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sábado, 4 de maio de 2019

eu vou matar maximillian sheldon

Genuíno representante dos escritores com disciplinada vocação para seu ofício é Leonardo Brasiliense, gaúcho de São Gabriel, radicado em Santa Maria, autor já premiado, e que já publicou uma dezena de bons livros. Recentemente ele lançou "Eu vou matar Maximilian Sheldon". Trata-se de um livro de contos (já li contos dele reunidos em "Corpos sem pressa", "Whatever", "Olhos de morcego" e "Adeus contos de fada", mas não de outros dois: "Des(a)tino" e "Meu sonho acaba tarde"). São dez propostas, dez histórias curtas. Há um truque confesso neles, nos contos, que é o de contar histórias cujos narradores ou buscam cumplicidade afetiva ou agridem o leitor, em busca de um efeito igualmente cúmplice, que é o da negação automática de um padrão de comportamento que poderíamos acreditar nossos, de nós leitores. Os personagens dos contos estão envolvidos atividades bem humanas, envolvidos em coisas como a expiação de culpas; o hedonismo torto das classes trabalhadoras; os fragmentos bobos que brotam dos interstícios da memória; na perda da identidade, como aquela de alguém que se vê só num hospital; a solidão entranhada de alguém que se imagina povoado por um ser que o consome e justifica seus erros; a perda de tempo que é conviver com alguém que se despreza, mas que não se quer perder; a atividades bizarras, como a de querer transar logo após tentar salvar a vida de alguém que morre; a ilusão provocada por advinhos e outros charlatães em nossas vidas, desde a infância até a velhice; o censo cotidiano de nossas misérias, perdas, erros; a  busca por uma expiação ou ajuda profissional que não mitigará o fracasso inerente de uma relação. São dez bons contos, contos inventivos, muito bem escritos, de alguém que sabe o quê está fazendo de seu talento e arte. Evoé don Leonardo, evoé. Longa vida a esse livro de estreia da editora Coralina, que é lá da terra do arroz, Cachoeira do Sul. Vale!
Registro #1391 (contos #161) 
[início: 19/04/2019 - fim: 21/04/2019]
"Eu vou matar Maximillian Sheldon", Leonardo Brasiliense, Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-80360-01-7

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

roupas sujas

Leonardo Brasiliense é um sujeito que conhece bem seu ofício e não repete fórmulas que já deram certo. Já publicou novelas curtas, contos, histórias dirigidas ao público infantojuvenil, mini-contos. Cada novo livro dele oferece ao leitor algo que realmente surpreende. Neste "Roupas sujas" encontramos uma história compacta, que alcança fixar em tons quase líricos algo de terrível, triste, de vidas que parecem já fadadas à destruição, maculadas de tal forma que punições e tragédias serão repartidas por todos os descendentes de alguém que comete um ato vil (os ecos gregos dessa história são sutis, porém inequívocos). A trama se passa no interior do Rio Grande do Sul, na segunda metade do século passado. A morte de uma mulher ao dar a luz de seu filho caçula, Pedro, provoca rearranjos na estrutura familiar de um grupo de agricultores bastante modestos, que passam por dificuldades e contam com o clima e a sorte para prosperar. Os sete filhos órfãos (de Geni, já com vinte anos anos, a Antônio, com oito) assumem responsabilidades que estão acima de suas capacidades, todos se esforçam para fugir de um modo de vida estagnado, tóxico, todos parecem não saber exatamente o que devem fazer para de fato ajudarem uns aos outros. O pai é um estorvo, alguém incapaz de se reinventar após a morte da mulher, alguém que engendra suas próprias Erínias. A história é contada pelos três irmãos mais novos (Antônio, no tempo presente da trama, com os olhos de criança - como Henry James já nos ensinou; Valentina, após vinte e cinco anos dos sucessos vividos pelos irmãos, já com sua cota de aborrecimentos pessoais e brevemente por Pedro, o caçula, quando já bem velho, já tendo sublimado o que ele entende como sua culpa, ter nascido ao mesmo tempo que sua mãe morre). "Roupas sujas" é um romance que convence. É curto, deixa-se ler rapidamente, mas as reflexões dos narradores acompanham o leitor por dias. Interessante mesmo. Leonardo sabe falar sobre sentimentos, estranhamentos, escolhas, coisas que normalmente evitamos fazer, como, por exemplo, quando temos notícia de uma desgraça pessoal ou familiar alheia às nossas, e não sabendo como tragar aquilo tudo, sacudimos a cabeça tentando espantar o mal estar, o desconforto. Ele alcança nos fazer tomar todo o cálice de dor de seus personagens. O gosto é amargo, mas nele há alguma sabedoria. Vale! 
Registro #1253 (romance #330)
[início: 03/12/2017 - fim: 04/12/2017]
"Roupas sujas", Leonardo Brasiliense, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhias das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 180 págs., ISBN: 978-85-359-2999-7

