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sábado, 11 de julho de 2020

com el agua al cuello

"Con el agua al cuello" é a vigésima nona aventura de Guido Brunetti, comissário da polícia veneziana. Foi publicado recentemente, em março. Mesmo com as dificuldades da pandemia consegui meu exemplar em poucos dias (graças a Casa del Libro e a DHL, por supuesto). Esse volume trata da sistemática contaminação das águas da cidade e de como um sujeito cuja mulher está em estado terminal, com câncer, é envolvido em uma trama de acobertamento, perpetrada justamente pela empresa responsável por verificar a qualidade da água. A história se passa no verão, com a cidade repleta de turistas, o que dificulta o deslocamento dos personagens pela cidade. Desta vez poucos dos costumeiros personagens se apresentam, como se fosse uma peça escrita para ser encenada em um teatro de bolso, com pouca movimentação e pouco público. Guido Brunetti e sua colega comissária Griffoni se encarregam de investigar as circunstâncias da morte de um químico, responsável pela coleta e análise de amostras da água que é servida para a população. Os dois contam com a ajuda da sempre eficiente secretária Elettra. A narrativa usa pouco como cenário o escritório da comissaria, preferindo levar os protagonistas e os leitores por vários cafés da cidade (com seus típicos tramezzini veneziani). Como sempre acontece nos romances policiais de Donna Leon a chave estrutural segue um drama grego clássico, no caso a trilogia de Orestes de Ésquilo: Agamemnon, Coéforas e Euménides. A questão moral em jogo, o tema, é a maldição que recai sobre aqueles que cometem um crime contra a cidade (a pólis). Todavia, assim como na peça final da trilogia, há uma nítida transição desde o ciclo sangrento do início (quando são as Erínias que comandam o destino das gentes) para o surgimento de uma justiça conciliadora, civilizada, na figura de Palas Atena. Donna Leon sabe tornar crível toda a trama, cujo tema é atualíssimo e certamente se repete por todas as cidades (ela inclusive cita uma tentativa recente de privatização das águas italianas, que não chegou a ser autorizada, após dois plebiscitos). A bem da verdade a trama é um tanto parecida com um outro volume dela, o décimo-quinto, "Veneno de cristal", que também fala sobre a fatal combinação entre a poluição das águas da laguna e a avareza. Entretanto, em "Con el agua al cuello" a solução é mais sutil, melhor resolvida dramaticamente, demonstrando como Brunetti é um personagem complexo e, como não, universal. A ver o que ela nos preparará para sua trigésima aventura, no ano que vem. Belo livro. Vale! 
Registro #1552 (romance policial #96) 
[início: 06/06/2020 - fim: 09/06/2020]
"Con el agua al cuello", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2020), brochura 13,5x23 cm., 344 págs., ISBN: 978-84-322-3638-9 [edicão original: Trace elements (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2020]

segunda-feira, 1 de junho de 2020

las joyas del paraíso

Publicado em 2012, "Las joyas del Paraíso" é um dos raros livros de Donna Leon que não faz parte da série de volumes que têm como protagonista o comissário Guido Brunetti. O cenário continua sendo sua Venezia fundamental, mas este romance (histórico, talvez?) trata de questões musicais, sobretudo ópera do período barroco, de história das religiões e da geopolítica europeia dos séculos XVII e XVIII. Encontramos novamente suas costumeiras vergastadas no modo de vida italiano, pois Donna Leon faz seus personagens rirem da burocracia, leniência com a corrupção e a mentira, avarícia e cupidez, xenofobia entranhada e hábitos condenáveis do cotidiano daquele povo. Sarcasmo total. A história que ela oferece ao leitor envolve descobrir (o tom é detetivesco, como nos volumes do ciclo brunettiano) um provável tesouro relacionado ao conteúdo de dois baús que teriam pertencido a Agostino Steffani, um compositor, diplomata e bispo católico, de origem veneziana, que viveu entre 1654 e 1728. Nos dias em que estive a ler esse volume ouvi muito Steffani, principalmente suas obras mais conhecidas e respeitadas: Stabat Mater (com a notável Cecilia Bartoli) e Niobe, rainha de Tebas. A protagonista de Donna Leon é uma jovem especialista em música em cuja carreira acadêmica levou-a a estudar e viver em várias cidades da Europa. No início da trama Caterina Pellegrini é contratada para voltar a sua cidade natal, Veneza, e certificar documentos relacionados à Steffani contidos em dois baús lacrados. No desenrolar da história o leitor é apresentado a um rumoroso caso de infidelidade conjugal, associado à ascensão da casa de Hanover, na figura do rei Jorge I, como casa regente da Grã-Bretanha, em 1714. É um livro para melômanos. Aprende-se um bocado sobre música, composição, biblioteconomia, arquivos, política europeia do século XVIII. Todavia, como em todo romance (policial, talvez?) a narrativa toda reduz-se a descobrir a existência ou não de um tesouro, de um prêmio que recompense a diligência de uma pessoa muito capaz. Divertido. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1536 (romance #382) 
[início: 27/04/2020 - fim: 28/04/2020]
"Las joyas del Paraíso", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor #2597 (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 316 págs., ISBN: 978-84-322-2397-6 [edicão original: The Jewels of Paradise (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2012]

