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terça-feira, 17 de novembro de 2020

instante infinito

Esse catálogo corresponde a uma exposição de trabalhos dos industriosos Jorge dos Anjos e Ricardo Aleixo, que aconteceu entre 26 de agosto e 16 de outubro de 2017, na Galeria de Arte BDMG Cultural, em Belo Horizonte. Mas não só isso. Há também reproduções de trabalhos produzidos para uma outra exposição de Jorge dos Anjos (Gravadura a Ferro e Fogo, na AM Galeria, em Belo Horizonte, em 2009, na qual Ricardo Aleixo também participou). A edição é bilíngue, com textos em português e inglês, assinados por Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Rogério Faria Tavares e Ricardo Aleixo (que foi o curador da exposição). As fotografias dos trabalhos plásticos são assinadas por André Burlan. O projeto gráfico do catálogo é assinado por Irena dos Anjos e André Burlan. As esculturas de Jorge dos Anjos, peças de aço dobradas, soldadas e vazadas, em grandes dimensões, lembram os trabalhos de Amílcar de Castro e/ou de Franz Weissmann (obras que já vi de perto várias vezes). Sei que seria legal experimentar o impacto estético de ver os trabalhos de Jorge dos Anjos da mesma forma que vi as destes dois grandes escultores. As obras de Ricardo Aleixo incluídas no catálogo são cartazes em grandes dimensões, propostas que envolvem diversos procedimentos técnicos (caligrafia, adesivos, estêncil e carimbo) aplicados à seus poemas visuais. Jorge dos Anjos e Ricardo Aleixo assinam juntos "Gravaduras a Ferro e Fogo", fusão de poemas visuais de Aleixo com letras marcadas/queimadas em telas de feltro, usando enormes "ferretes" de metal. Claro, a experiência de folhear um catálogo, bidimensional, nem de longe alcança reproduzir o que deve ter acontecido nos espaços da galeria de arte onde deu-se a exposição originalmente. De qualquer forma, uma exposição não pode continuar em sua proposta original para sempre (ao menos não em uma galeria convencional). Resta ao vivente curioso os catálogos. Vale registrar que a versão digital deste catálogo é bem bacana e pode ser visto acessada clicando aqui!. Bom divertimento. E cabe dizer também que só em lugares como Inhotim  ou em outras propostas museológicas muito particulares ao redor do planeta tornam possível oferecer perenidade a obras deste tipo (como já conferi no bom livro Arte e Natureza, de Serena Ucelli di Nemi). É isso. Segue o baile. Vale! 
Registro #1589 (catálogo #12) 
[início: 01/10/2020 - fim: 11/10/2020]
"Instante Infinito", Jorge dos Anjos, Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: Galeria de Arte BDMG Cultural, 1a. edição (2017), brochura 14x21, 64 págs, sem ISBN.

sábado, 16 de maio de 2020

néon

Esse catálogo corresponde a uma exposição comemorativa dos 30 anos de produção plástica de Gelson Radaelli, pintor e desenhista gáucho. A exposição ficou aberta ao público entre julho e outubro de 2017, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Não cheguei a vê-la. Todavia, no início de março deste terrível 2020, bem antes do sombrio isolamento em que vivemos agora, compartilhei de uma tertúlia literário-gastronômica com o José Francisco Botelho no notável restaurante Atelier de Massas, e lá ganhei de presente do próprio Radaelli uma cópia desse catálogo. Encontramos nele quarenta reproduções fotográficas das pinturas que foram expostas e também alguns instantâneos do atelier do artista (algumas obras podem ser vistas no site da galeria Bolsa de Arte: clika). São propostas abstratas, sempre em tinta acrílica sobre tela, painéis em grandes formatos - que alcançam até aproximadamente 2x2 metros. Nestes trabalhos a paleta de cores do artista gravita sobretudo o rosa, o preto e o branco, mas também deixa vazar por vezes um discreto azul. Iclea Borsa Cattani, respeitada professora e pesquisadora de arte, assina a curadoria da exposição e um longo texto que acompanha o catálogo. Neste texto ela fala da proposta desta série de trabalhos de Radaelli, das cores utilizadas, dos signos e grafismos presentes nelas, da dinâmica dos gestos aprisionados nas pinturas, dos equilíbrios alcançados, do impacto visual delas. Fiquei curioso. Como já nos ensinou Leonardo da Vinci, o universo artístico trata sempre de "cosa mentale", tanto de produtos da inteligência, do pensamento dos artistas (e não apenas de artesania, de objetos interferidos), quanto da inteligência, do pensamento do fruidor das obras, do sujeito que as aprecia. Um neófito e um especialista entenderão cada proposta de uma forma diferente - não necessariamente conflitantes ou auto excludentes - e neste paradoxo, sobrevive a natureza última do prazer estético promovido pela arte. Quem sabe um dia eu veja de perto estes trabalhos. Mas é hora de abandonar esta Citera espiritual e voltar a nosso baile macabro (eu, refugiado e ancorado mentalmente na arte, na ciência, na literatura). Avanti! Vale! 
Registro #1529 (catálogo #11) 
[início: 01/03/2020 - fim: 13/04/2020] 
"Néon: pinturas de Gelson Radaelli", Gelson Radaelli, texto de Iclea Borsa Cattani, tradução (para o inglês) de Cornella Stolting, Porto Alegre: Bolsa de Arte de Porto Alegre, 1a. edição (2017), brochura 23x20 cm., 72 págs., ISBN: 978-85-923814-0-0

