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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

atos de amor

Esse é o último dos livros de Jim Harrison que encontrei entre meus guardados. "Atos de amor" ("Farmer" no original) é de 1976. É um pequeno romance, onde a narrativa se desenvolve lentamente, mas com crescente tensão. Como nos demais livros de Harrison que li há bom humor e muito sexo. Em meados dos anos 1950 um sujeito de quarenta e poucos anos, descendente de imigrantes escandinavos, cuida de sua mãe, que está bastante doente, e dá aulas para alunos do nível médio em uma escola rural. Ele vê-se enredado entre duas paixões (antes dois envolvimentos afetivos, relacionamentos sexuais, que paixões propriamente ditas). Ele mantém uma relação calma e discreta com uma professora, colega de trabalho portanto, viúva de seu melhor amigo dos tempos de infância. Ao mesmo tempo se envolve com uma de suas alunas adolescentes, uma garota de dezessete anos. O cenário é o mesmo meio-oeste quase selvagem dos demais livros que li dele. Essa região, mais ou menos definida pelo entorno dos grandes lagos da América do Norte, tem invernos rigorosos, verões quentes e úmidos, florestas intocadas e rios caudalosos. Mas em "Atos de amor" o cenário não é tão selvagem e inóspíto quanto no Lendas do outono, nem tão sofisticado quanto o da fronteira urbana de classe média alta que se vê em O feiticeiro. "Atos de amor" deve algo a "Lolita" (do Nabokov), mas o Humbert Humbert de Harrison é surpreendentemente mais cerebral e contido. Enquanto pesca, anda a cavalo, ampara a mãe doente, reflete sobre a possibilidade de cuidar das terras e tornar-se definitivamente um fazendeiro, ele experimenta as complicações de sua conturbada vida sexual. Trata-se de uma leitura muito agradável. Não sei mesmo que azares fizeram-me deixar esses livros escondidos tanto tempo na minha biblioteca. É mesmo mais um bom livro, onde Harrison leva o leitor a refletir sobre a natureza humana. [início 13/09/2011 - fim 14/09/2011] 
"Atos de amor", Jim Harrison, tradução de Beth Vieira, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (1996), brochura 14x21 cm, 281 págs. ISBN: 85-7164-517-5 [edição original: Farmer (New York: Viking Press) 1976]

sábado, 17 de setembro de 2011

o feiticeiro

Depois de conhecer Jim Harrison no surpreendente Lendas do outono resolvi continuar e ler os demais livros dele que encontrei nos meus guardados. "O feiticeiro", "Warlock" no original, é de 1981. É um romance muito divertido e bem humorado. Um sujeito desempregado, nos anos Jimmy Carter, segunda metade dos anos 1970, passa os dias experimentando receitas sofisticadas e imaginando jogos sexuais com sua mulher, uma enfermeira relativamente bem sucedida. Ao "feiticeiro" (apelido que adota após ter um sonho com toques de epifania) não faltam inteligência e juventude, mas sim vontade de voltar ao mercado de trabalho e a rotina dos escritórios de advocacia.  Ele conhece um médico extravagante, que o contrata como uma espécie de estafeta, um investigador da saúde financeira de seus negócios. Esta atividade parece ajustar-se perfeitamente ao cinismo e falta de escrúpulos do feiticeiro (que de resto é filho de um policial, já aposentado). Ele usa as armas que tem para obter informações e se "enturmar" com os suspeitos que investiga: a facilidade de se embriagar e consumir drogas, seu gosto pela sedução e pelo sexo, sua verborragia e agilidade mental. Ian MacEwan já escreveu que um bom escritor se conhece pela qualidade de suas cenas de sexo. Se isso for mesmo verdade Harrison ganha muitos pontos com McEwan. O "feiticeiro" é um sátiro brincalhão. Harrison é também um bom observador da paisagem natural (o mesmo meio-oeste agressivo do "lendas do outono", mas agora em uma versão urbana). Suas descrições dos campos e da interação entre homem e natureza são muito boas, e não tem nada de piegas ou artificial. Os diálogos são um caso à parte, muito precisos, não emperram a história, que segue vertiginosa para um final denso e movimentado. Claro, como bom trambiqueiro, o "feiticeiro" sabe apenas metade das historias com as quais está envolvido (como todos nós no mundo real, sempre). Isso garante espaço para Harrison refletir (e levar o leitor a refletir) sobre a natureza humana e a vida em sociedade. Bom livro. [início 07/09/2011 - fim 12/09/2011] 
"O feiticeiro", Jim Harrison, tradução de Marcos Maffei, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (1998), brochura 14x21 cm, 255 págs. ISBN: 85-7164-822-0 [edição original: Warlock (New York: Delacorte) 1981]

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

lendas de outono

No divertido Ao ponto eis que Anthony Bourdain fala com entusiasmo de Jim Harrison. Segundo ele Harrison era um grande escritor, fumante inveterado, amigo para qualquer circunstância e "gourmand" dos bons. Fui a meus guardados e resgatei três livros dele, esquecidos na barafunda em que minha biblioteca teima sempre em se tornar. Que grande surpresa. Li esse "Lendas do outono", publicado originalmente no Brasil em 1993, com grande prazer. A história é muito movimentada mas o livro é muito fácil de ler. Harrison sabe mesmo contar uma história. No início do século XX um sujeito, militar reformado, cria três filhos no meio-oeste americano, entre padrarias e montanhas, campos cultivados e cabeças de gado. Os três filhos se alistam, no Canadá, para combater contra os alemães na primeira grande guerra. O caçula morre e o mais velho volta condecorado, mas ferido. O irmão do meio (Tristan, o grande protagonista da história) mostra o quão violento sabe ser, utilizando conhecimentos derivados do convívio com índios, que trabalhavam com seu pai, para matar alemães, escalpelando-os, até ser preso como louco. Ele foge do hospital e consegue encontrar o avó materno, um velho navegador francês que ainda vive nas costas da Normandia. De lá embarca em um navio e consegue voltar aos Estados Unidos. A miríade de histórias paralelas que Harrison enfeixa em seu livro é impressionante. Acompanhamos o velho pai, os dois irmãos remanescentes, a mulher pela qual ambos se apaixonam (cada um a sua vez), nos sucessos de suas vidas. Enquanto um dos irmãos entra para a política o outro tem a necessidade inata de viajar, arriscar a vida, levar todas as experiências ao limite, manter a idílica relação com o campo, com a terra. Tristran se casa com a filha meio índia de um dos empregados de seu pai, tem filhos e se envolve com o mercado negro de whiskey durante a lei seca americana, mas acaba se relacionando novamente com a primeira mulher (que acabou se casando com seu irmão) e voltando a viajar. É mesmo um livro surpreendente e um livro bem escrito. Vou ler os demais desse sujeito, seguro que sim. [início 06/09/2011 - fim 08/09/2011] 
"Lendas do outono", Jim Harrison, tradução de Angela Mariani, Rio de Janeiro: editora 34, 1a. edição (1993), brochura 14x21 cm, 80 págs. ISBN: 85-85490-24-1 [edição original: Legends of the Fall, Three novellas (New York: Delacorte) 1979]