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

decapitados

Depois de uma semana longe de casa eis que volto e encontro encomendas e mimos me esperando (além de contas a pagar e um punhados de ridículos folhetos de propaganda da indigente política brasileira, claro). Na caixa da Casa del Libro estavam o último Javier Marías ("Así empieza lo malo"), os contos completos de Thomas Hardy e as duas séries de ensaios do Cabrera Infante sobre as quais já li maravilhas (de sorte que esse final de ano promete alegrias mil, seguro que sim). Na cota dos mimos inesperados encontro este "Decapitados", narrativa mais recente de Leonardo Brasiliense (sujeito que andou ocupado, pois esse é o terceiro livro dele editado neste ano). No domingo, ao invés de preocupar-me quem seria a nulidade que os gloriosos brasileiros escolheriam para governá-los, dediquei umas boas horas à prosa refinada de Brasiliense. Fiz bem. Em "Decapitados" o leitor encontra dois textos que se espelham: uma novela e um conto (escrito na forma de um drama, pronto para ser encenado e/ou filmado). Na novela acompanhamos como os moradores de uma pequena cidade reagem ao desaparecimento de uma relíquia religiosa (o crânio de um sujeito que foi muito importante na fundação, crescimento e posterior emancipação política da cidade, um velho monsenhor, há muito falecido). O protagonista da história é Alexandre, um jovem que encontra o crânio e não sabe como fazer para devolvê-lo à capela de onde foi retirado (o leitor não sabe exatamente como o crânio chegou até o rapaz, mas isto pouco importa). O que a história discute são as reações intempestivas de cada morador da cidade ao desaparecimento do crânio, como se todos estivessem num transe religioso que se dissipa, deixando-os  desamparados, decapitados todos, sem rumo (livres afinal, mas nem sempre e nem todos sabem apreciar o valor - e a necessidade absoluta - da liberdade). Entendi a novela como uma reflexão sobre as dores de um aprendizado e sobre as dificuldades dos ritos de passagem da juventude para a vida adulta ou sobre as agruras de uma sociedade que perde o conforto de sua rede de hipocrisias. Brasiliense parece também inverter a cronologia do mito da queda dos homens no paraíso, fazendo Alexandre encontrar o mal encarnado numa serpente apenas no final. Curioso. Finda a novela encontramos um conto curto. Basicamente trata-se de uma cena dramática, onde um grupo de pessoas, num bar da periferia da cidade descrita na novela, conversa (ou antes,  produzem monólogos ensimesmados que não permitem verdadeiramente alguma interlocução). Em algum momento um dos personagens fala da recente retirada do crânio do monsenhor no cemitério, mas ninguém o leva à sério. Enquanto na novela são as pessoas mais importantes da cidade que se manifestam (e enlouquecem), por conta do sumiço da bizarra relíquia, no conto as pessoas simples da periferia reagem com indiferença total ao próprio projeto de criar uma relíquia, mais preocupadas que estão com seus próprios problemas. O contraste é muito interessante. Vida longa para "Decapitados" meu caro Brasiliense, vida longa. E parabéns. 
[início: 26/10/2014 - fim: 27/10/2014]
"Decapitados", Leonardo Brasiliense, São Paulo: Benvirá (editora Saraiva), 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 125 págs., ISBN: 978-85-8240-162-0