segunda-feira, 25 de maio de 2020

en el nombre del hijo

"En el nombre del hijo" é a vigésima oitava aventura de Guido Brunetti, comissário da polícia veneziana, genial invenção de Donna Leon. Neste episódio não há muita movimentação, correrias, surpresas, mudanças súbitas. De certa maneira o leitor já imagina, ao fim das primeiras páginas e em também em função do título do livro, qual é o desdobramento natural da trama. Mas isso não significa que seja um livro monótono. Antes o contrário. Donna Leon povoa sua narrativa com diálogos muito interessantes, exemplos notáveis de como incorporar em um romance informações muito variadas, sobre arte, cultura clássica, a história de Veneza e do mundo contemporâneo, contrastando-as. Esses diálogos magistrais também são exercícios de mundanidade e de boa educação, mostram pessoas que sabem expressar seus sentimentos de forma ora precisa ora elíptica, dependendo do que for mais conveniente, prático, necessário. Brunetti, instigado por seu sogro, o conte Orazio Falier, se envolve em uma questão moral, que implica em julgar a decisão de um velho amigo de ambos, um sujeito nascido na Espanha, muito rico e muito respeitado no mundo das artes plásticas, Gonzalo Rodríguez de Tejada. Donna Leon oferece sua costumeira cota de descrições dos encontros gastronômicos da família Brunetti, sempre um festival para os sentidos, assim como da forma como Brunetti interage com sua cidade, sempre em mutação. Ela fala da importância dos encontros familiares, do prazer em ler os clássicos gregos e romanos, da inevitabilidade do acaso. Descobri lendo esse volume que Donna Leon, após mais de trinta anos vivendo em Veneza, passou a residir na Suiça. Assim como seu protagonista, a autora parece ter se cansado definitivamente dos turistas, da degradação nos costumes, da inexorável passagem do tempo. Segue o baile. Vale! 
Registro #1533 (romance policial #95) 
[início: 21/03/2020 - fim: 22/03/2020]
"En el nombre del hijo", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2019), brochura 13,5x23 cm., 310 págs., ISBN: 978-84-322-3481-1 [edicão original: Unto Us a Son is Given (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2019]

