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sábado, 3 de junho de 2017

detalhes de um pôr-do-sol

Os treze contos incluídos nesta coletânea foram escritos originalmente em russo, entre 1924 e 1935. Nesta época, Vladimir Nabokov, que havia fugido da revolução soviética, vivia exilado em cidades como Berlin, Paris e Riga (na Letônia). Os contos foram publicados em jornais e revistas de emigrados que eram editadas em russo nestes países. Posteriormente, em meados dos anos 1970, os contos foram traduzidos pelo próprio Nabokov e seu filho, Dmitri, do russo para o inglês. Nabokov faz uma pequena introdução em todos os contos, onde ele discute o contexto da publicação original e as opções estilísticas oferecidas pelos títulos e passagens mais herméticas dos textos (mestre supremo da ironia, Nabokov não se furta em alertar nestas introduções, ao eventual leitor, dos erros grosseiros de interpretação dos críticos originais das histórias). Trata-se de um escritor que exige um bocado do leitor, opera num padrão de invenção que impressiona, nada é ligeiro, fraco, mal acabado, irrelevante ou sem significado). Aprendizes do ofício têm muito a aprender com o sujeito. Os contos que mais gostei foram (i) "A campainha da porta", no qual acompanhamos o desconforto de um rapaz russo que reencontra a mãe após três anos, em Berlin, justamente na hora em que ela esperava um pretendente e provável noivo; (ii) "Uma fatia de vida", onde uma mulher conta como seu cunhado tentou matar a mulher após uma separação, obrigando-a a cruzar Berlin várias vezes, tornando-a um espécie de personagem da história; (iii) "Um homem ocupado", em que acompanhamos a obsessão de um homem com a probabilidade de morrer antes de completar seus 33 anos e (iv) "Natal", onde um sujeito lembra da morte de um filho pequeno e, ao mexer em seus guardados, presencia um prodígio que redime um tanto de sua dor. Cito apenas esta terça parte dos contos, mas poderia elencar pelo menos outros quatro igualmente surpreendentes e ricos. Nenhum conto parece deslocado nesta excelente coleção. Enfim, preciso procurar mais coisas dele. O Nabokov sabia mesmo contar histórias. Li há tantos anos seus romances e nunca me deparei com seus contos (essa edição da Companhia das Letras é antiga, de 2002, comprei por acaso na última feira do livro de Santa Maria, do Ricardo, lá da Disco Voador). 
[início: 07/05/2017 - fim: 15/05/2017]
"Detalhes de um pôr-do-sol", Vladimir Nabokov, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2002), brochura 14x21 cm., 173 págs., ISBN: 978-85-359-0267-8 [edição original: Details of a sunset and others stories (New York: McGraw-Hill) 1976]

sábado, 3 de dezembro de 2016

strong opinions

Esse livro me acompanha há tempos. Lembro-me de ter começado a lê-lo em um hotel madrilenho, ainda no início do ano passado. Desde então ocupei-me de tantas outras coisas e leituras, mudei de apartamento, tentei organizar meus livros em suas novas e alvas moradas, mas esqueci as "strong opinions" de Nabokov na pilha de guardados. Reencontrei-o no início desta primavera brasileira, terrível e estúpida como poucas. Ler Nabokov sempre é uma festa para os sentidos. O sujeito domina tão completamente a linguagem, expressa-se com tal precisão, encadeia argumentos e silogismos tão bem escritos que nunca aborrece o leitor. Em "Strong opinions" estão reunidos três conjuntos distintos de textos dele. A primeira parte é justamente a mais extensa. Envolve a transcrição de 22 entrevistas, originalmente publicadas em jornais ou revistas, entre 1962 e 1972. Há uma natural repetição das perguntas (jornalistas não são usualmente reconhecidos por sua originalidade), mas a cadência e o tom das respostas refletem distintos estados de ânimo de Nabokov, que por vezes enfatiza um aspecto ou outro dos questionamentos. Zeloso de tudo o que produzia, Nabokov só respondia perguntas por escrito, inclusive cobrando a correção do material imediatamente antes da composição final e/ou impressão. O período das entrevistas corresponde aos anos que se seguiram ao sucesso absoluto de seu livro "Lolita" e da versão cinematográfica dirigida por Stanley Kubrick. Parte em função da notoriedade e parte em função da estabilidade financeira alcançada permitiu que Nabokov deixasse de ministrar aulas (já registrei aqui as transcrições de seus cursos de literatura russa e aquele dedicado, grosso modo, a literatura em língua inglesa, francesa e alemã). Nesta época ele radicou-se na Suíça e passou a dedicar-se exclusivamente a produção literária (e as inevitáveis excursões de caça a borboletas). A segunda parte é bem curta. São reproduções de cartas que Nabokov enviou a redação de jornais e revistas literárias, entre 1961 e 1971. São cartas curtas, onde em geral ele corrige furiosamente alguma informação pouco acurada sobre seus livros, sua vida ou suas declarações públicas. A terceira e última parte é mais técnica. Estão nela reunidos 14 ensaios longos, produzidos entre 1939 e 1970, publicados originalmente em jornais especializados ou revistas científicas. Cinco deles são registros de classificação de borboletas por ele coletadas (Lepidopterologia nunca foi apenas uma distração). Uns três ou quatro são ensaios sobre o ofício da literatura, de seu entendimento da técnica e da inspiração, do ofício da crítica. Um outro traz diatribe feroz dirigida as opiniões de Edmund Wilson sobre seu livro "Ada" (de 1969). Os demais são críticas literárias produzidas por encomenda. Nabokov fala de Hodasevich, um importante poeta russo; de Sartre; de sua própria tradução de "Eugene Onegin" (de Pushkin); de uma questão jurídica associada a tradução francesa de "Lolita"; de Mandelstham, outro grande poeta russo; de uma outra tradução de "Eugene Onegin", produzida por uma americana que o aborreceu (talvez ela nunca tenha lido nada em russo na vida, diz ele). Quase todos os textos deste livro são cheios de humor, quando não ferino sarcasmo. Envolvem registros de memória, dos tempos vividos na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos, refletem um conhecimento refinado das coisas (não apenas de literatura, mas também de política, relações internacionais, interações pessoais, cultura, arte e da sociedade de seu tempo). Devia ser um inferno conviver com ele, mas o sujeito sabia defender suas opiniões e sua obra. Vale.
[início: 20/09/2016 - fim: 24/11/2016]
"Strong opinions", Vladimir Nabokov, New York: Vintage International edition (Penguin Random House , 1a. edição (1990), brochura 13x20cm., 340 págs., ISBN: 978-0-679-72609-8 [edição original: (New York: McGraw-Hill Book Company) 1973]

