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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

donaldo schüler: entrevista

"Donaldo Schüler: entrevista" é o segundo volume de uma coleção de entrevistas publicada pela editora Medusa, de Curitiba, coleção da qual já registrei aqui o volume dedicado a Aurora Bernardini. Donaldo Schüler é catarinense, mas sua carreira acadêmica universitária deu-se no Rio Grande do Sul, na UFRGS, onde graduou-se e foi professor titular. Assim como no caso de Aurora Bernardini, às suas atividades acadêmicas, Schüler somou o ofício de tradutor, sobretudo do grego (Sófocles, Homero, Platão), mas ele ganhou especial notoriedade ao traduzir o Finnegans Wake, de James Joyce, no início dos anos 2000. Neste volume estão organizadas (por Dirce Waltrick do Amarante e Marcelo Tápia), um conjunto de treze depoimentos epistolares (trocas de e-mails), provocados a partir de perguntas, conjunto este que é dividido no livro em três sessões: A partida, O retorno, De volta à nau. Talvez por conta deste distanciamento físico e temporal entre perguntas e respostas o resultado seja um tanto confuso, heterogêneo. Há passagens realmente muito boas, nas quais Schüler explica como o ofício da tradução nasceu da docência, do ensino de língua e literatura grega, do diálogo com seus estudantes e/ou ouvintes (ele é também um respeitado palestrante em cursos livres e eventos literários). Ele fala da aventura de conduzir seus alunos pela história da poesia e das ideias, assim como a tradução em si conduz as palavras de um lugar ao outro, de uma cultura à outra; fala como a evolução do homem espelha a história e evolução das formas poéticas; assim como as traduções injetam vitalidades insuspeitas nos próprios originais. Schüler faz questão de registrar que suas traduções produzidas para publicação sempre o foram por encomenda, por convites de editores ou grupos. E fala também sobre seus livros de ficção e de crítica. O que me pareceu confuso, como disse acima, é a provável inserção de reflexões produzidas para outros fins, artigos talvez, nas respostas às perguntas, que são sempre curtas e objetivas, mas que são respondidas, seja quando fala de seus livros Tatu (de 1983), Martim Fera (de 1984), seja quando discorre sobre Mallarme, Trakl, Eisenstein e Bashô  ou mesmo quando fala do Finnegans Wake, de forma muito caótica e dispersiva. De qualquer forma, aprende-se um bocado sobre sua prática e filosofia de tradução. O livro inclui uma cronologia de sua vida acadêmica, bibliografia e prêmios.  Segue o baile. Vale!
Registro #1572 (perfis e relatos #102)
[início: 16/08/2020 - fim: 20/08/2020] 
"Donaldo Schüler: entrevista", Donaldo Schüler, Dirce Waltrick do Amarante e Marcelo Tápia (organização), Curitiba: Editora Medusa (coleção Palavra do tradutor), 1a. edição (2018), brochura 13,5x19,5 cm, 177 págs., ISBN: 978-85-64029-56-9

domingo, 13 de setembro de 2020

ricardo aleixo

A coleção "Encontros"  da editora Azougue reúne entrevistas com músicos, filósofos, arquitetos, dramaturgos, poetas e tantos outros artífices do pensamento, brasileiros e latino-americanos. Neste volume, lançado em 2017, encontramos dezenove entrevistas e/ou depoimentos de Ricardo Aleixo, premiado e respeitado poeta mineiro, lá das terras altas do Campo Alegre de sua Belo Horizonte fundamental. As fontes deste material são variadas: nove entrevistas haviam sido publicadas em jornais ou revistas, cinco foram transmitidas originalmente pela televisão, uma pelo rádio e três em meios digitais. Uma última foi gravada pela organizadora da coleção, Telma Scherer, após uma das performances de Aleixo. A mais antiga é de 1996 e a mais recente é de 2014. Como é natural neste tipo de registro, de linguagem informal e que gravita o momento específico da conversa, em algumas encontramos ênfase na história pessoal e influências na formação, noutras é do projeto estético e das técnicas que se fala. Todavia, apesar de temporalmente afastadas por quase duas décadas observa-se notável uniformidade nelas, além de complementaridade, pois a cada entrevista ou depoimento o leitor tem a chance de rever uma ideia, conferir o acerto dos caminhos antes projetados, relembrar um dado biográfico. Enfim, o volume é um fértil depósito de informações que progressivamente se somam. John Cage, ora silente, ora tonante, paira sobre as dezenove entrevistas, soberano, mas Aleixo também rende homenagens às suas, digamos assim, Musas poéticas, que são os laços familiares, Augusto de Campos, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Décio Pignatari, Exu e seus caminhos, o futebol e a música, a ideia e os atos de liberdade, a oralidade. A entrevista que mais gostei é de 2010, foi provocada por Fernando Pérez e Guilherme Ribeiro e publicada em uma revista universitária chilena (clika aqui e lê). Entretanto, como já registrei acima, todas elas são muito boas. Nada supera a leitura de uma obra (e no caso do Aleixo, também a fruição ao vivo de seus atos performáticos, seus cantares poéticos), mas neste volume o leitor tem a chance de aprender algo sobre a formação, processo de criação e estímulos intelectuais de um grande artista brasileiro. Segue o baile. Vamos em frente. Vale!
Registro #1567 (perfis e relatos #101)
[início: 07/10/2019 - fim: 20/09/2020]
"Ricardo Aleixo: encontros", Ricardo Aleixo, Telma Scherer (organização), Rio de Janeiro: Azougue (Coleção Encontros: a arte da entrevista, #54), 1a. edição (2017), brochura 14x28 cm, 248 págs., ISBN: 978-85-79202-16-2

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

aurora bernardini: entrevista

"Aurora Bernardini: entrevista" é o primeiro volume de uma coleção de entrevistas publicada pela editora Medusa, de Curitiba. Aurora Bernardini é italiana de nascimento (1941), mas radicou-se no Brasil na adolescência (1954) e fez carreira universitária na USP, onde foi de aluna (de graduação, mestrado e doutorado, nos anos 1960 e 1970 ) a professora titular. Além das atividades acadêmicas ela também traduziu ou profissionalmente ou apenas por prazer muitos autores, sobretudo italianos e russos, sendo bastante respeitada pela qualidade de seu trabalho. Neste volume estão reunidas basicamente duas entrevistas e um conjunto de exemplos de tradução, comentados por ela. A primeira entrevista é bastante curta, cousa de dez laudas, e é conduzida Andréia Guerini, uma das organizadoras do volume. A segunda entrevista foi conduzida por Leandro Silveira Pereira é bem mais longa (quase quatro vezes mais extensa) e já havia sido publicada na Revista Getúlio, em 2007. Em ambas ela fala algo de sua vida, sua formação, suas escolhas estilísticas, seu amor pela poesia, sua experiência no complicado mundo editorial, entre outros assuntos literários. O tema que mais surpreende o leitor é sua descrição de como envolveu-se na tradução de "boletins amazônicos" produzidos por um conterrâneo seu, o nobre italiano Ermanno Stradelli, um explorador, etnógrafo e folclorista que viveu no Brasil entre os anos 1879 e 1926 (quando morreu, em Manaus). Como ela mesmo diz em algum momento da segunda entrevista, ela o fez porque gostaria de compensar-se da frustração de trazer ao Brasil grandes autores (Velimir Khlébnikov, Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva, Luigi Pirandello, Giuseppe Ungaretti), que o público não lê.  Os exemplos de tradução reunidos neste volume são do russo Khlébnikov, do italiano Pirandello, do brasileiro Raduan Nassar e do italiano Eugenio Montale (onde ela se corresponde com um outro grande tradutor brasileiro, o paulista Haroldo de Campos). O livro inclui também uns mimos: um curto ensaio e um apêndice (confusos à beça, pois trata-se de uma comunicação acadêmica sem o aparato visual que deve ter sido utilizado na ocasião); uma longa lista das traduções publicadas por Bernardini; uma relação de alguns de seus artigos artigos publicados em livros, revistas e sites eletrônicos. Ao leitor só resta agradecer a Aurora Bernardini por ser tão diligente e industriosa. Evoé! Em breve registro aqui o outro volume da coleção, entrevistas com o catarinense Donaldo Schüler. Segue o baile. Vale!
Registro #1563 (perfis e memórias #100)
[início: 19/06/2020 - fim: 21/06/2020]
"Aurora Bernardini: entrevista", Andréia Guerini e Sérgio Medeiros (organização), Curitiba: Editora Medusa (coleção Palavra do tradutor), 1a. edição (2018), brochura 13,5x19,5 cm, 116 págs., ISBN: 978-85-64029-57-6

