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quarta-feira, 15 de julho de 2020

no me cogeréis vivo

"No me cogeréis vivo" é um volume onde estão reunidos 167 artigos de Arturo Pérez-Reverte publicados originalmente em jornal (na coluna Patente de Corso do caderno XL Semanal), entre setembro de 2001 e julho de 2005. Esse período corresponde aos últimos anos do governo Aznar e os primeiros do governo Zapatero. Não preciso aqui repetir meu costumeiro entusiasmo  com a excelência de tudo que Pérez-Reverte publica (já falei sobre três volumes de artigos dele: "Una história de España", "Perros y hijos de perra" e "Los barcos si pierden en terra"). Pérez-Reverte fala do cotidiano espanhol, de política, das transformações pelas quais passa a Europa, seu país e suas fundamentais Madrid e Cartagena. Fala de questões filológicas e de la lengua espanhola, discutidas nas reuniões das quintas-feiras na Real Academia Espanhola, de questões náuticas, dos livros que lê, dos políticos e das muitas coisas estúpidas ditas pelos políticos. Comenta sobre a estupidez reinante dos hipócritas e canalhas que defendem ideias ditas politicamente corretas; sobre os censores de costumes e de comportamento; sobre questões ambientais. Louva indivíduos que o influenciaram, o educaram, as exposições que viu, as viagens que fez, os encontros que teve com amigos e de sua experiência como jornalista em conflitos bélicos. Com ele caminhamos pelo bairro de las letras de Madrid, vamos a restaurantes, lembramos de Cervantes, Quevedo, Góngora, Calderón de la Barca, de Lope de Vega. Ele faz brotar da infância sua admiração pelas histórias dos romanos, dos gregos, dos árabes de sua península. Com ele vamos aos portos, aos mercados, aos cafés, ao cinema, a lugares ermos e perigosos das cidades que ele visita. Suas crônicas/artigos/ensaios se distinguem de material comum, aquele que notadamente encontramos em jornais brasileiros, pois é notável sua coragem intelectual, sua capacidade de denúncia fundamentada, à quaisquer grupos ou indivíduos que mereçam sua atenção. Não se trata de ser um simples paladino de boas causas ou malabarista de palavras. Seu afiado senso de justiça, sua capacidade de saber dosar argumentação lógica com sonoros palavrões (que deixariam o coro purista e hipócrita de jornalistas brasileiros corados - e prontos para denunciá-lo nos tribunais de exceção de inspiração fascista que vicejam por aqui nestes podres dias de pandemia), tornam a leitura das quase 200 crônicas uma alegria, dias de genuíno prazer e educação. Pérez-Reverte não tem medo de ridicularizar quem quer que seja, desde o tonto mal educado que viaja a seu lado em um avião, até os ministros de governo, tão servis à programas políticos inúteis, contaminados por ideologias que alcançam o patético, quando não apenas servem para corrupção e desvio de dinheiro público. Seu colega articulista, Javier Marías - el perro inglés, ganha um punhado de citações, sempre bem humoradas, corteses, fraternais. ÔBeleza. Sorte que tenho ainda uns volumes de Pérez-Reverte escondidos nos guardados. Vale! 
Registro #1553 (crônicas e ensaios #275) 
[início: 11/02/2013 - fim: 01/07/2020]
"No me cogeréis vivo: artículos 2001-2005", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Punto de Lectura (Santillana ediciones generales / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2005), brochura 12,5x19 cm, 605 págs. ISBN: 978-84-663-1891-4

segunda-feira, 29 de junho de 2020

donde todo ha sucedido

Já contei aqui como descobri perdidos em meus guardados dois livros de crônicas do Javier Marías. Um deles era uma antologia de textos sobre futebol, "Salvajes y sentimentales", que já registrei aqui. O outro é "Donde todo ha sucedido", textos sobre cinema, sobre os quais falo agora. São 63 crônicas, publicadas originalmente em jornais, entre 1993 e 2004, e já reunidas em livro anteriormente. O interessante da releitura destas crônicas, no meu caso, é receber de uma só vez o impacto das impressões dele sobre este assunto. Quem já leu algum romance de Javier Marías sabe o quão influenciados pelo cinema eles são. O primeiro deles, "Los domínios del lobo", é uma colagem brutal de cenas cinematográficas, que emulam os filmes americanos que retratam o período que vai da guerra civil, no século XIX, até a grande depressão, nos anos 1930. Em todos os demais é comum encontrarmos alguma reflexão ou memória de uma cena de um determinado filme ou seguir a narrativa, pelos personagens de seus livros, dos atos de algum ator, num contraste sempre especial. Marías fala sobre questões técnicas de apreciação, o papel do cinema em sua geração de escritores e de seus filmes favoritos (que é uma coisa de momento, cambiante), mas que à época destas reflexões sobre cinema ele afirma serem The River, de Jean Renoir; The Man Who Shot Liberty Valance, de John Ford; Campanadas a medianoche, de Orson Welles; The Ghost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz; The Life and Death of Colonel Blimp, de Michael Powell e Emeric Pressburger; Singin' in the Rain, de Stanley Donen e Gene Kelly; North by Northwest, de Alfred Hitchcock; The Apartment, de Billy Wilder; The Wild Bunch, de Sam Peckinpah; The Dead, de John Houston. Escreve bastante sobre John Ford e sobre Orson Welles, seus diretores favoritos. Gostei particularmente de uma crônica sobre Leni Riefenstahl; outra sobre o dia em que dividiu uma mesa de bar madrileña com Hanna Schygulla; ainda outra sobre a influência de um tio seu, cineasta algo maldito, chamado Jesús Franco. Javier Marías fala sobre os grandes temas do cinema (que também são os grandes temas literários): a liberdade, a morte e a dor, o ódio e o amor, o ressentimento e o orgulho, a lei, a justiça e a maldade, a renúncia e a força. Também fala da política, sociedade, boa educação e questões de seu tempo. Nunca me canso de ler o que produz esse especial escritor, já se sabe. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1547 (crônicas e ensaios #274) 
[início: 10/06/2020 - fim: 13/06/2020]
"Donde todo ha sucedido: Al salir del cine", Javier Marías, edicíon de Inés Blanca y Reyes Pinzás, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Círculo de Lectores), 1a. edição (2005), capa-dura 13x21 cm., 286 págs., ISBN: 978-84-8109-513-3

quinta-feira, 11 de junho de 2020

salvajes y sentimentales

Ao tentar arrumar meus guardados, cansado, nestes dias canalhas de pandemia, eis que descubro que não havia lido ainda dois volumes de artigos de Javier Marías. Um deles é esse "Salvajes y sentimentales", onde estão reunidos 72 artigos, publicados originalmente entre 1992 e 2010. A bem da verdade eu já havia lido boa parte deles, quando enfeixados nos volumes em que Marías reúne suas contribuições em jornal a cada dois anos (clika!: Javier Marías). Todavia, neste volume em especial há vários textos que foram produzidos por encomenda, para livros que rendiam homenagem à efemérides do Real Madrid ou do Barcelona, e também escritos para encartes especiais dedicados a cobertura da Copa do Mundo de futebol de 1994. Como tudo que Javier Marías produz os artigos são exemplares, tanto pela técnica literária e argumentativa quanto por conta dos efeitos que provoca no leitor, convidando-o a refletir sobre uma miríade de assuntos. Bom observador e juiz de caráter, Marías sabe destacar nos artigos a dimensão dramática do jogo ("En este juego, si no hay drama no hay nada"); as infinitas possibilidades de interpretação da qualidade e/ou resultado de uma partida ("Como con las traducciones, uno se pregunta cómo una partida puede ser tan distinta según el intérprete, y sin embargo la misma"); o impacto social do jogo ("Ser aficionado al fútbol y a algun que otro deporte no me impide darme conta del carácter enfermizo y perverso que afecta y rige a ese mundo, que tal vez refleja mejor que ningún otro el descabezado espíritu competitivo que domina cada vez más nuestras sociedades"); o porco papel dos dirigentes esportivos ("Si para seguir el fútbol hay que ver a menudo a estos sujetos broncos, será cuestión de ir pensando en quitarse"); a nefasta ligação entre políticos e futebol, quase uma usurpação (canalhas como Havelange, Blatter, Berlusconi e tantos outros são vergastados sem dó); as sadias provocações cruzadas com outros aficionados (Juan García Hortelano, inolvidable colchonero; Manuel Vázquez Montalbán, culé de leyenda);  a ligação do esporte com a euforia e alegrias da infância; o fato das alegrias e vitórias passadas não poderem mitigar a angústia das derrotas de hoje, do presente. De tempos em tempos, rende homenagens a seu santo particular, o argentino Alfredo Di Stéfano, que jogou no Real Madrid, entre 1953 e 1964. A seleção e edição dos artigos foi feita por Paul Ingendaay, um jornalista alemão. Foram publicados neste formato primeiro na Alemanha, país onde os livros de Marías são muito apreciados, para depois ganharem edição na Espanha. Livro bacana, mesmo para um sujeito quase avesso ao futebol, como eu. Vale! 
Registro #1540 (crônicas e ensaios #272) 
[início: 26/05/2020 - fim: 31/05/2020]
"Salvajes y sentimentales: Letras de fútbol", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2010), brochura 15x24 cm, 317 págs. ISBN: 978-84-204-0536-0

