Mostrando postagens com marcador J.M.G. Le Clézio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador J.M.G. Le Clézio. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de setembro de 2012

história do pé

São dez histórias, dez fantasias, como J.M.G. Le Clézio prefere chamá-las. A última delas é um tanto diferente das demais, já que se trata de uma espécie de posfácio ("Quase apólogo"), no qual ele narra o que o leitor pode entender como a gênese de cada uma delas. Le Clézio fala de suas viagens no metrô parisiense, um microcosmo de vida, de aventuras, de misérias e alegrias que eventualmente podem ser recolhidas por um observador atento e eventualmente podem ser transformadas em literatura, em ficção. Inspiradas pelo que se vê nos vagões do metrô as nove histórias surgem, inventadas ou compiladas, tanto faz. Mesmo em um mundo em que tudo, inclusive a vida, pode ser um espetáculo, pode ser consumido, qualquer história pode ser transcendental para quem as vive, mas são banais, irrelevantes e comuns para o mundo. Em "História do pé" uma garota experimenta uma vida monótona em Paris, mas descobre durante uma gravidez que há algo de grande valor em sua capacidade de amar; em "Barsa, ou Barsaq" dois jovens arriscam e testam seu amor ao fugir de uma vida miserável na África equatorial, tentando chegar a Europa (que também sabe ser miserável, mas metamorfoseada em outra forma, como todo mal); em "A árvore Yama" uma garota consegue sobreviver durante uma guerra civil (e salvar uma amiga) unindo-se espiritualmente a um grande baobá; em "L.E.L., últimos dias", Le Clézio sugere quais foram as circunstâncias que levaram a poetisa inglesa Letitia Elizabeth Landon até Gana, no ínício do século XIX, onde ela morre; em "Nossas vidas de aranhas" Le Clézio dá voz a uma legião de aranhas, escondidas em uma grande caverna, que velam os sucessos da passagem do tempo pela vida dos homens; em "Amor secreto" uma freire passa seus dias inventando histórias e registrando-as em livro, para lê-las para detentas de uma prisão; em "Felicidade" acompanhamos como num mundo pós-apocalíptico um sujeito conta sua conversão às verdades de uma espécie de messias e das perseguições, torturas e prisão que sofre em nome dele; em "Yo" um sujeito com algum grau de deficiência mental narra sua vida, seu mundo, seu entendimento das coisas e na última das histórias/fantasias, "Ninguém", a alma ou espírito de uma criança não nascida (cuja mãe foi morta em uma guerra civil) vaga por fronteiras violentas do mundo, fazendo o censo de outras mortes (algo que lembra aspectos do filme "Asas do desejo", do Wim Wenders). As histórias povoam geograficamente países que fizeram parte de impérios coloniais (franceses ou não): Senegal, Argélia, Gana, Caribe, México, Libéria. Todas elas flertam com o que há de primitivo e terrível na experiência humana, mas em todas elas encontramos um grande amor pelo poder da palavra, da literatura, como fonte de esperança em nossas aventuras.
[início 20/08/2012 - fim 29/08/2012]
"História do pé e outras fantasias", J.M.G. Le Clézio, tradução de Leonardo Fróes, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2012), brochura 15,5x22 cm, 288 págs. ISBN: 978-85-405-0211-6 [edição original: Histoire du pied et autres fantaisies (Paris: editions Gallimard) 2011]