sábado, 11 de abril de 2020

el sabor de venecia

Nestes dias absurdos, onde flanar pela cidade é um ato temerário, procurei os volumes que estavam perdidos em meus guardados, esperando uma segunda chance, um eventual desfecho, uma decisão de abandoná-los ou não. Nos últimos anos aprendi a ler Donna Leon, acompanhá-la pelas Calli, Campielli e Canali de Veneza, a aprender alguma coisa sobre a geografia da cidade que ela adotou há mais de três décadas, sobre as regras de conduta e etiqueta dos venezianos (já fiz vinte e oito registros de leituras de livros dela: clicka!). Um dos livros que havia deixado para ler mais tarde era esse "El sabor de Venecia". Trata-se de um livro de receitas, de receitas de pratos tradicionais italianos, sobretudo aqueles mais caros aos venezianos (são 91 delas no total). Quem assina as receitas é Roberta Pianaro, uma das amigas venezianas mais antigas de Donna Leon. Todavia, "El sabor de Venecia" é também um livro de ensaios e de transcrição de passagens dos livros nos quais Guido Brunetti e os demais personagens inventados por Donna Leon compartilham mágicos momentos de prazer gastronômico. São seis capítulos, temáticos, que tratam dos antepastos, dos primeiros pratos, das saladas, dos peixes e frutos do mar, das carnes e das sobremesas. Em cada capítulo Donna e Roberta escrevem algo sobre um determinado conjunto de receitas. As notas de Roberta são curtas, focadas nos temas das receitas. As de Donna mais filosóficas, inventivas, caras a sua memória afetiva.  A acompanhamos pela cidade que se transforma, que perde lojas tradicionais para redes multinacionais de quinquilharias; em um dia na ilha de Sant'Erasmo, que ela passa colhendo tomates e ameixas; descreve seu encontro com um experimentado capitão de longo curso, que a ensina reconhecer os bons peixes no Rialto; aprendemos sobre a agressividade das anciãs venezianas demonstram todas as vezes que querem furar fila nos mercados, agressividade que os genuínos venezianos reconhecem de longe e deixam ser dirigida aos turistas. Os ensaios - que são algo amargos - fazem um contraponto justo ao deleite que as receitas provocam. Várias vezes as autoras retomam temas que são importantes. A memória destes dias de pandemia global, especialmente a lembrança da devastação italiana, os tornam ainda mais verdadeiros: devemos todos valorar os momentos em família, ao redor de uma mesa; querer bem os produtos sazonais, produzidos nas redondezas de onde vivemos; saber da necessidade de respeitarmos o tempo, o nosso e de todos os demais, aqueles de nossa vila, comunidade, região, país. Não é pouco para um livro despretensioso de receitas. Grande Donna Leon. Vale! 
Registro #1514 (gastronomia #43) 
[início: 15/01/2018 - fim: 29/03/2020]
"El sabor de Venecia: a la mesa con Brunetti", Donna Leon e Roberta Pianaro, tradução de Pedro Donoso e Guadalupe Ramírez, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2009), brochura 13,5x23 cm., 343 págs., ISBN: 978-84-322-3205-6 [edicão original: A Taste of Venice: At Table with Brunetti (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2011]

quarta-feira, 8 de abril de 2020

la tentación del perdón

Veneza no outono (estação singela e pura, dizia aquele samba enredo da Mangueira) é outra cidade. Turistas e batedores de carteiras partiram juntos, deixando a cidade para os habitantes regulares, que estão descansados pelas férias, ainda bronzeados, de bom humor. Uma eventual neblina cobre a cidade de vez em quando, lembrando todos da necessidade de preparar-se para o inverno. Brunetti recebe em seu gabinete a visita de uma colega professora de Paola, preocupada com o aparente vício em drogas de seu filho. Não há muito o que fazer, pensa o comissário. Dias depois, em uma coincidência improvável, o pai deste rapaz aparece caído próximo a uma das pontes da cidade, com o crânio esmagado, condenado ao coma e a morte. O leitor acompanha em "La tentación del perdón", vigésima sétima aventura de Brunetti engendrada por Donna Leon, os desdobramentos da investigação das circunstâncias da queda deste sujeito. Quase todos os personagens recorrentes de Donna Leon têm seu protagonismo neste volume: o assistente Lorenzo Vianello; a secretária Elettra Zorzi; a comissária Griffoni; o vice-questor Patta; a mulher de Brunetti, Paola Falier; seus filhos Raffaele e Chiara. A história gravita questões morais, os conceitos de lei, justiça e equidade social. Brunetti passa boa tempo do livro relendo Antígona (de Sófocles), com seu senso de dever dividido entre a sociedade e a tentação de chamar para si o poder de perdoar. Contrapor uma reflexão clássica sobre um tema complexo e sua aplicação prática no mundo contemporâneo é um dos artifícios literários usuais da autora, sempre antenada, engajada, mordaz. No desenvolvimento da trama descobrimos algo sobre o sistema de saúde pública italiano (basicamente, sobre as formas de corromper esse sistema, usualmente aproveitando-se de brechas na enorme burocracia, algo que todo brasileira também conhece muito bem). Metaforicamente, o sujeito que caiu na ponte e ficou em coma é como o estado italiano: imobilizado, preso a regras e tradições, muito além da salvação, da cura, sofrendo as consequências - sempre imprevisíveis - de uma miríade de más decisões. Narrativa repleta de mimos para os entusiastas da série, com descrições das caminhadas pela cidade; das rápidas paradas para reflexão em cafés; dos registros das diferenças entre o Sul e o Norte italiano; do domínio da linguagem, que aproxima e afasta as pessoas; do papel das mulheres na sociedade italiana; da importância da ficção na psique dos homo sapiens. Belo livro. Voltei a Donna Leon e a Brunetti por conta das notícias assustadoras sobre a pandemia do covid-19 na Itália. Pelo jeito vou gastar os últimos livros dela que tenho nestes dias. Vale! 
Registro #1513 (romance policial #94) 
[início: 16/03/2020 - fim: 19/03/2020] 
"La tentación del perdón", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Booket Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.) Crimen y Misterio, 1a. edição (2018), brochura 12,5x19 cm., 336 pág., ISBN: 978-84-322-3483-5 [edicão original: The Temptation of Forgiveness (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2018]