sexta-feira, 21 de junho de 2019

impressões de silveira martins


O catálogo "Impressões de Silveira Martins" corresponde a uma exposição de trabalhos do Grupo de Pesquisa CNPq "Arte Impressa", criado em 2012 por Helga Correa, artista plástica vinculada ao Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal de Santa Maria. Essa mostra de trabalhos foi exibida na Sala de Exposições Nelson Ellwanger do Espaço Multidisciplinar de Pesquisa e Extensão da UFSM em Silveira Martins, em maio de 2019. As propostas plásticas são variadas, metade delas xilogravuras, metade gravuras em metal. A maioria dos artistas é iniciante no mundo da gravura, mas há também trabalhos de pesquisadores antigos do grupo de pesquisa Arte Impressa. Essa mescla evidencia o processo de acumulação de experiências e transmissão de saberes entre artistas já formados e aqueles em processo de capacitação. Demonstra também a ambição de possibilitar a formação contínua de profissionais, de registrar avanços e novas propostas plásticas, de fixar fragmentos da memória da UFSM, para citar apenas algumas das atividades típicas desenvolvidas pelo grupo. No caso específico desta exposição a dinâmica pedagógica pretendeu sensibilizar os alunos a refletir sobre o contexto de inserção do Espaço Multidisciplinar de Pesquisa e Extensão da UFSM na pequena cidade de Silveira Martins, que dista pouco mais de 30 Km do centro de Santa Maria. As pesquisas individuais foram concebidas e/ou inspiradas na cidade, executadas em Santa Maria e apresentadas a comunidade local, encerrando um ciclo. Esse e outros trabalhos do grupo podem ser apreciados nos sites: "Bloomsday 2015", "Livro Interferido", "Livro dos Artistas I", "Livro dos Artistas II", "Livros Arte e Bibliotecas do século XXI" e "Livro Interferido II". Vale a pena conferir. E segue o baile.
Registro #1420 (catálogo #10) 
[início: 01/05/2019 - fim: 30/05/2019] 
"Impressões de Silveira Martins", Helga Correa (Grupo de Pesquisa Arte Impressa - CNPq), assessoria de curadoria: Aracy Colvero e Ketelen Oliveira, projeto gráfico de Priscila Baelz, trabalhos de Antonia Monfardini, Antonio Junior, Aracy Colvero, Barbara Almeida, Caterine Giles, Flávia Queiroz de Jesus, Giovana Balestrin, Isabela Quevedo, Jean Guerra, Jeremias Pacheco, Karina Machado de Olivbeira, Ketelen Oliveira, Lara Nunes, Larissa Stanislaski, Luiza Rodrigues, Maíra Velho, Mateus Rodrigues, Monica Appelt, Pedro Henrique de Carvalho, Priscila Baelz, Thais Oliveira, Santa Maria: Edição do Autor, 1a. edição (2019), brochura 22,5x21, 38 págs, sem ISBN.