segunda-feira, 3 de junho de 2019

spain

Vou registrar este volume com o marcador "perfis e memórias" e não "crônicas", "ensaios", "turismo" ou "viagens", pois ele evoca uma Espanha que passou por várias metamorfoses desde que foi escrito. Jan Morris, de quem já registrei aqui o adorável "Venice", publicou-o originalmente em 1964 e fez algumas alterações em 1979, após a morte de Franco e a redemocratização do país. Ela diz textualmente: "this book died with him (Franco)", com prudência. Mas não, acredito que o leitor contemporâneo pode aproveitar muitas das reflexões de Morris sobre a Espanha. Claro, as transformações sociais que o país experimentou nos quase 60 anos desde a publicação original são tremendas, todavia o olhar de Morris conduz o leitor aos temas que definem perfeitamente a Espanha. Meus gurus quando se trata da história e da sociologia espanhola são sempre Cees Nooteboom, Arturo Pérez-Reverte, Javier Marías, Julio Llamazares, Josep Pla, Manuel Vázquez Montalbán. Acho que esse pequeno livro de Morris não deve muito a nenhum deles (na medida em que suas palavras podem ser debatidas, julgadas, contrastadas com a experiência pessoal do eventual leitor que já deambulou por aquele país). Os dez capítulos tratam da "alma" espanhola, das paixões que a definem; dos múltiplos povos que lá viveram e ali se fundiram; das manifestações artísticas únicas do país; da orografia; da vocação militar; da onipresença da igreja; dos mitos; das diferentes línguas e diferentes comunidades autonômicas; da religiosidade; da literatura, de Cervantes, Lope de Vega, e tantos outros; das aventuras; da culinária variada e rica. Num dos capítulos finais ela fala de cidades icônicas do país: Salamanca e sua antiga universidade; Segóvia e seu casario romano; Ávila e suas muralhas; Toledo, a forja, o caldeirão étnico que definiu no passado o país, tornando-o complexo como toda nação digna de nome acaba se tornando. No último capítulo ela fala de Madrid, cidade inventada por Felipe II, e canta as metamorfoses que a cidade e o país experimentava após a morte de Franco. Li esse livro alternando melancolia e curiosidade, experimentando algumas memórias bacanas e alguns aborrecimentos; com a certeza que há algo realmente singular ali, ao alcance de todo aquele que se permita conhecer cousas raras, belas, instigantes. Vamos em frente. Vale!
Registro #1409 (perfis e memórias #89)
[início:01/04/2019 - fim: 30/05/2019]
"Spain", Jan Morris, London: Faber and Faber Limited, 1a. edição (2008), brochura 13x20 cm., 160 págs., ISBN: 978-0-571-24176-7 [edição original: James Morris, The presence of Spain (Faber and Faber) 1964; revised 1979]

domingo, 2 de junho de 2019

cuando la sociedad es el tirano

Neste volume estão reunidas 96 crônicas de Javier Marías que foram publicadas originalmente nos domingos entre 05/02/2017 e 27/01/2019, no suplemento El País Semanal. Quarenta e quatro são de 2017, quarenta e oito de 2018 e quatro já deste terrível 2019. Todas estas crônicas podem ser lidas também em seu blog: javiermariasblog. As crônicas não são monotemáticas, em geral ele enfeixa vários assuntos e propõe uma síntese, um ponto de vista original e sempre rico. De qualquer forma tentei organizá-las nos temas mais dominantes e as reduzi a quatro conjuntos: vinte e sete são basicamente sobre questões políticas (seja da madrilenha, catalã - viveu-se a tentativa de independência da catalunya nestes dias, espanhola ou europeia, mas também tratam de intolerância, terrorismo, o debate entre esquerda e direita no mundo); quarenta e três gravitam a sociologia (a vida em sociedade, comportamento, questões de gênero, o mundanismo, percepção da realidade, a boa educação); nove correspondem a registros ou fragmentos da memória (da família, dos amigos, do futebol, de experiências pessoais) e dezessete de questões culturais (do ofício da literatura, do cinema, das artes plásticas, da música, de questões linguísticas ecoadas na RAE, da estética, de ideias e ideais). Marías é um sujeito que percebe tendências, não se deixa enganar pelas aparências, pelo convencional. Ali de seu apartamento na Madrid de los Austrias, aquela região mítica do centro-oeste de Madrid, ele acompanha os sucessos do mundo e reflete, digita em sua vetusta Olympia Carre de Luxe suas seminais crônicas. Cada uma delas é um pequeno bálsamo semanal, um lenitivo aos aborrecimentos e surpresas da vida. Pouco importa se sua matéria prima cultural seja a Espanha, já que suas digressões falam do mundo contemporâneo, dos homo sapiens de hoje, daquilo que repercute em todo o globo. Ele não se furta de provocar tribos organizadas, de denunciar a estupidez daqueles que defendem temas ditos politicamente corretos, de lamentar o vitimismo e a absoluta falta de educação que grassa nestes dias. Ele aceita as limitações humanas, entende sua complexidade, acompanha as metamorfoses e o ritmo deste tempo. Lamentavelmente não há no Brasil nenhum articulista que emule uma fração de sua honestidade intelectual e argumentação clara. Nenhum registro substitui o genuíno prazer de ler sua prosa.  Recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover,  Demasiada nieve alrededor, Lo que no vengo a decir, Ni se les ocurra disparar, Tiempos ridículos, Cuando los tontos mandan e Juro no decir nunca la verdad. A bem da verdade recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus livros, há 50 registros deles aqui no Livros que eu li. Vale!
Registro #1408 (crônicas e ensaios #257)
[início: 22/05/2019 - fim: 25/05/2019]
"Cuando la sociedad es el tirano", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2019), brochura 15x24 cm, 304 págs. ISBN: 978-84-204-3781-1