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

lições de literatura

Comecei a ler esse "Lições de literatura" quando estava num aeroporto e encontrei por acaso dois professores de literatura e tradutores que respeito muito: os industriosos Caetano Galindo e Sandra Stroparo (e eu tinha acabado de me despedir de um outro amigo querido, o Samuca Pessoa, ou seja, estava realmente feliz naquele dia especial). Assim como no "Lições de literatura russa" esse volume de lições de literatura (inglesa, francesa e alemã) é resultado de um trabalho de compilação e organização feito por Fredson Bowers a partir  das notas de aula que Vladimir Nabokov produziu em sua prática como professor universitário nas décadas de 1940 e 1950 no Wellesley College (em Massachusetts) e na Cornell University (em Ithaca, New York). Nabokov afirma que nos vinte anos de docência escreveu aproximadamente cem lições - cerca de 2 mil páginas - sobre os sete autores poderosos reunidos nesse volume (não incluindo as outras cem lições sobre os autores russos). Nabokov fala dos romancistas sobretudo através das obras deles, que eram lidas com os alunos em traduções para o inglês. Para discutir as obras de Jane Austen, Charles Dickens, Gustave Flaubert, Robert Louis Stevenson, Marcel Proust, Franz Kafka e James Joyce ele usa, respectivamente, os livros Mansfield Park, A casa soturna, Madame Bovary, O médico e o monstro, No caminho de Swann, A metamorfose e Ulysses. O método de ensino de Nabokov implicava em oferecer aos alunos notas que seguem o desenrolar da ação de cada livro, através das quais discutia os temas, estilos, técnicas e influências, acrescentando suas opiniões, citações de comentadores das mesmas obras (normalmente severamente criticados por ele), diagramas, ilustrações e mapas (as informações visuais, a capacidade de percepção visual das narrativas, era parte importante de seu método). Os alunos acompanhavam as aulas com os livros abertos à sua frente, de forma a ser orientados a atentar para os trechos do texto que eram lidos/citados por Nabokov. As aulas são realmente boas. Perdi um bocado das duas primeiras (sobre Jane Austen e Charles Dickens) pois nunca li Mansfield Park ou A casa soturna. As demais consegui acompanhar muito bem. Em geral o leitor logo pensa em reler os livros sob a perspectiva oferecida por Nabokov. As histórias são analisados em detalhe, em termos de suas estruturas, movimentos da trama, linhas temáticas, estilo, poesia, repetições, truques, simbolismos e descrição dos personagens. Nabokov discute como deve ter sido executado o projeto artístico de cada escritor, como se deu a composição dos livros, quanto tempo foi dedicado a cada um deles. Ele enfatiza a importância dos detalhes na construção de uma obra de arte verdadeira. Ao mesmo tempo ele não poupa críticas à abordagens psicológicas, freudianas, assim como à contextualização política ou econômica da época da publicação das obras, concentrando-se sempre nos elementos puramente artísticos dos livros. Nabokov adverte várias vezes que a pior maneira de se ler um livro é se misturar, se identificar de forma infantil com os personagens, como se eles fossem pessoas de carne e osso. Os personagens devem ser aceitos como foram inventados pelo autor. Para ele os grandes livros são fruto de estilo e estrutura, não reservatórios de grandes idéias ou projetos de educação em massa, ou seja, a literatura de verdade, forte, é a literatura dos sentidos, literatura das idéias por si só não produz arte verdadeira, é propaganda, geralmente propaganda ruim. O leitor deve aprender a ignorar os pontos fracos dos livros, os clichês literários, as fraquezas do autor e seus eventuais gestos teatrais, desde que haja no livro tenha afinal qualidades estruturais suficientes. Gostei muito das lições sobre Madame Bovary e A metamorfose. O livro de Flaubert é analisado cena a cena, as descrições são maravilhosas. Já o livro de Kafka é estudado com a ajuda de diagramas sobre o besouro (que Nabokov, também um respeitado entomologista, faz questão de identificar no lugar da barata que muitos preferem acreditar ser o resultado final da história de metamorfose contada por Kafka) e sobre o apartamento, a disposição das peças do apartamento da família de Gregor Samsa. A lição sobre Proust é relativamente curta. Apesar dele ser francamente favorável ao poder de encantamento do livro não se atreve a detalhar todo o ciclo, concentrando-se em como o primeiro volume (No caminho de Swann) prepara o leitor para a experiência total que terá ao chegar ao final. Na lição sobre O médico e o monstro utiliza várias ilustrações para explicar como Henry Jeckyl e Edward Hyde se relacionam. Neste capítulo ele cede a suas restrições de dar valor às questões de interesse humano ao falar de livros e cita as circunstâncias da morte de Stevenson, associando-as às transformações dos personagens do livro. A lição final, sobre o Ulysses de James Joyce, é a maior do livro, cobre quase um quarto dele. Nabokov discute cada um dos dezoito capítulos do livro em detalhes, arrisca solucionar um dos grandes enigmas do Ulysses, identificando o homem de capa de chuva marrom M'Intosh como o próprio autor, James Joyce (trata-se de uma aposta arriscada), parece divertir-se ao mostrar como opera a engenhosidade de Joyce. Ele é francamente refratário a associações simplistas com a Odisséia de Homero ou às interpretações algo freudianas, ou sentimentais, de exegetas de Joyce (Richard Kain, Stuart Gilbert, Harry Levin). A edição inclui mimos: uma introdução assinada por John Updike, um curto prefácio do editor, Fredson Bowers, e dois ensaios curtos assinados por Nabokov (A arte da literatura e o bom senso - um texto longo sobre o ofício de escrever, da experiência de tornar-se um escritor e L'envoi - um texto de encerramento antes das avaliações finais do curso). Essa edição inclui algumas ilustrações e diagramas produzidos por Nabokov, porém meu exemplar do original (editado em 1980) inclui um número muito maior. Paciência. No L'envoi ele diz: "Durante o curso, tentei revelar o mecanismo desses maravilhosos brinquedos - obras primas literárias. Procurei fazer de vocês bons leitores, que leem livros não com o objetivo pueril de se identificarem com os personagens, não com o objetivo juvenil de aprender a viver, e não com o objetivo acadêmico de se permitir generalizações. Tentei ensiná-los a ler livros pela prazer de conhecer suas formas, suas visões, sua arte". Sim, é isso que todo leitor deve buscar, sempre. Vale.
[início: 22/10/2015 - fim: 26/12/2015]
"Lições de literatura", Vladimir Nabokov, tradução de Jorio Dauster, edição/introdução/notas de Fredson Bowers, São Paulo: Três estrelas, 1a. edição (2015), brochura 16x23 cm., 464 págs., ISBN: 978-85-68493-18-2 [edição original: Lectures on Literature (New York: Harcourt Brace Jovanovich / Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company) 1980]