terça-feira, 11 de junho de 2019

bloomsday festival

Robson Gonçalves, amigo querido, fez um passeio por Londres e Dublin, e trouxe na bagagens uns mimos que fazem festa nos sentidos. Um deles é esse catálogo, onde estão descritas todas as atividades relacionadas ao Bloomsday deste ano organizadas pelo The James Joyce Cultural Centre de Dublin. O Bloomsday é uma festa literária que é celebrada anualmente no dia 16 de junho, dia em que os sucessos do romance "Ulysses", de James Joyce, ficcionalmente acontecem. Pelo menos desde 1954 o Bloomsday é comemorado, seja por meio de caminhadas pela cidade, palestras, mini cursos, projeção de filmes e documentários, encenações dramáticas, encontros e festas gastronômicas. Em muitos lugares os participantes vestem roupas do período eduardiano, do início do século XX inglês, consomem aquilo que Joyce fez seus personagens consumir no livro, caminham pelas mesmas ruas e frequentam os mesmo lugares nele descritos. A lista de eventos é enorme (e este catálogo só registra o que o JJCC organiza, há eventos assim em dezenas de cidades no mundo). O leitor curioso pode verificar como estes eventos funcionam no site do JJCC. Resolvi fazer esse registro aqui pois acredito que aqueles que planejam organizar uma festa nestes moldes um dia podem encontrar neles inspiração, ter uma ideia do que pode ser feito. Basicamente: não há limites e regras. Deixo aqui também um vídeo de Sam Slote explicando porque você deve ler o Ulysses (Sam Slote no TED education).  Are you ready for Bloomsday? So this is Dyoublong?
Registro #1414 (catálogo #9) 
[início: 08/06/2019 - fim: 12/06/2019] 
"Bloomsday Festival", Jessica Pell-Yates (manager of the James Joyce Cultural Centre, organização), Dublin: James Joyce Cultural Centre, 1a. edição (2019), brochura 14x21, 60 págs, sem ISBN.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

the magic of handwriting

Há livros que compramos por prazer, pouco importa o que custam e a dificuldade de obtê-los. Tê-los ali ao alcance da mão é um conforto, faz à alma um grande bem, como já nos ensinou Walt Whitman. Sim, com este "The Magic of Handwriting" tive essa classe de alegria besta, pessoal, intransferível, pois tratava-se de um mimo que inventei de dar para mim mesmo como presente de aniversário (e cabe registrar que a eficiente Livraria da Travessa alcançou me entregar o livro justamente no dia certo). Bueno. Pedro Corrêa do Lago é um conhecido escritor e historiador brasileiro, trabalha sobretudo com história da arte e é também um colecionador de manuscritos. Recentemente a The Morgan Library and Museum, de Nova Iorque, nos Estados Unidos, organizou uma  exposição com aproximadamente 150 documentos de sua coleção, que contém manuscritos e documentos assinados por grandes personalidades que se destacaram em oito grandes áreas: arte, história, literatura, ciência, música, filosofia, explorações e entretenimento. Esses indivíduos nasceram e viveram nos últimos 9 séculos (a peça mais antiga da coleção data de 1153 e a mais recente de 2006). Esse volume editado pela Taschen reproduz um tanto da magia da exposição. As peças correspondem a cartas escritas à mão, fotografias, desenhos, partituras, documentos variados. Algumas ele recebeu de herança (ele é neto de Oswaldo Aranha), outras arrematou em leilões ou comprou diretamente ao longo dos últimos 50 anos. O volume não é composto apenas de reproduções dos documentos, encontramos quatro ensaios longos, assinados por Vik Muniz, Christine Nelson, Declan Kiely e pelo próprio Pedro Corrêa do Lago. Uma generosa lista de sugestões de leitura e um exaustivo índice completam o volume deste belo catálogo. Enfim. Algumas imagens dos manuscritos reunidos na exposição podem ser encontradas diretamente no site da Morgan Library: Clika aqui 1! ou num vídeo depositado no YouTube, onde Corrêa do Lago fala de sua coleção e da proposta da exposição. Vale a pena dar uma olhada: Clika aqui 2!  Já a expografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, e o projeto de identidade visual da exposição, assinado pela ps.2 arquitetura + design pode ser apreciada no link: Clika aqui 3!. Bom divertimento. Vale!
Registro #1381 (catálogo #8) 
[início: 04/03/2019 - fim: 17/03/2019]
"The Magic of Handwriting", Pedro Corrêa do Lago, Berlin: Taschen Books, 1a. edição (2018), capa-dura 18x25 cm., 464 págs., ISBN: 978-38365-7438-9