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

restos mortales

Vigésimo sexto volume com os sucessos do comissário veneziano Guido Brunetti, "Restos Mortales" é um tanto diferente da grande maioria dos anteriores. Donna Leon afasta seu personagem das Calli, Campielli e Canali de Veneza e o leva para a ilha de Sant'Erasmo, ao nordeste da Laguna. Desta vez não se trata de uma investigação oficial. Antes é o instinto moral e a memória afetiva que motivam Brunetti a examinar as circunstâncias da morte de um velho amigo de seu pai. Há uma cena algo burlesca no início do livro, que fez-me lembrar dos truques do genial Andrea Camilleri, escritor italiano que morreu há pouco tempo, de quem li livros notáveis, grande sujeito. Num julho de calores infernais, para evitar que um de seus subordinados possa ser acusado de agressão a um suspeito, Brunetti simula um desmaio, uma queda. Após uma sucessão rocambolesca de equívocos, ele resolve aceitar as recomendações médicas de ficar em licença de saúde por algumas semanas. Neste período ele passa os dias remando, num dolce far niente, lendo seus adoráveis autores clássicos: Plínio e Suetônio, Heródoto e Eurípedes. Na ilha de Sant'Erasmo, onde está hospedado, numa casa de verão de uma das tias de Paola, Brunetti reencontra um velho amigo de seu pai, Davide Casati, um sujeito taciturno. Davide demonstra ser um hábil marinheiro e também uma espécie de filósofo amador, porém alguém que esconde algo confuso na alma, somente sendo capaz de demonstrar preocupação com a morte das abelhas que cria nos baixios da Laguna de Veneza. Após a aparente morte acidental de Davide em uma dia de tempestade, Brunetti, um tanto para consolar a filha do morto, outro por sua perene curiosidade policial, resolve investigar os acontecimentos e chega a uma conclusão surpreendente. Donna Leon invoca temas diferentes desta vez. Ela discorre sobre questões ecológicas, sobre o suicídio, sobre a velhice, sobre a cobiça, sobre os animais. Em algum momento surge brevemente o nome de Robert Hughes e suas reflexões sobre arte. Que miríade de associações um sujeito não faz quando lembra de Hughes? Há notas amargas neste volume, tons duros, melancólicos, de quem já não acredita na capacidade do homem de melhorar, tornar-se menos perverso e daninho, para si mesmo e para o planeta. Enfim, trata-se de um bom equilíbrio entre diversão ligeira e importantes reflexões contemporâneas. Bom livro, como sempre deveria ser. Vale! 
Registro #1467 (romance policial #92) 
[início: 20/10/2019 - fim: 24/10/2019]
"Restos Mortales" (Brunetti #26), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2776 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2018), brochura 12,5x19 cm., 350 págs., ISBN: 978-84-322-3331-9 [edição original: Earthly Remains (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2017]

