Mostrando postagens com marcador Camilo José Cela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Camilo José Cela. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de julho de 2012

café de artistas

Este pequeno livro chegou até mim pela gentileza de Daniela Santi, vindo lá das terras escarpadas de Aragón (mas ela o encontrou abandonado em uma das veraniegas calles de Madrid). Camilo José Cela é a prova que mesmo um sujeito canalha pode escrever bem e produzir uma obra literária respeitável (há quem duvide até disto, mas não sou exatamente um especialista nele, nem tenho procuração para defendê-lo, paciência). Em Café de artistas, publicado originalmente em 1953, Cela narra os dias de um jovem autor por um café madrilleño, desde os dias de juventude, provinciano, entusiasmado, sonhando com seus projetos literários, até os dias em que já é um "don", um dos velhos senhores do café, a avaliar com algum tédio a chegada de novos escritores. A história é plena de ironia e tudo é contado muito rapidamente, afinal se trata de um texto de sessenta e poucas páginas. O leitor prontamente vê-se no clima da narrativa de Cela, que expõe o que há de mais fundamental, mítico e entranhado na cultura espanhola (principalmente o conflitos geracionais, as transições entre tradição e modernidade). O protagonista de Cela tem vários nomes, talvez porque sejam indistinguíveis todos os efebos que tentam alcançar fama literária, partilhando seu comportamento e sonho, tateando por convenções sociais estranhas. Lê-se Café de artistas com alguma nostalgia. Algo me soa familiar, conhecido. Penso que talvez esta história fizesse parte do projeto original de seu La colmena e ele acabou descartando a idéia, pois o desvio perturbaria alguma coisa no ritmo de seu grande romance (que é de 1951). Talvez esta seja uma associação besta. Mas lembro-me de ter lido boa parte do La Colmena em cafés madrilleños, em meados dos anos 1980, também eu um rapaz de províncias a aprender algo na vetusta Europa. Talvez seja a hora de voltar àquelas páginas, voltar a Madrid, voltar a sonhar. Veremos. [início 14/07/2012 - fim 16/07/2012]

"Café de artistas", Camilo José Cela, Madrid: Alianza editorial (Alianza Cien), 1a. edição (1994), brochura 10x15 cm, 64 págs. ISBN: 84-206-4621-0 [edição original: Café de Artistas (La novela de sábado #6) Madrid, 1953]

quarta-feira, 9 de março de 2011

viaje a la alcarria

Incluí este "Viaje a la Alcarria" na categoria de novelas mais por preguiça. Trata-se de um livro de viagens, um livro onde se conta a experiência de uma viagem, porém tudo é burilado e ficcionalizado com muita técnica, de forma que não se trata exatamente de um guia, mas sim de algo realmente poderoso. Camilo José Cela escreve o livro em terceira pessoa, contando os sucessos e as andanças de um "el viajero", que podemos identificar com ele ou não. A região que "el viajero" percorre é a Espanha rural do pós-guerras (pós segunda grande guerra e pós guerra civil espanhola). Uma Espanha que não havia ainda nem começado a se curar das lutas e excessos dos anos 1930 (um processo de cura que a meu juízo ainda não se completou, mas esta é outra história, que não faz parte deste livro). "Viaje a la Alcarria" foi publicado originalmente em 1948. O itinerario (pelas serras da região de Guadalajara) foi percorrido uns dois anos antes. Cela retrabalhou o texto várias vezes e chegou a um formato final, que é o reproduzido nesta edição que li, apenas no início dos anos 1960. Hoje este caminho é uma rota turística encampada pelo poder público (o da comunidade de Castilla-La Mancha), uma rota onde se pretende proporcionar contato com a Espanha profunda que pretensamente recusa adaptar-se ao mundo contemporãneo. "El viajero" recolhe histórias, causos engraçados e poesias, fala com todos que se dispõem de tempo para uma prosa, faz perguntas. Por vezes é um filólogo amador, um geólogo curioso, um galanteador contumaz, um político ladino e um diplomata hábil. É um livro tocante, que encanta o leitor. Os sujeitos que ele encontra e com quem eventualmente conversa parecem vívidos, como se de alguma forma estivéssemos a seu lado na caminhada, observando-o. Há algo neste livro que lembra do tratamento utilizado por Cees Nooteboom em seu maravilhoso "El desvío a Santiago", que já resenhei aqui. Encontrei várias páginas eletrônicas que fazem menção ao legado histórico e turístico deste livro. Gostei particularmente do texto de Ruta de Camilo José Cela en su viaje a la Alcarria e do itinerário para uma trilha usando bicicletas no wikiloc (uma comunidade de trilheiros). Tudo muito divertido, como sempre deve ser. [início 17/12/2010 - fim 28/02/2011]
"Viaje a la Alcarria", Camilo José Cela, Barcelona: editorial Random House Mondadori (Debolsillo - contemporânea), 1a. edição (2003), brochura 12,5x19 cm, 213 págs. ISBN: 84-9759-256-5 [edição original: Revista de Occidente (Barcelona) 1948]