terça-feira, 17 de outubro de 2017

millor: obra gráfica

"millôr: obra gráfica" é um mimo produzido pelo Instituto Moreira Salles como catálogo de uma exposição onde foram reunidos 500 desenhos originais de Millôr Fernandes (que correspondem apenas a uma parte bem pequena da produção plástica dele, cabe lembrar). Essa exposição aconteceu no período entre abril e agosto de 2016, no Rio de Janeiro. Caso tivesse tido ciência deste livro antes o teria comprado e enviado a meu pai, grande admirador do Millôr, mas meu pai, eu sei, morreu há quatro meses. O original Aguinaldo Severino era um homem de manias, comprava regularmente jornais e revistas. Uma das que comprou até sua extinção foi a Revista O Cruzeiro, que lembro-me folhear desde muito pequeno, equilibrando-a nas mãos (era uma revista grande). Pois foi na Revista Cruzeiro que Millôr publicou boa parte do material da exposição do IMS e resta agora reproduzido neste belo catálogo. Artista autodidata, de muitos talentos, pois foi jornalista, dramaturgo, humorista, tradutor, editor, gravador, artista gráfico e plástico. O livro inclui três curtos ensaios críticos, assinados por Agnaldo Farias, Paulo Roberto Pires e Julia Kovensky. Inclui também uma cronologia biográfica (assinada por Jovita Santos de Mendonça) e indicações sobre a publicação original dos 500 desenhos reunidos na exposição. Os trabalhos estão divididos em cinco grandes conjuntos temáticos, não cronológicos: "Millôr por Millôr", autorreferentes, marca registrada dele; os trabalhos do caderno "Pif-Paf", da revista O Cruzeiro, entre 1945 e 1963, sobretudo leiautes, ainda com as indicações sobre o tamanho da mancha da edição; "Brasil", esse tema obsessivo dele, sempre numa relação de amor e ódio, com humor mas com sarcasmo; "Condição humana", trabalhos mais líricos, filosóficos, contidos; e "À mão livre", os mais autorais, no sentido em que fala neles não o cronista de costumes e de política, mas o artista plástico, o autor criativo que experimenta técnicas, materiais, cores e formas. Trata-se de um livro fartamente ilustrado, com reproduções fotográficas de seu estúdio/atelier (uma cobertura que ele ocupou por quatro décadas, em Ipanema). Os textos rendem homenagem ao sujeito complexo e irrequieto, inventivo e mestre do humor, curioso sobre as técnicas que surgiam (foi um dos primeiros artistas gráficos a incorporar a computação em sua produção). A edição é muito bem cuidada e destaca toda a força de Millôr na preparação dos originais, na equilíbrio das cores, na reinvenção de alfabetos e tipografias, nos grafismos. Poderia classificar esse livro aqui como um genuíno livro de arte, mas vou me render a classificação original do IMS, como catálogo. Esse sim é um livro para se folhear com calma e sem critério, sem pressa. Na falta dele, o quê fazer? Bueno. Desde 2013 o IMS é mantenedor do acervo original de mais de seis mil desenhos, impressos e gravuras de Millôr (os trabalhos e objetos de outra natureza - obras teatrais, obra literária, biblioteca - foi dividido entre outras instituições). Essa exposição não existe mais, mas o leitor curioso pode dar uma espiada em alguns registros do acervo no site do IMS. Assim sendo, vá rá, bom divertimento. E Evoé Millôr, evoé!
Registro #1224 (catálogo #7) 
[início: 11/06/2016 - fim: 11/10/2017]
"millôr: obra gráfica", Millôr Fernandes, São Paulo: Editora Instituto Moreira Salles, 1a. edição (2016), brochura 23,5x30 cm, 288 págs. ISBN: 978-85-8346-033-6


sexta-feira, 8 de julho de 2016

rastros

Conheci virtualmente o Weaver há uns dois ou três anos. Tempos depois recebi dele "Seres Urbanos", uma antalogia de fanzines produzidos por ele e seus colegas no Ceará, na década de 1990 (e que ganhou o prêmio Miolo(s) de melhor livro de HQ em 2015, prêmio importante organizado pela editora Lote 42 e a Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo). Desde o início dos anos 2000 ele tem se dedicado às artes visuais e tem participado de salões e mostras coletivas. Em 2011 ele iniciou um projeto de arte urbana, o RASTRO, cuja proposta permitiu a ele viajar pelo interior do Ceará e produzir grafittis e pinturas em espaços públicos e nas fachadas de casas particulares. A ideia não era apenas interferir graficamente no espaço urbano ou nas casas que conservam em sua arquitetura características típicas do sertão nordestino (principalmente o colorido vivo das fachadas, portas de madeira, marcos das janelas e platibandas - elemento arquitetônico muito antigo, gótico, cuja função é esconder telhado das edificações). Ele também  interage com a população das cidades que visita, conversa com os moradores, dá palestras em escolas e percorre as ruas das cidades distribuindo aleatoriamente obras originais de sua autoria (serigrafias ou pinturas, assinadas e numeradas, cujos temas são comuns às suas intervenções urbanas em grandes formatos). Esse esforço pela democratização da arte, que inventiva os moradores da cidade a participarem do processo criativo alcançou tão bons resultados que Weaver conseguiu patrocínio público para uma exposição individual na Caixa Cultural Fortaleza, que ficou aberta para visitação durante o outono deste 2016. Não vi a exposição, composta por aproximadamente uma centena de obras, entre painéis com grafites em grandes formatos, pinturas inéditas em tinta acrílica sobre tela, os moldes utilizados na produção, fotos e vídeos com os registros da  interação com a população nas cidades em que ele fez suas intervenções urbanas. Todavia, tive a sorte de encontrá-lo em sua definitiva Fortaleza e receber dele esse catálogo, onde estão reproduzidos boa parte do que poderia ser visto na exposição. O catálogo inclui dois textos longos, assinados por Juliana Castro e Luciana Rodrigues, nos quais são discutidos aspectos técnicos e conceituais do projeto. As imagens do catálogo contam e comprovam uma bela história. O povo cearense tem sorte de contar com um sujeito tão industrioso e talentoso. Em tempo: o projeto RASTRO continua. Ainda veremos os desdobramentos da ideia original e os novos caminhos trilhados pelo Weaver. Ojo.
[início: 10/06/2016 - fim: 05/07/2016]
"Rastros: Uma exposição de Weaver F", Weaver Lima, Fortaleza/Ceará: Caixa Cultural Fortaleza, capa-dura 16x21 cm., 184 págs., sem ISBN

