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terça-feira, 15 de abril de 2014

a máquina do tempo

Quando o mais recente livro de Adão Iturrusgarai foi lançado decidi que era hora de pagar minha dívida com Jesús González, talvez o maior dos fãs de Iturrusgarai em Madrid. Decidi que compraria o livro, juntaria com os demais que já havia prometido enviar-lhe e os colocaria no correio naquele mesmo dia. Mas, ai de mim, o Jesús terá de esperar um tempo mais, paciência. Em "A máquina do tempo de Adão Iturrusgarai" encontramos trabalhos variados, personagens antigos e novas propostas, 64 páginas de humor corrosivo e certeiro, sem nenhuma concessão para a hipocrisia e ao politicamente correto (como o humor de verdade deve ser). A apresentação inverte a ordem cronológica: começa com o trabalho mais recente, de 2013 e segue até o mais antigo, de 1983. É tempo. Vê-se que o sujeito trabalha mesmo um bocado. O livro inclui dois trabalhos feitos em colaboração com Laerte e um outro onde Gilmar Rodrigues assina o texto. O leitor percebe facilmente ao folhear o livro que o Adão não é escravo de um personagem ou traço. Há muita experimentação, tanto estética quanto temática. O que une todos os trabalhos é sua abordagem pessoalíssima na sátira, onde nada é tabu ou sagrado (as histórias parecem dizer que não se deve levar nada a sério, mas diz isso levando a sério tudo o que parece e é ridículo e podre na sociedade). Seria engraçado deixar um exemplar destes na sala de espera de consultórios de analistas e/ou psicólogos. Acredito que provavelmente boa parte dos clientes resolveria ali mesmo seus problemas imaginários, sua eventual vocação para a intolerância, a falta de humor crônica ou inaptidão social. É coisa para se pensar.
[início: 18/03/2014 - fim: 28/03/2014]
"A máquina do tempo de Adão Iturrusgarai", Adão Iturrusgarai, Campinas: Zarabatana Books, 1a. edição (2013), brochura 21x28 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-60090-54-9

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

tudo o que você não queria saber sobre sexo

Mírian Goldenberg é uma respeitada antropóloga, professora de um programa de pós-graduação no Rio de Janeiro e também escritora prolífica. Ela reuniu parte do material que utilizou em vinte anos de pesquisas acadêmicas e convidou o cartunista Adão Iturrusgarai para participar de um projeto de divulgação dos resultados que obteve. Seu interesse nas pesquisas (qualitativas e quantitativas) e entrevistas que fez é bem diversificado. Elas tratam de casamento, família, sexualidade, relacionamentos, infidelidade, representações de gênero, desejo, inveja, medo, enfim, quase tudo que afeta homens e mulheres na cultura brasileira. Como a maioria dos brasileiros é incapaz de entender até o mais simples gráfico, tabela ou ilação decorrente da análise de dados, os resultados são apresentados em listas e ilustrações bem humoradas. A designer que produziu o livro (Tita Nigrí) propositadamente fez uso de uma dezena de tipos diferentes, distintos tamanhos e cores de letras, além de vários truques gráficos que buscam realçar os dados brutos que Míriam apurou em suas pesquisas. Com isso o livro fica graficamente poluído (talvez poluído demais), mas provavelmente este seja o único modo de fazer com que as informações mais importantes fossem ainda que marginalmente entendidas. O livro também propõe jogos, onde o leitor é convidado a interagir, escrever sobre seus defeitos e virtudes (e eventualmente compará-los com as médias obtidas nas pesquisas), além de responder questões e completar sentenças. A chave do livro é o humor, claro. As ilustrações e cartuns de Adão fazem contraponto a frieza dos dados da pesquisa (por mais edulcorados que estejam pelo trabalho gráfico da designer). A eficiência dos cartuns de Adão é impressionante (o sujeito sabe apresentar conceitos e sintetizar idéias como poucos). É um livro interessante, mas obviamente trata tudo com demasiada superficialidade. Não é também um livro para ser lido de capa a capa. Eventualmente, ao ser ser folheado aleatoriamente, possamos pinçar uma informação qualquer, para refletirmos sobre ela e seguirmos dali. Talvez fosse o caso da edição incluir ao menos uma pequena bibliografia para que o leitor curioso sobre os temas do livro procure informações adicionais. De qualquer forma com ele aprendemos algo sobre nos mesmos, ai de nós, brasileiros destes tempos tão amalucados. E vamos em frente.
[início: 08/11/2013 - 21/11/2013]
"Tudo o que você não queria saber sobre sexo", Mirian Goldenberg e Adão Iturrusgarai, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2012), brochura 18,5x21 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-01-09586-2

terça-feira, 29 de outubro de 2013

minha vida ridícula

Adão Iturrusgarai é um dos cartunistas (e quadrinista e chargista) mais criativos de sua geração (que vou definir como aqueles que nasceram na segunda metade do século passado, mas antes da queda do Muro de Berlim, simples assim). Ele é o inventor dos caubóis gays "Rock e Hudson" (personagens que foram criados bem antes do filme "The secret of Brokeback Mountain"); da garota Aline e seus dois namorados, Otto e Pedro (cujas histórias já foram adaptadas para a televisão); do Homem-Legenda (um super herói caçador de hipócritas) e tantos outros (há um bocado de diversão no site dele: "o mundo maravilhoso de adão iturrusgarai". Seguramente é dos mais debochados cartunistas que conheço. Não há assunto, tema ou grupo que escape de seus comentários sarcásticos. Lembro dele como uma espécie de penetra (ou mascote) no mundo bizarro dos cartunistas um tanto mais velhos que ele: Angeli, Laerte e Glauco, mas já se via que o sujeito tinha mesmo talento (e, de qualquer forma, Angeli, Laerte e Glauco jamais foram condescendente com ninguém, muito menos apadrinhadores de puxa-sacos). Recentemente precisei enviar coisas do Adão para um amigo espanhol (que descobri ser um entusiasta de seu trabalho - "JMG, sus libros pronto serán enviados a Madrid!") e resolvi aproveitar para ler os volumes também. São histórias autobiográficas, marca registrada dele, mas nada que deixe a vaidade contaminar os registros curiosos da vida contemporânea que faz (Adrian Tomine também é um sujeito que escreve histórias autobiográficas e, a exemplo de Adão, faz sociologia selvagem da sociedade, mas há muito menos humor e escracho em Tomine que nos quadrinhos do Adão). Ele incluiu também neste volume contribuições de amigos cartunistas (Eloar Guazzelli, Fido Nesti, Caco Galhardo, Allan Sieber, Otto Guerra, Estevan Santos, Arnaldo Branco, Zed Nesti, Gustavo Sala, André Dahmer, Rafael Coutinho e Benett), explora as possibilidades de produzir tiras em parceria com sua mulher (emulando algo que Robert Crumb já fez) e acrescenta até um punhado de fotos. Interessante. Atrevido, Adão termina o livro dizendo: "Sexo limpo e arte responsável não servem para nada". É mesmo rápido esse sujeito. Vou escrever mais sobre ele.
[início - fim: 27/10/2013]
"Momentos brilhantes da minha vida ridícula", Adão Iturrusgarai, Campinas (São Paulo): Zarabatana Books, 1a. edição (2012), brochura 21x28 cm., 63 págs., ISBN: 978-85-60090-44-0