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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

correspondência 1945-1970

Escrevo esse registro justamente hoje, 25 de novembro, 49 anos após o suicídio ritual de Yukio Mishima. Encontrei esse volume de cartas e também cartões postais por acaso, quando procurava um outro livro. Não havia lido nada sobre a edição e o lançamento, bastante recentes. Li as cartas sem pressa, tentando emular algo das camadas de tempo que elas guardaram, que elas capturaram. Que alegria ler este livro. Pois então. Entre março de 1945 e julho de 1970, Yasunari Kawabata e Yukio Mishima cultivaram uma franca amizade, sobretudo por meio de cartas. Mishima tinha pouco menos de 20 anos quando recebeu a primeira das cartas de Kawabata, impressionado com a força de "Floresta em plena florescência", primeiro de seus livros publicado. Kawabata já era um senhor - um jovem senhor se atualizarmos a régua da vida aos nossos dias, tinha  46 anos, mais que o dobro de Mishima. Por 25 anos, até o suicídio de Mishima, em novembro de 1970, os dois mantiveram uma relação de admiração e também competição, de respeito e rivalidade, de eternos mestre e discípulo. A leve assimetria no número de cartas (42 de Kawabata a Mishima, 51 de em sentido contrário), certamente deve-se ao início da correspondência entre eles, regrada pelo zelo com a etiqueta, por regras de conduta e boa educação, que hoje soam quase surreais nos relacionamentos entre indivíduos. Nas cartas não é apenas sobre literatura que se fala. Discute-se o estado de ânimo de cada um, problemas de saúde, opções de carreira, impressões de viagem, opiniões sobre peças de teatro (Mishima também foi um habilidoso dramaturgo), dúvidas mundanas, questões bastante pessoais. Claro, na maioria das cartas ou dos cartões postais a interlocução gravita o ofício do livro, da invenção, da estética, da política literária (Kawabata foi durante anos presidente do Pen Club japonês). Qualquer leitor familiarizado com a obra destes dois tremendos autores encontrará neste volume muita informação, muita reflexão sobre as obras de ambos, muitos esclarecimentos sobre o processo de criação literária praticado por eles. A edição oferece muitos mimos ao leitor: um bom posfácio, assinado por Donatella Natili, onde se contextualiza as cartas entre as demais publicações de ambos; curtos fatos biográficos dos dois, e uma longa bibliografia. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1470 (cartas #10) 
[início: 12/09/2019 - fim: 25/10/2019]
"Correspondência 1945-1970, Kawabata e Mishima", Yasunari Kawabata, Yulio Mishima, tradução de Fernando Garcia, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm., 256 págs., ISBN: 978-85-7448-299-6 [edição original: Kawabata Yasunari, Mishima Yukio Ohfuku Shokan (川端康成・三島由紀夫往復書簡) 新潮文庫 1997]

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

beleza e tristeza

As cousas do Japão já há tempos me encantam. Vez ou outra me aproximo deste povo, de sua arte principalmente. Encontrei este "Beleza e tristeza" por acaso. A capa bonita, com duas partes de gravuras, uma de Hiroshige e outra de Yoshitoshi, chamam a atenção do vivente. O título também é um achado (quando se está particularmente vulnerável tudo se transforma em um sinal.) Eu estava em Porto Alegre, tinha acabado de despedir-me novamente das catalanas, como não associá-las a tristeza e a beleza? Comprei e começei a ler o livro em Porto Alegre ainda. Que belo livro! O enredo desenvolve sutilmente relacionamentos amorosos. Um é de um passado indefinido, entre um rapaz dos seus 30 anos e uma adolescente de 16. A moça é seduzida, fica grávida, perde a criança, é abandonada, esquecida e rejeitada. O outro relacionamento dá-se, vinte e cinco anos após o primeiro, entre os mesmos dois personagens, que se reencontram por força de uma decisão do agora velho rapaz, só que agora eles são apenas coadjuvantes de uma nova versão do seu passado, revivido por dois outros jovens adolescentes: a pupila da moça e o filho do rapaz. Aquela seduz pai e filho como forma de vingar-se do sofrimento de sua mestra (com quem afinal também mantêm um relacionamento amoroso.) As artes plásticas, a música, a jardinagem, a literatura, a lingüística, a música, a cerimônia do chá, a estética, as muitas belezas enfim, transbordam pelo livro. Mas os sucessos dos dois relacionamentos (principalmente entre os dois jovens adolescentes) provocarão dor e tristeza. O confronto e a necessidade de se impor sobre o outro é inevitável. O livro tem um bom prefácio de Teixeira Coelho e um curto posfácio de Roberto Yokota, mas a tradução foi feita a partir de uma versão em inglês, um ponto a menos para a editora Globo desta vez. Este livro vale o esforço afinal de contas. [início 10/01/2009 - fim 13/01/2009]
"Beleza e tristeza", Yasunari Kawabata, tradução de Alberto Alexandre Martins, editora Globo (3a. edição) 2008, brochura 14x21, 289 págs. ISBN: 978-85-250-4539-3