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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

noites das mil e uma noites

Algo impressionado com o bom "O beco do pilão" resolvi pegar o primeiro Mahfouz que estivesse à mão. Encontrei esse "Noites das mil e uma noites", de 1981, já na última década de sua longa carreira como escritor, iniciada nos anos 1930. Mahfouz parece ter sido motivado pela pergunta que qualquer leitor faz após chegar ao fim dos contos árabes das mil e uma noites: O que acontece exatamente após Scheherazade terminar de narrar sua miríade de histórias? Eles viveram mesmo felizes para sempre? Mahfouz inventa uma curiosa trama onde o arrependimento e transformação do tirânico e misógino sultão Shahriar em bom marido e pai amoroso é posta à prova. Mahfouz continua utilizando os elementos mágicos que encontramos nos relatos originais dos "Livros das mil e uma noites" (demônios, gênios, mundos paralelos, metamorfoses, viagens temporais) mas alcança milenarizar de alguma forma o texto, como se o decalcasse e o aproximasse do leitor moderno. Não são as fantasias, mas antes a psicologia dos personagens (mesmo os não-humanos, vamos dizer assim) que serve aos propósitos literários de Mahfouz. Como nos contos árabes originais as histórias se cruzam e superpõe em cascata, se repetem como em mantras, mas encontramos nelas vivências plenas de humanidade. Esse é um livro povoado de personagens e frases feitas (mas também alguma metalinguagem). Os passeios do Sultão à noite lembram aqueles inventados por Shakespeare no Henry V, assim como parece sair das peças de Shakespeare a transformação do chefe da guarda Jamsa al Balti em uma espécie de arauto ou louco (Montjoy ou o bobo do King Lear), que percorre todo o livro. A capacidade de Mahfouz de interpretar e refletir sobre o papel dos homens na política e religião, distinguindo-as (como sempre deve ser) é impressionante. O sultão Shahriar que o leitor encontra no final do livro é um homem mais sábio, assim como o leitor, que teve a chance de comparar as diferenças entre o conjunto de contos alegóricos do original e um romance realmente robusto. Em tempo: Essa é a 600a. resenha que faço nesse blog. É inevitável, mas o Alzheimer vai ter que trabalhar duro para apagar as boas lembranças da leitura destes 600 livros. [início: 08/01/2012 - fim: 10/01/2012]
"Noites das mil e uma noites", Naguib Mahfouz, tradução de Georges Fayez Khouri e Neuza Neif Nabhan, São Paulo: editora Companhia das Letras (1a. edição) 2011, capa-dura 14x21,5, 308 págs. ISBN: 978-85-359-1907-3 [edição original: ليالي ألف ليلة  Layali alf lela (Cairo) 1981]

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

o beco do pilão

Naguib Mahfuz foi um dos escritores egípcios mais influentes do século passado. Sujeito muito prolífico (publicou cerca de 50 romances e centenas de contos entre 1932 e 1987), Mahfuz ganhou o prêmio Nobel de literatura em 1988. "O beco do pilão" é um de seus primeiros livros, publicado em 1947. Lembrei muito do "La Colmena", do Camilo José Cela, que é de 1951, mas surpreendentemente partilha com "O beco do pilão" algo do ritmo e da ambientação (preciso reler este livro um dia destes). Encontramos aqui uma especie de mosaico, formado por histórias cruzadas de várias personagens que vivem em um pequeno beco da zona pobre da parte antiga da cidade do Cairo, nos tempos do final da segunda grande guerra. O Egito já tinha sido libertado da invasão das forças italianas e alemã, já experimentando algum progresso com o dinheiro fácil dos ingleses e dos fugitivos da guerra, que continuava na Europa. As histórias são duras, onde cada um, a seu modo, experimenta uma vida miserável, confusa, de sonhos mirrados e futuro incerto. Todavia Mahfuz as apresenta com muita objetividade e realismo, não apela para chantagens emocionais e sentimentalismos bobos. O que o leitor encontra são histórias críveis, sobre homossexualismo, prostituição, avareza, religiosidade, política, militarismo, saúde pública, relações humanas. Mahfuz consegue em poucas frases definir personalidades complexas e o papel que cada um ganha nas tramas sempre é convincente. Os temas descritos são variados e contrastam o comportamento dos habitantes daquele beco com a população de um Egito que se moderniza, por força da ocupação britânica. É tempo, vou procurar mais livros desse sujeito. [início: 28/12/2011 - fim: 08/01/2012] 
"O beco do pilão", Naguib Mahfouz, tradução de Paulo Daniel Farah, São Paulo: editora Planeta do Brasil (1a. edição) 2003, brochura 16x23, 319 págs. ISBN: 85-7479-695-6 [edição original: زقاق المدق Zuqãq al-Midaqq (Cairo) 1947]