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

a lua é um balão

Já li "A lua é um balão" um bom número de vezes. Os causos e fragmentos de memória reunidas nele tornaram-se em certa época boa parte de meu cancioneiro de contador de histórias. David Niven nasceu em 1910 e morreu em 1983, fez mais de 90 filmes e ganhou um Oscar, o de melhor ator, em 1958. Alcançou muito sucesso na vida, mas não sucesso gratuito, pois sempre foi muito diligente e trabalhador. No livro ele fala de sua vida, desde a infância até basicamente os anos 1960, quando saiu dos Estados Unidos e passou a viver no sul da França (existe um segundo volume de suas memórias, "Mulheres de classe, cavalos de raça", que é tão divertido quanto este, onde explora mais os filmes que fez após esta volta à Europa e as últimas duas décadas de sua vida). O tom de "A lua é um balão" sempre é bem humorado, mesmo quando ele fala de suas dificuldades, seus fracassos, suas perdas. Niven conta sobre seus anos de formação, inicialmente em colégios de elite inglesa, muito embora ele não fosse um exemplo de estudante; de sua iniciação sexual; da derrocada financeira de sua família, com a morte de seu pai na primeira grande guerra; de sua formação militar e vida no exterior; de como emigrou para os Estados Unidos, tornou-se um vendedor de whisky e acabou entrando quase por acaso no mundo do cinema; dos filmes que fez, na época em que o cinema era onipresente no imaginário popular; de seu reengajamento militar, para servir na segunda grande guerra; dos altos e baixos de sua carreira; de seus muitos amigos e família. Não me atrevo a tentar resumir a vida movimentada de um sujeito como ele em uma resenha ligeira como essa. O que sempre me impressiona neste livro é o tom do registro, mesmo quando o assunto é delicado ou até constrangedor Niven alcança manter o leitor preso a narrativa. Com estoicismo ele enfrenta tanto a sedução do limite, da hybris grega, quanto as derrotas e fracasso. Talvez este seja o mais precioso ensinamento que ganhei na primeira leitura e que poupou-me nestas últimas quatro décadas de sofrer muitos aborrecimentos. Grato por isto, David Niven. Grato. Vale! 
Registro #1561 (perfis e memórias #99)
[início: 01/07/2020 - fim: 11/07/2020]
"A lua é um balão", David Niven, São Paulo: Nova Época Editorial, 2a. edição (1975), brochura 14x21 cm, 336 págs., sem ISBN [edição original: The Moon's a Ballon (London: Hamish Hamilton) 1971]

sábado, 20 de junho de 2020

la canción de la bolsa para el mareo

Entre novembro de 2013 e agosto de 2014 Nick Cave e seus companheiros da The Bad Seeds fizeram uma turnê pela Europa, Canadá e Estados Unidos. Em algum momento, no início de junho de 2016, Cave teve uma epifania ou, talvez melhor dizendo, ele fez uma associação entre a recente visão de uma garota decapitada em um acidente de transito em uma estrada no Tennessee e a lembrança de um rapaz que havia saltado de uma ponte ferroviária, e morrido na queda, uma lembrança dos tempos de sua juventude, quando ele morava na Austrália. A partir daí Cave passa usar os sacos de enjoo que são distribuídos nos aviões para fazer anotações e desenhos, produzir registros fragmentários  de seu humor, contar causos, evocar memórias, construir poemas e ideias para canções (ao final do livro conheceremos três delas: "King-sized Nick Cave Blues", "The Beekeeper's wife" e "The Recruitment Officer", ainda não musicadas). O livro reproduz imagens de 22 dos sacos de enjoo, mas o texto do livro é muito maior do que aparece nelas (ele deve ter usado mais de uma centena sacos, a se acreditar que tudo que resta transcrito no livro foi escrito originalmente neles). Não é uma narrativa linear. Como ele mesmo diz, as bolsas de enjoo estão sempre cheias de tudo que ele ama e também odeia ("Eventually everybody took up residence inside me"), ou seja, é uma metáfora antropofágica de seu processo criativo. Encontramos nos sacos pistas de como ele entende seu ofício, seu talento; a exposição de suas mitologias; um elenco de desabafos, espantos do passado e sonhos capturados. Ele fala dos fugidios encontros com fãs, do cotidiano com o povo que dá suporte técnico às turnês e com a banda. Há algo de obsessivo, uma mania por sistematização, repetições, uma máquina de associações contínuas, de um cérebro criativo e sensível. Ele chora em um show de Bryan Ferry e imagina ter sido vampirizado por Bob Dylan certa vez. Conhecemos suas nove musas (cada uma com sua função no palco, velando por cada canção), seus nove anjos, os nove vezes nove tormentos que distraem um artista, os nove dragões metafóricos de sua fé e ofício, da gênese criativa de seu mundo, conhecemos seus muitos colaboradores do passado, as nove pessoas que lhe são caras, merecedoras de sua gratidão. Há temas que se repetem: as pontes; os rios; uma menina negra de saias curtas; a mulher que não atende o telefone, do outro lado do Atlântico; os sonhos lúbricos; os fiapos que ele compulsivamente tenta tirar da jaqueta; a irmandade dos nômades confrades da banda. Vale a pena conferir o texto completo desde livro narrado pelo próprio Nick Cave num podcast depositado no Spotify  e acompanhar o website dele (Nick Cave). O sujeito sabe pensar e criar. Bom divertimento. Segue o baile. Vale! 
Registro #1544 (perfis e memórias #98) 
[início: 02/06/2020 - fim: 04/06/2020] 
"La canción de la bolsa para el mareo", Nick Cave, tradução de Mariano Peyrou, Madrid: Sexto Piso España, 1a. edição (2015), capa-dura 14x21 cm, 184 págs. ISBN: 978-84-15601-97-5 [edição original: The Sick Bag Song (Edinburgh: Canongate) 2015]