quinta-feira, 18 de abril de 2019

la guerra civil

Bem cedo na manhã de um domingo de janeiro, vagabundo e estival, tendo por perto uma taça de café ainda quente demais para ser devidamente apreciada, preparei-me para ler a costumeira crônica que Javier Marías publica no El País. Ele falava da releitura que tinha feito de "La guerra civil: Cómo pudo ocurrir?", pequeno ensaio de Julián Marías, seu pai, publicado originalmente em 1980. Leia aqui a Crônica de Marías, ele sabe sintetizar o livro de seu pai muito melhor do que eu jamais farei. Bueno. Mal terminei de ler e entrei ao site da Casa del Libro espanhola para encomendar um exemplar. Julián Marías foi um dos mais prestigiados filósofos espanhóis de seu tempo, especialista na obra de José Ortega y Gasset, e viveu de bem perto os sucessos da guerra civil. Não foi morto por puro acaso, pois esteve em celas de onde eram retirados aleatoriamente indivíduos para serem fuzilados várias vezes. A ditadura de Franco, que seguiu-se a guerra civil e durou até meados dos anos 1970, proibiu-o de dar aulas, expulsou-o da universidade e obrigou-o a uma vida de limitações, financeiras e intelectuais. Mas não é disto que trata este ensaio. Julián o escreve em 1980, mais de quarenta anos após o final da guerra, que durou de meados de 1937 a março de 1939. São reflexões de um sujeito que sabe ser um dos poucos sobreviventes daquela época distante, de um indivíduo que não é movido a paixões, não se auto-engana, não tergiversa. Em dez curtas seções ele tenta explicar o inexplicável da guerra, a irracionalidade da histeria coletiva que levou espanhóis àquela matança, a ruptura do país como nação. As fórmulas que sintetizam o livro talvez sejam essas: "Señor, qué exageración!", que foi sua primeira reação ao saber da eclosão da guerra (ele tinha apenas 22 anos) e  "Los justamente vencidos; los injustamente vencedores" (cunhada por ele apenas após a morte de Franco). Como sempre, com a exceção de uns poucos, não houve inocentes dentre os protagonistas do conflito. A ambição do ensaio é que ele sirva para evitar a repetição dos mesmo erros, a retomada de uma espiral de mentiras e falso patriotismo que levasse seu país a uma nova guerra civil. Ele afirma ser é necessário que cada indivíduo vença a guerra interior contra suas paixões, cure-se da loucura social, não abandone o exercício da liberdade, não perca o controle da razão e do sentido de destino democrático. Ele advierte, com razão, da “... necesidad de un pensamiento alerta, capaz de descubrir las manipulaciones, los sofismas, especialmente los que no consisten en un raciocinio falaz, sino en viciar todo raciocinio de antemano”. A guerra civil começou por conta de interpretações bastante erradas da realidade, de uma cegueira mental e coletiva. O livro incluí um excelente prólogo, assinado por Juan Pablo Fusi, que resume as circunstâncias da guerra civil. Li e reli esse pequeno ensaio várias vezes deste o início de fevereiro, quando o recebi. De uma certa maneira ele parece explicar e antecipar o mesmo tipo de loucura coletiva que vivemos neste desgraçado e irrecuperável Brasil, país condenado ao mais triste futuro e destino, onde uma guerra civil sem balas, sem bombardeios, sem fuzilamentos indiscriminados, mas igualmente letal e irresponsável, já graça por todos os cantos. Dá pena, mas não muita pena. Maldita gente má. Vale!
Registro #1382 (crônicas e ensaios  #249)
[início - fim: 02/02/2019]
"La guerra civil: cómo pudo ocurrir?", Julián Marías, Madrid: Fórcola Ediciones, 3a. edição (2017), brochura 11x16 cm., 88 págs., ISBN: 978-84-15174-38-7

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

balanço de 2018

Neste funesto 2018 fiquei quase sempre dividido entre seguir o  ensinamento de Archilochus, que sugere ferirmos duramente os indivíduos que nos ferem, ou aceitar o estoicismo que brota das reflexões de Proust, quando ele fala da eficácia efêmera do desgosto. Li como um demônio neste ano terrível, neste ano aborrecido e previsível, neste país onde só floresce, entranha e reina a estupidez. Se fiz só 104 registros de leitura foi por absoluto cansaço, aquele cansaço do Pessoa, supremíssimo cansaço. Fiquei meses sem resenhar, apenas lendo, com método, alheio a quase tudo. Deixei pelo menos uns 20 livros lidos para registrar no ano que vem. Vamos a ver se coloco a casa em ordem durante as férias. Bueno. Não cumpri nenhuma das promessas literárias de 2017 (reler o Cervantes, terminar o Tristram Shandy, voltar aos gregos, etc e tal). Mas fiz desvios felizes, encontrei bons veios literários, variados títulos. Neste ano produzi registros de 24 romances, 18 volumes de crônicas ou ensaios, 15 de contos, 11 de poesia, 10 romances policiais, 6 de arte, 6 novelas gráficas e 14 outros divertimentos. A boa surpresa foi ter lido 10 livrinhos da editora Âyiné. Li também minha boa cota de 20 livros em espanhol, aproximadamente 20% do total, mas apenas um livro em inglês, um bom e fundamental Coetzee, apenas um. Li 9 livros da Donna Leon e bons livros de poesias (Ficowski, Britto, Andresen, Tranströmer, Aleixo, Hilst, Portella, Nooteboom, Moura, Medeiros e a Lira Argenta organizada pelo Mendonça. Tive uns assombros, umas surpresas: Botelho, Czekster, Tavares, Nogy, Musil, Krause, Nei Lopes, Brasiliense. Reencontrei o Nooteboom, sempre fundamental, o genial Javier Marías, o Camilleri, o Pellanda, o Modiano, o Vargas Llosa, o Pérez-Reverte, o Vila-Matas. Tive a alegria de ver o grande livro do Abdon Grilo ser publicado (peça fundamental para entender algo sobre o Ulysses, de James Joyce). Depois de anos Ulysses mais uma vez fez-se ao mar. Evoé Abdon, Evoé. A média histórica de leitura segue estabilizada. Nos doze anos do blog foram lidos cerca de 113 por ano, mais de 9 por mês, 2 por semana, um terço de livro por dia. Já há 1354 registros de leitura no "Livros que eu li" (desde janeiro de 2007). Resumidamente posso dizer que são 793 de ficção (romances, novelas, contos, poesia e peças de teatro); 338 de não ficção (ensaios, crônicas, biografias, perfis, didáticos e catálogos de arte) e 223 de divertimentos variados, absolutamente inclassificáveis, mas sempre prazerosos. Esse foi um ano sem prêmio Nobel de literatura, em que a aventura febril das livrarias Saraiva e Cultura as fez quase falirem, em que fiz boas viagens pelo Brasil para as avaliações do MEC, de uma copa do mundo de futebol discretíssima. Ano em que fomos, Helga e eu, a Buenos Aires, e vimos doña Natália Diacoyannis formar-se, para logo tatear outros mundos. E viva Naty! Foi o ano da morte do Bourdain, do Schlee e do Cony; do Hamburger, do Videira e da Elisa Frota-Pessoa, três grandes físicos. Já se passaram dois anos da morte de doña Vic e um do primeiro e verdadeiro Guina. Sei que lerei minha boa cota de livros em 2019, mas não farei planos desta vez. Sei que eles vão me encontrar por aí, brotar dos guardados, fazerem-se lembrados por uma epifania qualquer, como sempre acontece. Sei também que os escravos mentais e a turma do Alzheimer moral certamente continuarão a tentar me incomodar, mas Humphrey Bogart já me ensinou que não se deve perder tempo desprezando alguém, basta esquecê-los, mantê-los por profilaxia bem distantes. Bueno. É quase hora de fazer-se ao mar de 2019. Já é tempo. Thalatta! Thalatta!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