sexta-feira, 20 de junho de 2014

corpos sem pressa

Como bem nos ensina Laís Chaffe nas orelhas deste livro: "... a boa literatura, não importa o tamanho, não nasce da correria". Pois 67 minicontos de Leonardo Brasiliense, que começaram a ser gestados há mais de uma década, chegaram a ser quase renegados, encontraram agora o registro físico em livro, num belo volume editado pela Casa Verde e não por acaso chamado (desde 2008 pelo menos) de "Corpos sem pressa". Leonardo fixa com palavras imagens, recortes do cotidiano, epifanias, idéias que espocam e brotam do branco das páginas. Os títulos são parte importante das curtas histórias, complementando, justificando, invertendo ou negando o que é dito no texto. As histórias são leves, corriqueiras, não há nada de grotesco ou fantástico nelas. Em algumas há uma preocupação filosófica com as coisas da vida, noutras é antes o olhar bem humorado sobre o acaso ou desenho dos acontecimentos da vida. Contrariando a proposta do livro li quase tudo num fôlego só pela primeira vez, mas retornei a ele com calma nas últimas semanas para conferir a imanência de algo seminal nos minicontos. E essa força ainda estava lá. Belo livro.
[início: 30/05/2014 - fim: 18/06/2014]
"Corpos sem pressa", Leonardo Brasiliense, Porto Alegre: Editora Casa Verde (série Lilliput, volume 9), 1a. edição (2014), brochura 12x18 cm., 86 págs., ISBN: 978-85-99063-25-5.

domingo, 11 de maio de 2014

sofia e mônica

A história é sobre duas garotas adolescentes, gente jovem que experimenta as alegrias e os aborrecimentos da amizade. O formato deve algo ao teatro ou cinema, pois um roteiro parece querer brotar do livro, com cenas bem demarcadas e vívidos diálogos curtos. O texto se divide em três vozes distintas: as das duas garotas, que produzem uma espécie de diário e a de um narrador que descreve o destino delas. Na primeira temporada de férias escolares (em que as duas ficam sozinhas num apartamento, longe dos pais) elas fazem um pacto. Mas pactos existem para serem rompidos, o mundo real sempre se encarrega de nos lembrar disto. Leonardo Brasiliense alcança manter o texto interessante e verossímil, sem ser piegas nem abusando de truques dramáticos. O livro inclui um conjunto de fotografias cuja narrativa complementa sutilmente o texto. Ao descobrirmos os destinos de Sofia e Mônica encontramos vestígios de nossas escolhas, nossos pactos, nossos amigos. Viver é sempre para amadores.
[início: 28/04/2014 - fim: 29/04/2014]
"Sofia e Mônica", Leonardo Brasiliense, Porto Alegre: Edelbra editora, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 92 págs., ISBN: 978-85-66470-42-0

quarta-feira, 26 de maio de 2010

três dúvidas

"Três dúvidas" reune três boas novelas de Leonardo Brasiliense. Elas formam um conjunto temático. Segundo ele (que em um curto posfácio indica ao leitor um caminho de interpretação, algo que me lembrou certos posfácios do Philip Roth) as três novelas tratam de três classes de problemas: as dúvidas existenciais, as dúvidas essenciais e ao cerne mesmo delas, a essência das dúvidas. Mas os livros seguem seus caminhos sem as amarras que os autores podem aplicar a eles (por mais que estas amarras sejam bem intencionadas) e cada leitor certamente pode depreender, dos conflitos descritos nas novelas, outras facetas, outras epifanias, segundo suas próprias categorias de entendimento. De minha parte sempre tento associar o que leio com alguma tradição, com alguma literatura forte que se conecta a novos textos fortes. A primeira das novelas descreve em seções alternadas duas vidas oprimidas, sufocadas, terríveis em sua mediocridade. Um casal que se comunica apenas por um eloquente silêncio, que mal esconde o quanto estão angustiados. Lembra algo do tom de Camus em "O extrangeiro". Na segunda das novelas encontramos uma espécie de quebra-cabeças, em que os variados blocos do texto nos conduzem ao entendimento intrinsicamente fragmentário de uma história. O que há de factual na história? Talvez nada seja factual, nada seja real, talvez tudo seja apenas o resultado de uma mente em coma, que produz estratégias de economia mental automáticas, de um sujeito que luta por sua vida e delira. Lembra algo do "Enquanto agonizo", do Faulkner. Na terceira novela o tom já é mais cinematográfico. Um jornalista recebe uma dica que pode alavancar sua carreira, algo onde um escândalo político e a proximidade de eleições distorcem a compreensão do que é mesmo certo ou errado em cada situação, em cada argumento, em cada página. Um acidente automobilístico embaralha ainda mais a história, pois o jornalista passa a conviver com um duplo, um doppelganger, como se sua vida se bifurcasse naquele momento crucial. O texto lembra aqueles contos de terror da primeira metade do século passado, mas sem tantos arabescos (como se ele modernizasse o gênero). Talvez eu esteja esquematizando demais minhas associações. Gostei muito das três histórias. O tratamento literário, a qualidade do texto de Leonardo é algo a parte (uma coisa é inventar histórias, outra é utilizar uma linguagem que as valorizem e lhes incorporem densidade e vigor). É certo que mesmo sendo um jovem autor Leonardo Brasiliense sabe correr certos riscos e se reinventar a cada texto que oferece ao público leitor (ou seja, ele não precisa nem da companhia de uma panelinha literária, algo tão comum a sul do polo norte - para não dizer ao sul do Manpituba, como me parece ser mais apropriado - nem da repetição de truques literários). Por fim cabe registrar o belo acabamento do livro. A separação entre as novelas, as boas epígrafes, a separação das seções dentro de cada novela e, por fim, até a capa, belíssima, tornam este um livro que vale a pena o tempo que investimos em desfrutá-lo. [início - fim 16/05/2010]
"Três dúvidas: novelas", Leonardo Brasiliense, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 173 págs. ISBN: 978-85-350-0629-4