sábado, 10 de outubro de 2015

curso sobre el quijote

Ano passado, após ter lido o seminal "Lições de literatura russa", procurei outros conjuntos de notas de aula de Vladimir Nabokov. Por sorte encontrei dele esse "Curso sobre el Quijote", pois nesse 2015 se comemora os 400 anos do lançamento da segunda parte do Quixote (uma edição comemorativa acabou de ser publicada pela Real Academia Española). Trata-se de um livro que foi preparado a partir das aulas ministradas durante o período sabático em que Nabokov passou na Harvard University, em Massachusetts, no outono/inverno de 1951/52 (Nabokov manteve uma posição permanente na Cornell University, em New York, entre 1941 e 1959). Nesta edição, preparada pelo mesmo Fredson Bowers que organizou as "Lições de literatura russa" citadas acima, estão incluídos trechos generosos do texto original de Cervantes utilizados por Nabokov para apoiar/ilustrar suas considerações e opiniões (algo em torno de 40% do total do livro). Nabokov é um professor aplicado, não utiliza manuais ou resumos temáticos, combate tanto argumentos de outros acadêmicos quanto as opiniões dos leitores comuns. Ele busca no texto original as passagens que explicam a coesão da estrutura do romance; o processo de construção dos personagens; a técnica de Cervantes de isolar grupos de personagens para desenvolver um tema específico; as interpolações incluídas no romance (como "A novela do curioso impertinente" e a história de Cardênio e Lucinda); os momentos em que o texto fica obscuro; os lances geniais e também as falhas, os defeitos do livro. Nabokov aprecia muito a força dos diálogos de Cervantes, mas lamenta suas descrições da paisagem natural. O leitor perde, claro, o encantamento que a presença e a voz de Nabokov deveria produzir nas aulas, mas pode acompanhar no texto as ironias e o bom humor dele (ri um bocado durante a leitura). O livro está estruturado em três partes. Na primeira ele apresenta suas idéias sobre o quê é um romance; fala da fortuna crítica e dos mitos literários associados ao livro; detalha os componentes estruturais do livro: fragmentos de velhos romances de cavalaria, refrãos e jogos de palavras, diálogos teatralizados, pastiches de poemas, descrições pastoris - arcádicas, trapaças e ardis com efeitos cômicos; explica como Don Quixote e Sancho Pança perdem contato com o livro que os fez nascer e vagam hoje pelo mundo, ganharam vitalidade com o tempo, tornando-se únicos; contextualiza aquilo que para ele é o mais exasperante: a naturalidade dos atos violentos e cruéis (tanto físicos quanto psicológicos) distribuídos no livro; fala do falso cronista da história (o árabe Cide Hamete Benengeli), de Dulcinéia e da Morte; apóia (talvez o certo seja dizer que brinca com a idéia de apoiar) a possibilidade da segunda parte espúria do Quixote (publicada em 1614 por um sujeito que usou o pseudônimo de Alonso Fernández de Avellaneda) ter sido escrita pelo próprio Cervantes, como forma de fazer propaganda e aumentar as vendas da verdadeira segunda parte, publicada em 1615 (sobretudo por ser, segundo ele, literariamente falando, a melhor solução para muitas questões estruturais do livro). A segunda parte é uma espécie de jogo, onde Nabokov faz um censo de todas as batalhas nas quais se envolveu don Quixote (tanto as físicas quanto as morais, ou seja, aquelas em que ele apenas argumenta e não se envolve em combates). Ele faz uma analogia com as regras de contagem de pontos do tênis (pontos, games e sets), games, matches) para chegar a um curioso 6-3, 3-6, 6-4 e 5-7, que dá um empate em número de games e sets. Todavia don Quixote perderia, pois não chegaria a jogar um quinto set, perdendo para a morte. É um tanto forçado, mas tem lá sua graça, principalmente porque Nabokov descreve detalhadamente as circunstâncias de cada uma das vitórias e derrotas. "Narración y Comentario", a terceira parte do livro é composta de resumos temáticos de cada um dos 126 capítulos (somando as duas partes do livro). Em geral ele descreve os fatos do capítulo e transcreve uma passagem que lhe pareceu interessante ou bem escrita. Segundo Fredson Bowers, na apresentação, esta terceira parte não era discutida pormenorizadamente nas aulas, apenas eventualmente utilizada por Nabokov quando a discussão sobre o livro merecia algum detalhamento ou explicação, uma espécie de complemento ou expansão daquilo que era discutido nas aulas. Está incluído num apêndice a transcrição do material que Nabokov distribuía aos alunos com trechos dos dois livros que mais influenciaram Cervantes na composição do Quixote: "Le morte d' Arthur", de Thomas Malory e "Amadís de Gaula", de Vasco Lobeira. Os manuscritos originais de Nabokov estavam distribuídos em seis cadernos, correspondentes as seis palestras (lectures) ministradas. Enfim, Nabokov defende que o Quixote não é o melhor romance já escrito mas que o gênio de Cervantes e sua excepcional intuição artística deu a seu personagem central uma vitalidade incomum, algo que apenas muito raramente um autor alcança fazer. Em tempo: O governo espanhol prepara para o ano que vem muitas festividades por conta dos 400 anos da morte de Cervantes. Talvez seja a hora de reler o Quijote, voltar à Castilla-La Mancha, cruzar uma vez mais aquelas planícies áridas, comer queijo manchego e tomar vinho barato (não, melhor tomar um bom vinho barato). Vale.
[início: 01/09/2015 - fim: 09/10/2015]
"Curso sobre el Quijote", Vladimir Nabokov, tradução de Maria Luisa Balseiro, Barcelona: Ediciones B (Zeta Bolsillo: Biblioteca Ana Maria Moix), S.A., 1a. edição (2009), brochura 12,5x20 cm., 412 págs., ISBN: 978-84-9872-309-0 [edição original: Lectures on Don Quixote (New York: Harcourt Brace Jovanovich: New York) 1983]