cuando los tontos mandan

Adicionar legenda
Quando soube, ainda em 2017, do pré-lançamento de "Cuando los tontos mandan", preparei-me bem. Graças aos bons serviços da Casa del Libro espanhola e da DHL o livro saiu de Madrid no dia 15 de fevereiro à tardinha e chegou aqui, no interior do interior do Rio Grande do Sul, no dia 20 de fevereiro, fresco como pão quente, ainda com cheiro de livro novíssimo que era. Já conhecia todas as 95 crônicas de Javier Marías reunidas nele, pois as leio todos os domingos assim que são publicadas no El Pais Semanal. As reli ainda nas férias e antes do início das aulas, em março, mas deixei para fazer esse registro só agora, ao finalizar os registros possíveis em 2018 no Livros que eu li. Esse volume sintetiza meu ano, meu humor, meu entendimento da vida. Vivemos sim numa desgraçada época onde os tontos mandam. É insuportável. Paciência. Como não concordar com Marías? As crônicas são variadas. Sua curiosidade intelectual é vasta. As crônicas foram publicadas entre 8 de fevereiro de 2015 e 29 de janeiro de 2017. Ele fala de política espanhola e política internacional; de costumes e modismos; de Cervantes e Shakespeare; recupera fragmentos de sua biografia, louvando amigos e vergastando inimigos; fala de filmes antigos, de religião, de guerras, de terrorismo, da Europa e de linguagem, de literatura contemporânea, de questões filológicas discutidas na RAE e de sexo discutido com amigos, da vaidade e de suas obsessões literárias, seus hábitos, sua rotina e seu oficio. Poucas pessoas me parecem tão honestas intelectualmente quanto ele (como nos ensinou Isaiah Berlin, ato que exatamente define verdadeiramente um intelectual). Poucas pessoas me parecem tão corajosas, implacáveis com a má-fé, com a mentira e a desfaçatez. Seu sarcasmo é sempre onipotente, ferino, necessário. A mediocridade o importuna, mas ele dá exemplos de como faz para blindar-se dela e da legião de escravos mentais que nela vicejam. Ele fala da tragédia que é o pensamento politicamente correto. Fala do curral mental em que se transformaram as escolas, onde muitos professores praticam sem pudor o que pior alguém pode fazer a um aluno: mentir, desinformar, falsear. Sempre é implacável justamente com os indivíduos que deveriam ser exemplares e confiáveis, mas são exatamente o contrário: filisteus acadêmicos, juízes venais, jornalistas que nem fazem mais questão de esconder sua estupidez, políticos profissionais e seus assessores amestrados, professores universitários, maus críticos e pensadores ruins. De qualquer forma um humor sereno percorre as crônicas, um humor que desarma qualquer fascista ou canalha de plantão. É possível escolher uma como a melhor dentre elas? Não consigo. Em todas encontra-se reflexões de alguém que sempre respeita seus leitores, convida-os a raciocinar, a pensar com lógica e independência, a devotar nosso bem mais valioso, que é o tempo, em ações que promovam a liberdade, a democracia, a correção, a verdade, valores morais e a boa educação, a vida bem vivida. Recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover,  Demasiada nieve alrededor, Ni se les ocurra disparar, Tiempos ridículos e Juro no decir nunca la verdad. Em todos encontramos aulas exemplares da história recente da Espanha e de como opera um intelectual notável em todos os sentidos. Bom divertimento. Evoé Marías, evoé! Vale!
Registro #1354 (crônicas e ensaios #240)
[início: 20/02/2018 - fim: 04/03/2018]
"Cuando los tontos mandam", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2018), brochura 15x24 cm, 301 págs. ISBN: 978-84-204-3231-1

terça-feira, 19 de junho de 2018

late essays: 2006-2017

Somente em Javier Marías encontro a capacidade de síntese e reflexão equilibrada, de estilística e generosas surpresas, de associações felizes e erudição absurda, completa, que são a norma dos textos de J.M. Coetzee. Nesse "Late essays: 2006-2017" estão reunidos seus ensaios mais recentes, 23 deles, produzidos após sua imigração definitiva para a Austrália e adoção de sua nova nacionalidade (lamentavelmente a África do Sul tornara-se demasiado tóxica para ele neste conturbado inicio de século). Não se trata de material inédito. Alguns ensaios foram publicados ao menos em uma versão abreviada na revista americana "New York Review of Books", outros publicados na forma de introdução a reedições de livros clássicos. O interesse manifesto nos ensaios quase sempre é o entendimento de uma obra especifica de um autor, mas há também analises do conjunto da obra de alguns. Coetzee reiterou um ensinamento dele que já havia percebido em seus demais livros de critica ("Inner workings", "Costas estrañas" e "Ensayos selectos"): preocupar-se com eventuais "spoilers" ao falar de uma obra é totalmente dispensável, uma perda de tempo, um zelo derivado e danoso desses tempos onde a obsessão com o politicamente correto como que nos tornou voluntariamente limitados. Ele analisa objetivamente tanto a narrativa ficcional, a invenção, quanto as motivações dos autores delas; avalia simultaneamente as intenções e os resultados alcançados pelos autores; especula sobre a verossimilhança dos personagens e as técnicas narrativas utilizadas; não tem paciência e nem oferece perdão a bizarrices autobiográficas, afeitas aos ditames em moda na sociedade e no mercado literário. Quando ele fala da vida dos autores o faz panoramicamente, não se atendo a fofocas ou a detalhes bobos sobre o comportamento e a psique dos sujeitos que analisa. Em geral ele aparenta ter lido tudo a respeito dos autores que investiga, como zeloso acadêmico que é (ele não parou de dar aulas e publicar artigos mesmo após ter ganho o financeiramente importante prêmio Nobel em 2003). Coetzee nunca fica preso a causos engraçados. Ele enfatiza em suas analises aspectos filosóficos, políticos, históricos relacionados as obras, sempre de forma fundamentada, factual. Enfim, mais que crítica literária o que encontramos aqui são aulas magnas de um professor experiente, um sábio que quase nos enfurece com seu absoluto domínio da matéria. Quando aponta as falhas específicas de cada livro ou autor que analisa, Coetzee oferece também indicações de como deve  preparar-se para seu ofício um sujeito que tenha a pretensão de tornar-se um bom escritor. Coetzee fala de Daniel Defoe, Nahaniel Hawthorne, Ford Madox Ford, Philip Roth, Goethe, Heinrich von Kleist, Flaubert, Irène Némirovsky, Juan Ramón Jiménez, Antonio Di Benedetto, Tolstoy, Zbigniew Herbert, Beckett, Patrick White, Les Murray, Gerald Murnane e Hendrik Witbooi, ou seja, não há espaço para cotas politicamente corretas e pruridos pós-colonialistas em suas escolhas, em seus objetos de crítica. Está certo ele, claro. Vale! 
Registro #1268 (crônicas e ensaios #227) 
[início: 22/04/2018 - fim: 15/05/2018]
"Late Essays: 2006-2017", J.M. Coetzee, New York: Viking Press (Penguin Randon House LLC), 1a. edição (2017), capa-dura 14,5x22 cm., 297 págs., ISBN: 978-0-73522-391-2

