[início: 19/04/2019 - fim: 21/04/2019]
"Eu vou matar Maximillian Sheldon", Leonardo Brasiliense, Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 128 págs., ISBN:
978-85-80360-01-7
a idéia é fazer curtos comentários sobre os livros que li
"Três dúvidas" reune três boas novelas de Leonardo Brasiliense. Elas formam um conjunto temático. Segundo ele (que em um curto posfácio indica ao leitor um caminho de interpretação, algo que me lembrou certos posfácios do Philip Roth) as três novelas tratam de três classes de problemas: as dúvidas existenciais, as dúvidas essenciais e ao cerne mesmo delas, a essência das dúvidas. Mas os livros seguem seus caminhos sem as amarras que os autores podem aplicar a eles (por mais que estas amarras sejam bem intencionadas) e cada leitor certamente pode depreender, dos conflitos descritos nas novelas, outras facetas, outras epifanias, segundo suas próprias categorias de entendimento. De minha parte sempre tento associar o que leio com alguma tradição, com alguma literatura forte que se conecta a novos textos fortes. A primeira das novelas descreve em seções alternadas duas vidas oprimidas, sufocadas, terríveis em sua mediocridade. Um casal que se comunica apenas por um eloquente silêncio, que mal esconde o quanto estão angustiados. Lembra algo do tom de Camus em "O extrangeiro". Na segunda das novelas encontramos uma espécie de quebra-cabeças, em que os variados blocos do texto nos conduzem ao entendimento intrinsicamente fragmentário de uma história. O que há de factual na história? Talvez nada seja factual, nada seja real, talvez tudo seja apenas o resultado de uma mente em coma, que produz estratégias de economia mental automáticas, de um sujeito que luta por sua vida e delira. Lembra algo do "Enquanto agonizo", do Faulkner. Na terceira novela o tom já é mais cinematográfico. Um jornalista recebe uma dica que pode alavancar sua carreira, algo onde um escândalo político e a proximidade de eleições distorcem a compreensão do que é mesmo certo ou errado em cada situação, em cada argumento, em cada página. Um acidente automobilístico embaralha ainda mais a história, pois o jornalista passa a conviver com um duplo, um doppelganger, como se sua vida se bifurcasse naquele momento crucial. O texto lembra aqueles contos de terror da primeira metade do século passado, mas sem tantos arabescos (como se ele modernizasse o gênero). Talvez eu esteja esquematizando demais minhas associações. Gostei muito das três histórias. O tratamento literário, a qualidade do texto de Leonardo é algo a parte (uma coisa é inventar histórias, outra é utilizar uma linguagem que as valorizem e lhes incorporem densidade e vigor). É certo que mesmo sendo um jovem autor Leonardo Brasiliense sabe correr certos riscos e se reinventar a cada texto que oferece ao público leitor (ou seja, ele não precisa nem da companhia de uma panelinha literária, algo tão comum a sul do polo norte - para não dizer ao sul do Manpituba, como me parece ser mais apropriado - nem da repetição de truques literários). Por fim cabe registrar o belo acabamento do livro. A separação entre as novelas, as boas epígrafes, a separação das seções dentro de cada novela e, por fim, até a capa, belíssima, tornam este um livro que vale a pena o tempo que investimos em desfrutá-lo. [início - fim 16/05/2010]
Devemos sempre respeitar as idéias de um autor, mas para mim "Whatever" não é exatamente um livro de contos (Ulalá, quem sou eu, além do menor dos anões desta paróquia, para entrar nesta enrascada descrever as fronteiras do quê é um conto afinal). Bueno. Chamar "Whatever" de romance talvez incomodasse o Leonardo. Eu mesmo acredito que há algo de romance de formação nele, mas como se desenvolver, se formar, é algo que a psique do personagem que percorre todos os nominados dez contos exatamente se recusa a fazer, há um anacronismo meu no uso desta acepção. Talvez eu pudesse dizer que "Whatever" é um "Bildungskurzgeschichte" (se é que don Robson e a língua alemã permitam tal construção), ou seja, algo como contos de formação: já que embora o tempo flua para o personagem e ele pouco