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segunda-feira, 30 de março de 2020

escola partida

Ronai Rocha é um sujeito industrioso. Quem o conhece sabe de sua obsessão com a precisão das cousas, de sua paciência em entender e se fazer entender, em bem ouvir e contar, em tentar dirimir tons cinzas e equívocos em discussões, mesmo que neste processo acrescente um bocado de outros tons cinzas e pertinentes dúvidas em seus interlocutores. "Escola partida" é seu livro mais recente, publicado agora no início deste já inesquecível 2020. Já registrei aqui algo sobre "Ensino de filosofia e currículo", de 2015, mas não registrei, ai de mim, algo sobre seu livro anterior, o seminal "Quando ninguém educa". Paciência. "Escola partida" é curto, pouco mais de 150 páginas, mas não se trata de um livro que se possa ler sem pensarmos com calma, refletirmos sobre os enunciados e proposições. Ronai apresenta ao leitor reflexões sobre o debate que gravita o movimento "Escola sem partido". Não se trata de um panfleto que poderia ser usado para condenar in totum o movimento em si (nem, tampouco, de forma especular, ser usado para enaltecê-lo, por mais absurdo que fosse fazer uma coisa destas). Ronai procura entender a gênese do desconforto que levou um grupo, em 2003, a propor restrições à atividade docente, condenando práticas que os prosélitos deste grupo entendem como não compatíveis com a docência. Em que pese o fato deste movimento não ter alcançado praticamente nenhuma vitória no campo jurídico, que implicasse em condenação e/ou controle dos educadores, a existência do movimento e a repercussão das teses por eles defendidas afeta todos os atores do sistema educacional brasileiro. Em seis capítulos sintéticos Ronai Rocha: (i) conta a história do movimento escola sem partido brasileiro; (ii) descreve versões mais antigas deste debate, recuperando sobretudo a atuação de Max Weber no contexto do incentivo ou condenação que professores universitários alemães faziam em relação a participação dos estudantes na primeira grande guerra mundial, há mais de cem anos; (iii) fala algo  sobre a  história da educação no Brasil, seus vetustos dilemas e conflitos; (iv) provoca o leitor a acompanhar o que ele chama de "exercício de pensamento de risco", que implica em aceitar as consequências indesejáveis que boas intenções, voluntarismo e hipóteses fracas geram; (v) discute sobre as falácias usualmente repetidas por educadores de todos os matizes, ou sobre coisas que sabemos explicar mas não justificar, ou sobre a fragilidade de certos conceitos - quase sempre palavras vazias quando malabaristas de paradoxos as manipulam sem pudor; (vi) conclui falando da impossibilidade de aceitarmos um "código de deveres dos professores", ou de um "código de ética profissional docente", como advogam os entusiastas do movimento escola sem partido; todavia, ao mesmo tempo, ele conclui falando da necessidade de oxigenação dos educadores que atuam nas escolas, da necessidade de preservá-las das amarguras desnecessárias decorrentes das batalhas políticas que dão-se naturalmente nos demais espaços da sociedade (amarguras desnecessárias são palavras de Hannah Arendt, perene presença e condutora de boa parte do texto de Ronai). Enfim, ou a escola é preservada como um espaço de confiança - para estudantes, professores, pais, gestores, reguladores, avaliadores, etc e tal - ou a escola é nada (palavras minhas essas, claro, bem menos otimista que o Ronai sobre a possibilidade de pactos desta natureza serem efetivos em um país tão primitivo e tosco como o Brasil). Eu poderia tentar falar mais sobre esse notável livro. Falar sobre o conceito de "segundas pessoas", de Annette Baier; sobre o modelo aristotélico hierárquico em espiral: força, poder e autoridade; sobre Cecília Meireles, outra serena guia de Ronai pelos escolhos da história da educação no Brasil e sobre seu aforismo: "A escola tem de ser o território mais neutro do mundo..."; sobre a "atmosfera sebastianista e autoindulgente" que brota do desejo de modificar toda a sociedade antes de modificar apenas as práticas escolares, visando um mínimo de letramento, capacidade de compreensão, de entendimento básico da matemática; falar sobre o saboroso conceito de maoismo tropical utilizado por ele. Mas "Escola partida" não é o tipo de livro que se preste a ter frases ou capítulos pinçados em uma curta resenha como essa minha. Acredito ser algo que merece uma leitura completa, pois cada leitor é quem deve responder sobre o "Que fazer?" com a educação brasileira. Para quem quer realmente entender os aspectos técnicos do livro do Ronai recomendo muito o ensaio de Vítor Costa, leitor de primeira hora. Grande Ronai, grande livro. Evoé! Vale! 
Registro #1509 (didático #13) 
[início: 17/03/2020 - fim: 29/03/2020]
"Escola partida: Ética e política na sala de aula", Ronai Pires da Rocha, São Paulo: editora Contexto, 1a. edição (2020), brochura 16x23 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-520-0177-5