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

um balanço provisório

Em 2017 entendi na prática as palavras de Flaubert que li há tantos anos: "Meu coração está se transformando numa necrópole". À morte de minha mãe, no final de dezembro de 2016, seguiu-se a de meu pai, no meio de junho. Perdemos também uma de nossas gatas, a Niham. Que praga! Enterrei alguns amigos, perdi-me de outros, outros me erraram, felizmente. Acontece. Li bastante poesia e peças de teatro em 2017. De fato, desde o início de 2007, quando esse "Livros que eu li" fez-se às ondas do rumoroso mar digital, só em 2012 li tantos e bons volumes de poesia. Bueno. Em 2017 fiz 125 registros de leitura, aumentando um tanto a media dos dez anos do blog. Foram 28 romances (22% do total), 19 livros de crônicas ou de ensaios (15%), 19 de contos, 10 de poesia, 10 romances policiais, 7 livros de arte, 6 novelas, 6 peças de teatro, 4 de perfis e memórias, 4 histórias em quadrinhos, 3 infantojuvenis, 3 de turismo, 2 de gastronomia, e um mais ou menos dentro da seguinte classificação: de fotografias, de cartas, catálogo de uma exposição de arte e de aforismos (talvez o mais fundamental deles, o do Ambrose Bierce). Já disse que li bastante boa poesia (Tápia, Medeiros e Aleixo, entre outros) e bons dramas (Shakespeare, nas estimulantes traduções de Botelho, Lawrence e O'Shea; Sófocles, na da Kathrin ); li cousas boas japas (Tanizaki, Kafu, Buson, Murakami); li a excelente biografia de Von Hunboldt; oito bons romances policiais de Donna Leon, 4 belas plaquetes do povo da At it Again. Li os quatro volumes da Série Napolitana de Elena Ferrante. Li o bom Pamuk mais recente. Li poucos livros em inglês (só 5% do total) e em espanhol (6%), talvez meu pior registro histórico. Paciência. Isso se deu pois nunca havia lido tantos autores nacionais. Foram 40 volumes, 32% do total. Alguns foram gratas surpresas, outros merecem uma releitura, mas não me entusiasmaram tanto assim. Aqueles que deixei de 2016 para ler em 2017 continuaram no limbo das promessas e dos planos, aquela zona fantasma, muito embora eu tenha avançado um bocado no Tristram Shandy traduzido pelo Javier Marías. Foram 0,35 livros por dia, 2,46 por semana, 10,5 por mês. Foram aproximadamente 2/3 livros de ficção, 1/5 de não ficção e 1/5 de bons divertimentos, seguindo o bom conselho do Montaigne. Ajudei minimamente o industrioso Abdon Grillo a editar seu estudo sobre o Ulysses, que será lançado no início de fevereiro, no dia de aniversário do Joyce. Que alegria. Acompanhei os sucessos das meninas da famiglia, Helga e Natália, que receberá seu título de bacharelado em Psicologia em breve, no próximo dia 06. Viajei bastante, conheci alguns lugares realmente interessantes do interior do Brasil. Em 2018 haverá mais boa poesia, haverá os haikus do Bachô editados em Portugal, os novos livros de Sérgio Medeiros e Ricardo Aleixo, a leitura do Finnegans Wake da Dirce do Amarante, as novas transcrições caetnogalindescas, a sempre postergada biografia do Johnson. Haverá mais Donna Leon, gostei do estilo dela. O Javier Marías deverá lançar mais um livro com suas crônicas semanais reunidas. Haverá mais biografias e coisas musicais. Pretendo voltar aos gregos e aos mitos. Talvez irei seguir o conselho de um amigo de longe, para fazer registros das leituras antigas, prévias a existência do blog. É uma ideia ainda bruxuleante. Haverá Copa do mundo de futebol, eleições, um Bloomsday Santa Maria novo. Talvez eu volte para a Irlanda, desta vez com a Helga. Logo veremos. É isso. Vale!

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

refusões

"Refusões", de Marcelo Tápia, é o maior portento poético que li no ano (o maior portento que li em prosa foi "Berta Isla", de Javier Marías). "Refusões" desdobra-se em seis volumes, reunindo a produção poética de Tápia, de 1982 a 2017. Trinta e cinco anos de boa poesia é para poucos. Tápia fez girar sua roda da fortuna, acrescentando a "Primitipo" (1982), "O Bagatelista" (1985), "Rótulo" (1990), "Pedra Volátil" (1996) e "Valor de Uso" (2009), um novíssimo e estimulante volume, "Expirais". Conhecia já quase todos desde os tempos de minha encarnação paulista, quando frequentava a USP e os Bloomsday paulistanos, capitaneados por Haroldo de Campos e secundados pelos cavaleiros da távola haroldina, Tápia dentre eles sempre o mais industrioso. Sobre "Valor de Uso", de 2009, já registrei algo aqui (clica!). Foi um bom exercício voltar a cada um dos volumes, sair do "Expirais" e lentamente acompanhar o corsi e ricorsi marcelotapiano. Na curta e seminal introdução, Tápia explica tudo o que precisa ser dito com a chave da inteligência sobre o "Refusões". Ele precisa seu procedimento, informando que nem todos os poemas originais foram republicados, que alguns foram alterados, cortados, ilustrando que após nossas contínuas metamorfoses eventualmente temos a fortuna de nos tornar mais sábios e melhores leitores de nós mesmos, compreendendo melhor com as cãs da experiência aquilo  que forjamos no tempo. Tápia, também um Janus redivivo, nos diz em sua introdução como vê a gênese e a lógica de sua produção do passado e decifra algo daquilo que agora entende como seu projeto (ele chama esse procedimento de emancipação de "uma 'fórmula' antes enunciada"). Para usar um símile da mecânica, Tápia parece aplicar o princípio de Hamilton à seu ofício, encontrando nesse conjunto de livros/poemas antigos e no novo "Expirais" a trajetória artística que sempre alcançou o valor extremo de sua ação, sua poesia. A refinada edição da Perspectiva inclui textos críticos de Jaa Torrano, Susana Busato, Antonio Vicente Pietroforte,  Aurora Bernardini e Rodrigo Bravo. Cada um desses textos oferece ao leitor ferramentas de entendimento e apreciação à poesia do Tápia. E o leitor não pode deixar de acessar a página do livro no site da editora Perspectiva. Tápia lê trinta de seus poemas. Vale a pena conferir e desfrutar da dicção e entonação dele: Clica!. Enfim, não será nesse curto registro de leitura que alcançarei apresentar a potência e riqueza de soluções poéticas de cada um dos seis livros reunidos. Na falta de um registro próprio para cada um dos livros, só sintetizo aqui: (i) que no último poema de "Primitipo",  seu primeiro livro, o poeta já cantava que "expira espirais do tempo / que rola no rio d'infância", remetendo o leitor à ideia geral de seu livro mais recente; (ii) que no "O Bagatelista" encontramos poemas visuais à la Bossa, à la e.e. cummings, poemas signo; (iii) que "Rótulo" é um livro de ismos, de um homem sociológico que usa as ferramentas de ofício e ironia bruta, para perscrutar verdades e mentiras; (iv) que em "Pedra Volátil" se fala da paisagem urbana, de causos históricos e políticos, explicita o Tápia forte, leitor de outros poetas fortes; (v) que "Valor de uso" talvez seja o mais musical, é o que mais gosto de ler em voz alta; (vi) que "Expirais" é puro deleite, em imagens, invocações, sínteses. O aedo procura uma musa perdida, é menos explícito quanto às fontes e inspirações, labuta para não deixar oxidados poemas, faz anamnese da vida inteira, faz brotar a memória caipira, concretiza tudo, sai a navegar, mediterrâneo e genealogia afora. Que conjunto, que alegria. Evoé Marcelo, Evoé. ÔBeleza. E Vale! 
Registro #1250 (poesia #91)
[início: 16/06/2016 - fim: 19/12/2017]
"Refusões: poesia reunida 2017-1982", Marcelo Tápia, São Paulo: Editora Perspectiva, 1a. edição (2017), brochura 15x20,5 cm., 448 págs., ISBN: 978-85-273-1099-4
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Balanço final 2017
Em 2017 entendi na prática as palavras de Flaubert que li há tantos anos: "Meu coração está se transformando numa necrópole". À morte de minha mãe, no final de dezembro de 2016, seguiu-se a de meu pai, no meio de junho. Perdemos também uma de nossas gatas, a Niham. Que praga! Enterrei alguns amigos, perdi-me de outros. Acontece. Li bastante poesia e peças de teatro em 2017. De fato, desde o início de 2007, quando esse "Livros que eu li" fez-se às ondas do rumoroso mar digital, só em 2012 li tantos e bons volumes de poesia. Bueno. Em 2017 fiz 125 registros de leitura, aumentando um tanto a media dos dez anos do blog. Foram 28 romances (22% do total), 19 livros de crônicas ou de ensaios (15%), 19 de contos, 10 de poesia, 10 romances policiais, 7 livros de arte, 6 novelas, 6 peças de teatro, 4 de perfis e memórias, 4 histórias em quadrinhos, 3 infantojuvenis, 3 de turismo, 2 de gastronomia, e um mais ou menos dentro da seguinte classificação: de fotografias, de cartas, catálogo de uma exposição de arte e de aforismos (talvez o mais fundamental deles, o do Ambrose Bierce). Já disse que li bastante boa poesia (Tápia, Medeiros e Aleixo, entre outros) e bons dramas (Shakespeare, nas estimulantes traduções de Botelho, Lawrence e O'Shea; Sófocles, na da Kathrin ); li cousas boas japas (Tanizaki, Kafu, Buson, Murakami); li a excelente biografia de Von Hunboldt; oito bons romances policiais de Donna Leon, 4 belas plaquetes do povo da At it Again. Li os quatro volumes da Série Napolitana de Elena Ferrante. Li o bom Pamuk mais recente. Li poucos livros em inglês (só 5% do total) e em espanhol (6%), talvez meu pior registro histórico. Paciência. Isso se deu pois nunca havia lido tantos autores nacionais. Foram 40 volumes, 32% do total. Alguns foram gratas surpresas, outros merecem uma releitura, mas não me entusiasmaram tanto assim. Aqueles que deixei de 2016 para ler em 2017 continuaram no limbo das promessas e dos planos, aquela zona fantasma, muito embora eu tenha avançado um bocado no Tristram Shandy traduzido pelo Javier Marías. Foram 0,35 livros por dia, 2,46 por semana, 10,5 por mês. Foram aproximadamente 2/3 livros de ficção, 1/5 de não ficção e 1/5 de bons divertimentos, seguindo o bom conselho do Montaigne. Ajudei minimamente o industrioso Abdon Grillo a editar seu estudo sobre o Ulysses, que será lançado no início de fevereiro, no dia de aniversário do Joyce. Que alegria. Acompanhei os sucessos das meninas da famiglia, Helga e Natália, que receberá seu título de bacharelado em Psicologia em breve, no próximo dia 06. Viajei bastante, conheci alguns lugares realmente interessantes do interior do Brasil. Em 2018 haverá mais boa poesia, haverá os haikus do Bachô editados em Portugal, os novos livros de Sérgio Medeiros e Ricardo Aleixo, a leitura do Finnegans Wake da Dirce do Amarante, as novas transcrições caetnogalindescas, a sempre postergada biografia do Johnson. Haverá mais Donna Leon, gostei do estilo dela. O Javier Marías deverá lançar mais um livro com suas crônicas semanais reunidas. Haverá mais biografias e coisas musicais. Pretendo voltar aos gregos e aos mitos. Talvez irei seguir o conselho de um amigo de longe, para fazer registros das leituras antigas, prévias a existência do blog. É uma ideia ainda bruxuleante. Haverá Copa do mundo de futebol, eleições, um Bloomsday Santa Maria novo. Talvez eu volte para a Irlanda, desta vez com a Helga. Logo veremos. É isso. Vale!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