sábado, 13 de junho de 2020

otoño en madrid hacia 1950

Neste volume estão reunidos quatro textos de Juan Benet que foram publicados originalmente em jornais, entre 1972 e 1985. Benet foi um escritor espanhol muito respeitado que viveu entre 1927 e 1993. O leitor encontra nas narrativas algo singular, pois as memórias do autor escondem seu protagonismo, seu eu, sua vaidade. Os quatro registros se referem basicamente a experiências que se plasmaram no lustro que vai de 1945 e 1949, quando Benet tinha entre 18 e 23 anos, mas que nortearam suas escolhas, sua carreira, suas ambições. "Barojiana", publicada em 1972, trata das tertúlias que aconteciam na casa de don Pío Baroja, prolífico autor espanhol da primeira metade do século XX. Benet parte da obra de Baroja, da leitura de seus livros e de suas influências, para identificar o encantamento que sua presença provocava nos presentes. Ainda jovem, ele percebe o poder das escolhas literárias de um autor em seu entorno mundano. "Caneja, Juan Manuel" é um curto ensaio sobre um premiado e reconhecido pintor nascido em Palência, autor de impressivas paisagens da meseta castelhana, de influência cubista. Benet fala das vicissitudes pelas quais Caneja passou durante a ditadura franquista, de seu laconismo, e sentido de humor. "El Madrid de Eloy" é um ensaio que enfeixa uma miríade de reflexões sobre a Vila de Madrid, a capital do Estado Español, no início dos anos 1980. Benet fala de autores que parecem capturar algo da magia madritense, de causos, de suas viagens da juventude pela Europa, de personalidades que marcaram a ele e a cidade. "Luis Martín-Santos, um memento", oferece o que o título promete, uma registro de lembranças sobre um inteligentíssimo amigo médico e também poeta, que morreu jovem, num acidente de carro. Nas quatro narrativas Benet alcança ofuscar-se, parecer irrelevante, tornando protagonistas todos os demais, dando relevância às circunstâncias sociais, à política, aos conceitos filosóficos e considerações literárias que brotam exatamente da relação dele com os outros. Há algo de proustiano nas longas descrições, no deslocamento do tempo, no olhar fino sobre o efeito que as estações, o clima e os horários têm sobre as gentes. No último ensaio, sobretudo, afloram descrições maravilhosas da Madrid do pós guerra, nos anos 1940, daquele mundo artificial, que pouco foi afetado materialmente pela guerra, porém que viveria praticamente isolada, política e economicamente, da comunidade internacional, até a morte do ditador Franco, em meados dos anos 1970. Livro muito interessante. Preciso tomar vergonha e ler os romances de Benet que restam abandonados em meus guardados há tantos anos. Vale! 
Registro #1541 (perfis e memórias #97) 
[início: 22/05/2020 - fim: 25/05/2020] 
"Otoño en Madrid hacia 1950", Juan Benet, Barcelona: editorial Random House Mondadori (Debolsillo - Contemporánea), 1a. edição (2010), brochura 12,5x19cm., 155 págs., ISBN: 978-84-9908-169-4

quinta-feira, 28 de maio de 2020

sardenha como uma infância

Esse pequeno livro conduz o leitor para uma viagem de sonho, compartilha conosco impressões e reflexões ricas, nos convida à liberdade, à vida. Todavia o autor implicitamente nos faz lembrar que nenhuma experiência é verdadeiramente partilhável, que apenas cada um de nós, a cada vez, a cada tempo, é capaz de aceitar - ou não - passar por uma educação sentimental autêntica, deixar-se viajar sem medo, bem observar, interagir dignamente com o novo, com aquilo que inexiste em nosso cotidiano. Elio Vittorini, escritor, crítico e tradutor italiano, viveu na primeira metade do século XX. Foi também um ativista, um militante antifascista, mas é realmente respeitado pelas inovações formais que introduziu na literatura italiana de seu tempo. "Sardenha como uma infância" é um relato de viagens, porém, é também uma narrativa muito inventiva, que ecoa uma visão de mundo entre sofisticada e ingênua: o desejo de que a felicidade não seja um período de férias entre privações e sofrimentos do cotidiano, antes sim a condição natural de todos os homo sapiens. Publicado em 1932, em uma revista literária de Florença, o texto original concorreu a um prêmio de melhor relato de viagens à Sardenha (Vittorini dividiu o prêmio com um sujeito chamado Virgilio Lilli). Um grupo de jovens (Vittorini nasceu em 1908) é levado à Sardenha por algumas semanas. Quase todos são jornalistas, que viajam em grupo, usando todos os meios de transporte disponíveis na ilha, hospedando-se ao azar das circunstâncias, sem culpa ou itinerário. A maioria das cidades da ilha são visitadas. São cidades antiquíssimas, criadas pelos povos da cultura Nurágica (os sardos originais do período neolítico, descendentes de fenícios, de egípcios, de turcos?, ninguém sabe ao certo), e mil vezes dominadas por gregos, cartagineses, romanos, sarracenos, catalães, franceses. O grupo consegue lugar em um navio de cabotagem e faz também a circum-navegação da ilha, parando em cada cidade portuária, sem pressa, ao sabor dos ventos e das marés. Vittorini produz 43 curtos relatos, onde natureza em sua potência e os vestígios da passagem dos homens são contrastados. Alguns parecem contos, invenções, já outros são instantâneos de uma descoberta, de uma reflexão, de um aprendizado. O livro inclui também um poema intitulado "Nei morlacchi", um louvor a um povo/grupo étnico dos Bálcãs (os Morlacchi), que lembra o "Del Natural", de W.G. Sebald. Esse volume faz parte de uma coleção da Cosac Naify que inclui pequenas narrativas de viagens de Jean-Paul Sartre, Joseph Brodsky, Le Corbusier e Elias Canetti. Segue o baile. Vale! 
Registro #1534 (perfis e memórias #96) 
[início: 06/04/2020 - fim: 08/05/2020]
"Sardenha como uma infância", Elio Vittorini, tradução de Maurício Santana Dias, São Paulo: editora Cosac Naify (Coleção Companheiro de viagem), 1a. edição (2011), brochura 15,5x19 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-7503-964-9 [edição original: Sardegna como un'infanzia / Viaggio in Sardegna (Florença: L'Italia Letteraria) 1932]

sábado, 9 de maio de 2020

a ridícula ideia de nunca mais te ver

Esse é um texto híbrido, uma autoficção. Trata-se de um misto de invenção, memória, biografia e autobiografia. Rosa Montero fala muito de si e muito de Marie Curie, a genial física polonesa, ganhadora de dois prêmio Nobel, um de Física, em 1903, e outro de Química, em 1911. Sendo algo cruel, diria que Plutarco chamaria esse livro de "Vidas paralelas: Curie e Montero". O tom lembrou-me muito aquela coleção de livretos editada pela Brasiliense nos anos 1980: "Encanto Radical", na qual escritores faziam curtas hagiografias de seus ídolos, gurus, grandes personalidades que arrebatavam seus sentidos. Pois Rosa Montero, ainda sob impacto da perda de seu companheiro de muitos anos, Pablo Lizcano, morto de doenças decorrentes de um câncer, fala da experiência do luto, da aceitação da morte, do autoconhecimento que advém deste doloroso processo, e também fala do amor, da saudade, da velhice, da paixão, do cotidiano, do sexo, das relações entre homens e mulheres. Suas reflexões são contrastadas com as notas de um diário mantido por pouco mais de um ano por Marie Curie, relacionadas a morte de seu marido e colega físico, Pierre Curie, em 1906. Encantada com a biografia e pioneirismo de Curie, uma mulher obstinada que alcançou glória em áreas normalmente fechadas a participação de mulheres (nada muito diferente do que acontece até hoje, cabe-se dizer), Rosa Montero tenta extrair das notas do diário de luto de sua biografada não exatamente consolo, antes sim algo do poder que as palavras têm sobre todos nós. Ela fala muito sobre o processo criativo, sobre o ofício da literatura, da invenção. Trata-se de um texto interessante, mas - como quase sempre acontece em suas narrativas - a cousa cansa. Claro, os fatos biográficos sobre Marie Curie impressionam, sustentam o livro do início ao fim, mas isso uma sóbria biografia também faz. As descrições dos processos físicos e as contribuições científicas estão muito bem escritas. Entretanto, me parece mais que risível algumas pajelanças que a autora incluiu no texto, como uma associação besta entre gênero e o tamanho dos dedos das mãos, e sua obsessão com o contraste entre os papeis sociais de mulheres e homens. Rosa Montero incluiu algumas #hashtags no texto, uma forma curiosa de mostrar as ênfases que brotam de sua narrativa. Curioso. As notas do diário de Curie estão incluídas em um apêndice, e cabe dizer que são notavelmente bem escritas. Aliás, lembrei que há alguns anos registrei aqui um belo volume com a transcrição de admiráveis notas de aula de Marie Curie: clika! Vamos em frente. Sigamos no baile macabro deste ano da peste. Vale! 
Registro #1526 (perfis e memórias #95) 
[início: 01/03/2020 - fim: 02/04/2020] 
"A ridícula ideia de nunca mais te ver", Rosa Montero, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm, 208 págs. ISBN: 978-656-80309-84-3 [edição original: La ridícula ideia de no volver a verte (Barcelona: Seix Barral / Planeta de Libros) 2013]