domingo, 21 de dezembro de 2014

lições de literatura russa

Terminei essas "Lições de literatura russa" de Vladimir Nabokov ainda em outubro deste ano, mas decidi deixar para escrever um registro de minha leitura apenas agora, no final de ano, em meu balanço. Talvez seja porque eu tenha lido coisas interessantes de Nabokov nesse ano; ou por conta de uma bela história da Rússia que li e que me impressionou ou apenas porque já terminei um ano de leituras com um livro russo (em 2011 finalizei o ano com uma resenha de um livro de Joseph Brodsky). Um crítico literário para Nabokov é "um sacerdote das opiniões médias dos leitores de cada tempo". Ele tem reservas ao ato da crítica ligeira (afinal qualquer charlatão pode emitir o juízo que quiser sobre um determinado assunto e imaginar-se tão fundamentalmente crítico quanto qualquer especialista ou erudito de fato, normalmente mais cuidadoso sobre o que fala e escreve). Entretanto o que é apresentado nessas lições não é simples crítica, mas sim notas de aula progressiva e recorrentemente utilizadas por ele em sua prática como professor universitário (por quase duas décadas, de 1941 a 1959, sobretudo no Wellesley College, em Massachusetts, e na Cornell University, em Ithaca, New York). O trabalho de compilação e organização das notas é assinado por Fredson Bowers (um acadêmico). Segundo Bowers os originais incluíam tanto textos manuscritos quanto material datilografado, além de fichas e quadros sinópticos, de forma que o material revela "estágios muito diferentes de preparação e polimento". Nessa compilação Nabokov fala especificamente de literatura russa, explica a seus alunos como ler adequadamente Fiódor Dostoiévski, Nikolai Gógol, Maksim Górki, Anton Tchekhov, Liev Tosltói e Ivan Turguêniev (são, respectivamente, 48, 60, 34, 58, 110 e 40 páginas dedicadas a cada um destes autores). Uma pessoa que conheça bem as narrativas de cada um dos autores estudados aproveitará melhor as notas, muito embora o texto seja envolvente o suficiente para encantar qualquer leitor, mesmo o mais completo neófito dos assuntos russos. Há generosas transcrições das traduções de Nabokov dos originais analisados (ele desconfiava particularmente das traduções do russo para o inglês disponíveis naquela época: "traduções abomináveis" dizia). Um terço do livro é de traduções dos originais. Aprendi um bocado, mas o fato de ter lido pouco os russos certamente me fez perder muitas associações e ênfases. De qualquer forma Nabokov oferece ao leitor longas descrições sobre técnicas narrativas e sobre os fundamentos da construção de um romance, explica também os  compromissos inerentes a esse ofício tão singular e atávico, que enfeitiça e destrói todo aquele cuja vaidade é maior que seu talento, disciplina ou esforço. Segundo ele, por exemplo, um escritor nunca deve ser ventríloquo de clichês jornalísticos de cunho fascista ou socialista (sorte dele não ter conhecido a literatura brasileira contemporânea), nem, tampouco, se impressionar com eventuais sucessos ou fracassos, de crítica ou público. Ele é implacável com Dostoiévski (para ele um escritor medíocre) e bastante generoso com Gógol, Tosltói e Tchekhov. Algo da biografia dos escritores que analisa é oferecido ao estudante/leitor, mas trata-se de algo secundário, o importante nas lições sempre é o que ele tem a dizer sobre a força inerente aos textos produzidos por eles. Nabokov oferece também muito de sua habilidade em interpretar como se comportam os seres humanos, sua descrição de como nos escondemos de nós mesmos quase sempre, através de mecanismos como hipocrisia, sarcasmo, mentira ou auto-ilusão. Transcrever as seminais frases de Nabokov rouba algo do prazer  do leitor de descobri-las por si só durante a leitura, mas deixo aqui uma única, que exemplifica bem o absoluto de suas convicções: "É difícil evitar o lenitivo da ironia e o luxo do desprezo ao examinar a imundície em que mãos submissas, tentáculos obedientes comandados pelo polvo inchado do Estado, conseguiram transformar em meu país essa coisa ardente e fantasticamente livre que é a literatura. Além disso, aprendi a valorizar minha repugnância por saber que, me mantendo tão indignado, preservo o que posso do espírito da literatura russa. Depois do direto de criar, o direito de criticar é a maior dádiva que podem oferecer a liberdade de pensamento e a de expressão." Considerando que isso foi escrito há mais de sessenta anos só nos resta reconhecer que o fascismo e o totalitarismo nunca dormem. Grande livro. E há outros livros dele com esse tipo de notas de aula, livros dedicados a James Joyce, Miguel de Cervantes, literatura em geral, Alexander Pushkin e Nikolai Gogol. Vou procurá-los, seguro que sim.