domingo, 6 de outubro de 2019

sangre o amor

Nesse volume Donna Leon está em seus domínios, fala de algo que conhece muito bem: o mundo da ópera, do canto lírico, dos concertos. Ela retoma uma de suas primeiras protagonistas, Flávia Petrelli, que aparece em seu romance de estreia, “Morteno teatro La Fenice”, de 1992, e também em “Acqua Alta”, de 1996, quinto volume da série dedicada aos sucessos do comissário veneziano Guido Brunetti. Assim como neste nosso calendário real, mais de vinte anos se passam nos relógios imaginários dos personagens inventados por Donna Leon. Flávia Petrelli volta a se apresentar no sonante Teatro La Fenice e volta a se envolver em um caso de violência e assassinato. Petrelli é assediada por um fã, uma pessoa obcecada, incapaz de controlar o misto de admiração e inveja que sente pela famosa cantora lírica. Brunetti e seus comandados se unem na tarefa de proteger Petrelli e entender motivação e método do perseguidor, ao mesmo tempo em que se veem enredados na burocracia e ineficiência do governo italiano. Donna Leon vergasta, uma vez mais e sem dó, o governo italiano (os próceres de plantão sempre são igualmente venais, corruptos e limitados intelectualmente, pouco importa a matriz ideológica que obedecem, a cartilha de comportamento que seguem - algo muito parecido com que acontece neste desgraçado e inútil Brasil, terra de escravos mentais e gente canalha). Alvise, um pacato policial subordinado a Brunetti é falsamente acusado de violência contra civis, em uma manobra que busca prejudicar exatamente Brunetti. Elettra, a secretária do vice-questore Patta, ao solidarizar-se com Alvise, quase coloca tudo a perder ao envolver o comissário em suas trapaças digitais. Donna Leon faz longas digressões neste volume, aprendemos algo sobre Bochesse, o legista; Alvise, um policial; Patta, o vice-questore; o conde Fallier, sogro de Brunetti. A Veneza dos primeiros volumes da série é contrastada com a Veneza deste final de anos 2010. Trata-se de uma senhora que envelhece mal, sufocada por legiões de turistas, gigantescos navios de cruzeiro, batedores de carteira, políticos corruptos (um pleonasmo, já se sabe). Donna Leon fala também do valor da amizade, e de como as múltiplas metamorfoses vivenciadas pelos indivíduos ao longo do tempo podem até inverter o sentido e razão desta palavra. Em “Sangre o amor”, Donna Leon emula vários trechos da trama de Tosca, de Giacomo Puccini. Trata-se de um trabalho admirável. O leitor ganha muito se ler o libreto de Tosca ou ouvir algumas de suas famosas árias. Raramente um romance policial dela é fraco, mas este é realmente muito bom, trezentas páginas vibrantes. Depois de ter lido o sofrível “A última mulher”, de Alfredo Garcia-Roza, foi um alento encontrar neste volume algo com estofo e engenho. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1456 (romance policial #90) 
[início: 19/08/2019 - fim: 27/08/2019]
"Sangre o amor" (Brunetti #24), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2611 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2016), brochura 12,5x19 cm., 304 págs., ISBN: 978-84-322-2594-9 [edição original: Falling in Love (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2015]

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

muerte entre líneas

"Muerte entre líneas" se passa em uma Veneza primaveril, já exuberante em cores, cheiros, movimentos de pássaros, ainda não cheia de turistas e batedores de carteira. Brunetti precisa investigar sobre um crime que lhe incomoda particularmente, o roubo e destruição de livros, sobretudo de livros antigos, aqueles primeiros a serem impressos na Europa após a invenção dos tipos móveis por Gutenberg. Donna Leon se inspira em um crime real, o cometido em Nápoles, na Biblioteca dei Girolamini, de onde foram furtados milhares de livros há pouco menos de dez anos. Na história de Donna Leon é de uma biblioteca veneziana que livros são suprimidos e vandalizados, inclusive livros impressos pelo genial Aldo Manúcio. Apesar deste ser um tipo de crime fora de sua alçada, Brunetti faz seus comandados e colaboradores trabalhar e descobrir o enorme esquema de roubos, tanto aqueles por encomenda, quanto aqueles fruto de cupidez individual (há um terrível personagem no livro, um venal ex-padre, especialista em Tertuliano, um dos grandes padres latinos da Igreja Católica). Elettra e a comissária Griffoni já são amigas, o conte Fallier está algo fragilizado após um AVC, Paola e as crianças já estão planejando as férias de verão. Neste volume o leitor encontra a usual cota de reflexões sobre a complexa sociedade italiana, temperada por um sarcasmo brutal direcionado à impostura intelectual, à hipocrisia, à falsa cultura, ao funesto comportamento politicamente correto. O Brasil, ai de nós, é citado duas vezes no livro, de forma nem um pouco edificante, quando os personagens denunciam o comportamento vicioso de um cocainômano brasileiro e do melhor lugar para se fugir da Itália em caso de ter-se cometido um crime. Quem sou eu para censurar Donna Leon? Livro bem movimentado, que trará alegria para bibliófilos, bibliômanos e bibliólatras. Vale! 
Registro #1442 (romance policial #88) 
[início: 13/07/2019 - fim: 18/07/2019]
"Muerte entre líneas" (Brunetti #23), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2611 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2015), brochura 12,5x19 cm., 384 págs., ISBN: 978-84-322-2433-1 [edição original: By Its Cover (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2014]