sábado, 16 de julho de 2011

raga

Nunca li um livro de J.M.G. Le Clézio que não abordasse um tema terrível, mas o sujeito é tão genial que o leitor - e ao menos comigo sempre foi assim - acaba se apaixonando pelo texto. Em "Raga" Le Clézio apresenta um relato de viagem, mas há algo de ficção no texto, na forma em que ele apresenta suas reflexões. Le Clézio nos fala das ilhas de um país chamado Vanuatu, um país jovem, que alcançou a independência apenas em 1980. Falando destas ilhas ele fala de todas as pequenas ilhas do Oceano Pacífico, de todo o povo que aprendeu a percorrê-las, que aprendeu a conhecê-las e respeitá-las, até o funesto momento em que foram confrontados com a realidade da chegada dos europeus. Assim como nas Índias, na África e nas Américas, quando a escória da raça branca chegou a miríade de ilhas do Pacífico só trouxe morte, pilhagem e destruição. Le Clézio não nos poupa de descrever alguns destes fatos terríveis, mas ao mesmo tempo ele consegue nos convencer que há lugar para otimismo e esperança no futuro destes povos. Ele descreve uma travessia marítima entre as ilhas, descreve como toda uma tribo se lança ao mar, contra os elementos, sem carregar mais do que o imprescindível, sem levar no peito mais que o conhecimento, a memória e o desejo de um lugar melhor. Ele descreve também a geografia das ilhas principais de Vanuatu, fala das lendas e mitos do povo ali radicado, conta sobre os homens e mulheres que ali viveram. Mas ele fala também das pessoas comuns que estão lá agora, neste início de século XXI, vivendo e se organizando. Trata-se de um livro pequeno, baseado em trabalhos de antropologia e sociologia que ele cita para aqueles interessados em se aprofundar no assunto. A contribuição principal de Clézio é a poesia sutil que ele acrescenta às histórias, às lendas e aos mitos que ouve. Aprende-se um bocado neste livro, que não é panfletário, nem piegas. Na próxima vez que ouvir sobre terremotos no Pacífico, ler sobre vulcões que brotam do mar no círculo de fogo do Pacífico, conversar sobre o efeito do aquecimento global no nível do mar naquela região, tomar ciência dos cruzeiros milionários que vagam por aquelas águas sem pedir permissão, lembrarei de Le Clézio e deste pequeno livro, lembrarei da extraordinária capacidade de resistência deste povo, que encontrou no mito e no sonho uma forma de superar a tragédia de sua história. [início 03/07/2011 - fim 16/07/2011]
"Raga: uma viagem à Oceania, o continente invisível", J.M.G. Le Clézio, tradução de Clóvis Marques, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição, revista (2011), brochura 12x18,5 cm, 124 págs. ISBN: 978-85-01-08622-8 [edição original: Raga, approche du continent invisible (Paris: éditions du Seuil) 2006]

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

o caçador de tesouros

Publicado originalmente por Le Clézio em 1985, "O caçador de tesouros" é um livro onde pode-se dizer que o mar é um personagem que espreita a história, pacientemente aguardando seus momentos para atuar. A ação principal começa e termina no lado oeste das Ilhas Maurício, em uma região chamada Tamarindo, próxima a um rio chamado Negro. Todavia a Ilha Rodrigues, mais ao sudoeste e as demais ilhas do arquipélado de Mascarenhas também fazem parte das peripécias do narrador, um sujeito chamado Alexis L'Estang. Seus pai era um rico plantador de cana de açucar na região do Rio Negro, mas sua inabilidade comercial e os sonhos mirabolantes de eletrificação da região, associados a uma tempestade tropical o levam a completa ruína. Da ruína a morte do pai passa-se pouco tempo. Alexis, sua irmã e sua mãe, se mudam para a cidade e vivem miseravelmente. Os planos de serem enviados à França, de estudar nos melhores colégios de lá e voltarem para administrar as plantações da família tornan-se pó. Um tio, aparentemente mais pragmático e inescrupuloso, agora único rico comerciante da região,os mantêm sob vigilância discreta. A infância de Alexis foi marcada pelas narrações de seu pai de um tesouro magnífico que poderia ser encontrado na vizinha Ilha Rodrigues. Com o tempo ele abandona a família, embarca em um navio e ruma para lá, sistematicamente procurando marcas e sinais da presença dos piratas em uma região chamada Baía dos Ingleses. Alexis passa por todos os estágios da febre do ouro, ora quase desistindo, ora sobrevivendo miraculosamente a desastres, ora se iludindo com vestígios abandonados por outros exploradores. Se envolve com uma nativa da ilha, descendente de escravos que fugiram para as inacessíveis montanhas que circundam a região. Com o início da primeira grande guerra, Alexis se alista, não exatamente por patriotismo, mas também por despreendimento. Após os anos nos campos sangrentos da França volta a sua ocupação maravilhosa, a de caçador de um tesouro que ele sabe no fundo não existir. Após mais um verão explorando a baía em busca do ouro abandona tudo e volta para a Ilha Maurício. Assume um cargo de capataz nas fazendas de um primo seu, filho daquele tio inescrupuloso. O ritmo do livro se acelera, ele percebe rapidamente que aquela vida é tão inútil quanto aquela em que buscava tesouros nas areias de uma baía distante. A região explode em conflitos entre os trabalhadores e os senhores das terras. A morte graça como nos campos da França. Alexis destrói os últimos vestígios de seu sonho pelo ouro e embarca em um navio, rumo ao mar, vasto e desconhecido. Este é um livro terrível, onde a decadência e a degradação corroem lentamente os sonhos e os desejos dos personagens. O mundo colonial e o artificialismo dos sonhos herdados só são amenizados pela beleza cruel do deserto e do mar, paisagens naturais que pouco guardam da presença e dos trabalhos dos homens. [início 22/12/2009 - fim 26/12/2009]
"O caçador de tesouros", J.M.G. Le Clézio, tradução de Ernesto Sampaio, editora Assírio & Alvin, 1a. edição (1994), brochura 13,5x21 cm, 307 págs. ISBN: 972-37-0356-4