[início: 27/09/2014 - fim: 08/10/2014]
"Lições de literatura russa", Vladimir Nabokov, tradução de Jorio Dauster, edição/introdução/notas de Fredson Bowers, São Paulo: Três estrelas, 1a. edição (2014), brochura 16x23 cm., 399 págs., ISBN: 978-85-65339-30-8 [edição original: Lectures on Russian literature (New York: Harcourt Brace Jovanovich / Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company) 1981]
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Balanço final [21.12.2014]
Hoje é o solstício de verão em nosso hemisfério (é o dia mais longo do ano, marca o início do verão, o dia com mais luz). Por uma coincidência bizarra ficamos 15 horas sem luz, num apagão dos diabos. E é o dia de nascimento de Frank Zappa. Evoé Zappa! Vamos a ver. É certo que 2014 foi um bom ano de leituras. Investi um tanto mais em não ficção do que faço usualmente (foi uma sugestão das boas de don Renato Cohen). Li coisas interessantes sobre viagens e cidades (livros sobre Veneza, Rússia, Alemanha, Berlin, Curitiba, Porto Alegre, Cuba, Salvador e Recife). Li umas biografias curiosas (de Lucian Freud, Proust e  James Joyce). Li um bom livro sobre Javier Marías (assinado por Gareth Wood) e li o último e soberbo livro dele (Así empieza lo malo). Li mais dois bons livros do Natsume Soseki, três do Mempo Giardinelli e quatro Vila-Matas. Participei de um projeto bacana, um livro de resenhas de autores contemporâneos, editado pela Dublinense (e organizado por Léa Masina, Rafael Bán Jacobsen, Daniela Langer e Rodrigo Rosp). Foram 102 registros de leitura ao longo do ano, bem perto da média dos dois anos anteriores, mas um tanto abaixo da média histórica, iniciada em 2007, que era de 114 livros por ano. Foram 25 de crônicas e ensaios; 15 romances; 13 de contos; 12 de poesia; 10 de perfis, biografias, memórias e relatos; 7 novelas; 5 infanto-juvenis; 4 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 3 de fotografias; 2 de gastronomia; 1 único romance policial; 1 de turismo e 1 de mini-contos. Pode-se também dividir essas leituras em 35 de ficção e 36 de não-ficção, além de 12 de poesias e 19 divertimentos (não se deve ler nunca nada sem alegria, claro). Mantive a média de leituras de originais em inglês e em espanhol (7% e 30% do total dos livros do ano, respectivamente). Completei 900 resenhas em 2014 e certamente chegarei ao número mágico de 1000 antes do final de 2015. Além do livros o ano propiciou muitas alegrias. Doña Natália passou para o quarto ano de psicologia. Doña Helga trabalhou e viajou bastante pelo mundo da arte. Estivemos juntos em Berlin, caminhamos e nos divertimos à beça. Estive no Hora H, homenagem ao Haroldo de Campos na gloriosa Casa das Rosas (que comemorou 10 anos, evoé!). Participei de uma festa das boas, a dos 70 anos do Frank Missell, onde reencontrei com ele e com tantos bons amigos. Tive a chance de ir a São Paulo e reencontrar Oscar e Péricles; Toninho e Fernando; Renato e Luiz, Marcos, Samuel e Heloísa, Jackie e todo o povo de Samber, todavia me perdi da Sibele e da Beth, do Aníbal e do Parreira (vamos a ver se os encontro em 2015). Revi o Jesus González em Madrid, mas me perdi do Manolo e da Cris. Em Santa Maria recebi a visita de Frank e Fernando (e que boas conversas tivemos). Organizei com os amigos da CESMA e do Ponto de Cinema o vigésimo primeiro Bloomsday em Santa Maria. Conheci don Abdon Grilo, um sujeito surpreendente, que mantém um blog cheio de maravilhas sobre o Ulysses de James Joyce. Clara terminou o ensino fundamental. Victória terminou a pré-escola (e já sabe escrever seu nome sem medo). No ano que vem faremos festa pelos 90 anos de meu pai, don Papandreos Severinovich. Certamente será algo a se comemorar prá valer.
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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