domingo, 28 de julho de 2019

el huevo de oro

"El huevo de oro" deixa-se ler com calma, como calmo deixa-se fluir o outono veneziano. Não se trata exatamente de uma investigação policial canônica, de um crime que precisa ser desvendado. Donna Leon nos apresenta antes sim a curiosidade quase mórbida de seu comissário Guido Brunetti, curiosidade em descobrir as razões de um sujeito que é portador de óbvias deficiências físicas e mentais, com mais de quarenta anos, não estar inscrito de forma alguma nos registros oficiais de Veneza, ser um pária absoluto, um homem sem nome, nem passado, nem identidade, e que está morto, talvez por acaso. Antes de alcançar a razão para a morte deste sujeito desafortunado, Donna Leon oferece ao leitor boas reflexões sobre a sociedade italiana, os hábitos entranhados de sua gente, as regras de conduta distintas entre o Norte e o Sul, o uso da linguagem e dos dialetos para aproximar e afastar indivíduos, o crescente apego das pessoas às redes sociais, a hegemonia dos terríveis conceitos politicamente corretos, a rapidez ilusória dos equipamentos que permitem comunicação instantânea entre nós. Oferece também seus usuais mimos, digressões sobre questões filosóficas, questões de linguagem, questões culturais contemporâneas. Foa, o piloto de uma lancha de serviço da chefatura de polícia, veneziano há mil gerações, e a eficiente comissária Griffoni, siciliana exilada em Veneza, ganham relevo nesta trama, ajudam Brunetti a entender as ancestrais motivações para o crime. Narrativa policial bem engendrada, conduzida. Interessante. Vale!
Registro #1434 (romance policial #87)
[início: 13/05/2019 - fim: 18/06/2019]
"El huevo de oro" (Brunetti #22), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2561 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2014), brochura 12,5x19 cm., 319 págs., ISBN: 978-84-322-2249-8 [edição original: The Golden Egg (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2013]

segunda-feira, 1 de julho de 2019

la palabra se hizo carne

Neste volume, o vigésimo primeiro das adoráveis aventuras do comissário Brunetti engendradas por Donna Leon, acompanhamos a investigação sobre a morte de uma pessoa desfigurada, sem documentos, que aparece em um dos canales de Veneza. Brunetti, com a ajuda dos leais Viannello, Elettra, Pucetti e Foa, alcançam descobrir a identidade do sujeito e as razões de seu assassinato. Patta, o tolo questore que supervisiona a delegacia onde Brunetti trabalha, ganha alguma consideração neste volume, pois não usa sua influência e poder para ajudar um de seus filhos nos exames finais em sua universidade; Paola, sua engenhosa mulher, resolve com maestria questões acadêmico e/ou políticas em sua universidade; seus filhos, Chiara e Raffa, cresceram um bocado, e se espantam com o conhecimento do pai sobre a história italiana e a participação dos jovens italianos na primeira grande guerra mundial; Rizzardi e Bocchese, respectivamente, legista e cientista forense, que prestam serviços a Brunetti, aparecem episodicamente, mas mostram o caminho seguro que ele deve seguir na investigação. A trama envolve basicamente uma questão moral, onde a avareza funciona como motor de um crime. Um médico veterinário, que trabalha em um grande abatedouro, nas proximidades de Veneza, é morto. Donna Leon oferece ao leitor suas costumeiras reflexões sobre questões de meio ambiente, gastronomia, turismo, imigração, mobilidade social, corrupção, problemas educacionais e intrigas típicas da política italiana. Livro primaveril, sem acqua alta, sem grandes sobressaltos, sem caminhadas pela cidade, que se resolve no continente, longe dos canales, campos, fondamentas e sestieres de Veneza. Bem interessante. Vale!
Registro #1425 (romance policial #86)
[início: 30/05/2019 - fim: 05/06/2019]
"La palabra se hizo carne" (Brunetti #21), Donna Leon, tradução de Beatriz Iglesias Lamas, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2478 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2013), brochura 12,5x19 cm., 336 págs., ISBN: 978-84-322-1487-5 [edição original: Beastly Things (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2012]