domingo, 6 de dezembro de 2009

pawana

Comprei este livro na feira de Porto Alegre. Neste ano a maioria dos livreiros, jornalistas, escritores e especuladores de plantão reclamaram do formato, organização e vendas. Arautos, pregoeiros e cassandras anunciavam o fim do livro e do próprio futuro da feira. Em meio aos ventos e a grita geral o povo de uma banca, capitaneada pela czarina Gisela e seus fiéis boiardos Carlos e Claudio, parecia não se importar muito com as reclamações e seguia seu rumo, o de capitães de longo curso. Trabalhavam diligentes e sérios, com critério, vendendo livros de uma única editora (a Cosac Naify). Duvido que eles tenham vendido muito menos que nos anos anteriores. Acredito que a segmentação, a fuga da mesmice dos títulos encontrados na maioria das bancas seja o diferencial a ser alcançado. A CESMA também esteve na feira e teve boas vendas, calçada em seus bons títulos e no bom atendimento. "Pawana" é uma pequena novela que conta uma história terrível. Mesmo o mais otimista termina o livro um pouco mais descrente da raça humana, de seu futuro, de sua moral torta, de sua ética vaga. Le Clézio conta a história da descoberta de um local próximo ao sul da atual baixa Califórnia, na costa oeste do México, onde as baleias costumavam ir para ter seus filhotes. A matança é contada por dois sujeitos (o capitão de navio baleeiro, que descobriu a passagem, e um jovem marinheiro, em sua primeira viagem). O capitão parece se penitenciar pelo seu ato inaugural. O jovem acrescenta que à morte das baleias seguiu-se a destruição do lugar, da paisagem, da fauna, dos índios, até que em poucos anos não sobrasse nada além de areia e restos brancos das carcaças das baleias. Assim como viu as baleias o jovem vê uma jovem índia do lugar ser prostituída e descartada. A degradação toma conta simultaneamente das coisas e da alma dos homens. O leitor tem de ser corajoso e seguir, mesmo quando lê trechos como: "Acho que já não tínhamos alma, não sabíamos mais nada da beleza do mundo. Estávamos embriagados pelo cheiro de sangue, pelo ruída da vida que escapava com o sopro. Eu agora me lembro do olhar dos homens. Será que não notei na hora? Era um olhar decidido e sem piedade. (...) Lembro-me do olhar do garoto que estava com a gente, que me encarava com uma pergunta sem resposta. Hoje eu sei que pergunta era essa, a explicação que ele me pedia: como alguém pode matar o que ama?" Le Clézio consegue em um pequeno texto nos alertar e inspirar. As "Pawana", como os nativos esquimós chamam as baleias, continuam sendo massacradas, como se os homens continuassem incapazes de amar. Talvez seja assim mesmo, talvez sejamos capazes de apenas amar o passado, o lendário, o já morto e destruído. A edição da CosacNaify é belíssima, com ilustrações de Eloar Guazzelli que amenizam um tanto a crueza do texto. [início - fim 30/10/2009]
"Pawana", J.M.G. Le Clézio, tradução de Leonardo Fróes, ilustrações de Eloar Guazzelli, editora Cosac Naify (1a. edição) 2009, capa-dura 16x23, 63 págs., ISBN: 978-85-7503-848-2

