melhor, de várias das facetas possíveis do mundo, que um sujeito ao crescer é forçado a experimentar. Vivemos todos os dias, um a cada vez, e a cada vez somos uma metamorfose, uma mutação, do dia anterior. O livro é divido em duas partes. Na primeira, "em torno da sra. swann", encontramos o narrador se esforçando para conhecer a menina Gilberte que vislumbrou de longe, e se apaixonou, quando era mais jovem, em Combray. Há sempre um jogo de contrastes nesta parte: entre o diplomata Norpois e o médico Cottard (aquele mais articulado, porém falso; este aparentemente tolo, porém correto); entre o entendimento de uma obra de arte pela leitura (pela inteligência) e a fruição da mesma obra de arte (pela experiência física); entre a idéia de um amor (do narrador por Gilberte, fugaz) e a construção real de uma amizade (do narrador por Odette, marcante). Já na segunda parte, "nome de terras: o nome", há um câmbio no tempo e na ambientação. O narrador já não está apaixonado por Gilberte e viaja com a avó para uma temporada nas praias de Balbec. Ali ele aprende alguns dos jogos da mundanidade, ou seja, de como operam as relações de classe, entre aristocratas e burgueses, entres estes e trabalhadores assalariados. Proust nunca faz um juízo autêntico de valor, mas antes nos apresenta o mundo como ele é, sem concessões. E a verdade do sentido da vida que ele alcança nos mostrar é cruel. Um sujeito não precisa já ter experimentado todos os prazeres e aborrecimentos da vida para imergir neste livro (imergir em todo o ciclo proustiano). A capacidade de Proust de nos surpreender (com suas construções, suas metáforas, sua lógica, seu enfoque) é algo que paira sobre todo o livro. Em " à sombra das raparigas em flor" conhecemos novos e poderosos personagens, entre eles Robert Saint-Loup, Palaméde de Guermantes e Albertine Simonet. Esta segunda parte é como um rosário de aulas de educação dos sentidos. O narrador é apresentado aos personagens bizarros da cidade à beira mar; à generosidade da marquesa de Villeparisis; à ambivalência - e depois as surpresas - de Sant-Loup; ao amor pela literatura de Bergotte; à rusticidade dos Bloch; ao enigma que é Charlus; ao entendimento da arte e da vida, enfim, à experiência do pintor Elstir; aos amores serpeantes (e cambiantes) que tem por Albertine, Andrée, Gisèle e Rosemonde. Mais do que tudo o narrador é apresentado a sua personalidade, aos câmbios de seu entedimento das coisas. Neste volume qualquer leitor pode vir a se ver retratado. Ora encontramos uma frase reiterada que nos é familiar, ora concordamos com uma particular forma de entender o mundo, ora sorrimos por ver a mesma maneira que utilizamos para reagir a certos estímulos, ora compartilhamos os compromissos da vida que escolhemos. Sempre é um grande prazer ler este livro. Devemos ser gratos aos autores que nos proporcionam prazeres desta natureza. Haverá mais Proust aqui este ano, seguro que sim. [início 18/01/2011 - fim 27/02/2011]
"À sombra das raparigas em flor: Em busca do tempo perdido (vol.2)", Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, São Paulo: editora Globo, 3a. edição, revista (2006), brochura 16x23 cm, 669 págs. ISBN: 85-250-4226-9 [edição original: À l´ombre des jeunes filles en fleurs (éditions Gallimard), 1919]

2 comentários:

Eduardo Marques disse...

Essa edição é brasileira? Ficou esquisita com a palavra "rapariga".

Tiglatte disse...

Parabéns amigo sei q difícil fazer algo bm pois o mundo que lixo