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

ensino de filosofia e currículo

Há dois meses, o acaso, sempre um fiel camareiro, colocou Ronai Rocha e eu próximos em uma fila de aeroporto. Íamos num mesmo voo para São Paulo. Ali não podíamos conversar, mas ao fazermos escala antes de nos tocar o outro trecho da viagem, o dele mais ao norte, o meu mais a oeste, deste pródigo e desgraçado Brasil, conseguimos dividir uns pães de queijo e um café. Ele contou-me detalhes de uma notícia desagradável, relacionada a um livro que acabara de escrever e fora rejeitado por conta de uma chicana jurídica. Cerrei os dentes para não escarnecer em voz alta o nome da tola viúva do Paulo Freire que o havia prejudicado. A estupidez, já se sabe, sempre provoca calamidades. Paciência. Pouco tempo depois, já de volta, como Mário de Andrade, abancado à escrivaninha, só que em Santa Maria, na minha casa da Rua Quintino Bocaiúva, de supetão senti um friúme por dentro. Lembrei a história que ouvira do Ronai e da falta de tino e tato (sem falar da falta de instinto e competência editorial) de todos os envolvidos na rejeição do livro. Novamente, como o velho Mário, fiquei algo trêmulo, comovido. Resolvi reler a reedição de um livro que ele havia publicado em 2008 (e que já registrei aqui): Ensino de Filosofia e Currículo. Essa segunda edição passou por uma revisão completa e ganhou uma formatação mais caprichada. O texto atualizado discorre sobre os temas mais importantes relacionados ao ensino de filosofia (e de resto fala bastante sobre o ensino médio brasileiro). As ideias do Ronai não são apenas seminais. Ele as apresenta com clareza e sofisticação. Os argumentos são sólidos e o encadeamento deles sempre próximos do irrefutável (meus adjetivos tendem ser mais taxativos que os do Ronai, já se vê, mas é nele e em seu livro que o leitor deve confiar, não em mim). Sua discussão sobre as dificuldades na inserção da filosofia no currículo do ensino médio, sobretudo quando não se considera que cada uma das demais disciplinas também propõem conteúdos específicos que necessariamente devem ser conectados de forma didaticamente eficaz uns com os outros, é a chave do livro. O prefácio a essa segunda edição, assinado por Gisele Secco, dá conta do impacto do lançamento original do livro na comunidade de educadores e filósofos. Os argumentos de Ronai de certa maneira antecipam alguns dos desastres que acabaram por encetar a reforma do ensino médio atualmente em discussão (cabe dizer para os mais açodados ou simplesmente tolos que as linhas gerais da atual proposta de reforma já haviam sido delineadas pelo glorioso Ministério da Educação ainda no início do trágico governo anterior). Com a reforma nem o mais atrevido dos analistas sabe prognosticar qual será o futuro da formação básica dos estudantes brasileiros. Livro atualíssimo, "Ensino de Filosofia e Currículo" merece ser lido por todo aquele realmente interessado em filosofia e educação básica deste país. E eu, nem sempre otimista, estou seguro que aquele outro livro do Ronai, o livro explicitamente novo dele sobre o tema, encontrará em breve o caminho para sua edição. Ulalá. Vai ser divertido. Vale.
[início: 10/10/2016 - fim: 21/11/2016]
"Ensino de Filosofia e Currículo", Ronai Pires da Rocha, Editora da UFSM, 2a. edição (2015), brochura 15x24cm, 221 págs. ISBN: 978-85-7391-230-2