segunda-feira, 18 de maio de 2015

james joyce apocalypse & exile

Vi a exposição "James Joyce: Apocalypse & Exile" em fevereiro, na Marsh's Library, em Dublin. Estava bastante frio, mas era um dia bem ensolarado, sem nuvens. A caminhada foi curta, não mais de quinze minutos de Ballsbridge (onde estava hospedado) até a região da Saint Patrick's Cathedral. A Marsh's é a biblioteca pública mais antiga da Irlanda, aberta ao público em 1707. Foi fundada por um dos arcebispos de Dublin (Narciso Marsh) e contém cerca de 25.000 volumes, principalmente incunábulos, obras litúrgicas e bíblias impressas entre os séculos XVI a XVIII, mas que possui também um variado acervo profano, com livros de ciências, matemática, literatura e ensaios. A Marsh's é citada em pelo menos três das obras de James Joyce, Ulysses, Finnegans Wake e Stephen Hero. O livro de visitantes da biblioteca dá conta que Joyce a visitou nos dias 22 e 23 de outubro de 1902 (tinha pouco mais de 20 anos). A exposição mostra os livros que Joyce consultou nesses dias, obras poéticas de Dante, Boccaccio e Petrarca e ensaios inspirados na tradição espiritual franciscana (no século XVII havia um grupo grande de frades medicantes de orientação franciscana exilados em Dublin). Na exposição (e de resto nesse catálogo) encontramos vinte e cinco livros, todos parte do enorme acervo da biblioteca, incluindo as primeiras edições de Ulysses, Stephens Hero e Finnegans Wake. O primeiro item da exposição é um dos livros de visita da biblioteca onde pode-se encontrar a assinatura de Joyce. Nas quatro salas de exposição encontravam-se também volumes de autores italianos do século XIV (os já citados Dante, Petraca e Boccaccio); autores do século XVII que discutem o culto a são Francisco de Assis (livros de são Bonaventura da Banoregio, Fortunatus Hueber e Willem Spoelberch); autores que discutem as profecias de um filósofo místico, o abade cisterciense Joachin Abbas (ou Joachim de Fiore), que advogava o milenarismo (uma volta do Messias cristão); autores de orientação franciscana que em algum momento estiveram radicados na Irlanda (Mícheál Ó Cléirigh, John Punch, Patrick Fleming, Hugh MacCaughwell, John Colgan e Luke Wadding, entre outros). Todos os livros podiam ser manipulados (desde que você usasse luvas). Claro, tive tempo de ver as altas prateleiras, conversar com as bibliotecárias, sentar nas mesas de consulta e experimentar algo daquilo tudo, vagar pelos salões da biblioteca como quem percorre uma caverna com tesouros e se imagina ali para sempre, com todo o tempo possível para desfrutá-la. O material iconográfico produzido para a exposição é de muito boa qualidade (postais, cartazes e esse catálogo). Além de fac-símiles de cada um dos livros da exposição, o catálogo incluí cinco ensaios: "Exile and the irish franciscan tradition" (assinado por John McCafferty e Mícheál Ó Cléirigh); "Joyce's saints and sages: history, hagiology and the irish franciscan tradition", "Joachin of Fiore and 'Joachitism' from Stephen Hero to Finnegans Wake" e "Joyce and the Trecento" (assinados por (Anne Marie D'Arcy); "James Joyce and the 'Stagnant bay' of Marsh's Library" (assinado por Jason Mcelligott). Ainda vou falar mais desses dias de alegria em Dublin, os dias de minha devota peregrinação pelo mundo de James Joyce. Vale.
[início: 04/02/2015 - fim: 30/04/2015]
"James Joyce: Apocalypse & Exile",  John Maccaggerty, Marina Ansaldo, Anne Marie D'Arcy, Jason Mcelligott, Mícheál Ó Cléirigh, Dublin: Marsh's Library (Department of Arts, Heritage and the Gaeltacht), 1a. edição (2014), brochura 17x24 cm, 96 págs., ISBN: 978-0-9930953-0-6