o olho

Em "O olho" Nabokov explora alguns de seus temas recorrentes, como os de identidade, duplo e subjetividade. Originalmente fez parte de um conjunto de contos, mas o próprio Nabokov entendia esse texto como um pequeno romance, tanto em experimentalismo como em extensão. Cronologicamente é a quarta de suas narrativas mais longas. Foi composta em 1930 em Berlim e nesse ano publicada em uma revista para expatriados russos de Paris chamada Sovremennyya Zapiski. Em 1965 seu filho Dimitri a traduziu para o inglês e ao texto foi acrescentado um prefácio assinado pelo próprio Nabokov, onde ele discute a eventual perenidade de seu trabalho após 35 anos, bem como as circunstâncias de sua produção e interpretação. Nabokov apresenta um narrador em primeira pessoa (Smurov, um jovem emigrante russo na Berlim dos anos 1920) que se suicida logo no início do texto, após ter sido espancado por um sujeito furioso (podemos acreditar ou não que o suicídio se consumou, não importa). A partir daí o que se lê são trechos alternados em primeira e em terceira pessoa, onde o leitor é apresentado à personalidade e ao comportamento de Smurov. O narrador em primeira pessoa louva suas qualidades e aventuras, sua capacidade de enganar a todos com quem convive, seus amores, o mistério de suas reais intenções e planos. O leitor percebe logo que esse narrador é um mentiroso compulsivo, mas fica curioso sobre seu estado (afinal ele pode ser um fantasma, já estar morto, ou ser apenas um pobre diabo louco que sobreviveu a uma tentativa de suicídio). O narrador em terceira pessoa explicita as contradições de Smurov, faz transparecer ao leitor o quão mesquinho e miserável é o protagonista, mas não o condena ou é moralizante (Nabokov sabe o quão má é a literatura que deixa de ser arte e se traveste de ferramenta de engenharia social). Sem também apelar para malabarismos de interpretação psicológica Nabokov alcança com humor refinado mostrar-nos um processo de dissociação, onde os delírios de grandeza e a poderosa capacidade do ser humano em iludir-se completamente apenas desnuda que sempre enganamos nós mesmos quando imaginamos enganar todos os demais.
[início: 18/09/2014 - fim: 23/09/2014]
"O olho", Vladimir Nabokov, tradução de José Rubens Siqueira, Rio de Janeiro: editora Objetiva / Selo Alfaguara (Grupo Prisa), 1a. edição (2011), brochura 15x23 cm., 107 págs., ISBN: 978-85-7962-098-0 [edição original: Соглядатай, Sogliadatai (Paris: Russian Annals Publishing House) 1938 - em russo; The Eye (London: Phaedra) 1965 - em inglês, traduzido por Dimitri Nabokov]

