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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

a última mulher

Há doze anos li alguns livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza (O silêncio da chuva, Espinosa sem saída e Berenice procura), mas cansei, não conseguia entender o entusiasmo dedicado a seus romances policiais naquela época (ele chegou a ganhar um prêmio Jabuti). Recentemente topei com um livro dele em um aeroporto e resolvi experimentar. Li "A última mulher" em menos de duas horas, pouco mais do tempo de voo. A trama começa na Cinelândia e Lapa, no centro da cidade do Rio de Janeiro, mas logo se desloca para os domínios do delegado Espinosa, em Copacabana, em seu reduto afetivo no bairro Peixoto. Ratto, um cafetão, e seu sócio alcoólatra, Jappa, são perseguidos por um policial corrupto, atraído pelo bom dinheiro que eles ganham com prostitutas. Habituado a situações deste tipo, Ratto desaparece por uns tempos e conhece Rita, uma jovem prostituta, com quem acaba se envolvendo. A caçada humana empreendida por Wallace, o policial corrupto, deixa vários assassinatos brutais pelo caminho. Espinosa, que conhece Ratto e o sabe inofensivo, acaba se envolvendo no caso. Dizer o quê? A narrativa é muito fraca, esquemática, frouxa demais. Antes parece um esboço, uma primeira versão de uma ideia, que um produto pronto. Acho que preciso ficar outros doze anos sem Garcia-Roza. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1455 (romance policial #89) 
[início - fim: 24/07/2019]
"A última mulher", Luiz Alfredo Garcia-Roza, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 117 págs., ISBN: 978-85-359-3237-9

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

taxi


Arre! Terminei de ler este Berenice Procura e fui logo procurar algo com mais estofo, esgotado que fiquei. Chega. Vou ficar um bom tempo sem ler nada de Garcia-Roza para ver se aparece uma saudade do Rio de Janeiro que me faça voltar a ler algo dele. O livro é repetitivo, surreal, quase risível acreditar que algo ali possa ser verossímil: uma taxista se faz detetive e investigadora, pesquisa, conversa, interroga, achaca, confronta, tudo isto entre uma corrida de taxi entre ipanema e o leme, aprendendo filosofias com seus cerebrais clientes. Tudo me pareceu artificial demais. Uma caverna artificial escondida a meio caminho do posto 6 e da lagoa Rodrigo de Freitas, só frequentada pelo trio de personagens principais da trama. Incrível. A idéia inicial segue o manual dos livros de detetive: um sujeito vê um crime na praia, logo percebe que uma outra pessoa também testemunhou a cena. Dias depois o segundo sujeito morre, de forma que a primeira testemunha deve começar por si mesma desvendar um crime torpe demais para interessar delegados e investigadores. Aliás neste volume não temos o curioso delegado Espinosa (ao menos não explicitamente, ele bem que poderia ser um dos passageiros da taxista voluntariosa da trama). Berenice me lembra Miss Marple, personagem de Agatha Christie que se fazia de boba para descobrir as soluções para enigmas e crimes misteriosos. O final lembra um epílogo de teatro grego, onde os personagens principais discutem o desfecho da trama. De qualquer forma este livro está longe de ser interessante. Fiquei entediado mesmo e só meu estoicismo para fazer-me terminar de lê-lo. Vamos ao Javier Marias que eu deixei de lado e já está a se mostrar deveras interessante.
Berenice Procura, Luiz Alfredo Garcia-Roza, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2005) ISBN: 85-359-0753-X