se modifique, se transforme, se desenvolva, ao chegarmos ao último conto encontramos uma nova encarnação do garoto que sonha no primeiro dos contos que lemos. Mas esta é uma questão para os críticos formais, não para mim. Leonardo Brasiliense nos apresenta neste bem editado livro dez histórias curtas que um sujeito experimenta, ou melhor dizendo, histórias que um jovem brasileiro entre seus 14 e seus 17 anos experimenta. São como janelas na vida deste rapaz. Algumas são invenções dele mesmo, seus sonhos, suas angústias, suas dificuldades de operar no mundo real; outras são narrações curtas de como ele resolve (ou não resolve) eventos algo importantes de sua vida. Desde a primeira história ele se revela um bom observador e um bom descritor das sutis diferenças de recepção que seus atos provocam em terceiros. Acompanhamos o personagem, João Pedro, em experiências simples: sua festa de aniversário; seu primeiro "bico", um trabalho de meio período; suas andanças sem rumo pela cidade; sua socialização com outros garotos e garotas, na escola e em festas juvenis; sua avaliação do constrangimento geral que a prisão do pai de um colega provoca; sua reação aos amigos, a princípio tão diferentes dele, com os quais se relaciona; seu envolvimento com uma menina, com quem imagina poder se apaixonar; sua escolha de uma opção para o exame vestibular. São coisas que afinal acontecem com todos os garotos e garotas nesta faixa de idade. Não sei avaliar se as últimas legiões de garotos e garotas que passam por esta idade são menos ou mais indiferentes à vida que aquelas que as precederam. Talvez seja um defeito humano, muito nosso, como a miopia ou o diabetes por exemplo, acreditar que somos particularmente mais atuantes, gregários, solidários e simpáticos que nossos filhos. É difícil rotular. Ao mesmo tempo os rótulos servem para delimitar assuntos, temas, e nos ajudam a localizar padrões e caminhos. De qualquer forma posso registrar que "Whatever" é um bom livro, que independe de alguma sociologia, de alguma interpretação sociológica. São histórias que lemos com prazer, que nos remetem a situações que em certa medida já encarnamos, que nos fazem interpretar melhor o mundo em que vivemos. Se a função da literatura é levar um leitor a pensar, Leonardo Brasiliense acertou neste livro. Por fim cabe registrar que o livro tem discretas ilustrações de uma jovem designer e que Leonardo usa (com parcimônia) um recurso metalinguístico - o autor interferindo no enredo explicitamente - que enriquece o livro. Agora um "spoiler" rápido: só achei estranho celulares e videoclipes dos Mamonas Assassinas na primeira história, mas era mesmo um sonho tudo aquilo afinal. [início 10/02/2010 - fim 04/03/2010]
Leonardo, gentil, mandou-me este exemplar pelos correios com dedicatória e tudo. Lembro de quando o conheci, através de Maria Luiza, em visita para entregar-me um livro recém saído da gráfica. É vero: com ele nunca ficamos com saudades da boa educação. Olhos de Morcego é um pequeno livro com dez contos curtos. Em cada um o narrador é sempre alguém incapaz de entender o que acontece a seu redor, pois a vida é mesmo muito dura. Fragmentários, os contos são narrativas do mundo confuso e trágico dos mais pobres e desvalidos dentre os seres humanos deste início de século que é confuso e trágico ele mesmo. O título se mostra bastante adequado: os olhos dos morcegos são limitados. Mas quem disse que os morcegos dependem dos olhos para se locomover? Assim como os morcegos os párias sociais simplesmente existem, não podem ser modificados. Preciso registrar que não fui arrebatado de pronto pelo livro. Os contos são sempre bem escritos, mas alguns, em que pese o fato de serem muito tocantes, soam algo irrelevantes para mim, que sou quase sempre avesso a valorar o mundo dos párias. Mas isto é provavelmente um problema meu e não do livro. Um dos contos que mais gostei me lembrou o Faulkner de "o som e a fúria", por conta de um personagem/narrador que é deficiente mental. Estas dificuldades que Leonardo cria para si mesmo valorizam o livro e tornam seu esforço digno de uma leitura mais atenta.