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

fala, memória

Terminei de ler essa autobiografia de Nabokov ainda na semana passada, mas que dia melhor para falar dele que hoje, o dia do equinócio, dia em que começa a primavera (às 23h29min)? Assim será. Como o título evoca, "Fala, memória" é a versão - definitiva - das memórias de Vladimir Nabokov. No início de 1966 ele revisou o que havia escrito e publicado antes em revistas, mudou o título da primeira edição em livro (chamava-se "A prova conclusiva") e acrescentou um último capítulo (que é uma divertida resenha crítica de seu próprio livro, explicando o que ele entende ser os padrões temáticos de cada um dos quinze capítulos anteriores). Eles não foram nem escritos, nem publicados na ordem cronológica em que são apresentados agora no livro. O texto mais antigo é de 1936 (publicado na revista Mesures quando ainda morava na França) e os demais produzidos quando já vivia nos Estados Unidos, entre 1946 e 1951, publicados em revistas como The New Yorker, The Atlantic Monthly, Harper's Magazine e Partisan Review, antes da primeira edição em livro (também em 1951, pela Harper and Bros.). Os capítulos descrevem desde suas lembranças mais remotas, quando era pouco mais que um bebê (se é que isso é possível), até sua saída da Europa, em 1940, quando a segunda grande guerra começava. Nabokov nasceu no final do século XIX (22 de abril de 1899, no calendário ocidental), em São Petersburgo, filho mais velho de uma rica família russa (não exatamente nobres, mas seguramente muito ricos e poderosos). Em 1919, durante a revolução soviética, sua família e ele emigram da Rússia. Ele se instala primeiro na Inglaterra, em Cambridge, onde cursa a universidade, depois vive longos períodos em Berlin e Paris. Em 1940 emigra para os Estados Unidos, onde vive vinte anos, até 1961, para então emigrar uma última vez, para a Suiça, onde morre, em 1977. Se um sujeito quer entender o mundo e o estilo de vida que Nabokov vê desmoronar em 1917 recomendo fortemente o "História concisa da Rússia", que já resenhei aqui. "Fala, memória" flerta com o sombrio repetidas vezes, ao lembrar da opressão brutal e absoluta oferecida pelo bolchevismo (sonho de consumo de dez entre dez dos idiotas que estão de plantão no governo federal brasileiro, em seu projeto de retenção eterna do poder). Mas ao mesmo tempo é um livro repleto de passagens maravilhosas, em que o leitor imerge nos anos de formação intelectual de um sujeito que aprendeu a conhecer como se comportam os homens tanto em tempos de alegrias quanto em tempos sombrios. Associar vários dos capítulos com o ciclo proustiano "Em busca do tempo perdido" é mais que automático. O primeiro capítulo, onde encontramos as memórias mais remotas: de seu batismo,  de seu pai sendo arremessado para o alto pelos servos, parece brotar de "O caminho de Swann"; o capítulo 12: onde ele fala dos anos de paixão por uma garota que ele chama de Tamara, ecoam "A prisioneira" e "A fugitiva"; o capítulo 6: onde ele fala dos dias numa praia francesa (Biarritz) lembra a Balbec de "À sombra das raparigas em flor"; o capítulo 14: onde a segunda grande guerra é eminente e o mundo parece mudar rapidamente, lembra a clarividência do narrador de "O tempo redescoberto". Claro que aquilo que é narrado, ou seja, a história de sua vida e lembranças, é algo muito interessante, mas é o estilo de Nabokov, a beleza das frases e as associações entre a natureza e os sentimentos dos homens que fazem a alegria do leitor. As imagens evocadas são realmente vívidas. Inspiradoras são as lembranças dos pais, dos tutores e babás, do primo Yuri, do irmão Sergey (que morrerá num campo de concentração alemão), de R.A.Butler (um político inglês que não entende a ameaça stalinista), dos anos deslizantes que antecedem a segunda grande guerra. Em algum momento do livro ele diz esperar um dia poder falar dos anos 1940-1960 passados na América do Norte, mas isso nunca chegou a acontecer. O livro é dedicado a sua mulher Vera, que aparece como interlocutora várias vezes (notadamente nos momentos difíceis, de decisões difíceis). Duas de suas grandes paixões: o Xadrez e a Lepidopterologia, mereceram longos capítulos (sua dedicação ao estudo e coleção das borboletas e mariposas rendeu-lhe reconhecimento acadêmico). Os quatro romances escritos em russo, quando vivia em Berlin e Paris, aparecem descritos marginalmente (ele utiliza um alter ego, que ele chama de Sirin, para falar destes livros). Já havia lido em ensaios de W.G. Sebald e Javier Marías onde as maravilhas desta autobiografia eram contadas, mas não tinha idéia de que iria me divertir tanto. A vida de Nabokov parece o ciclo lagarta e borboleta, não exatamente repetindo-se, antes como que metamorfoseando-se de vinte em vinte anos (em ciclos vividos na Rússia, Inglaterra/França/Alemanha, Estados Unidos e por fim Suiça). A Alfaguara fez bem em publicar essa autobiografia de Nabokov tão perto do início da primavera. Isso deu-nos tempo de nos preparar para essa revoada de borboletas (que são suas memórias e o desejo de ser compreendido, afinal).
[início: 07/09/2014 - fim: 16/09/2014]
"Fala, memória: uma autobiografia revisitada", Vladimir Nabokov, tradução de José Rubens Siqueira, Rio de Janeiro: editora Objetiva / Selo Alfaguara (Grupo Prisa), 1a. edição (2014), brochura 15x23 cm., 327 págs., ISBN: 978-85-7962-313-4 [edição original: Speak, Memory - An autobiography Revisited (London: Victor Gollancz Ltd) 1951]