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

el sueño mexicano

Li boa parte deste livro nas praias ainda no verão passado. Fiquei uns bons dias sentado, perto do mar, bebericando algo e acompanhando as reflexões de Le Clézio. Não cheguei a terminar naquela época. Aí começaram os sucessos do ano letivo e as correrias da vida. Emprestei o livro para uma amiga entusiasta da cultura andina e mexicana, que levou-o na bagagem em uma viagem sentimental ao México. Elenir leu o livro todo bem antes de mim. Quando ela devolveu-me o livro eis que me organizei para terminá-lo, mas já havia perdido o ritmo das praias e demorei bastante para me entender com os argumentos do autor. Trata-se de um detalhado ensaio sobre as culturas e os povos pré-hispânicos, principalmente sobre detalhes da mitologia destes povos. Le Clézio não é nada superficial. Ele estudou a fundo as muitas camadas de mitologia, filologia, linguística e aquilo que a historiografia da área recuperou daquela época. Produziu um texto que além de nos ilustrar um tanto, serve como um libelo contra a violência e a ignorância. Não se consegue ler este livro sem ficar com um certo mal estar. O autor descreve a violencia cíclica e intrínsica que os povos ameríndios pré-colombianos experimentavam entre si (pois formavam sempre sociedades hierarquizadas, com uma definida aristocracia dominante) mas, segundo ele, ao mesmo tempo: "Eles estavam a ponto de desenvolver um sistema filosófico que poderia resolver as contradições do mundo antigo. Através do transe e da revelação chamanísta se alcançava uma harmonia entre o real e o sobrenatural. A concepção de um tempo cíclico e a idéia de uma criação baseada na catástrofe poderiam ser os pontos de partida de um novo pensamento científico e humanista. O respeito às forças naturais e a busca de equilíbrio entre o homem e o mundo talvez poderiam influenciar o progresso técnico do mundo ocidental, tornando-o menos radical e determinista." São especulações interessantes, que levam o leitor a pensar. Aprendi recentemente com Javier Marías que não há sentido algum em pedir que o atual rei da Espanha peça desculpas pelos crimes cometidos por Hernán Cortés, nem que o atual papa peça desculpas pelos crimes cometidos pelo tribunal do santo ofício contra Galileu Galilei ou quem quer que seja. O que os homens podem fazer é apenas aprender com o passado e esperar que as futuras gerações possam errar um tanto menos. Le Clézio é mesmo um sujeito de muitas habilidades. [início 26/01/2009 - fim 18/10/2009]
"El sueño mexicano: o el pensamiento interrumpido", J.M.G. Le Clézio, tradução de Mercedes Córdoba e Tomás Segovia, editora Fondo de Cultura Econômica (1a. edição) 1992, brochura 11x17, 278 págs., ISBN: 968-16-3699-6

terça-feira, 13 de outubro de 2009

la música del hambre

Comprei este "La música del hambre" em um sebo barcelonês, onde uma senhora e seu neto conversavam amigavelmente, mas quase aos berros, enquanto eu fazia o censo dos livros e decidia o que comprar. Le Clézio havia acabado de publicar este livro na França quando recebeu a notícia de que tinha ganho o prêmio Nobel do ano passado. Esta tradução espanhola foi publicada no início deste ano. O livro é quase um conto de fadas, uma história de reminiscências da segunda grande guerra, mas com o tratamento que a memória dá aos sucessos e venturas de um passado distante. Ao longo do livro há algumas menções a teoria musical e no fim parece que o autor gostaria que terminássemos de ler o livro ouvindo o Bolero de Ravel. Cabe lembrar que Bolero é aquela peça musical composta para um balé onde a melodia uniforme é produzida pela repetição de um número pequeno de compassos, alcançando um final vibrante. A história gira em torno de um núcleo familiar de emigrantes mauricianos (daí valer a pena a meu juízo ler-se antes "O Africano" e "A Quarentena", dois outros livros dele onde se explica um tanto a história deste grupo de pessoas). A personagem principal é Ethel Brun (ou Soliman), uma jovem que acompanha a decadência financeira de sua familia e a vertigem associada a forma degradante como a França caiu sob a dominação alemã na segunda grande guerra, ou seja, de como o cerco alemão se fecha não militarmente, mas antes abstratamente no coração da população, instigando divisões, gerando segregacionismo, em um processo de lento convencimento e dominação, como se o mal não pudesse ser evitado. Ethel é filha única de um casal de emigrantes da Ilha Maurício. Através dela ficamos sabendo um tanto da sociedade parisiense dos anos 1920, 1930. Aos poucos os temas fúteis e pretensamente intelectuais dos salões mantidos pelos membros de sua família são contaminados pelo um nome novo, progressivamente dominante, Hitler. Le Clezio mais do que analisar ou justificar o comportamento dos personagens ou mesmo de querer detalhar passagens da história da segunda grande guerra, retrata os movimentos de um grupo pequeno de pessoas, deste núcleo familiar que está condenado a sucumbir nas mãos dos nazistas. Uma história familiar é sempre mais rica que a história das nações. Se é que eu conheço a história de Le Clezio, Ethel é uma personagem que representa sua mãe, uma de suas avós ou outro alguém muito próximo dele, que também teve de fugir dos nazistas durante a ocupação da França, que também passou por dificuldades mil, que também teve seu passado material destruído e seu futuro imediato envolvido no mar de incertezas de um grande conflito. É um bom livro afinal de contas, um conto de fadas terrível - como sempre são os contos de fadas - mais ainda assim um bom livro. [início 24/08/2009 - fim 21/09/2009]
"La música del hambre", J.M.G. Le Clézio, Tusquets editores (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 210 págs., ISBN: 978-84-8383-153-3