segunda-feira, 20 de abril de 2020

proseando aqui e acolá

Conheci Sinvaline Pinheiro no início de março, nos domínios do Memorial Serra da Mesa, às margens do enorme lago da hidrelétrica Serra da Mesa, quando estive em uma missão de trabalho no interior de Goiás, em Uruaçu. Sinvaline é escritora, pesquisadora, ativista cultural e memorialista de sua região (que não se restringe ao seu Norte de Goiás natal, pois se expande por todo o estado de Goiás, também o Tocantins e outros caminhos do Cerrado brasileiro. Neste seu "Proseando aqui e acolá" a autora faz 30 registros breves sobre indivíduos e seus ofícios; sobre músicos e artistas plásticos; sobre romarias, saberes populares, festas tradicionais; sobre remotas tribos indígenas, superstições e causos. É o resultado de uma pesquisa etnográfica, onde fez-se a coleta de depoimentos de pessoas que vivenciaram genuínas manifestações culturais goianas, sobretudo no século passado. Em muitos destes registros Sinvaline tenta grafar a linguagem utilizada por seus interlocutores, quase sempre gente simples, pessoas não educadas formalmente, mas detentoras de conhecimentos ancestrais ou ricas - e por vezes dramáticas - experiências de vida. Cada uma das histórias é acompanhada de um registro fotográfico, que oferece ao leitor a oportunidade de contrastar o indivíduo real ali retratado com o que é, a partir da narrativa, pelo leitor construído, imaginado, absorvido. O livro inclui também alguns poemas assinados por Sinvaline, onde ela canta seu amor por sua cidade, Uruaçu, e sua região. Eu, sempre um vinagre pessimista, acredito que o Brasil não merece pessoas assim, que com tanta generosidade guardam o que há de mais belo e verdadeiro da alma brasileira, o que há de mais rico e forte em nosso povo, bem mais que vilipendiado, roubado e corrompido, sem pudor, por legiões de canalhas, há cinco séculos. Paciência. Parabéns a Sinvaline Pinheiro por sua obra, seu exemplo, sua luta. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1518 (perfis e memórias #94) 
[início: 05/03/2020 - fim: 31/03/2020] 
"Proseando aqui e acolá", Sinvaline Pinheiro, Goiânia: Editora PUC-GO / Editora KELPS, 1a. edição (2012), brochura 14x20 cm., 108 págs., ISBN: 978-85-8106-297-6

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

dias exemplares

Nesta bela edição da Carambaia (as usual) encontramos notas autobiográficas de Walt Whitman, que viveu entre 31/05/1819 e 26/03/1892. Trata-se de um conjunto de reflexões sobre vários aspectos da vida cultural e política dos Estados Unidos da segunda metade do século XIX. É um livro muito interessante de se ler, apesar da marcante diferença entre a primeira e as duas partes seguintes. A primeira (140 páginas, de um total de quase 370), foi escrita em cadernos, simultaneamente a Guerra Civil Americana, de 1861 a 1865, e finalizada em 1865, quando Whitman tinha 46 anos. Nesta parte ele digressa sobre sua biografia familiar e depois sobre seu envolvimento direto nos acontecimentos da Guerra da Secessão Americana. Trata-se de um relato forte, terrível até, pareceu-me uma funesta versão em prosa das gravuras de Goya sobre a guerra de independência espanhola (a luta contra os invasores franceses no início do século XIX). Whitman fala de seu cotidiano, dos cuidados que oferece os feridos na guerra, das cartas de consolo que escreve aos familiares dos mortos. A segunda parte começa com o que pode ser definido como desdobramentos do colapso que ele sofreu em 1873, segue até o início de 1876 e depois, retrospectivamente, revisando quase tudo o que fez na vida, até 1879, mais ou menos.  Nestas anotações acompanhamos as reflexões de alguém semi inválido, consumido pelas dores da guerra, o acosso da depressão. Ele vive em uma cabana isolada em Camden, no estado americano de New Jersey, percorre a mata, faz o censo das flores, das árvores, da passagem do tempo, dos pássaros e dos sons da floresta. Ele sabe olhar para o céu, reconhecer estrelas e constelações, faz associações com os deuses e a mitologia. Aos poucos o sujeito sai de seu torpor, de sua culpa, que é a culpa coletiva dos beligerantes, melhora de saúde. A terceira e última parte do livro (outras 150 páginas) um Whitman renovado viaja pelo país, primeiro em barcaças no Rio Hudson ou por estradas de ferro que sobem ao Norte, até a fronteira com o Canadá. Depois ele vai ao Oeste, até as montanhas Rochosas, visita as minas de prata  do Colorado, o que viria a ser o parque Yellowstone, no Wyoming e em Montana, conhece cidades do Oeste selvagem, região que se americaniza. Ele registra ter feito pelo menos 3.000 Km em trens. Em suas anotações antecipa um destino glorioso para seu país, agora pacificado, senhor de tantas terras cultiváveis e riquezas sem fim. Esta última parte equilibra descrições minuciosas da geografia, flora, fauna e pessoas de muitos lugares diferentes com reflexões sobre arte, literatura, natureza. Ele contrasta as culturas americana e europeia, visita amigos de longa data, como Emerson, Longfellow e Carlyle, pensa sobre a obra de Hegel, Coleridge, Poe, vai a concertos e exposições nas grandes cidades, faz um balanço sobre sua vida. Não se trata de um volume que sirva como biografia. As anotações terminam em 1882, mais ou menos a época em que a definitiva edição de seu famoso "Folhas da Relva" foi publicado. Bruno Gambarotto, que assina a tradução e um excelente posfácio, argumenta que as poesias de "Folhas da Relva" são irmãs das anotações deste "Dias exemplares". A edição da Carambaia reproduz em cada capa mil imagens de folhas, emulando o hábito de Whitman de colecionar folhas de plantas durante suas longas caminhadas, colocando-as entre as páginas dos livros que estava a ler. Um belo livro, que certamente trás junto consigo um tanto dos horrores da guerra e muito da serenidade do frescor, da alegria, que se alcança no campo, nas caminhadas, nas viagens. Também eu preciso preparar-me para os ritos de passagem de ano, preparar-me para as peregrinações pelos museus e galerias, reencontrar amigos e as pessoas queridas da família. Vale! 
Registro #1471 (perfis e memórias #93) 
[início: 09/08/2019 - fim: 11/10/2019]
"Dias exemplares", Walt Whitman, tradução de Bruno Gambarotti, São Paulo: Carambaia Editora, 1a. edição (2019), capa-dura 13x19 cm., 368 págs., ISBN: 978-85-69002-58-1 [edição original: Specimen Days & Collect (Philadelphia: Rees Welsh & Co.) 1882-83]