sábado, 12 de abril de 2014

desde que te vi morir

"And in the twilight toward me a man / comes, class. I recognize / your energetic stride. You haven't / changed much since your died. // Y en el crepúsculo viene hacia mí / un hombre, llama. Reconozco / tus enérgicas zancadas. No has cambiado / mucho desde que te vi morir." Encontramos em "Desde que te vi morir" dezoito poemas de Vladimir Nabokov, escritos entre 1919 e 1956, publicados quase todos em revistas e jornais antes da edição em livro, em 1970. Javier Marías os traduziu em 1979. Em 1999, no centenário de nascimento de Nobokov, os poemas foram revistos e reeditados numa bela edição da Alfaguara. O livro inclui dezoito problemas de xadrez inventados por Nabokov (que era um aplicado jogador). Estes problemas e suas soluções fazem parte da edição original e foram traduzidos por Félix de Azúa, que assina também uma nota prévia ("La poesía del ajedrez"). Encontramos por fim cinco ensaios curtos assinados por Marías ("Para que Nabokov no se le cargue - presentación o disimulo"; "Los imposibles pasos del exiliado ruso"; "Vladimir Nabokov en éxtasis"; "El canon Nabokov"; "La novela más melancólica - Lolita recontada"). Assim, neste pequeno livro encontramos ao menos três alegrias distintas: alguns dos poemas de Nabokov, as opiniões fortes de Marías sobre um de seus autores mais admirados, uma desafiadora amostra da paixão de Nabokov por xadrez. Começo por este último conjunto: não é tarefa para amadores. Os problemas são difíceis, mas como há soluções e variantes, aprendemos com elas. Féliz de Azúa nos explica que há um paralelo entre a estrutura argumental básica de alguns livros de Nabokov com o tema dos problemas enxadrísticos, pois a peça de xadrez (ou o protagonista) que se movimenta provoca sua destruição (e é a nostalgia de sua posição/status anterior  - que gera o movimento inicial - que implicará nesta queda e/ou morte). Interessante. Senti saudades de meus dias de enxadrista furioso. Os ensaios de Javier Marías sempre são um assombro. Ao mesmo tempo que informam sobre a vida de Nabokov eles dão pistas sobre suas escolhas literárias e método de tradução (afinal Nabokov é também o tradutor de sua obra, quase sempre escrita em russo e depois transcrita por ele para o inglês, ou como no caso de sua obra mais conhecida, "Lolita", escrita originalmente em inglês e depois vertida para o russo). Nos poemas a paisagem parece não existir. O narrador está sempre olhando o céu, as estrelas, ou um mundo interior, abstrato, onde há apenas o vazio, os pensamentos, as idéias. Num poema o leitor encontra um corredor, um hotel, uma vela, mas logo essa última se apaga e deixa narrador e leitor novamente na escuridão. São poemas densos, que deixam-se ler com vagar e cobram um bom tempo de reflexão. São poemas que antecipam as névoas de um inverno longo e frio mas ao menos parecem dizer: ainda podes se preparar, há tempo.
[início: 22/02/2014 - fim: 10/04/2014]
"Desde que te vi morir (Vladimir Nabokov: una superstición)", Vladimir Nabokov, tradução de Javier Marías e Félix de Azúa, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de Ediciones), 2a. edição (1999), capa-dura 19x27,5 cm., 141 págs., ISBN: 978-84-204-7853-9 [edição original: Vladimir Nabokov, Poems and Problems (New York: McGraw-Hill, 1970), edição original da tradução: revista Poesía, n0. 4, verão de 1979 (Madrid, Espanha)]