terça-feira, 3 de março de 2009

a quarentena

Bom. É covardia eu tentar comparar este livro com o anterior que resenhei. Este é mesmo um tremendo livro, daqueles que te fazem parar e pensar na vida, a se imaginar em um mundo diferente, mas ainda demasiadamente humano. Seminal. Há dois registros principais na história: um nos remete a própria biografia de Le Clézio, o sujeito que ganhou o prênio Nobel de literatura de 2008, o segundo registro é a invenção de Le Clézio, sua ficção. Qualquer um de nós, quando quer contar a história de um antepassado qualquer observa rapidamente que há muitas lacunas, datas contraditórias, movimentos que não se entendem muito bem. Em geral linearizamos tudo e escolhemos a versão mais épica e redentora, mas nobre e memorárvel afinal de contas. Le Clézio teve um tio-avô que em um determinado momento desapareceu em uma ilha do oceano Índico em meio a uma quarentena sanitária devido a uma epidemia, cousa comum naqueles tempos. Seus avós nunca souberam ao certo o que foi feito dele, mas contavam sua história. Na ficção de Le Clézio somos levados a acompanhar sucessos algo parecidos. Um jovem casal e um irmão mais jovem tomam o rumo das terras de seus pais (de novo aquela idéia de que devemos voltar para o lugar onde fomos concebidos, que Le Clézio explora nos outros livros dele que já resenhei aqui). Este lugar, este território, é a Ilha Maurício, um importante centro de produção de açucar para o império Inglês do final do século XIX. O avô deles é um poderoso plantador, que importa centenas de "cules", trabalhadores livres, chineses e hindus, trazidos da Índia e das demais possessões britânicas em substituição ao trabalho escravo. Ao chegarem perto da grande Ilha Maurício o navio se descobre infectado por tifo e todos os passageiros, tanto os modestos "cules" quanto os abastados europeus devem ficar em uma pequena ilha por um período de descontaminação. No início a maioria dos passageiros acredita tratar-se de um período curto, mas logo se percebe que o período de confinamento será grande. A pequena ilhota onde estão confinados, Plate, faz parte de um arquipélago próximo a um ilha chamada Gabriel, que por sua vez está localizada a pouco mais de 3Km da grande Ilha Maurício. Todo o conjunto de ilhas é inacessível sem ajuda externa. Estabelece-se um rígido controle dos viventes, os progressivamente mais doentes são isolados e depois, sabe-se num choque, levados a uma ilhota ainda menor, Coin de Mire, para deixarem-se morrer e serem incinerados. Os dois irmãos, Jacques - que é médico - e León, não são acometidos pela doença, mas Suzanne, mulher de Jacques, sim. Lentamente delira e definha. Os demais europeus que os acompanhavam no navio, um casal de botânicos, alguns comerciantes, exploradores, também caem doentes. O pior do ser humano aflora neste isolamento. A crueldade, o despotismo, o fanatismo. Enquanto padecem nestas ilhas, os dois irmãos pensam no avô e nas ricas terras a que eles deveriam ter direito, mas que foram deles usurpadas. A impotência é total, os dias se arrastam, as piras funerárias são varridas pelas ondas, o branco dos ossos calcinados deixa linhas sutis no duro basalto da praia. León aprende a perambular pelas ilhas, toma contato mais próximo com os "cules", que morrem aos montes, em silêncio, passivamente. Ele se envolve e por fim se apaixona por uma garota hindu, Suryavati, cuja mãe, da mesma forma que sua avó antes dela, foi levada por Shitar, a fria morte. Suzanne melhora de saúde ajudada por Suryavati. Após meses de privação, temor e morte, a doença arrefece e aos sobreviventes é permitido finalmente se deslocar para seu destino final. Léon opta por misturar-se com os "cules", deixando apenas Jacques e Suzanne embarcarem no grande navio de resgate. O quê será feito dele? A história nos é contada por um neto deste casal de sobreviventes, que viaja a grande Ilha Maurício para conhecer a última descendente do nobre plantador, Archambau, senhor da vida e da morte de milhares de trabalhadores. Encontra um mundo totalmente modificado. Há coisas demais neste livro para citar em uma curta resenha. Vale a pena navegar por ele, acompanhar os tantos destinos que se cruzam na pequena ilha Plate (que aliás é hoje a sede de belíssimos empreendimentos turísticos no Índico). Há coisas memoráveis neste livro. Um barqueiro, Mari, quase cego (um Caronte, como não), que os leva de Plate e Coin de Mire. A memória de uma noite Montparnasse, onde o pequeno Jacques viu o tonitroaente Rimbaud ameaçar um taberneiro. E a memória de um dia escaldante em Aden, logo no início do romance, onde o jovem médico Jacques é chamado para atender um francês que morre lentamente em um catre de Aden (de novo Rimbaud, mas agora em seu leito de morte). Li boa parte deste livro próximo ao mar, caminhando sem ritmo pela praia de Capão da Canoa, sentido de perto o vento salgado e o rumor bravio do mar. Depois li uma parte em um restaurante santamariense, onde ouvi na mesa do lado: "(...) tenho um pouco de sangue italiano!, diz um sujeito. Sangue bom, sangue bom!, replica um senhor." Que patético. A quarentena é mesmo um livro poderoso. Bom divertimento. [início 22/01/2009 - fim 25/01/2009]
"A quarentena", J.M.G. Le Clézio, tradução de Maria Lúcia Machado, editora Companhia das Letras (1a. edição) 1997, brochura 14x21, 363 págs. ISBN: 978-85-7164-705-4

