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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

dones

De Angeles Mastretta só conhecia "Arranca-me a vida", uma reflexão ficcional interessante sobre a complexa sociedade mexicana. Noutro dia encontrei esse pequeno "Dones", da boa coleção "Mini letras" da H.A. Kliczkowski, e não hesitei em comprá-lo. São sete contos curtos, que não foram escritos na mesma época (há coisas de 1986 e outras de 1993), mas que encontram uma unidade nesse livro. Os contos falam de dons que são particularmente caros às mulheres, segundo a abordagem de Mastretta. Ela inventa histórias suaves, sensíveis, mas não piegas. Em uma fala da facilidade de alguns em conversar; em outra do poder que a linguagem tem, para o bem e para o mal, para ferir e para consolar; em uma terceira descreve como aprendemos a chorar e a esquecer de chorar (um provérbio judaico diz que deus conta as lágrimas das mulheres, é sempre bom lembrar). Mastretta também fala da beleza, da experiência e do medo que todos temos com a passagem do tempo; noutra história fala de uma avó e suas agruras na revolução mexicana, seus disfarces, sua coragem. Uma das histórias descreve a carta italiana de uma improvável amante de seu pai. Seria um affair ligeiro dos tempos da segunda grande guerra ou algo mais sério? A última história fala que devemos por vezes esquecer é fundamental, tanto as dores e os problemas quanto os medos e os aborrecimentos. Se possível até a realidade, antes de sucumbir. Parece bobo, mas não há nada de artificial ou canhestro nas histórias. Talvez os gloriosos brasileiros e brasileiras que se dedicam a produzir livros ligeiros de auto-ajuda poderiam se inspirar em uma autora com mais tino e estofo como parece ser o caso de Angeles Mastretta. Vamos em frente. [início 27/09/2011 - fim 28/09/2011]
"Dones", Angeles Mastretta, Madrid: editorial Hugo Kliczkowski - Onlybook, 2a. edição (2006) brochura 13.5x20cm, 64 pág. ISBN: 978-84-96304-78-7

domingo, 4 de janeiro de 2009

arranca-me a vida

Como eu conheço pouco a literatura mexicana (Carlos Fuentes, Octávio Paz e David Toscana são os únicos que me vêm a mente) e nada da literatura mexicana feminina resolvi ler este livro (ele estava de moda por conta de um filme homônimo). Publicado originalmente em 1985 e escrito por Ángeles Mastretta é um livro calcado na história do México, nos conturbados anos 1930 mexicanos (uma sucessão de escaramuças entre generais e grandes proprietários, que vai desembocar na formação do partido revolucionário institucional - este nome é uma piada pronta, como diria o José Simão - partido que ficará no poder no México por uns setenta anos). A história é contada por uma jovem (Catalina) que se casa por imposição da família com um ambicioso general (Andrés Ascencio). Trata-se de uma metáfora óbvia das possibilidades mexicanas à época: o frescor e juventude da moça (um possível futuro mexicano) em contraposição à brutalidade e rigidez do general (o passado mexicano). O general sobe na hierarquia política mexicana, torna-se governador de uma província e chega a ser candidato possível à presidência do país. Mas apesar de ser muito hábil politicamente acaba perdendo lentamente seu naco de poder real, sendo substituído nos grandes círculos do poder por seus maiores inimigos (outrora amigos, claro). A moça em algum momento se envolve com um rapaz idealista, por conta de suas preocupações sociais e seu trabalho de caridade. Óbvio que a partir deste intercurso o destino do sujeito não será nada agradável. Uma mulher sabe ser vingativa, já aprendemos com os gregos. É um livro onde o olhar feminino faz o leitor refletir sobre a política, as questões de poder, as intrigas e o pragmatismo inerente destas atividades. A única diferença aparente entre o México e o Brasil daqueles dias é que naquele os vis senhores se intitulavam generais enquanto neste os vis senhores se intitulavam coronéis (para meu juízo o sistema continua funcionando aqui, com o atual governo de plantão comprando votos e consciências sem o menor pudor - eu diria que ainda há tempo para desmascarar este pateta chamado lula, mas já é pedir demais alguma inteligência do miserável povo brasileiro). Há algo neste livro que lembra a algumas passagens do "Travessuras da menina má", do Vargas Llosa (mas este foi escrito muitos anos depois, ulalá), além de uma passagem que lembra Morgana enfetiçando Merlin, no mito arturiano (gosto destas citações algo cifradas em um livro). É um livro bom de ler, mas o filme eu jamais vou ver. [início 24/11/2008 - fim 27/11/2008]
"Arranca-me a vida", Ángeles Mastretta, tradução de Ledusha Spinardi, editora Objetiva (1a. edição) 2003, brochura 14x21, 286 págs., ISBN: 978-85-7302-576-X