segunda-feira, 27 de maio de 2019

las aguas de la eterna juventud

Neste volume, o vigésimo quinto da série dedicada ao comissário Brunetti, já é outono, os dias começam a ficar mais curtos, as turbulentas águas de Veneza começam a subir. Donna Leon faz Brunetti interagir bastante com sua colega comissária, a eficiente Claudia Griffoni. Paola e os filhos, Elettra e Vianello, Scarpa e Patta, também aparecem episodicamente, mas os momentos chaves da trama são protagonizados pelos dois. Eles se envolvem na investigação sobre as circunstâncias que levaram uma garota veneziana, neta de uma influente contessa, a quase morrer afogada e a ficar com severas sequelas físicas. Como esse acidente ocorreu há mais de quinze anos há poucos registros confiáveis. A única testemunha do caso é um alcoólatra, cuja memória esfumou-se com o tempo. Elettra, sempre útil quando Brunetti necessita contornar a burocracia, a lentidão das repartições públicas e até das leis italianas, vê-se impossibilitada de ajudar, pois hackers parecem estar bisbilhotando seu computador. Enquanto faz seus personagens buscarem a solução para aquele enigma, Donna Leon  faz desvios pela sociedade italiana, fala dos projetos de restauração urbana que são utilizados para desviar dinheiro público, da ocupação desordenada dos espaços privados da cidade, da invasão sazonal de turistas, dos crimes do cotidiano, que se resolvem sozinhos. Esse volume é calmo, não há muitas reviravoltas, sobressaltos. Claro, repete-se a dose costumeira de sarcasmo de Donna Leon dirigida aos italianos, os mimos literários e de alta cultura oferecidos aos leitores, a cota de digressões sobre culinária, bons vinhos e a mundanidade dos cafés. Vamos em frente. Vale!
Registro #1405 (romance policial #83)
[início: 02/05/2019 - fim: 06/05/2019]
"Las aguas de la eterna juventud" (Brunetti #25), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2711 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2018), brochura 12,5x19 cm., 333 págs., ISBN: 978-84-322-2994-7 [edição original: The Waters of the Eternal Youth (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2016]

quinta-feira, 2 de maio de 2019

cuestión de fé

Os sucessos de "Questión de fé", décimo-nono volume da série de Donna Leon onde é protagonista o comissário Guido Brunetti, se passam no início do verão, quando o calor parece mais forte e inclemente. Um velho amigo alerta Brunetti sobre crimes nos quais estão envolvidos membros do judiciário e do setor imobiliário veneziano. Oficialmente não há como ele investigar o assunto, mas quando um funcionário do tribunal onde os tais crimes acontecem é morto, Brunetti tem a oportunidade de denunciar corruptos e corruptores. Claro, não há exatamente justiça no processo, apenas uma interrupção, um recuo tático dos malfeitores, uma substituição dos agentes dos vários crimes. Talvez só o sistema judicial italiano seja mais podre e corrupto que o brasileiro. E é fato que onde há dinheiro e poder há canalhas, pessoas suficientemente venais e imunes a um fiapo de caráter. Em paralelo a esta investigação mais séria, Brunetti e a sempre eficiente secretária Elettra ajudam o investigador Vianello com um crime menor, que envolve uma de suas tias, enganada por um estelionatário especializado em fraudar pessoas idosas e com problemas de saúde. Brunetti, Paola e os filhos planejavam férias nos Alpes, em uma região mais fresca e afastada dos turistas, mas ele precisa ficar em Veneza por conta de dois crimes. Neste volume ganha destaque uma nova comissária, Claudia Griffoni, tão proba e diligente quanto Brunetti, um novo contraponto aos irresponsáveis vice-questor Patta e seu lugar tenente Scarpa. Há muitas cenas em bares, nos quais Brunetti e seus comandados refrescam-se e fazem refeições ligeiras, quase sempre os deliciosos tramezzini italianos. Com Paola, sempre cúmplice, Brunetti discute as circunstâncias dos crimes, os livros que estão a ler, ela sempre Henry James, ele os clássicos latinos, e também algo sobre o desemprego endêmico italiano, sobre o fato de milhões de jovens não alcançarem jamais um emprego fixo, um problema conjuntural e grave daquela sociedade. É sempre uma alegria ler Donna Leon. Mas vamos em frente. Vale!
Registro #1389 (romance policial #81) 
[início: 16/04/2019 - fim: 18/04/2019]
"Cuestión de fé" (Brunetti #19), Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2340 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2011), brochura 12,5x19 cm., 315 págs., ISBN: 978-84-322-5094-1 [edição original: A Question of Belief (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2010]