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

peixe dourado

"Peixe dourado" é um bom romance de J.M.G. Le Clézio, o ganhador do prêmio Nobel deste ano. Duas idéias estão na gênese desta história. Uma é explícita, está na epígrafe do livro. Trata-se de um provérbio mexicano onde se aconselha um peixinho dourado a cuidar-se bem, pois são demais as armadilhas deste mundo. A segunda idéia eu associo ao "O Africano", livro dele que li e resenhei abaixo, onde ele conta a história de seu pai e que descreve como para algumas tribos africanas o momento realmente importante da vida é o da concepção e não o do nascimento, pois no lugar e na hora da concepção algo mágico acontece entre a natureza e o novo ser que é gerado. Quando você volta ao lugar em que foi gerado há um recomunhão entre os elementos. Assim são os hábitos, tradições dos povos e nações que mal conhecemos, luminosos, sempre surpreendentes. A história de "Peixe dourado" segue então a partir destas duas idéias. Tudo é muito rápido no texto de Le Clézio, tudo muito cruel, mas sem choramingas, sem explicações reducionistas e bestas, como deve sempre ser em um livro que fale da vida. Uma menina de origem árabe chamada Laila (um nome que pode significar "bela como a noite") é sequestrada em algum lugar do Saara ocidental africano e se descobre escrava de uma senhora marroquina de origem judaica. A partir desta aparição em um lugar novo, desaparecido seu passado, sua vida segue em ritmo sempre frenético: vive com a senhora até a sua morte; é acolhida por outras moças abandonadas; faz amigos, parte para Europa, atravessando a Espanha para chegar a França; passa por experiências, aprendizados, agressões, encantamentos, sofrimentos, lutas, como qualquer emigrante que nem identidade tem (os papéis sempre podem ser forjados, mas uma identidade, uma história de vida dificilmente pode ser emulada); aprende música; emigra como que por acaso para os Estados Unidos; se apaixona, adoece, volta a Europa e depois para a África, para a região onde provavelmente vivia antes de ser sequestrada. Os detalhes destas peripécias são muito bem contados. O livro trata de assuntos duros, de um mundo xenofobista, onde a inclusão é sempre uma miragem, a marginalidade e o preconceito obsessivamente presentes, mas o livro se deixa ler com vagar, como se tratasse mesmo de acompanhar um pequeno peixe que nada em um mar gigantesco. É de fato muito bem escrito.
"Peixe dourado", J.M.G. Le Clézio, tradução de Maria Helena Rodrigues de Souza, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2001, brochura 14x21, 216 págs. ISBN: 978-85-359-0150-4