os prazeres dos lugares inóspitos

Esse livro faz parte da boa coleção da Relógio D'Água dedicada a relatos de viagem. Foram publicados já uns quinze volumes, dos quais registrei aqui apenas dois: "Homenagem a Barcelona", de Colm Tóibín, e "Veneza: Um interior", de Javier Marías. Neste estão reunidos dois textos de Robert Louis Stevenson, o conhecido autor de "A ilha do tesouro" e de "O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde". O primeiro texto é o ensaio que dá nome ao livro, "Os prazeres dos lugares inóspitos", publicado originalmente num jornal escocês, em 1874. O segundo é um relato de viagem propriamente dito, "Viagens com uma burra pelas Cévennes", publicado em livro em 1879. Se no ensaio o leitor acompanha reflexões e argumentos teóricos, derivados de experiências de viagem e do entendimento prático da solidão dos viajantes, no segundo encontramos algo menos cerebral, algo muito vívido, já que se tratam das transcrições de um diário de viagem. No ensaio Stevenson propõe um paradoxo estóico: para ele qualquer lugar é suficiente bom para nele habitarmos, mas apenas em uns poucos alcançamos passar horas realmente agradáveis. Ele fala da quase impossibilidade de explicar a alguém o prazer das viagens. Ora é apenas o conforto de uma sombra que marca todo um conjunto de sensações, ora as epifanias chegam por conta de uma paisagem ordinária, comum, dos vapores de uma torta recém preparada, do som difuso do voo dos pássaros, do crespo e sombrio mar ou de nossa imaginação, que teima em provocar associações sem fim entre a paisagem e nosso mundo interior, nosso continuamente mutável estado de espírito. No relato da viagem pela Cévennes, região montanhosa da parte sul do maciço central francês, ao norte de Montpellier, acompanhamos doze dias de aventuras de Stevenson. Ele não era exatamente jovem na época deste passeio, início do outono de 1878 (tinha já quase trinta anos). Cévennes é conhecida por ter sido palco de uma importante rebelião de protestantes calvinistas no início do século XVIII, a dos Camisards. Exatamente por isso boa parte das reflexões de Stevenson contrasta os hábitos católicos e protestantes, assim como a geografia acidentada daquele lugar e de sua Escócia natal. Nos doze dias de viagem, Stevenson percorre cerca de 200 Km, de Le Puy-en-Velay a Saint-Jean-du-Gard, quase sempre rumo ao sul, acompanhado de uma burra, Modestine, que tem um papel relevante nas histórias, dada a inaptidão de Stevenson como condutor de animais. O ambicioso projeto de Stevenson é "uma aventura puramente descomprometida, tal como aquela dos viajantes heroicos dos primórdios", que oferecesse a ele a experiência de "encontrar-me sem saber orientar-me, tão pouco familiarizado com o que me rodeasse como o primeiro homem na terra, qual náufrago explorando um território". Pioneiro do que hoje chamamos de camping selvagem, Stevenson percorre colinas e vales, frequentemente longe dos vilarejos, perde-se e retorna às trilhas do lugar, testa a confiança e desconfiança dos habitantes, pouco acostumados a forasteiros que não fossem vendedores (ele sempre se apresenta como um "autor"). A maioria das noite ele dorme no campo, mesmo quando venta forte ou chove. Em algumas encontra abrigo em estalagens e em um monastério trapista. O registro de Stevenson lembrou-me de dois outros diários de viagem que li recentemente: o de Heine em sua "Viagem ao Harz" e os de Josep Pla, pela catalunha, em seus "Cartas de lejos", "Cinco historias del mar", e pela Itália no "Cartas de Itália". Interessante mesmo.
Registro #1202 (crônicas e ensaios #213)
[início: 25/07/2017 -  fim: 28/07/2017]
"Os prazeres dos lugares inóspitos", Robert Louis Stevenson, tradução de Frederico Pereira, Lisboa: Relógio D'Água Editores (coleção Viagens), 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 169 págs., ISBN: 978-989-641-651-4 [edição original: On the Enjoyment of Unpleasant Places (Edinburgh: Portfolio) 1874; Travels with a Donkey in the Cévennes 1879]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