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

anthony bourdain remembered

Há pouco mais de um ano, num funesto 08 de junho, uma sexta-feira, Anthony Bourdain cometeu suicídio. Senti aquela morte como a de uma pessoa querida, como se fosse uma pessoa muito próxima. Lembro-me muito bem do impacto da leitura de seu primeiro livro, "Cozinha confidencial", no início dos anos 2000. Não se tratava apenas de um livro sobre gastronomia, salpicado com receitas bacanas. Bourdain descrevia o ofício de cozinhar nos grandes restaurantes com humor e sarcasmo, contrastando o visível glamour daquela atividade com o pouco conhecido estresse ao qual os profissionais são submetidos, com os truques sujos dos proprietários para promover vendas, com o ego inflado dos cozinheiros estrelados, com as carreiras que se eclipsavam por conta das drogas. Depois li vários outros livros dele (Maus bocados, Ao ponto), seus textos de ficção (Bobby Gold) e suas graphic novels (Get Jiro! e Hungry Ghosts). O sucesso com a venda dos livros o levou a televisão, onde gravou várias séries, séries admiráveis que nunca cansam o espectador (A Cook's Tour, No Reservations, The Layover e Parts Unknown). Bourdain tornou-se uma celebridade, um talentoso contador de histórias, um sociólogo amador, alguém que tinha a notável capacidade de sintetizar em poucos minutos os complexos contextos de culturas bastante diferentes da sua. Poucas pessoas inspiravam tamanha admiração e também, claro, inveja. Assim como eu, que ao fazer minha peregrinação à Dublin preparei-me assistindo seus shows gravados lá (um deles pode ser acessado aqui: No reservations), muitos devem ter se inspirado nele ao programarem-se para uma viagem. Sua morte pegou todos de surpresa. Como podia um sujeito vivendo uma vida tão prazerosa cometer suicídio, todos perguntavam-se. Logo após sua morte o canal de notícias CNN abriu espaço em suas mídias sociais onde os fãs de Bourdain poderiam registrar algo sobre ele, celebrar seus feitos, falar de sua influência. Recentemente parte daqueles registros digitais nas mídias sociais foram transferidos para o formato livro, este "Anthony Bourdain Remembered". Trata-se de 155 registros, que guardam algo do impacto daquela notícia triste. Alguns são de celebridades, colegas chefs, gente da televisão ou políticos bastante conhecidos; a grande maioria pessoas comuns, entusiastas de sua arte, aficionados do mundo inteiro. O livro contém fotos muito bacanas, fotos que capturam aquele olhar ambíguo, de quem fazia as coisas parecerem fáceis, mesmo quando elas eram sabidamente difíceis. Grande sujeito, para ser lembrado sempre. Bela homenagem, belo livro. Vale! 
Registro #1447 (perfis e memórias #92) 
[início - fim: 29/07/2019]
"Anthony Bourdain Remembered", Amy Entelis (organizadora), New York: HarperCollins Publishers (Ecco hardcover books), 1a. edição (2019), capa-dura 22,5x26 cm., 208 págs., ISBN: 978-0-06-295658-3 [edição original: CNN Worldwide 2019]

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

el hombre que nunca existió

Já escrevi aqui sobre "Operación Desengaño", o romance onde se transforma em ficção uma legítima operação de contra-espionagem empreendida durante a segunda grande guerra mundial: a de enganar os nazistas, fazendo-os acreditar que a invasão do continente europeu dar-se-ia pela Córsega, Sardenha, Grécia e Balcãs, e não diretamente pela Sicília, como de fato aconteceu. Publicado em 1950 "Operação Desengaño" chamou muito a atenção do público, de forma que o serviço de segurança britânico, que havia sido responsável pela operação, decidiu não negar o fato. Imaginando que tal divulgação seria boa propaganda para o moral dos ingleses (eram tempos de guerra fria), decidiram revelar muitos detalhes de como deu-se a operação, que oficialmente chamou-se "carne moída", uma piada algo macabra. A trapaça envolveu lançar de um submarino o cadáver de um pretenso oficial inglês com documentos sigilosos, que fizessem o alto comando nazistas acreditar nos planos futuros dos aliados. Ewen Montagu foi o oficial da inteligência britânica que liderou toda operação. Diz a lenda que ele escreveu seu "O homem que nunca existiu" em apenas um final de semana. De qualquer forma, seu livro, publicado em 1953, foi um sucesso, vendeu milhões de cópias e foi rapidamente adaptado para o cinema, também com excelente resultado nas bilheterias. O livro de Montagu é tão interessante de ler quanto o de Duff Copper. Em certa medida é até melhor, pois há boas reproduções de fotografias, de mapas e gráficos, das cartas oficiais forjadas e de uma miscelânea de objetos que foram enviados junto com o cadáver do falso "comandante Martin", o tal homem que nunca existiu do título. Os dois volumes se complementam perfeitamente. Esse volume tem dois prólogos, um assinado pelo historiador John Julius Norwich, filho de Duff Copper, e outro assinado por Hastings Ismay, que foi chefe do estado maior durante o primeiro período em que Winston Churchill foi primeiro ministro inglês. Montagu admite várias vezes ao longo de sua narrativa que vários detalhes continuavam sob segredo de estado, principalmente o nome do subordinado seu que teve a ideia original, a identidade do morto e de como o serviço secreto acompanhou as movimentações nazistas que se seguiram a descoberta do corpo. Diversão de primeira. Pode até não ser verdade que Montagu escreveu seu livro em apenas um final de semana, mas este é o tipo de livro que o leitor não para de ler antes de terminar. Esses volumes editados pela Reino de Redonda (de Javier Marías) são mesmo ouro puro e fino. Ave, Marías!, sempre. Vale!
Registro #1437 (perfis e memórias #117)
[início: 13/06/2019 - fim: 05/07/2019]

"El hombre que nunca existió", Ewen Montagu, tradução de Antonio Iriarte, prólogo de John JUlius Norwich, Madrid: Reino de Redonda, vol. 34, (1a. edição) 2019, capa-dura 14,5x23 cm., 402 págs., ISBN: 978-84-947256-3-0 [edição original: The Man Who Never Was (London: Evans Brothers) 1953]

terça-feira, 4 de junho de 2019

trieste

De Jan Morris já havia lido dois livros bem antigos: os adoráveis "Venice", que é de 1955 e "Spain", que é de 1964.  "Trieste" é bem mais recente, foi publicado originalmente em 2001. Jan Morris fala de Trieste, cidade italiana do nordeste, na costa do Mar Adriático, na fronteira dos Bálcãs. Mas ela também fala de si, de sua longa vida e das metamorfoses pelas quais passou. Quando esteve pela primeira vez em Trieste, em 1946, ela era um homem, um jovem soldado do exército britânico. Em 2001, quando o livro foi publicado, tem 75 anos, já é mulher há mais de quarenta anos. Neste longo intervalo Morris visitou Trieste várias vezes. O livro não é longo, mas contém uma miríade de informações. Aprendi um bocado. Ela fala num tom melancólico (bem diferente do tom que encontramos em seus livros sobre Veneza e Espanha). Trieste era nos tempos romanos uma colônia quase irrelevante, mas atingiu seu apogeu quando tornou-se o porto mais importante do Império Austro-Húngaro, estratégico ponto de conexão com o Mar Mediterrâneo e o extremo Oriente. Na pequena cidade conviviam pessoas de diferentes culturas, línguas, religiões, origens e status social. Em dez curtos capítulos Morris fala da história, geografia, arquitetura da cidade; dos muitos senhores do lugar (romanos, Bizâncio, francos, austríacos, nazistas; e Trieste só voltou a ser italiana em 1954, quase dez anos após o final da segunda grande guerra); fala das montanhas, mar e florestas que a cercam; de sua vocação como ponto de passagem, de lugar de exílio; faz especulações sobre a influência eslava, judaica, cristã e moura na psique dos cidadãos que viviam lá na época em que o livro foi escrito; reflete sobre a não vocação para o turismo, apesar dos muitos bares e cafés, das igrejas e prostíbulos, da presença de importantes laboratórios científicos na cidade, da especial vida mundana, citadina; canta a nostalgia de seus anos de esplendor. Há seções biográficas no livro dedicadas a James Joyce, Italo Svevo, Rainer Rilke, Richard Burton, D.H. Lawrence, Stendhal, Maximiliano (que história a do azarado imperador do México, irmão mais novo do imperador Francisco José) e vários outros sujeitos que viveram ali, "no limite oriental da latinidade, no extremo sul do germanos". No capítulo final ela propõe que Trieste seja nomeada a capital de um país imaginário, onde todo aquele cuja vida já passou por aborrecimentos sem conta, e sente-se apátrida, enfim, todos cidadãos de nenhuma parte do título do livro, possam desfrutá-la em paz, como em uma Citera espiritual. É sim um livro muito especial. Jan Morris me lembra Tirésias, aquele adivinho grego que também foi homem e mulher, e era especialmente sábio. Vale!
Registro #1410 (perfis e memórias #90)
[início:01/05/2019 - fim: 17/05/2019]
"Trieste, o el sentido de ninguna parte", Jan Morris, tradução de Lucía Barahona Lorenzo, Madrid: Gallo Nero ediciones, 1a. edição (2017), brochura 14x19 cm., 224 págs., ISBN: 978-84-1652943-8 [edição original: Trieste and the meaning of nowhere (Faber and Faber) 2001]

