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sábado, 28 de novembro de 2015

caro michele

"Caro Michele" é uma poética dos sentimentos, mas é uma poética racional, onde a lógica vale mais que a fúria, as surpresas. A imaginação de Natália Ginzburg apresenta cenas da vida privada de uma família italiana do início dos anos 1970 (as histórias do livro acontecem num intervalo curto, pouco mais de dez meses). O leitor encontra aos poucos dezenas de nomes, uma contínua avalanche de personagens, mas todos eles gravitam de alguma forma Adriana, uma mulher ainda jovem, 43 anos, mãe de quatro filhas e um filho, o Michele do título, separada de seu marido, que o leitor descobrirá ser um artista plástico algo excêntrico. Ginzburg desenvolve sua história sobretudo através de cartas mas há vários capítulos onde alguém narra em terceira pessoa. Esse narrador nunca julga os atos que registra (em contraste com os signatários das cartas, sempre críticos e dispostos a desnudar virtudes e defeitos dos demais). As histórias enfeixadas por Adriana formam um mosaico esdrúxulo, onde sua atenção se divide entre os ecos do passado e o destino imediato daqueles que ela ama. Sua maior preocupação é entender o filho, sempre em movimento, sempre distante dela, indecifrável. Os capítulos evoluem rápidos, as cenas se acumulam, revelando serem irrelevantes quase depois de acontecidas (como na vida mesmo, onde o que parece importante num momento torna-se apenas uma lembrança tola logo depois). Ginzburg não se perde com descrições, não tergiversa, obriga seus personagens a serem frios, objetivos, diretos. O leitor sabe das motivações de Michele (ao contrário de Adriana e quase todos os demais personagens), sabe de sua participação nos processos de radicalização da política européia que se sucederam ao movimento estudantil do final dos anos 1960. Mais do que o destino de Michele o que me interessou no livro foi a vívida experiência do cotidiano de uma família de classe média italiana. Os personagens são muito sinceros, transparentes, nunca são hipócritas ou dissimulados com os demais. Nenhum aparenta ser conservador política, moral ou sexualmente. Seria assim mesmo o perfil médio daquela sociedade, ou será que Ginzburg focaliza apenas o que seria representativo do comportamento de uma família de esquerda? Talvez seja esse o caso. Belo livro. Vou garimpar mais coisas dela por aí. Também li dela "As pequenas virtudes" e "Léxico familiar". 
[início: 17/11/2015 - fim: 19/11/2015]
"Caro Michele", Natália Ginzburg, tradução de Homero Freitas de Andrade, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2009), capa dura 16,5x22,5 cm., 186 págs., ISBN: 978-85-7503-704-1 [edição original: Caro Michele (Milano: Mondadori) 1975]

sábado, 3 de outubro de 2015

léxico familiar

Semanas atrás, num daqueles espasmos pretensamente importantes de nossa industria cultural, houve um breve debate sobre os limites legais (na acepção jurídica do termo) da ficção e autoficção praticada por alguns escritores brasileiros contemporâneos. Logo alguma outra tonteria entrou na cardápio das redações e das mídias sociais e não se falou mais sobre autoficção. Historicamente falando a crítica literária atribui a um escritor francês, Serge Doubrovsky, a paternidade desse estilo de escrita onde se combina elementos de ficção e de autobiografia. As classificações servem sim para propósitos didáticos mas quase sempre restringem demais os conceitos. Paciência. Por mim todo e qualquer texto inventado e produzido pelos homo sapiens sapiens (desde que rastejamos assustados para fora de uma caverna) é sempre ficção e autobiografia. Claro, há aqueles que acreditam em origens e/ou inspiração divina e/ou mágica para muitos textos, mais não precisamos ser hermeneutas praticantes para interpretar que de uma narrativa se sabe apenas dos feitos e dos desejos dos homens. Natalia Ginzburg nos adverte (sim, adverte), logo na primeira página desse seu "Léxico familiar" que os lugares, fatos e pessoas nele são reais, não há nada inventado, mas que há lacunas suficientes no livro para que ele não possa ser lido (e ela sugere que deva ser assim) como um romance canônico, sem exigir dele nada que um romance não possa oferecer. Não há datas em seu livro, mas sabemos que ela nasceu em 1916, filha caçula com quatro irmãos, e que morreu em 1991. O que está registrado no livro começa com ela ainda menina, com dez, onze anos, e segue até meados dos anos 1950, quando de seu segundo casamento. O que no livro está registrado é basicamente o modo de vida de uma família burguesa e sofisticada (cujo pai é um professor universitário de origem judaica e cuja mãe é católica). Ela conta (discretamente seria uma definição, mas a imagem que tenho é que ela escreve como quem fala sem elevar nunca o tom de voz) as formas de relacionamento entre os membros desta família e suas conexões com uma sociedade italiana que se transformava rapidamente, sobretudo por conta das duas grandes guerras do século passado, da luta contra o fascismo e das discussões sobre a viabilidade da implantação do comunismo na Itália que se segue à guerra. Qualquer um que lembre de suas histórias familiares irá identificar vividamente os personagens/parentes de Natalia Ginzburg: o pai irascível porém amoroso; a mãe discreta e sábia; os irmãos que parecem ter sido trocados na maternidade, por terem temperamento demasiadamente distinto; os amigos algo misteriosos que se fundem à rotina familiar. Irá também reconhecer aquelas histórias típicas que nunca são contadas exatamente da mesma forma; os segredos que parecem importantes e depois se sabem ridículos; as tragédias pessoais que não se pode transferir ou purgar; o ruído nas conversações (tanto o literal quanto o metafórico); a força dos livros, da educação e da cultura. Muito bom. Fiquei até com vontade de reler "As pequenas virtudes" mas não, há outros livros dela por aí. Lembrei de muitas coisas lendo "Léxico familiar". Lembrei do Elias Canetti, do Pedro da Silva Nava, do Proust, dos tempos de São Bernardo, de uns primos distantes de meu pai em Ouro Preto, das histórias que meus pais me contaram (mas, aí de mim, que já se perderam ou se fundiram a outras, muitas delas inventadas em terras distantes, embaralhadas agora em minha memória.) E por fim Natalia Ginzburg me fez lembrar de um sujeito que num dos filmes do Woody Allen dizia: "A felicidade humana não faz parte do desenho da criação, (...) somos nós apenas, com nossa capacidade de amar, que damos sentido ao universo indiferente".
[início: 14/09/2015 - fim: 28/09/2015]
"Léxico familiar", Natália Ginzburg, tradução de Homero Freitas de Andrade, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2009), capa dura 16,5x22,5 cm., 240 págs., ISBN: 978-85- 7503-879-6 [edição original: Lessico famigliare (Turim: Einaudi) 1963]