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

lucian freud: corpos e rostos, gravuras, pinturas e fotografias

Nas curtas férias de inverno, em meados de agosto, fiquei uns bons dias na São Paulo dos Campos de Piratininga que eu amo e que me envisga. Tive a boa sorte de conseguir participar do décimo "Hora H", evento que comemora e rememora a obra de Haroldo de Campos e inventei outros passeios e delícias sem fim, como sempre, "drowning in honey, stingless", todavia fiquei algo aborrecido logo ao chegar à exposição de Lucian Freud no MASP. O erro maior foi meu, de minha própria ansiedade, que fez-me acreditar que veria de perto uma vez mais quadros a óleo de Lucian Freud (aqueles que rivalizam com as maravilhas que produziu Francis Bacon, sempre meu favorito). Talvez eu devesse ter lido com mais cuidado o material de divulgação da exposição, mas esqueci-me disso. O que me incomodou foi que a exposição, apesar de ser muito boa, incluía apenas cinco ou seis telas que estavam distribuídos dentre num mar de águas-fortes (quarenta e quatro delas) e fotografias (talvez trinta, em grandes formatos, impressas pelo processo C-type). Claro, eu gosto muito de gravuras (by the way minha querida Helga é gravadora e foi ela quem ensinou-me a potência que se extraí da madeira, da pedra, do linóleo e do metal), mas eu queria mesmo é ver uma vez mais (e de perto) as pinturas de Lucian Freud. Paciência. Passado o aborrecimento inicial, a exposição acabou me conquistando. Os trabalhos em exposição percorriam os anos iniciais de sua produção (1947/1948) e alguns seus últimos trabalhos (2005/2006). Assisti um documentário de uns trinta minutos que oferecia uma mostra de como era seu método de trabalho (e também dava uma mostra de seu humor mordaz e de seu olhar quase etéreo). As fotografias de David Dawson, modelo e assistente de Freud por alguns anos, reproduzem também algo do dia a dia do artista, que era conhecido pelas longas sessões de trabalho com os modelos e o longo tempo que levava para decidir como finalizados seus quadros. O catálogo da exposição, que li com calma nestes meses últimos meses, é bastante completo. Trata-se de uma edição bilíngue, com textos relativamente curtos de Beatriz Pimenta Camargo (diretora-presidente do MASP); Teixeira Coelho (curador do MASP); Marc Balakjian (o mestre impressor das gravuras produzidas por Freud); Sally Clarke (uma de suas modelos); Craig Hartley (um especialista em gravura, autor do catálogo Raisonné de Freud) e David Dawson (fotógrafo, modelo e assistente de Freud). Esses textos ocupam metade do catálogo. A outra metade incluí todas as reproduções das gravuras, fotografias e pinturas da exposição. Boa parte das gravuras vieram da Fundación Museos Nacionales e do Museo de Arte Contemporáneo (ambos de Caracas, Venezuela), além dos acervos do Arts Council, do British Council e de coleções privadas inglesas. Já as pinturas foram emprestadas por coleções públicas inglesas. Nunca um catálogo substitui a experiência estética de ver uma exposição, mas esse em especial dá um boa idéia do que foi oferecido nela. E para quem tem paciência para uma exposição digital, muitos dos potentes óleos de Lucian Freud podem ser visto no The Athenaeum Artworks. Bom divertimento. Evoé.
[início: 10.08.2013 - fim: 29.12.2013]
"Lucian Freud, corpos e rostos: gravuras e pinturas com fotografias de Lucian Freud por David Dawson / Lucian Freud, portraits and figures: etchings and paintings with photographs of the artist by David Dawson", David Dawson (fotografias), Richard Riley e Delphine Allier (curadores), Teixeira Coelho (colaborador), tradução de Ana Goldberger, São Paulo: Comunique Artes editorial, 1a. edição (2013), capa-dura 21,5x28,5 cm., 142 págs., ISBN: 978-85-89496-23-0