segunda-feira, 3 de junho de 2019

spain

Vou registrar este volume com o marcador "perfis e memórias" e não "crônicas", "ensaios", "turismo" ou "viagens", pois ele evoca uma Espanha que passou por várias metamorfoses desde que foi escrito. Jan Morris, de quem já registrei aqui o adorável "Venice", publicou-o originalmente em 1964 e fez algumas alterações em 1979, após a morte de Franco e a redemocratização do país. Ela diz textualmente: "this book died with him (Franco)", com prudência. Mas não, acredito que o leitor contemporâneo pode aproveitar muitas das reflexões de Morris sobre a Espanha. Claro, as transformações sociais que o país experimentou nos quase 60 anos desde a publicação original são tremendas, todavia o olhar de Morris conduz o leitor aos temas que definem perfeitamente a Espanha. Meus gurus quando se trata da história e da sociologia espanhola são sempre Cees Nooteboom, Arturo Pérez-Reverte, Javier Marías, Julio Llamazares, Josep Pla, Manuel Vázquez Montalbán. Acho que esse pequeno livro de Morris não deve muito a nenhum deles (na medida em que suas palavras podem ser debatidas, julgadas, contrastadas com a experiência pessoal do eventual leitor que já deambulou por aquele país). Os dez capítulos tratam da "alma" espanhola, das paixões que a definem; dos múltiplos povos que lá viveram e ali se fundiram; das manifestações artísticas únicas do país; da orografia; da vocação militar; da onipresença da igreja; dos mitos; das diferentes línguas e diferentes comunidades autonômicas; da religiosidade; da literatura, de Cervantes, Lope de Vega, e tantos outros; das aventuras; da culinária variada e rica. Num dos capítulos finais ela fala de cidades icônicas do país: Salamanca e sua antiga universidade; Segóvia e seu casario romano; Ávila e suas muralhas; Toledo, a forja, o caldeirão étnico que definiu no passado o país, tornando-o complexo como toda nação digna de nome acaba se tornando. No último capítulo ela fala de Madrid, cidade inventada por Felipe II, e canta as metamorfoses que a cidade e o país experimentava após a morte de Franco. Li esse livro alternando melancolia e curiosidade, experimentando algumas memórias bacanas e alguns aborrecimentos; com a certeza que há algo realmente singular ali, ao alcance de todo aquele que se permita conhecer cousas raras, belas, instigantes. Vamos em frente. Vale!
Registro #1409 (perfis e memórias #89)
[início:01/04/2019 - fim: 30/05/2019]
"Spain", Jan Morris, London: Faber and Faber Limited, 1a. edição (2008), brochura 13x20 cm., 160 págs., ISBN: 978-0-571-24176-7 [edição original: James Morris, The presence of Spain (Faber and Faber) 1964; revised 1979]

sábado, 1 de junho de 2019

o seminário

Conheci don Altair Malacarne em agosto do ano passado, durante uma missão de trabalho que fiz no interior do Espírito Santo. Ele nasceu em Domingos do Norte, no Espírito Santo e é uma espécie de memória viva da região. É um sujeito que sabe bem das transformações pelas quais passou o norte daquele Estado, um bom contador de causos e vidas, que faz o garimpo da memória das gentes, e é autor de vários livros. Neste seu "O seminário" ele conta algo sobre uma escola salesiana, o Instituto Salesiano Anchieta, onde cursou os primeiros anos do que hoje corresponde o ensino médio. O livro é dividido em três partes. Na primeira conta-se algo sobre a história da região norte do Espírito Santo, sobre os migrantes italianos que ali se fixaram no final do século XIX e do esforço deles em apoiar a Paróquia de São João Batista de Jaciguá na criação de um colégio secular e um seminário católico. A segunda parte é composta por quase trinta curtas crônicas, onde são contados, um tanto factualmente, outro pelos atalhos da memória e dos sentimentos, momentos marcantes de seu tempo naquele seminário, nos anos 1953, 1954 e 1955. Há crônicas que são recortes biográficos de colegas estudantes, padres, professores ou visitantes ilustres do colégio; outras são registros bem humorados dos espantos e descobertas daqueles dias. A última parte é um posfácio triste, que dá conta do encerramento das atividades do seminário, ainda nos anos 1990 e da transferência das imponentes edificações e de seu entorno para o Estado. Histórias assim são bastante comuns. Coisas parecidas aconteceram em centenas de cidades, em centenas de escolas e seminários de confissão religiosa. Felizmente deve haver também centenas de sujeitos como don Altair Malacarne Brasil afora, que guardam algo do passado, eterniza esse passado em livro, dão ao passado a força da palavra escrita. Um viva então para don Altair. Vale!
Registro #1407 (perfis e memórias #88)
[início: 27/02/2019 - fim: 15/04/2019]
"O seminário: Jaciguá/Boa Esperança - 1953/55", Altair Malacarne, São Gabriel da Palha / ES: Edição do autor / Gráfica Gomieri, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 66 págs., sem ISBN:

sábado, 25 de maio de 2019

peregrinando rumo a finisterra

Já li alguns livros de pessoas que fizeram o mítico Caminho de Santiago (não, o do Paulo Coelho, definitivamente não). Cada experiência destes autores é muito particular, apesar de todos compartilharem a mesma esperança em algum tipo de iluminação, epifania, encontro, descoberta de si ou da realidade última das cousas. [Preciso fazer um reparo aqui. Meu amigo pernambucano Paulo Rafael lembrou-me que é possível fazer esse passeio apenas por diversão, sem pretensão qualquer e que até dá para ler Paulo Coelho só por curiosidade]. Bueno, meu livro sobre o Caminho de Santiago favorito é seguramente "Caminhos para Santiago", do Cees Nooteboom, que não trata exatamente de uma caminhada, mas do encontro afetivo de Nooteboom com a cultura espanhola. "Peregrinando rumo a Finisterra", do gaúcho e produtor rural Belquer Lopes, é um bom e honesto registro de uma caminhada convencional. Ele e Julieta Dal Castel, sua mulher, fizeram em 2013 um dos muitos ramos portugueses do caminho rumo a Santiago de Compostela. Partiram do Porto, em Portugal e chegaram ao cabo Finisterra, na costa do Atlântico, ponto mais ocidental da Espanha. Fizeram mais ou menos 300 Km, em pouco menos de duas semanas. O livro é muito bonito de se ver, cheio de reproduções fotográficas e de descrições bem escritas. Ele fala do cansaço, dos encontros com outros peregrinos, das pousadas e restaurantes, das cidades e dos vinhos, dos momentos felizes. Segundo ele seu desejo de viajar foi gestado por mais de trinta anos, mas a longa espera justificou o impacto da experiência, a aventura. Seu registro é realmente especial e digno. Vale a pena ler este livro. Em tempo: Incluo aqui hoje, 31/05, um link para a precisa descrição do Paulo Rafael de uma cicloviagem, que ele e uns amigos fizeram, de Bordeaux a Santiago de Compostela, e dali até o Porto, de onde saíram Belquer e Julieta. Fecha-se um ciclo, portanto. De alguma forma o belo livro do Belquer e o registro do Paulo precisavam ficar juntos. Viva. E seguimos o baile. Vale!
Registro #1404 (perfis e memórias #87)
[início: 02/03/2019 - fim: 12/03/2019]
"Peregrinando rumo a Finisterra", Belquer Ubirajara da Silva Lopes, Santa Maria / RS: Editora Rio das Letras, 1a. edição (2017), brochura 13x21 cm, 96 págs. ISBN: 978-85-65172-40-0