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

as pequenas virtudes

Quando encontramos um livro por acaso (um livro antigo, dos anos 1960, apesar de ter sido traduzido para o português somente agora) e descobrimos nele todo um conjunto de idéias e passagens admiráveis nos perguntamos os porquês de nunca termos ouvido nada sobre sua autora antes. Como é vasto o mundo dos livros. Quão tolos somos por imaginar que um dia poderemos ler tudo o que importa e é bom. Bueno. Nunca havia lido nada de Natalia Ginzburg. Neste "As pequenas virtudes" estão reunidos onze ensaios curtos, que brotam de sua biografia e memória, mas que têm um refinamento literário surpreendente. O texto mais antigo é de 1944, o mais recente de 1962. Com a exceção de um todos haviam sido publicados originalmente em revistas e jornais italianos. As seis histórias reunidas num primeiro conjunto são registros de experiências pessoais duras: a rotina de uma família que vive confinada nos tempos da segunda grande guerra; o despojamento de preferir usar apenas sapatos gastos, como sua mãe fazia antes dela; a lembrança da personalidade difícil de um amigo (Cesare Pavese) que comete suicídio; apontamentos de um caderno de viagem, onde se descreve uma melancólica Inglaterra e também os hábitos alimentares dos ingleses; um texto onde ela explica as diferenças entre seu comportamento e o de seu marido. O segundo conjunto de ensaios reúne reflexões sobre a complexidade da vida. Parece que estamos a conversar com uma pessoa experiente, não um professor, mas alguém cujas opiniões respeitamos porque ele argumenta e reflete, sintetiza e exemplifica, mas sabe que não se pode esgotar e ser definitivo sobre aquele assunto. Ela faz duros comentários sobre as diferenças entre sua geração (ela viveu entre 1916 e 1991) e a de seus pais, ou seja, a geração daqueles responsáveis por levar a Itália para o desastre da segunda grande guerra; apresenta um longo ensaio sobre o seu ofício, que é o de escrever e suportar as consequências deste hábito; fala sobre o silêncio e a quase impossibilidade de entender completamente um outro indivíduo; faz uma viagem biográfica da infância e maturidade, uma viagem de auto conhecimento, sem ser cabotina ou condescendente; fala de como pensa ser correto (ou possível) ensinar algo aos filhos. Como não ficar admirado por uma autora que escreve algo assim potente: "A Itália é um país pronto a dobrar-se aos piores governo. É um país, como se sabe, onde tudo funciona mal. É um país onde reina a desordem, o cinismo, a incompetência, a confusão. E, apesar disso, se sente pelas ruas a inteligência circular como um sangue que pulsa. É uma inteligência que evidentemente não serve para nada. Não é usada em benefício de nenhuma instituição que possa melhorar minimamente a condição humana. Entretanto aquece o coração e o consola, ainda que se trate de um conforto enganador e, talvez, insensato". Quando escrevi noutro dia o quanto estava gostando de ler "As pequenas virtudes" doña Denise Bottmann me disse que Natalia Ginzburg foi mãe do Carlo Ginzburg, historiador de quem li o surpreendente "Os queijos e os vermes" no início dos anos 1980. Ulalá, genética é mesmo destino! Deve haver outras coisas dela já traduzidas por aí. É tempo de procurar. 
[início: 20/08/2015 - fim: 25/08/2015]
"As pequenas virtudes", Natalia Ginzburg, tradução de Maurício Santana Dias, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2015), brochura 13x20 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-405-0910-8 [edição original: Le piccole virtù (Torino: Einaudi) 1962]