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

através: inhotim

A experiência estética que alcançamos ao ver uma exposição nunca é reproduzida ao consultarmos um catálogo dela. Entretanto, talvez otimistas, talvez iludidos, acabamos voltando sempre a esses livros especiais quando queremos voluntariamente recordar algo daquela experiência, numa espécie de garimpo mental ou afetivo. No caso deste livro, deste catálogo específico, a proposta é ainda mais modesta, pois não há como fixar exatamente em palavras ou imagens o assombro que temos ao visitar Inhotim. Trata-se de um lugar situado a 60 quilometros de Belo Horizonte dedicado a exposição permanente de arte contemporânea, mas que também é um imenso, exuberante, jardim botânico e também um lugar repleto de edificações e equipamentos arquitetônicos que em si valem uma boa parte do tempo que dedicamos a visita. Idealizado por um empresário e colecionador de artes mineiro chamado Bernardo de Mello Paz, o acervo do Instituto Inhotim está aberto a visitação pública desde meados de 2006. A história, as propostas museológica, paisagística e artística, de desenvolvimento regional, de sustentabilidade e inclusão, assim como depoimentos de entusiastas e informações turísticas podem ser conferidas em detalhe no site do Instituto Inhotim. Mas o que um eventual leitor encontra neste catálogo? Trata-se do primeiro livro dedicado ao acervo artístico de Inhotim. Publicado originalmente em 2008, reúne obras de 57 artistas, aproximadamente um terço de todos artistas da coleção (mas este número deve estar desatualizado, pois nos últimos anos o Instituto manteve uma política agressiva de aquisição de obras e inauguração de galerias - já são quase vinte delas, espalhadas por uma área de mais de um milhão de metros quadrados). Em "Através: Inhotim" há cerca de vinte textos, assinados por Bernardo de Mello Paz, Adriano Pedrosa, Allan Schwartzman, Ana Paula cohen, Carla Zaccagnini, Janaina Melo, Jochen Volz (o diretor artístico e de programação à época da edição do catálogo), José Augusto Ribeiro, Júlia Rebouças, Lisette Lagnado, Luisa Duarte e Rodrigo Moura. Uns poucos falam do projeto ou do conceito utilizado na concepção do acervo artistico; a maioria apresenta peças e/ou trabalhos de cada artista individualmente e algumas justificam sua incorporação à coleção do Instituto. Dentre os artistas que são discutidos no catálogo encontramos Tunga, Hélio Oiticica, Miguel Rio Branco, Adriana Varejão, Cildo Meireles, Olafur Eliasson, Ernesto Neto, Vik Muniz, José Damasceno e Artur Barrio (para citar apenas um terço dos que são citados explicitamente nos textos). As fotografias e reproduções das obras são belíssimas. O catálogo acerta em também apresentar um tanto das belas paisagens do Instituto, mas nem de longe faz juz à força arquitetônica das edificações do lugar. O que este catálogo oferece não é pouco, mas na verdade talvez a função dele seja mesmo apenas nos lembrar da necessidade de voltar a Minas Gerais, voltar a Brumadinho, voltar a Inhotim. E ver. 
[início 02/08/2012 - fim 02/09/2012] 
"Através: Inhotim", curadoria de Allan Schwartzman, Jochen Volz e Rodrigo Moura, coordenação editorial de Rodrigo Moura e Adriano Pedrosa, Brumadinho: Instituto Inhotim, 1a. edição, 4a. impressão, revisada (2012), brochura 19,5x27 cm, 399 págs. ISBN: 978-85-61614-00-3 [edição original: 2008]