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

campônios

Este livro é de uma brutalidade sem par. Acho que deveria dizer que é uma novela e não um romance, mas não tenho muita certeza da tecnicidade que permite esta separação entre estilos literários. "A Família de Pascual Duarte" tem pouco menos de 150 páginas e descreve a vida de um campones do interior profundo espanhol da primeira metade do século passado. A vida é tão dura e as circunstâncias impelem o personagem tão prontamente para sua desgraça particular que não podemos deixar de lembrar do mundo grego e das tragédias em série que engolfam deuses e heróis. O narrador da história é o próprio Pascual Duarte, que escreve algumas de suas lembranças na cela onde está esperando sua execução. Há algo que me lembrou o Guimarães Rosa, por conta do tom monocórdio com que o sujeito vai contando sua história, pouco modificando seu discurso mesmo na presença de algum eventual interlocutor. No final aparecem algumas cartas de outros personagens que auxiliam o leitor a entender algumas lacunas da história contada por Duarte. Este é um pequeno e poderoso livro, repleto de passagens memoráveis e cruéis, escrito como se o autor estivesse tomado por uma psicologia selvagem. Este é o livro de estréia de Camilo José Cela (que viria a se tornar um dos maiores escritores espanhóis do século passado e que ganhou o prêmio Nobel em1989). Foi escrito em 1942, discretamente publicado naqueles tempos bicudos da segunda guerra mundial, mas fez-se notar rapidamente e granjeou fama a seu autor. Curiosamente foi publicado no mesmo ano de "O Estrangeiro", de Albert Camus e têm muita semelhança com este outro intenso livro. Há destas coisas no mundo dos livros e dos escritores.
"A Família de Pascual Duarte", Camilo José Cela, tradução de Janer Cristaldo, editora Bertrand Brasil, 3a. edição (1995) ISBN: 85-286-0355-5

domingo, 29 de abril de 2007

madeira de lei

Boj é buxo, uma árvore européia aparentada ao pau-brasil. Começei a ler este estranho livro por conta de um comentário de Don Paco Batallán sobre os galegos Camilo José Cela e Ramón del Valle-Inclán serem únicos grandes escritores espanhóis dignos de lembrança após Cervantes. Conceito radical e absoluto como ele mesmo. Grande sujeito. Isto ficou imerso no mar de minhas lembranças daquele almoço monumental em Cantoblanco com Paco e Manolo. Paco e eu escolhemos "Migas" (de primeiro, como se diz por lá) e ele ficou a explicar-me a origem deste prato extremeño e daí passou a falar o oeste da Espanha e sobre a Galícia. "Felipe II deveria ter feito de Lisboa sua capital e assim todos falariam espanhol lá também, talvez até no Brasil, mas ele tinha um problema com o mar, o pobre!". Grande Paco. De volta, passei na CESMA noutro dia e vi este livro exposto no mostrador. A capa é horrível, ao menos para o meu gosto e isto foi mas o que me chamou a atenção. Quando vi que o livro era do Cela resolvi comprar e logo começei a ler (as associações são sempre livres afinal de contas). É mesmo um livro estranho. Lembra um tanto o Grande Sertão: Veredas do Rosa pois há um narrador (o própria Cela ficamos sabendo) que conta de um só fôlego causos e mais causos do mar da Galícia. O ouvinte vez por outra faz um comentário, uma pergunta, mas nada que impeça o narrador de continuar sua longa arenga. Os temas da histórias são variados, mas relacionados a Finis Terrae, o ponto final do mundo na visão romana, ou seja, a forma como os romanos chamavam o extremo ocidental da península ibérica. Crenças populares, mitos, históricas de paixões e lutas, descrições da rica e variada história da região, lendas, frases feitas, lembranças do próprio Cela, puras invenções. Elas são unidas, de capa a capa, pela descrição de centenas de naufrágios que ocorreram nas proximidades do recortado mar galego. O mar ali é sempre encarpelado, rústico, cobrindo levemente baixios cheios de rochas prontas a ceifar um navio incauto. A recorrente compilação dos naufrágios quantifica os mortos, desaparecidos, sobreviventes de cada navio, cada um com uma bandeira diferente. No início os nomes dos navios e suas curtas mas fatais histórias incomodam um tanto, mas aos poucos entamos no ritmo, como quando estranhamos o balanço de um barco quando ele se põe ao mar. Cela inclui uma série de maneirismos e frases típicas da Galícia, sua mitologia particular. Há histórias deliciosas, como a do sujeito que ficou caolho após ter se comportado mal durante uma missa, ou a descrição das bençãos de Santa Casilda, a escolha curiosa que um grupo de marinheiros fez quando tentam salvar cabras e putas de um naufrágio. Na introdução do livro é dito que a versão original do livro (um dos últimos que escreveu) foi traduzida para o castelhano com um apêndice de 70 páginas explicando os termos galegos, mas que para nós brasileiros isto não se fazia necessário, tamanha a similaridade entre as duas línguas. Bom, não estou tão convencido assim, um dia vou procurar o livro espanhol para comparar. Belo livro mas preciso voltar ao quarteto do Durrell de uma vez e terminá-lo. Vamos a ver...
"Madeira de lei", Camilo José Cela, tradução de Mário Pontes, editora Bertrand Brasil, 1a. edição (2001) ISBN: 85-286-0818-2