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

com borges

Nesse pequeno livro Alberto Manguel conta algo sobre os dias em que foi um dos leitores de Borges, um daqueles afortunados que puderam privar horas de proximidade com ele. Manguel era jovem, tinha pouco mais de dezesseis anos em 1964 e trabalhava em uma livraria de Buenos Aires. Borges, já cego naquela época, frequentador da livraria, perguntou-lhe um dia se teria tempo livre para ler para ele à noite. Os encontros foram intermitentes, duraram de 1964 e 1968, algumas vezes por semana. Manguel não era o único dos leitores noturnos de Borges, vários outros indivíduos tiveram em algum momento esta função. De qualquer forma  a experiência de conviver com Borges marcou o jovem Manguel, que tornou-se afinal também ele um escritor, alguém que sobretudo escreve e fala de livros, de bibliotecas, de escritores, do gênio humano que se plasma nos livros. Assim, em "Com Borges", o leitor encontra descrições dos encontros, de como Manguel era recebido na casa habitada por Borges, sua mãe nonagenária e uma empregada. Ele fala de seu perene assombro com a memória e a riqueza que brotava dos comentários feitos por seu empregador. Não havia projetos, planos de leitura ou ordem. A cada noite, dependendo do humor do dia, Borges pedia que se lesse um de seus autores favoritos, sobretudo aqueles que aprendeu a amar ainda jovem, quando estudava em Genebra, na Suiça: Kipling, Heine, Virgilio, De Quincey, Novalis, Kafka, Platão, Cioram, Shakespeare. Manguel diz não ter feito naquela época anotações dos encontros, apesar das sugestões de uma tia. O livro alterna dois tipos de registro. Uns em terceira pessoa, outros em primeira pessoa, algo confessionais, como se ele emulasse fragmentos de memórias daqueles dias, mas sabemos que se trata de invenção. Cabe lembrar que Manguel escreveu esse curto ensaio quando tinha já 56 anos. Há passagens líricas e outras divertidas, comentários sobre convenções sociais e a personalidade das pessoas. Borges não tinha paciência com a burrice e fugia de gente obtusa, confiava no acaso dos ordenamentos dos livros nas bibliotecas. Em algum momento Manguel registra aquele que talvez seja um dos maiores ensinamentos de Borges, sempre repetido em seus livros, que felizmente aprendi já há tantos anos: É nosso dever moral sermos felizes e a felicidade pode sim ser encontrada nos livros. Belo livro. Vale!
Registro #1356 (perfis e relatos #86)
[início 10/12/2018 - fim: 11/12/2018]
"Com Borges", Alberto Manguel, tradução de Priscila Catão, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Das Andere #03), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 72 págs., ISBN: 978-85-92649-31-9 [edição original: With Borges (Madison: Thomas Allen Publishers / University of Wisconsin) 2004]

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

las cuevas del orotava

Há livros que compramos e que ficam nos guardados, nos acompanhando de longe, anos a fio, antes que seja possível nos dedicarmos verdadeiramente a eles. Comprei esse volume em uma da viagens que fiz a Barcelona para ver Helga e Natália, tempos atrás, há pelo menos um lustro, cinco anos, diria um espanhol com mais facilidade do que nós, mas que existe no léxico português e também funciona bem. Trata-se de um registro produzido em 2004 em homenagem aos 75 anos de um restaurante que fez história em Barcelona, o "Orotava", mas que logo depois deixaria de funcionar. Fundado em 1929, em seu apogeu foi respeitado tanto pela gastronomia quanto por ser um local de encanto, de encontros, de arte, de tertúlias memoráveis. Era ponto de encontro de escritores e artistas plásticos e seu proprietário, José Maria Luna, era um entusiasta das artes plásticas e tornou seu restaurante uma espécie de galeria informal. Durante o período da ditadura franquista o restaurante foi obrigado a mudar de nome (chamou-se El Hostalillo, pois o catalão estava proibido oficialmente).  Em 1979, novamente com sua denominação original, já na redemocratização espanhola e para os festejos do cinquentenário do restaurante, seus proprietários produziram um livro arte, uma espécie de catálogo ilustrado de seu famoso cardápio. Não se tratavam de ilustrações ordinárias, comuns, e sim obras de arte produzidas especialmente para a ocasião, obras de artistas identificados com a Catalunha naquela época, como Llorens Artigas, Salvador Dalí, Jorge Castillo, Josep Maria Subirachs, Eduardo Arroyo, Salvador Espriu, Modest Cuixat, Montserrat Guriol, Pablo Picasso, Joan Tharrats, Alfonso  Pérez Esquivel, Antoni Clavé, Riera Aragó, Antoní Tápies, Oswaldo Guayasamín, Xavier Corberó, Josep Guinovart, Eduardo Chillida, Antonio Vives Fierro, Ràfols Casamada, Joan Miró, Amélia Riera e Benjamín Palencia. Miró produziu também um mosaico, que ainda pode ser visto na fachada do prédio número 335 da carrer Consell de Cent. O livro arte de 1979 foi organizado por Manuel Vázquez Montalbán, um dos grandes escritores catalães do século passado. O livro de 2004 inclui fac-símiles daquele livro arte original,  dezenas de fotografias, assinadas por Toni Catany, e vários textos curtos, produzidos por antigos frequentadores do restaurante. O longo texto de Montalbán se destaca. Segundo os editores trata-se do último texto produzido por ele, que morreu no final de 2003, na Tailândia, antes de ver o livro impresso. Os demais textos incluídos no livro também tem seu encanto. Pois o Orotava encerrou suas atividades em 2005 e as centenas de obras de artes e antiguidades reunidas nele foram leiloadas. Restou esse belo livro que guarda algo da magia que devia acontecer todas as noites em seus salões. Curiosamente o volume que comprei contém uma dedicatória do próprio José Maria Luna, endereçada a Joan Laporta, antigo presidente do Barcelona. Pelo jeito as palavras gentis de Luna na dedicatória, "amb tot el meu reconixement i afecte", não encontraram em Laporta o devido acolhimento. Sorte a minha. Como registrei no último livro que incluí no "Livros que eu li" em 2018, um ano sem voltar a Espanha é um ano perdido, ainda mais se Barcelona, a bela feiticeira do Mediterrâneo, não estiver no roteiro de viagem. Começo assim, com um livro dedicado à Barcelona, minha jornada pelos livros em 2019. Vale!
Registro #1355 (perfis e relatos #85)
[início: 01/06/2018 - fim: 25/11/2018]
"Las cuevas del Orotava: 75 anos de buen comer en Cataluña", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Editora Planeta, 1a. edição (2004), capa-dura 30x30 cm, 351 págs. ISBN: 978-84-08-05510-0