domingo, 7 de março de 2010

whatever

Devemos sempre respeitar as idéias de um autor, mas para mim "Whatever" não é exatamente um livro de contos (Ulalá, quem sou eu, além do menor dos anões desta paróquia, para entrar nesta enrascada descrever as fronteiras do quê é um conto afinal). Bueno. Chamar "Whatever" de romance talvez incomodasse o Leonardo. Eu mesmo acredito que há algo de romance de formação nele, mas como se desenvolver, se formar, é algo que a psique do personagem que percorre todos os nominados dez contos exatamente se recusa a fazer, há um anacronismo meu no uso desta acepção. Talvez eu pudesse dizer que "Whatever" é um "Bildungskurzgeschichte" (se é que don Robson e a língua alemã permitam tal construção), ou seja, algo como contos de formação: já que embora o tempo flua para o personagem e ele pouco se modifique, se transforme, se desenvolva, ao chegarmos ao último conto encontramos uma nova encarnação do garoto que sonha no primeiro dos contos que lemos. Mas esta é uma questão para os críticos formais, não para mim. Leonardo Brasiliense nos apresenta neste bem editado livro dez histórias curtas que um sujeito experimenta, ou melhor dizendo, histórias que um jovem brasileiro entre seus 14 e seus 17 anos experimenta. São como janelas na vida deste rapaz. Algumas são invenções dele mesmo, seus sonhos, suas angústias, suas dificuldades de operar no mundo real; outras são narrações curtas de como ele resolve (ou não resolve) eventos algo importantes de sua vida. Desde a primeira história ele se revela um bom observador e um bom descritor das sutis diferenças de recepção que seus atos provocam em terceiros. Acompanhamos o personagem, João Pedro, em experiências simples: sua festa de aniversário; seu primeiro "bico", um trabalho de meio período; suas andanças sem rumo pela cidade; sua socialização com outros garotos e garotas, na escola e em festas juvenis; sua avaliação do constrangimento geral que a prisão do pai de um colega provoca; sua reação aos amigos, a princípio tão diferentes dele, com os quais se relaciona; seu envolvimento com uma menina, com quem imagina poder se apaixonar; sua escolha de uma opção para o exame vestibular. São coisas que afinal acontecem com todos os garotos e garotas nesta faixa de idade. Não sei avaliar se as últimas legiões de garotos e garotas que passam por esta idade são menos ou mais indiferentes à vida que aquelas que as precederam. Talvez seja um defeito humano, muito nosso, como a miopia ou o diabetes por exemplo, acreditar que somos particularmente mais atuantes, gregários, solidários e simpáticos que nossos filhos. É difícil rotular. Ao mesmo tempo os rótulos servem para delimitar assuntos, temas, e nos ajudam a localizar padrões e caminhos. De qualquer forma posso registrar que "Whatever" é um bom livro, que independe de alguma sociologia, de alguma interpretação sociológica. São histórias que lemos com prazer, que nos remetem a situações que em certa medida já encarnamos, que nos fazem interpretar melhor o mundo em que vivemos. Se a função da literatura é levar um leitor a pensar, Leonardo Brasiliense acertou neste livro. Por fim cabe registrar que o livro tem discretas ilustrações de uma jovem designer e que Leonardo usa (com parcimônia) um recurso metalinguístico - o autor interferindo no enredo explicitamente - que enriquece o livro. Agora um "spoiler" rápido: só achei estranho celulares e videoclipes dos Mamonas Assassinas na primeira história, mas era mesmo um sonho tudo aquilo afinal. [início 10/02/2010 - fim 04/03/2010]
"Whatever", Leonardo Brasiliense, ilustrações de Juliana Dischke, editora Artes e Ofícios, 1a. edição (2009), brochura 16x23 cm, 127 págs. ISBN: 978-85-7421-124-4