the schooldays of jesus

Há três anos, quando li "A infância de Jesus", não tinha ideia que esse livro do Coetzee seria o primeiro de uma nova trilogia (como aquela dos bons "Boyhood", "Youth" e "Summertime"). Lembro do espanto com a proposta, algo amalucada, sobre Novílla, uma cidade onde os habitantes, vindos de um lugar inominado, do qual nada lembram, começam uma nova vida. Como numa espécie de repovoamento da Terra pós dilúvio, eles chegam até Novílla de barco, concebidos imaculadamente, sem parentescos entre si, ganham novos nomes e ocupações. A organização social dali parece ser como o sonho de um velho comunista que vê seus projetos utópicos consagrados. Todos falam espanhol. Pensei no livro como uma alegoria, um contido e mágico realismo, um enigmático romance de fantasia, onde encontramos releituras de passagens bíblicas e literárias (algo do "Don Quijote" e de alguns contos de fada, algo do "Cândido" e do "Admirável Mundo Novo"). Coetzee faz seus personagens discutirem temas filosóficos importantes (a natureza do mal, a origem da cognição, a lei do terceiro excluído). Apesar da estranheza o leitor fica preso ao destino daqueles personagens bizarros, cujos nomes parecem definir sua vocação. No início deste 2016 Coetzee publicou a continuação de sua história, um volume intitulado "The Schooldays of Jesus".  Entende-se melhor o primeiro livro, mas novos enigmas são apresentados. Trata-se de um romance onde a ênfase continua na discussão de temas metafísicos, desta vez sobre a teoria dos números, a harmonia das esferas de Pitágoras, a húbris grega. O volume anterior termina com a fuga de Inés, Simón e Davíd de Novílla (devido as dificuldades de Davíd adaptar-se ao sistema escolar da cidade). Eles rumam para Estrella, uma cidade menor, mais rural que urbana, onde temporariamente trabalham numa fazenda, coletando frutas. A questão escolar de Davíd ainda precisa ser solucionada. As proprietárias da fazenda onde Inés e Simón trabalham se oferecem para zelar pelos estudos de Davíd (são as três graças, ou as três parcas, gregas. Inicialmente ele é apresentado a um engenheiro que lhe dá noções básicas de matemática, mas ele é um aluno difícil e esse tutor sugere que ele entre para uma das academias da cidade (além das escolas convencionais Estrella tem três "academias": uma dedicada ao "canto", outra a "dança" e uma terceira ao "átomo"). A narrativa prossegue, cheia de desvios, acumulando personagens e histórias curtas (que discutem a natureza das paixões humanas, teoria musical; o aprendizado de técnicas de escrita como o ato de criar vida; definições para amor, ego e liberdade; as relações entre crime e castigo, o livre-arbítrio e o poder do estado). Com o tempo Davíd aprende a "dançar números", uma forma de conexão pura entre os homens e as estrelas. O livro termina com Davíd em transe, girando continuamente com um dervixe, experimentando algum tipo de contato com as esferas celestes, vendo estrelas como um Tycho Brahe, acoplado ao transcendental. A cada capítulo um leitor obcecado com associações (como eu) encontra diversos temas estimulantes. Mas este mar de associações intoxicou-me, ou melhor, intoxiquei-me sozinho tentando fazer associações. Talvez o inusitado dos nomes e atos dos personagens seja um tropo proposital de Coetzee, produzidos para induzir o leitor a buscar pistas falsas. Talvez o certo seja ignorar essa compulsão por entender o que há de criptografado na narrativa (se é que tais associações realmente existem, afinal não há Jesus algum na história e o simples paralelo bíblico aos sucessos do livro é algo óbvio demais). Talvez devamos aceitar apenas o que diz e faz Simón, o narrador, o personagem que ordena o caos de ideias e paixões dos demais, que guia o leitor pelas ilhas serpeantes das digressões de Coetzee, que predica como um profeta e acompanha diálogos como um filósofo. Definitivamente, enredo e venturas dos muitos personagens parecem ser apenas distração, cenografia, truques de um mágico habilidoso. Contar histórias é fácil, filosofar é difícil. O que verdadeiramente estimula, desafia e ilumina os homo sapiens sapiens é a filosofia, parece nos lembrar, professoral, Coetzee). Vamos ver como ele apresentará os novos sucessos de Simón, Inés e Davíd no último volume da trilogia. Daí, talvez, possamos entender mais. Vale. Em tempo: esse é o último registro de leitura do ano. Antes do solstício farei um balanço dos livros lidos no ano.
[início: 23/11/2016 - fim: 01/12/2016]
"The Schooldays of Jesus", J.M. Coetzee, London: Harvill Secker / Vintage (Penguin Random House UK), 1a. edição (206). brochura 13,5x21,5 cm., 260 págs., ISBN: 978-1-911-21536-3
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Balanço final: 21/12/2016 [solstício de verão]
Esse foi um ano bastante complicado, terrível, aborrecido, pesado, dominado pela estupidez reinante deste desgraçado país, repleto de pequenos dissabores que conseguiram ofuscar as poucas alegrias que vivi (seria hipocrisia não ficar satisfeito com os sucessos de Helga e Natália, ou com a saúde dos gatos, ou com as descobertas no novo apartamento). De qualquer forma, assim como num dia disse Flaubert, meu coração está transformado em uma necrópole. Arre! Vamos em frente. Ao finalizar 2016 alcancei o décimo ano de registros deste “Livros que eu li”. Se 2015 foi o ano de uma maioria folgada de romances, esse 2016 foi o ano dos livros de crônicas, dos livros de ensaios, dos livros de não-ficção. Fiz 111 registros de leitura, bem próximo da média dos dez anos do blog. Foram 30 de crônicas e ensaios (27% do total); 20 romances (18%); 11 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 10 de poesia; 8 de contos; 7 de perfis, biografias, memórias e relatos; 4 novelas; 4 dedicados ao público infanto-juvenil; 4 livros de arte; 3 romances policiais; 2 de gastronomia; 2 coleções de aforismos; 2 de turismo e apenas um dos seguintes quatro gêneros: didáticos; catálogos; divulgação científica e música (o adorável livrinho de canções irlandesas do Robert Gogan, joyceano dos bons que conheci em Dublin). Aliás li um bocado de coisas relacionadas a Joyce e a Irlanda: o fenomenal guia de leitura do Ulysses assinado pelo Caetano Galindo; três ou quatro guias literários de Dublin; a biografia do tradutor argentino do Ulysses, Salas Subirat; o livro dedicado a cerveja Guinness; os poemas reunidos em Pomes Pennyeach; o belo The Ondt and the Gracehoper (parte do Finnegans Wake); a divertida versão em mangá do Ulysses; e o bom livro da catarinense Dirce Waltrick do Amarante sobre os tradutores brasileiros de Joyce. Li três livros do romeno Cartarescu, sempre uma surpresa; três do bom holandês Nooteboom (inclusive um comemorativo dos 500 anos de morte do Bosch) e três do argentino Giardinelli. Gostei muito do catálogo de uma exposição que não vi, a "Rastros", do piauiense Weaver Lima. Li com calma várias coletâneas de poesias: a do Mautner, a da Szymborska, a do Marco de Menezes, da Cristina Macedo, do Ricardo Freire, entre outros. Consegui ler um Javier Marías (suas notas de aula dedicadas ao Quijote, neste quarto centenário da morte de Cervantes), e dei sorte, pois um ano sem ler Javier Marías é um ano perdido. Não cumpri várias promessas (não terminei o Tristram Shandy, nem o Quijote, nem os contos do Tolstói, nem os ensaios do Haroldo de Campos compilados pelo Marcelo Tápia, nem os poemas do Waly Salomão). Não consegui terminar de organizar o livro do Abdon Grillo. Organizei um Bloomsday em homenagem ao Antônio Houaiss (por conta dos 50 anos de sua tradução do Ulysses). Enfim, consegui manter minha cota de livros em inglês (11% do total) e em espanhol (24% do total); alcancei ultrapassar os 300 registros de romances, os 200 registros de livros de ensaios e os 125 de coletâneas de contos; tive a sorte de encontrar algum descanso com a leitura de mais de cem escritores diferentes, companheiros de viagem neste 2016. Logo veremos os sucessos de 2017. Vale. E viva a dona Vic.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