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

divâ


No mês passado comentei aqui que já que estava a ler os romances policiais de Montalbán sempre com renovado prazer havia chegado a hora de experimentar um autor brasileiro do mesmo gênero para compará-los. Li o primeiro Garcia-Roza publicado, ganhador do prêmio Jabuti, O silêncio da chuva. Fiquei dividido. O livro é bem escrito, mas a trama frouxa demais para meu gosto lapidado pelo Montalbán. Bom, a comparação é cruel, mas não há o que fazer. Resolvi ler dois dos últimos livros do Garcia-Roza publicados, fáceis de encontrar, para entendê-lo melhor. O que vou resenhar aqui é Espinosa sem saída, o outro, Berenice procura, ainda não li, mas vou resenhar na seqüência. Neste Espinosa sem saída temos uma trama que faz parte da experiência profissional do autor, um psicanalista, professor e autor de livros técnicos de psicanálise. Um crime incomum é cometido e um dos suspeitos é um sujeito casado com uma psicóloga bem-sucedida. O delegado Espinosa e sua brigada de auxiliares usam seu tempo livre para continuar a investigar um crime que usualmente seria arquivado pela irrelevância, pois o morto é um indigente, sem família, sem documentos, um não-cidadão. Um outro crime acontece e o desfecho do enredo entrelaça a elucidação de ambos. Esta elucidação passa pelos divâs dos personagens e também da própria cidade, assombrada por seus fantasmas e suas complexas camadas de extratos sociais. Uma farta descrição dos mecanismos dos traumas de infância, de perversões sexuais e patologias clínicas entram no enredo. Descobrimos quem são os assassinos. Fim do livro. Bem, o livro é bem escrito, os personagens interessantes, o cenário da zona sul carioca radiante em suas páginas, mas eu ainda não fui arrebatado por este delegado que gosta de literatura e filosofia e que tem uma ética incomum. Claro, vou me esforçar e ler mais livros deste sujeito. Quero tentar entender um tanto mais o Rio de Janeiro, que ele explica sem se utilizar dos argumentos batidos que usualmente associamos à cidade. Entretanto, assim como com o Montalbán, vou ter de garimpar nos sebos os livros mais antigos dele, esgotados que estão (este é mesmo um curioso fenômeno editorial brasileiro, as edições são tão pequenas, que mesmo um livro de relativo sucesso deve esperar anos para ser reeditado).
Espinosa Sem Saída, Luiz Alfredo Garcia-Roza, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) ISBN: 85-359-0939-7

domingo, 9 de setembro de 2007

praça mauá


A capa é muito bonita, as indicações da contracapa generosas, os selos discretos do Jabuti e do prêmio Nestlé de literatura reluzindo como excelentes abre alas, mas eu não gostei deste livro. É um romance policial clássico: há um crime e um sujeito ambíguo demais para parecer um bom detetive se apresenta para resolver o problema após uma sucessão de sustos. Este formato funciona com Poirot, com Maigret, com Sherlock Holmes, com Miss Marple, com San Spade (principalmente quando Humphrey Bogart o interpreta) e, é claro neste ano espanhol, com o detetive, gastrônomo e catalão Pepe Carvalho. Claro que este "O Silêncio da Chuva" é bem escrito e tem passagens boas de se ler, mas não há como comparar a irônia e modacidade do Carvalho, por exemplo, com o Espinosa de Garcia-Roza. Os contrastes do Rio de Janeiro que todos conhecemos são bem descritos no livro, ficamos curiosos com os possíveis desfechos, mas eu, bem antes do meio do livro, já havia pensado que o assassino natural do livro seria o sujeito que ao fim é revelado pelo detetive. Isto não é exatamente um problema, mas deixa um travo na boca. As tramas dos romances policiais são sempre rocambolescas e repetitivas mas muito neste livro pareceu-me artificial demais para eu me tornar um viciado em Garcia-Roza como tornei-me do Vazquez Montalbán. Claro que vou dar outras chances ao Garcia-Roza (não sou tão definitivo assim). Há ao menos uma outra meia dúzia de títulos onde o detetive Espinosa se apresenta diretamente do 1o. DP (na praça Mauá) para levantar o tapete das sujeiras cariocas. Vamos acompanhá-lo pois neste que também é o ano dos romances policiais.
O Silêncio da Chuva, Luiz Alfredo Garcia-Roza, editora Companhia das Letras, 3a. edição (2005) ISBN: 85-7164-612-0