domingo, 16 de dezembro de 2018

vira-lata de raça

O admirável Ney Matogrosso conta sua história em um dos livros mais bacanas que li este ano. "Vira-lata de raça" é um livro de memórias, um conjunto de depoimentos, organizado por Ramon Nunes Mello, um jovem poeta e jornalista carioca. São nove capítulos. Nos quatro primeiros os depoimentos seguem numa ordem cronológica: (i) infância e juventude, em que acompanhava a família em constantes mudanças (ele nasceu em 1941 no Mato Grosso e seu pai era militar); (ii) os anos 1960, em que já emancipado viveu no Rio de Janeiro e em Brasília; (iii) os anos rápidos do sucesso com o grupo Secos e Molhados, no início dos anos 1970; e (iv), por último, os anos imediatamente posteriores a seu afastamento do grupo e o início de sua carreira solo. Os cinco capítulos restantes são aproximadamente temáticos: (v) um dedicado a seu relacionamento com Cazuza; (vi) um sobre a sexualidade, a AIDS, a perda de amigos; (vii)  um sobre autoconhecimento, religião, espiritualidade; (viii) um sobre política e seu apoio específico a causas sociais; e o último, (ix), sobre o tempo, a vida e a liberdade (valor que ele mais preza). Claro, há superposição de assuntos, informações, episódios de sua vida, mas o formato adotado pelo organizador na produção do livro realmente torna a leitura muito agradável e emocionante. O tom é confessional, mas o sujeito que fala o faz com segurança, posiciona-se, sabe ser bem humorado e debochado. O livro é muito bem editado, incluindo muitos mimos: dezenas ilustrações, várias delas coloridas; seis boas matérias publicadas originalmente em jornais em períodos marcantes de sua carreira, assinadas por sujeitos que conhecem muito bem sua vida e sua obra (Tárik de Souza, Nelson Motta, Vinícius Rangel Souza, Caio Fernando Abreu, Luiz Rosemberg Filho, Mauro Ferreira); uma detalhada discografia e uma generosa bibliografia. Os capítulos oferecem ao leitor várias epígrafes e aforismos retirados das canções mais conhecidas dele. Impressionante a clareza e a segurança com que ele fala de qualquer assunto, nada parece constrangê-lo, nenhum fragmento de memória soa artificial, falso, seja quando ele fala da vida pessoal, de questões sociais brasileiras, de dinheiro, drogas, sexo, amor, religião ou morte. Trata-se mesmo de um artista notável, de um brasileiro digno e talentoso, que merece o perene reconhecimento e o sucesso que alcançou nestes seus quase 80 anos. Vale!
Registro #1347 (perfis e memórias #84)
[início 05/11/2018 - fim: 07/11/2018]
"Ney Matogrosso: Vira-lata de raça", Ney Matogrosso, interlocução, pesquisa e organização de Ramon Nunes Mello, São Paulo: Tordesilhas (Alaúde editorial), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 288 págs., ISBN: 978-85-8419-083-6

sábado, 16 de dezembro de 2017

barcelonas

Lá em maio, ainda quando lia o bom "Homenagem a Barcelona", de Colm Tóibín, resolvi começar a folhear "Barcelonas", mimo que carrego comigo há décadas. Ato contínuo "I was drowning in honey, stingless", como sempre deve ser. Manuel Vázquez Montalbán escreveu o robusto  texto desse livro, que inclusive inspirou e foi confessadamente utilizado por Tóibín na elaboração do seu, como material de divulgação dos Jogos Olímpicos de Barcelona, que seriam celebrados em 1992. Mas se o que escreve Montalbán é seminal, rico e detalhado, repleto de informações e poesia, são as ilustrações, reproduções fotográficas, desenhos e imagens incluídas no livro que nos enfeitiçam, conduzem nosso olhar, quase nos impedindo acompanhar cada página de leitura até o fim. Talvez esse prodígio seja culpa do desenho gráfico do livro, assinado por Ferràn Cartes, um respeitado artista plástico catalão. Montalbán divide seu livro em seis grandes seções. "Desde as colinas", onde treina o olhar do leitor, fazendo-o acompanhar a geografia da cidade quando vista do alto, do Tibidabo, de Vallvidrera (habitat de Pepe Carvalho, seu personagem icônico), de Montjuïc, e também de suas sete modestas colinas, como as de Roma em número (os catalães são sempre tremendos em suas ambições): Monterols, Putxet, Creueta del Coll, Carmel, Rovira, Peira e Modollell. "Las ciudades sumergidas" percorre o tempo, as camadas de povos e culturas que se fixaram naquela região onde hoje vivem os catalães, importante centro comercial do Mediterrâneo desde tempos remotos. Em "El hombre libre en la ciudade libre" quem se sobressai são os indivíduos, em número anônimos, mas quando são identificados tornam-se na visão de Montalbán quase heróis, fadas, portentos (Montalbán descreve aqui e nas duas seções seguintes os períodos trágicos da cidade, sempre as voltas com um desejo de independência baldado; as fotografias destas três seções são soturnas, pesadas, carregadas de mágoa). A seção seguinte, "La Bem Plantada", conta a arquitetura, a engenharia, a distribuição dos equipamentos urbanos, a vocação da cidade para aceitar planejamentos que a modificam sem que a magia original se perdesse; fala dos bares, teatros e museus, dos desastres que a guerra civil provocou nas ruas, nas esculturas, nos bairros, nas edificações, e nas gentes, claro. "La ciudade ocupada" fala de como corações e mentes catalãs se resignaram nos anos da ditadura franquista, de como se operou o milagre da transição para a democracia, a reconstrução moral da cidade ocupada, como o título explicita. "Milênio" encerra o volume, prospecta um futuro, um porvir, uma possibilidade. Montalbán fala sobretudo dos projetos urbanos que serão feitos para os Jogos Olímpicos (a decisão havia sido tomada há pouco, em 1986), mas também fala do reerguimento da auto estima da cidade, da oportunidade, da possível volta da magia, da renovada utopia. Quase tudo o que foi escrito em 1987 ainda vale hoje, trinta anos depois. Inegavelmente os Jogos Olímpicos foram um sucesso e a cidade tornou-se um local de turismo privilegiado e marcante. Montalbán foi também um poeta, foi um homem otimista, sempre acreditou na capacidade de uma coletividade vencer qualquer obstáculo, qualquer desafio. Ele filtra com esses seus olhos confiantes uma sociedade complexa, que talvez tivesse mais matizes sociais do que ele era capaz de aceitar. Reli esse livro sobretudo por conta do que aconteceu na Catalunha neste ano. A tentativa da Generalitat de Catalunya (capitaneada por Carles Puigdemont) de forçar sua separação do Estado Espanhol, declarando unilateralmente a independência, em outubro, implicou em uma intervenção na Generalitat, a fuga de Puigdemont  e vários outros diputats independentistas para a Bélgica e a convocação de eleições gerais para o próximo 21 de dezembro. Ninguém sabe dizer hoje qual será o resultado prático das eleições. Ganhem os grupos nacionalistas ou os independentistas a questão da identidade catalã não se tornará por mágica menos complicada, menos tensa, menos humilhante para os catalães. Logo saberemos. Talvez eu acrescente um post-scriptum nesse registro, contando os sucessos das eleições. Vamos ver. Vale!
Registro #1248 (perfis e memórias #83)
[início: 10/05/2017 - fim: 15/12/2017]
"Barcelonas", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Editorial Empúries / Grup62, 1a. edição (1987), capa-dura 31,5x31,5 cm., 247 págs., ISBN: 84-7596-145-5