juro no decir nunca la verdad

Em "Juro no decir nunca la verdad" encontramos 95 crônicas publicadas originalmente no El País Semanal entre 10 de fevereiro de 2013 e 01 de fevereiro deste terrível 2015 que se encerra. Mesmo passados os muitos meses de sua publicação nenhuma das crônicas parece datada ou envelhecida, nenhuma soa incongruente ou irrelevante. O estilista Javier Marías dos romances e contos é também um inventor inspirado em suas crônicas. Marías sobretudo argumenta, defende uma posição, contrasta seu entendimento das coisas com o senso comum ou com opiniões de terceiros. Ele sempre é implacável em seu juízo, mas nunca mal educado ou descortês. É justo (como sabem ser Eáco, Minos e Radamanto, os juízes do inferno), seja com os políticos de seu país, com o patético ex-treinador do seu time de futebol, com os funcionários de um aeroporto em Londres que roubaram pertences seus, com  colegas escritores, ou ainda com vizinhos de bairro e conterrâneos madrilleños. Trinta ou quarenta por cento dos textos são marcadamente políticos, onde Marías interpreta o momento político e econômico do seu e dos demais países da comunidade européia, mas há um número maior de textos sobre outros assuntos, como seu ofício, suas influências literárias, sua família e amigos, sua memória das coisas da infância ou juventude, seu azedume em relação a onipresença da igreja no cotidiano espanhol, sua paixão pelo cinema ou sua prática como acadêmico nas reuniões da Real Academia Española de la Lengua. Dos disparates que presencia ou lê brotam crônicas nada ligeiras. Produzidas para emular falsa simplicidade, elas se deixar ler nos domingos pela manhã ora com sorriso ora com esgar. Nelas encontramos argumentos vigorosos e complexos, seminais e definidores. Ele nunca é panfletário ou engajado (no mau sentido da palavra, ou seja, no sentido que experimentamos, por exemplo, na quase totalidade das opiniões de intelectuais e escritores brasileiros contemporâneos). Ele nunca se ilude com a aparência do que vê, reproduz versões oficiais, aceita as promessas ou regras dos jogos de poder (coisa que os servis jornalistas brasileiros, quase todos escravos mentais de alguma forma pagos com dinheiro público, fazem rotineiramente). Quando ele acusa um erro ou atenta para um problema sempre encadeia seus argumentos com lógica e método. Ele antecipa movimentos e/ou desdobramentos dos fatos aparentemente corriqueiros que registra. Apesar de reiteradas mostras de sabedoria Marías nunca é pedante (seu humor é algo que encanta o leitor mesmo quando o assunto é árido, complicado, de entendimento sutil). Como não rir do sarcasmo de um "Si los tontos volaran no se vería el sol"? Pois então. Quer ler algo não ficcional de Javier Marías? Experimente a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover, Demasiada nieve alrededor, Ni se les ocurra disparar e Tiempos ridículos. Em todos encontramos aulas exemplares da história recente da Espanha. Bom divertimento. Cabe aqui uma última nota. Há um causo que vou lamentar por muitos anos ainda. Acontece que perdi a oportunidade, em fevereiro último, de cumprimentar don Javier Marías. O vi na Calle Cava Baja, em Madrid. Estávamos Lola, Manolo e eu saindo da Taberna e Posada de la Villa, onde havíamos tomado umas copas e fazíamos planos para jantar. Lola chamou nossa atenção e disse que o Marías estava ali, na diagonal, do outro lado da rua, fumando calmo seu cigarro debaixo do dintel de uma porta. Fiz menção de irmos lá cumprimentá-lo, porém Lola lembrou do quão zeloso de sua privacidade era ele. Estava frio naquele inverno e o lusco-fusco do início da noite fazia as luzes bruxulearem. Ficamos uns minutos ali parados, indecisos, em quase transe. Manolo bromeava como sempre faz, nos incentivando a cruzarmos a rua e eventualmente recebermos nossa cota de impropérios marianos. Lola lembrou de uma amiga que não foi exatamente bem recebida em circunstâncias parecidas. Fomos covardes, ai de nós, decidimos deixá-lo na paz de seu santo cigarro. Seguimos no sentido oposto, Cava Baja abaixo e ficamos um bom tempo falando dele e de seus livros. Manolo ria de nossa continuada timidez. Nem Lola nem eu sabíamos explicar o que de fato nos impediu. Era tarde. Como teria sido divertido ter ao menos balbuciado um par de frases com ele naquele dia. Vale.
[início: 07/10/2015 - fim: 05/12/2015]
"Juro no decir nunca la verdad", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2015), brochura 14x22 cm, 378 págs. ISBN: 978-84-204-1210-8
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Balanço final [25.12.2015]
Ninguém intelectualmente honesto pode dizer que 2015 foi um bom ano para o Brasil e para os brasileiros. E mais não digo sobre a irreversível miséria mental e moral que se abateu sobre esse desgraçado país. Ponto. Li um bocado, 109 livros, mas não consegui produzir as resenhas no mesmo ritmo das leituras (o fato de mudar de apartamento e queimar meu computador semanas atrás explica um tanto, mas não tudo deste descompasso). Estou devendo escrever registros de livros que li ainda no início de novembro. Paciência. Esse foi o ano dos romances. Foram 41 (38% do total). Só em 2009 havia lido tantas narrativas longas (talvez para compensar o fato de ter-me dedicado no ano passado a ler muitos ensaios e outros volumes de não-ficção). Nessa cota de romances quase um terço é invenção do Patrick Modiano, prêmio Nobel do ano passado, que li com disciplina e método (a obra dele é mesmo um interessante mosaico de livros curtos e potentes). Li um bom conjunto de livros em espanhol e vários em inglês comprados em Dublin, livros que tratam do mundo de James Joyce, pomos de ouro colhidos numa viagem há tanto tempo planejada. Li volumes do Haruki Murakami que não me agradaram nada, coisas da Natalia Ginzburg que me agradaram um bocado e reli o ciclo Fundação do Asimov com pouco mais que tédio (Noigandres, eh noigandres). Gostei dos vários Joseph Roth que li e fiquei realmente impressionado com o poder da narrativa do romeno Mircea Cartarescu (haverá vários dele em 2016, seguro que sim). Dediquei bom tempo ao robusto conjunto de ensaios sobre J.M. Coetzee editado pelo Lawrence Flores e a Kathrin Rosenfield. Aproveitei cada minuto da leitura da tradução que o Lawrence fez do Hamlet. Ouro puro. Li vários livros independentes (digamos assim), livros editados por pequenas editoras, de gente que acredita sobretudo no poder da palavra e de sua capacidade de contribuir com algo seu no mar revolto da literatura (autores que ou são vaidosos o suficiente ou muito seguros de si para se atreverem-se a publicar algo numa época em que a maioria das pessoas mais se orgulha de ser imbecil e/ou analfabeta do que qualquer outra coisa). Fiz 109 registros de leitura, um tanto acima da média dos três anteriores, mas algo abaixo da média histórica, iniciada em 2007, que é agora de 113 livros por ano. Foram 41 romances; 17 de crônicas e ensaios; 14 de contos; 7 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 6 novelas; 5 de poesia; 3 de perfis, biografias, memórias e relatos; outros 3 de ficção científica; 2 de fotografias e 2 de turismo; além de apenas um dos seguintes nove gêneros: romances policiais; infanto-juvenis; gastronomia; arte; didáticos; dramas; cartas; catálogos e de divulgação científica. Abandonei uma miríade de projetos, desisti de coisas que sabia serem fundamentais, importantes até demais, mas que não resistiram a meu caótico processo de leitura. Ultrapassei a mítica marca dos 1000 livros lidos desde que comecei a fazer esses registros (sabe-se lá quantos livros li antes, entre meados dos anos 1970 e o final de 2006, mas sei que foram mais de 2000). Falei sobre a vertigem de fazer essa lista de livros lidos num artigo publicado na Revista Cândido (da Biblioteca Pública do Paraná). Fizemos a festa dos 90 anos para meu pai, o original Aguinaldo Severino, grande festa, grandes alegrias. O Sr. BB, o mais jovem de nossos gatos, morreu. A Pato, a nova mais jovem gata, apareceu. Helga e Natália seguem bem. Estamos a sair do #403 para o #902, animados. Organizei com ajuda da CESMA e do Ponto de Cinema mais uma edição do Bloomsday Santa Maria, a vigésima-segunda da série. No ano que vem faremos a edição número 23 e comemoraremos os cinquenta anos da tradução que o Antônio Houaiss fez do Ulysses (o Galindo até reclamou da escolha, mas para ele já tenho planos, em 2022). Viajei para Dublin, Pamplona e Madrid. Em Dublin tive a sorte de conhecer dois arquitetos, o Kevin e seu irmão John, esse último um sujeito que sabia um bocado de coisas sobre o Joyce e me abriu um bocado de portas mágicas (sem ele não teria conhecido o mercurial Brendan e sua James Joyce House, nem as casas onde viveu James Joyce, nos subúrbios ao sul de Dublin, Rathgar e Rathmines). Conhecer o adorável P.J. Murphy, o industrioso Conor Fennell e o povo amigo da Martello Tower também foram experiências dos diabos. Nunca há timidez quando se trata de verdadeiros viciados em James Joyce e sua obra. A cidade tratou-me com cortesia e eu soube bem minha cota de Guinness. Sláinte. Ah! E em 2016 começo o décimo ano desta série de registros de leitura. Veremos.
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