domingo, 1 de janeiro de 2012

queremos miles

De todas as exposições que vi no ano passado "Queremos Miles!" foi a mais impactante, certamente foi a que proporcionou a experiência estética mais completa e deslumbrante. Montada originalmente pelo museu Cité de la Musique, de Paris, em 2009, já em outubro passado, logo no início da primavera, ela foi montada no SESC Pinheiros de São Paulo (e eu estava lá para conferir, contumaz admirador de Miles que sou). O catálogo não substitui o arrebatamento proporcionado pela exposição, é uma peça de arte independente, que certamente funciona como ferramenta didática. Organizado por Vincent Bessières (também curador da exposição) o catálogo tem um texto principal assinado por Franck Bergerot, além de contribuições de George Avakian, Laurent Cugny, Ira Gitler, David Liebman, Francis Marmande, John Szwed e Mike Zwerin. Os textos descrevem bem as muitas fases, as inovações, experiências musicais e revoluções conceituais inspiradas por Miles. Há informações sobre o Miles jazzista e também coisas sobre a vida pessoal do sujeito irascível, mercurial e zeloso de sua privacidade que era. Claro, os textos, relativamente curtos, não substituem o prazer de ler a autobiografia que Miles assinou em parceria com Quincy Troupe, nem a biografia assinada por Ian Carr, coisas que li com voracidade anos atrás. Mas o catálogo oferece ao leitor um aparato iconográfico espetacular, com fotografias, desenhos, partituras manuscritas, reproduções de capas, ilustrações e pinturas, além de longas seções de bibliografia. Ao leitor resta cantarolar baixinho os riffs jazzísticos que conseguir lembrar, saudoso que certamente fica de Kind of Blue, Birth of the Cool, Miles Ahead, Sketches of Spain, Tutu, Amandla, Bitches Brew e tantas outras maravilhas. [início 20/10/2011 - fim: 01/01/2012]
"Queremos Miles", Vincent Bessières (org.), Frank Bergerot,  tradução (português) de Renato Rezende, tradução (inglês/francês) de Christian Gauffre, São Paulo: edições SESC SP (1a. edição) 2011, brochura 24x28, 223 págs. ISBN: 978-95-7995-026-1 [edição original: We want Miles (Paris: Éditions Textuel/Cité de la Musique) 2009]

quarta-feira, 19 de março de 2008

instalação grande sertão

Noutro dia vi uma bela caixa com um exemplar da edição comemorativa dos 50 anos de Grande Sertão: Veredas nas prateleiras da CESMA. Na hora tive a certeza que ela iria mudar de endereço e enfeitar uma das minhas prateleiras de livros. Li que a editora Nova Fronteira havia publicado ainda no início desta década uma edição digamos definitiva da obra, feita a partir da última edição corrigida pelo próprio autor. Já esta edição comemorativa foi pensada em termos mais eloquentes, para de fato despertar novo interesse por todos os que já conhecem o livro bem como por aqueles que ainda estão por conhecê-lo. A idéia surgiu inspirada pela "instalação" sobre Grande Sertão: Veredas que Bia Lessa preparou ainda em 2006 para a abertura do Museu da Língua Portuguesa na Estação da Luz, em São Paulo. Quem teve a chance de ver esta "exposição" deve ter sido arrebatado de pronto, pois trata-se de um belo trabalho onde vários dos aspectos mais conceituais e herméticos do livro são apresentados visualmente (e auditivamente) de forma muito eficiente e elegante. A instalação tinha vários elementos: o mar das páginas datilografadas de todo o livro, com as marcas de correção feitas pelo próprio autor, pairando sobre nossas cabeças por todo o espaço; as trilhas temáticas a serem percorridas, à vontade do visitante, seguindo o caminho de alguns dos personagens; as pilhas de tijolos e materiais de construção, onde se construiam palavras; os pingos d'água que ondulavam as palavras espelhadas de uma superfície; as "torres de observação", onde o público mirava de longe trechos escondidos do livro, eventualmente filtrados por placas de acrílico; os comentários longos e contínuos de críticos e contemporâneos de Guimarães Rosa, sendo projetados em uma sala totalmente vermelha (como o inferno?); aquele mapa gigante das Minas Gerais, onde os itinerários dos personagens e da história são indicados com precisão; os muitos fios vermelhos amarrando e costurando todos os caminhos e leituras, como restos de fios de Ariadne. Enfim, uma bela exposição (eu vi na verdade uma remontagem dela, no MAM do Rio de Janeiro, mas isto é detalhe besta). Assim, a edição comemorativa incorporou ao livro de Rosa, na forma de um catálogo, a própria instalação. Li e vi o catálogo com imenso prazer, lembrando da exposição, do dia agradável no Rio, onde prometi reler o Rosa (mas quem disse que eu cumpro as promessas feitas quando estou emocionado?). De brinde o catálogo ainda inclui um DVD com depoimentos em audiovisual de Antonio Callado, Antonio Candido, Décio Pignatari, Eduardo Coutinho, Haroldo de Campos, Paulo Mendes da Rocha e Sérgio Sant'Anna, além da leitura por Maria Bethânia de trecho da obra. Um tremendo presente de ano novo, que só agora apreciei de fato. Um produto híbrido que honra na justa medida tanto o trabalho de Bia Lessa e quanto a obra de Guimarães Rosa.
Grande Sertão: Veredas, uma instalação, Bia Lessa, editora Nova Fronteira, 1a. edição (2006) brochura 17x24cm, 216 pág., ISBN: 978-85-209-1887-5