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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

suíte em quatro movimentos

Em inglês o título é um tanto diferente ("There But For The"), mas "Suíte em quatro movimentos" não está mau. Ali Smith conta uma história curiosa que começa com uma ação amalucada, propositadamente artificial: um sujeito (Miles Garth) convidado de uma festa na Londres dos subúrbios sofisticados deste início de século abandona a mesa e a conversação e tranca-se no quarto de hóspedes de seus anfitriões. Assim como a corda que se dá a um relógio o coloca em movimento, esse gesto bizarro de Miles faz movimentar um grupo de personagens que pouco tem em comum. A metáfora do relógio me parece adequada, pois Ali Smith ambienta sua história na região de Greenwich, no sudoeste de Londres, famosa por ser o local do observatório por onde passa o meridiano zero, aquele que convencionou-se marcar a origem dos fusos horários e das medidas de longitude. A história de Smith, dividida em quatro capítulos, apresenta a repercussão do auto encarceramento de Miles. No primeiro (There) acompanhamos como uma amiga sua da juventude, Anna Hardie (ou Anna K.), com quem ele viajou de ônibus pela Europa nos anos 1980 é convidada pelo anfitriões (Genevieve e Eric Lee) para que ela o dissuadisse de continuar trancado no quarto. Mas ela nada sabe do sujeito, nunca manteve contato com ele, não tem a menor idéia de como seu número de celular está registrado nos contatos dele (e de resto não existiam telefones celulares quando eles se conheceram, trinta anos antes). Apenas lembra os sucessos da viagem dos dois, resultado de um banal prêmio estudantil. No segundo (But) Mark Palmer, o sujeito que convidou Miles para o jantar recorda os diálogos da festa e a razão de tê-lo convidado. Lembra também de sua infância, dos jogos verbais que sua mãe costumada fazer com ele. Lamenta a perda de um companheiro, que morreu recentemente. No terceiro capítulo (For) o que se narra são os pensamentos de May Young, uma senhora idosa que está hospitalizada e em vias de ser transferida, contra sua vontade, para uma casa de saúde. O leitor acompanha uma série de lembranças esparsas e fragmentárias: seu casamento, o nascimento dos filhos, a morte de uma filha, a morte do marido, a expectativa de fuga do hospital - com a ajuda de uma menina e uns gângsters (?!). No final do capítulo descobrimos que por alguma razão Miles Garth visita regularmente essa senhora. Ele pede a uma garota, através de um bilhete, que a senhora Young seja comunicada que ele não poderá visitá-la pois está trancado naquele quarto de hóspedes. O último capítulo (The) narra o entendimento destes sucessos por Brooke, uma garota jovem e inteligente, filha de um dos casais que participaram da festa dos Lee. Essa garota é a única personagem que interage com Miles e é através dela que sabemos que os Lee resolveram explorar comercialmente a presença de Miles, dando entrevistas e vendendo lembranças a multidão que passou a se reunir na vizinhança para espiar a pseudo celebridade encarcerada na casa deles. É uma história curiosa, repleta de jogos verbais, diálogos cifrados, um bom humor calmo (não histriônico). O livro é formatado de uma forma não convencional (justificado à esquerda). É um livro provocador. Apesar de eu me aborrecer algumas vezes com as pistas soltas e a indefinição sobre quem é mesmo aquele sujeito que resolveu trancar-se em um quarto ao final entendi que talvez seja sobre a solidão e as dificuldade de comunicação entre as pessoas que o livro trata. Tudo que se depreende de alguém tem algo de filtrado, de artificial, de condicionado pelas regras e convenções sociais (e por nossa segura auto-ilusão, claro). Há também no livro um jogo contínuo entre controle e caos, que é próprio da vida, mas que evitamos quase sempre discutir. Preciso ler mais coisas de Ali Smith para aprender a entender melhor suas proposições. Veremos.
[início: 20/08/2014 - fim: 25/09/2014]
"Suíte em quatro movimentos", Ali Smith, tradução de Caetano W. Galindo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 287 págs., ISBN: 978-85-359-2423-7 [edição original: There But For The (London: Hamish Jamilton), 2011]

sábado, 7 de julho de 2012

a primeira pessoa

Apesar de ter comprado este livro com um certo entusiasmo, por conta de uma indicação confiável e por saber que o tradutor era o industrioso Caetano Galindo, eis que sua leitura me pareceu muito irregular. São doze contos curtos. Inegavelmente todos são bem escritos e originais, mas Ali Smith abusa de uns truques metaliterários e de situações auto-referentes que acabam por irritar o leitor (ao menos este velho e cansado leitor). Em uma das histórias uma criança faz as vezes da consciência algo culpada de um personagem; noutra um casal discute suas diferenças enquanto falam de Gershwin e Beethoven; num dos contos uma garota tenta esconder a vergonha que tem de sua mãe algo extravagante, quase louca; noutro é sobre a possibilidade banal de alguém ficar preso nos fundos de um cinema que um casal anima a conversação; o recebimento de um pacote enviado para o endereço errado gera uma discussão besta; o entendimento distinto do valor de uma música de Ella Fitzgerald outra; um porteiro trambiqueiro inventa historias para mitigar a culpa de seus patrões em uma noite de Natal; um rapaz doente faz com que sua mãe acredite em uma dupla de estelionatários; o protagonista de uma história discute decisões e escolhas de sua encarnação mais jovem; duas mulheres falam do que as aproximam e do que não gostam uma da outra; o narrador de uma história digressa sobre o poder da literatura (e sobre a força do uso da terceira pessoa num texto); uma mulher discute com outra uma teoria bizarra sobre as diferenças entre contos e romances que ouviu em um bar. A originalidade das histórias engana o leitor, assim como iludem em um circo ou a habilidade de um bom malabarista ou a rapidez de um mágico bem adestrado. Ao final nenhuma das situações criadas por Ali Smith parecem de fato decalcadas da realidade, pois acabam expondo cedo demais seu artificialismo, e servem apenas para entreter o leitor um par de horas. Lembrei várias vezes de uma frase de Bob Fosse no "All that Jazz": "treatral demais Joe!". Estarei sendo pouco indulgente? Talvez. Paciência. Talvez seja o caso de ler outras narrativas dela, experimentar outras propostas de sua prosa com mais calma e aí afirmar mais coisas sobre ela. Logo veremos, mas já é tempo. Sigamos pois. [início 12/06/2012 - fim 30/06/2012]
"A primeira pessoa e outros contos", Ali Smith, tradução de Caetano W. Galindo, São Paulo: editora Companhia das letras, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 148 págs. ISBN: 978-85-359-2074-1 [edição original: The first person and other stories (London: Hamish Hamilton / Penguin Group) 2008]