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

o africano

Os livros têm entre eles sutis formas de comunicação. Acabei de terminar um livro de viagem (Nomad's Hotel) e encontro neste "O Africano", um outro tipo de viagem, aquela que fazemos para o interior de nós mesmos. O autor é Jean-Marie Gustave Le Clézio, o ganhador do prêmio Nobel deste ano. Já li dois livros dele, de fato interessantes. A edição deste é belíssima (a Cosac sempre ensina como um livro deve ser editado) e inclui uma bibliografia completa de e sobre Le Clézio, ótima para os não iniciados na sua obra, como eu. O texto é curto. Trata-se de um relato bastante pessoal sobre a história de seu pai. Ele descreve vividamente suas impressões e lembranças de seu pai, que nasceu nas Ilhas Maurício, no Índico, que na época era colônia inglesa mas havia sido antes uma colônia francesa (hoje é um país independente ligado ao Commonwealth.) Ele é um negro legítimo que vai para Londres com uma bolsa para estudar medicina. Quando se forma na escola de medicina deve "pagar" a bolsa trabalhando para o governo (os europeus e os americanos resolveram a questão do acesso às boas universidades há uns duzentos e cinquenta anos, sempre valorizando o óbvio, a meritocracia, mas o Brasil continua inventando bobagens patéticas como cotas, fazer o quê!). Um impulso o faz aceitar primeiro uma posição na Guiana Inglesa e logo depois uma posição permanente na região onde hoje é a Nigéria e o Camarões (estas terras haviam sido subtraídas dos alemães logo após a primeira grande guerra e foram colonizadas por ingleses e franceses.) Ele é o único médico de uma região enorme. Passa na África a maior parte de sua vida. Em uma de suas viagens casa-se com uma prima de segundo ou terceiro graus que também havia nascido nas Ilhas Maurício, mas que havia emigrado com a família para a França. Logo volta para seu posto na Nigéria, voltando apenas esporadicamente à França, como nas ocasiões dos nascimentos dos filhos (Le Clézio nasce em Nice, em 1940.) Quando a segunda grande guerra começa ele se encontra na África e sua esposa em Paris. Apesar de tentar atravessar a África para encontrá-los passa toda a grande guerra separado da família. A mãe tem ascendência judaica, se esconde dos alemães na França ocupada. Só depois da guerra, em 1948, torna-se possível que ele conheça o filho mais novo e reencontre a mulher. O estranhamento do garoto Le Clézio ao descobrir que seu pai é um "Africano" e o processo de reconhecimento entre os dois dá a tônica incial do livro. Durante uns dez anos ele mora com os país na África, mudando completamente de hábitos. O texto descreve com calma a vasta região onde seu pai viveu e trabalhou, o combate diário com as forças da natureza, a beleza da região e de seu povo, o tipo relações que manteve com os vários líderes tribais com os quais conviveu, as reflexões do pai sobre o futuro da África (cruéis quando ele mesmo se percebe apenas um eficaz agente colonizador.) Ao se aposentar do serviço seu pai emigra para a França. Em 1968 perde a cidadania inglesa pois as Ilhas Maurício se tornam um país independente. Tem planos de emigrar para a África do Sul ou para o Caribe, mas nada disto se materializa. Sofre com os desastres que assolam a África nas décadas de 1960 e 1970 (as muitas guerras tribais, o massacre de Biafra, a busca européia pelas riquezas minerais do continente.) O livro termina com reflexões sobre como cada um nós se define historicametne ou como a memória das experiências vividas por nossos pais são transmitidas para nós. Le Clézio adotou recentemente dupla cidadania, tornando-se cidadão das Ilhas Maurício, chamada por ele de "sua pequena terra natal". Para um livro tão pequeno há muito o que se pensar. Quando eu resenhar o outro livro que li de Le Clézio comentarei mais um tanto sobre isto. Belo livro.
O Africano, J.M.G. Le Clézio, tradução de Leonardo Fróes, Cosac Naify (1a. edição) 2007, capa dura 16x23, 136 págs. ISBN: 978-85-7503-589-4