domingo, 30 de março de 2008

olhos de morcego

Leonardo, gentil, mandou-me este exemplar pelos correios com dedicatória e tudo. Lembro de quando o conheci, através de Maria Luiza, em visita para entregar-me um livro recém saído da gráfica. É vero: com ele nunca ficamos com saudades da boa educação. Olhos de Morcego é um pequeno livro com dez contos curtos. Em cada um o narrador é sempre alguém incapaz de entender o que acontece a seu redor, pois a vida é mesmo muito dura. Fragmentários, os contos são narrativas do mundo confuso e trágico dos mais pobres e desvalidos dentre os seres humanos deste início de século que é confuso e trágico ele mesmo. O título se mostra bastante adequado: os olhos dos morcegos são limitados. Mas quem disse que os morcegos dependem dos olhos para se locomover? Assim como os morcegos os párias sociais simplesmente existem, não podem ser modificados. Preciso registrar que não fui arrebatado de pronto pelo livro. Os contos são sempre bem escritos, mas alguns, em que pese o fato de serem muito tocantes, soam algo irrelevantes para mim, que sou quase sempre avesso a valorar o mundo dos párias. Mas isto é provavelmente um problema meu e não do livro. Um dos contos que mais gostei me lembrou o Faulkner de "o som e a fúria", por conta de um personagem/narrador que é deficiente mental. Estas dificuldades que Leonardo cria para si mesmo valorizam o livro e tornam seu esforço digno de uma leitura mais atenta.
Olhos de morcego, Leonardo Brasiliense, editora 7Letras, 1a. edição (2007) brochura 13x20cm, 112 pág., ISBN: 978-85-7577-422-9

domingo, 4 de março de 2007

contos algo cruéis


Nada como um pouco de disciplina para poder ler sem se dispersar. Estive um par de dias viajando e aproveitei o tempo livre nos ônibus e no hotel para colocar alguns projetos em dia. Um deles foi este curto livro de contos, ou melhor, de minicontos, todos eles com temática adolescente. Esta é mesmo uma fase curiosa de nossas vidas. Nunca encontrei alguém que tenha vontade de repetir a experiência (por mais que alguns a estiquem a não poder mais, postergando decisões, escolhas, movimetnos), todavia há algum respeito atávico de nosso corpo àquela terrível encarnação. Como aceitar a tolice, prepotência e falta de urbanidade que vêm junto com o pacote de romantismo, frecor, vigor e potência? Os minicontos do Leornardo registram bem esta dicotomia. São bons de ler e algumas das soluções dele vibram nossa memória juvenil. Lê-se em uma sentada mas fiquei com vontade de voltar e folhear novamente o livro (e de fato o fiz), para tentar lembrar como ele descreveu de forma tão rica e instigante o velho combate dos hormônios em fúria. Belo livrinho. Super bem editado pela 7 letras. Recomendo.
post scriptum: Leonardo ganhou o prêmio Jabuti 2007 de melhor livro juvenil com este livro. A apuração foi no final de agosto e a entrega do prêmio aconteceu no último dia de outubro (mas eu já havia resenhado aqui no 4 de março, hehehehehehe)
Adeus Contos de Fada, Leonardo Brasiliense, editora 7letras, 1a. edição (2006) ISBN: 85-75773-04-6