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

ensino de filosofia

Don Ronai Rocha é um sujeito de multimeios e realmente cativa os viventes com sua conversa rica, sua prosa bem lapidada, sua generosidade e sua curiosidade ampla. Semanas atrás ele publicou “Ensino de Filosofia e Currículo” mas o lançamento oficial em Santa Maria será exatamente hoje, dia do professor, 15 de outubro. Preciso fazer um parênteses aqui. Leio meus livrinhos e vou resenhando neste blog exatamente na ordem cronológia que termino de lê-los (eu começo e abandono muitos outros pelo tempo e espaço.) Acontece que ler é mais rápido que resenhar. Pelas minhas contas eu deveria resenhar este do Ronai somente daqui a um mês, depois de um Ándritch, de um McEwan, de um Toscana, de um Pedrosa, de dois Montalbán e de um Singer. Mas achei a coincidência em terminar de lê-lo logo agora era rara demais para desprezá-la e vou encaixar esta resenha aqui. Devolvendo uma gentileza antiga eu digo: o Ronai, como Irene, não precisa pedir licença. Mas vamos ao livro. O objetivo de “Ensino de Filosofia e Currículo” é exatamente contribuir para o debate sobre a inserção da filosofia no currículo do ensino médio. Apesar de ser lei, há muita controvérsia sobre qual filosofia deve ser ensinada e muito mais controvérsia ainda sobre como estes conteúdos devem ser trabalhados nas escolas. Ronai nos oferece a força de sua experiência e seus argumentos junto com sua prosa delicada. O livro é bem escrito e faz um uso pouco corriqueiro de precisas metáforas, sem cair no lugar comum e na redução rasteira. Ele detalha bem os documentos do ministério da educação que orientam o ensino no nível médio por isto ao menos estas partes do livro (uns 30% eu acho) poderiam ser lidas por qualquer professor, de qualquer disciplina, com idêntico aproveitamento. Os cinco primeiros capítulos podem ser lidos separadamente, mas estão organizados em um progressivo grau de complexidade, sendo sempre mais técnicos. Os três últimos capítulos me parecem descolados destes cinco primeiros. Neles ele me parece tentar definir uma fronteira para os usos da filosofia em outras áreas, como na psicologia da infância (cap.6), nas demais disciplinas ensinadas no nível médio (cap.7) e na linguística (cap.8). Me parecem algo como exemplos de aplicação do que havia sido levantado e proposto antes. Temas que poderiam eventualmente serem introduzidos pelo professor de filosofia em suas aulas nas escolas. Eu, que sou o menor dos anões desta paróquia, estou bem longe de ser um entendido nesta área, mas do ponto de vista literário acho que teria sido melhor encaixar ao menos parte deste material nos capítulos anteriores, ou utilizá-los como apêndices ao corpo principal do texto (o final do capítulo 8 não, pois é onde as idéias do livro se encontram em um fechamento.) Bom. Aprendi um bocado neste livro, principalmente sobre didática e sobre a história do ensino no Brasil. As vezes eu acho que o processo educativo brasileiro é como um ensaio destrutivo da mecânica ou da física: após obtermos informações sobre um corpo de prova nós o deixamos destruído. Aquela informação será útil para outros sistemas, outros materiais, outros modelos e teorias, mas aquele corpo de prova em particular foi destruído no processo. Por vezes muitas experiências pedagógicas e didáticas, notadamente no Brasil, tem o mesmo grau de preocupação com seus grupos de estudo e de controle, suas cobaias, seus corpos de prova, pois no final são abandonados ágrafos, néscios e sandeus ao sair da escola. (Estes dois últimos parágrafos são meus. Don Ronai não disse nada tão indelicado no livro dele, sou eu que sou o mau humorado de plantão que estou a pensar um tanto aqui, após ler seu livro.) Bem. Na quarta capa do livro é dito que Ronai argumenta em favor do ensino de Filosofia. Mais do que isto acredito que seu livro sustenta argumentações várias em favor do ensino adequado de todas as disciplinas que sabemos serem caras ao homem. Farei propaganda deste livro sem medo, sem temor, (nec spe, nec metu) seguro que qualquer professor tem muito a ganhar profissional e pessoalmente com as reflexões de don Ronai Rocha.
Ensino de Filosofia e Currículo, Ronai Pires da Rocha, editora Vozes, 1a. edição (2008), brochura 15x24cm, 208 págs. ISBN: 978-85-326-3711-6