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terça-feira, 27 de junho de 2017

as brasas

Foi um colega recifense, o Francisco Fernando, zootecnista dos bons, quem falou-me deste "As brasas" pela primeira vez, com entusiasmo. Estávamos os três, ele, Marlene Cristina e eu, numa tarde quente no sul de Minas Gerais, após uma missão acadêmica, quando livros e literatura entraram na conversa. Eu havia lido apenas um livro de Sándor Márai (o bom "A amante de Bolzano"). Trata-se de um livro compacto, muito bem escrito, cerebral - é a palavra que primeiro me ocorreu. A narrativa trata de uma questão de honra, de um jogo de máscaras sobre a amizade, da tensão quase sexual que existe entre amigos de longa data, das semelhanças entre orgulho e covardia, de uma discussão sobre a solidão e a incapacidade que todos temos de compreender completamente alguém (e mesmo compreender as motivações e desejos de nós mesmos). Escrito originalmente em 1942, "As brasas" permaneceu censurado na Hungria natal de Márai até a redemocratização do país, após o esfacelamento da União Soviética e a morte dele, em 1989. Muito do livro lembra aquilo que é escrito num tom épico e marcial no excelente "Marcha de Radetzky", de Joseph Roth. Afinal, o pano de fundo da narrativa de Márai é a letargia, a inação e decrepitude do Império Austro-húngaro, mas o livro não descreve essa decadência em detalhes, como no livro de Roth, mas sim trata de algo mais fundamental e definitivo para nós, homo sapiens sapiens, que é o amor e a nossa capacidade de amar, sobretudo quando esse amor é posto à prova. Um general aposentado recebe, após quatro décadas, um colega militar de quem foi muito próximo, tanto na juventude quanto na carreira, apesar de serem de classes sociais bastante distintas. O que o leitor acompanha factualmente é a noite de jantar e conversas entre esses dois velhos militares, em aposentos iluminados por brasas bruxeleantes e povoados por suas memórias vívidas e doloridas. A expectativa, ou antes, a certeza deste encontro foi a única razão para que eles continuassem vivos boa parte das quatro décadas de afastamento mútuo. Descrever mais da trama estragaria boa parte do prazer que encontramos no livro, por isso me calo. As digressões, ou antes, o congelamento do tempo narrativo alcançado por Márai, lembram as melhores passagens de Javier Marías, senhor das narrativas onde tudo é dito de forma elíptica, por ilações, onde tudo se esclarece, convence, lentamente. Como disse um amigo, livraço! Grato pela dica meu caro Fernando, inté uma próxima (vamos a ver se aquela ideia do carnaval prospera). Lembrei de outra cousa: Curiosamente tenho um amigo chamado Sandor, o Melo. Preciso perguntar a ele se há raízes húngaras em sua família.
[início: 11/05/2017 - fim: 01/06/2017]
"As brasas", Sándor Márai, tradução de Rosa Freire D'Aguiar, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (1999), brochura 14x21 cm., 172 págs., ISBN: 978-85-7164-954-5 [edição original: A gyertyák csonkig égnek 1942]

quarta-feira, 26 de junho de 2013

la amante de bolzano

Don Miguel, da Calle Corrientes, trouxe esse volume de "La amante de Bolzano" para a última Feira do livro de Santa Maria. Eu vi o livro perdido num balaio e de lá o retirei de pronto (junto estavam um Machado de Assis em espanhol - regalo seguro para os amigos de Madrid - que também comprei sem titubear, e Ehrengard, de Isak Dinesen, sobre o qual em breve falarei aqui). Nunca havia lido nada de Sándor Márai. Ele nasceu em 1900, na região que hoje pertence à Eslováquia, mas na época era parte do Império Austro-Húngaro. Um terço de sua vida adulta ele viveu as glorias do reconhecimento da qualidade literária de seus livros, sempre escritos em Húngaro. Já a outra (e maior) parte dela viveu em trânsito, esquecido e amargurado, exilado dos regimes ditatoriais que tomaram de assalto seu país. "La amante de Bolzano" narra a fuga de um sujeito das masmorras de Veneza e os sucessos de sua estadia por um par de semanas em Bolzano, uma pequena cidade do norte italiano que está na rota de passagem entre os Alpes, útil para quem segue da planície do rio Pó rumo à Alemanha e além. Este sujeito pode ser identificado com o escritor e aventureiro veneziano Giacomo Casanova, mas Márai já nos alerta em um curto prefácio que ele não está interessado na história do Casanova real, mas sim em seu pathos, ou seja, naquilo que identificamos com os estados da alma de um sujeito, no caso, a escravidão pela paixão, a compulsão pelo sexo, a necessidade de permanente sedução, as dores do amor. O Casanova histórico de fato fugiu de Veneza no 31 de outubro de 1756, com a ajuda de um padre alcoólatra, dissoluto e bonachão também caído em desgraça, Balbi. Aí começa a ficção de Márai. Casanova é relativamente jovem, tem 31 anos, mas já é um conhecido libertino. Em Bolzano, após as convulsões advindas de sua chegada, os primeiros flertes, as questões financeiras que deve resolver, os planos para ir ao norte e refugiar-se em Munique, Casanova reencontra Francesca, mulher do poderoso conde de Parma. Talvez aquela mulher tenha sido a única que ele chegou a amar verdadeiramente, mas ao tentar seduzi-la, cinco ou seis anos antes, quando ela era ainda adolescente, Casanova teve de bater-se em duelo com o conde de Parma. Foi ferido e quase morreu. Francesca cresceu e casou-se com o conde. Márai conduz a narrativa admiravelmente bem. A cada seção do livro os personagens se encontram e discutem suas questões como em uma ópera (há algo de musical no livro) ou em uma peça (Ibsen é o primeiro nome que me ocorre). Tudo é preciso, espacial e temporalmente controlado, e tanto que o leitor chega a se imaginar presente nas cenas. Já li várias coisas realmente boas este ano: Vidas escritas, Danúbio, O professor do desejo, Mrs. Dalloway, Tudo o que tenho levo comigo, A infância de Jesus (para citar apenas seis deles dentre muitos), entretanto "La amante de Bolzano" parece pertencer aquela categoria de livros tão cheios de advertências, inspirações e segredos, tão cheios de reflexões sobre a realidade da vida e o comportamento dos homens, que não os conhecer, não lê-los, implica em furtar-se de algo realmente fundamental.
[início: 11/05/2013 - fim: 05/06/2013]
"La amante de Bolzano", Sándor Márai, tradução de Judit Xantus Szarvas, Barcelona: ediciones Salamandra, 7a. edição (2006), brochura 14x21,5 cm., 283 págs., ISBN: 84-7888-575-7 [edição original: Vendegjatek Bolzanoban (Budapest: Revai) 1940]