quinta-feira, 11 de abril de 2019

testamento mortal

"Testamento mortal" é o vigésimo volume das histórias de Donna Leon com seu comissário Guido Brunetti e sua sereníssima Veneza. Desde meados de 2017 eu seguia os volumes dela cronologicamente, mas um azar com os correios fez-me registrá-lo aqui antes de "Uma questão de fé", que o antecede. Paciência. A história se passa no outono, em ritmo lento, sem correrias. Donna Leon uma vez mais investe na rivalidade entre o Norte e o Sul italianos, entre a hipocrisia dos nortenhos e a onipotência silenciosa da máfia sobre a gente do Sul. Quase no limite da legalidade Brunetti investiga o passado de uma mulher de meia idade, viúva, que é encontrada morta em seu apartamento por uma vizinha. O diagnóstico de legista, o mercurial Rizzardi, dá conta que a mulher sofreu um ataque cardíaco fulminante, mas não deixa de sugerir à Brunetti que o ataque poderia ter sido induzido, com drogas e violência. Da investigação inicial aflora um mundo de mulheres que sofrem violência e surge uma rede de apoio e proteção que talvez não seja tão proba como aparenta, e percebem-se pressões políticas para que o caso seja encerrado sem alarde. Mas esse primeiro rumo da narrativa muda completamente, quando Brunetti passa a se interessar em quem poderia ter morto aquela senhora, e por quais razões, sem ter o devido direito legal de fazer isso (afinal o atestado de óbito é taxativo: a causa mortis é um ataque cardíaco inevitável). Donna Leon volta a tornar a geografia da cidade em protagonista, em fazer seus personagens percorrerem as Calle, Sestiere, Rio Terá, Campos e Ramos, as Fondamenta, Canales e Rios, como em um labirinto infinito, só conhecido por uns poucos, que tomam atalhos eficazes para incluir um almoço familiar na agenda apertada de trabalho, facilitando o entendimento da cronologia do crime que se quer investigar, propiciando a solidão necessária para uma conversa ou confissão. A solução do crime só interessa mesmo a Brunetti, sempre moralmente implacável. Paola, Elettra e Vianello são fundamentais nesta trama, cada um a seu modo. A narrativa brinca com as ferramentas retóricas, com exemplo dos lenitivos mentais que só educação clássica e inteligência propiciam. Bom livro. Vale!
Registro #1375 (romance policial #80) 
[início: 07/02/2019 - fim: 08/02/2019]
"Testamento mortal" (Brunetti #20), Donna Leon, tradução de Vicente Villacampa, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2408 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2012), brochura 12,5x19 cm., 318 págs., ISBN: 978-84-322-0032-5 [edição original: Drawing Conclusions (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2011]

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

la otra cara de la verdad

Donna Leon segue o ritmo das estações em seus romances policiais. Nesse "La otra cara de la verdad" encontramos Veneza no inverno, por vezes coberta de neve, a neve seca que logo após cair vaporiza-se, flutuando sobre as superfícies.  Apesar do excesso em número e da violência das mortes que o comissário Brunetti deve investigar, esse volume gravita questões morais, permitindo aos personagens longas sessões de reflexão sobre as razões de suas escolhas, de seus comportamentos, sobre a natureza perversa e inevitável do homo sapiens. O conte e a contessa Falier, Orazio e Donatella, sogros de Brunetti, mostram-se ser fundamentais para a solução da trama; ele, oferecendo ao comissário informações sobre a mundanidade, o mundo dos negócios e da política, bem como sobre a história de Veneza, história da arte e os hábitos de sua elite, e ela, ainda mais precisa, por revelar-lhe detalhes da vida privada de uma amiga íntima, informações que jamais tramitariam pelos despachos de uma unidade policial.  A trama envolve questões ambientais e de sustentabilidade, os maus hábitos de consumo dos indivíduos, o descarte de substâncias tóxicas e a responsabilidade da máfia italiana e do governo chinês nestes assuntos. Donna Leon faz um paralelo curioso entre a beleza artificial de uma mulher, alcançada por cirurgias plásticas, com a falsa prosperidade das sociedades consumistas. Ao mesmo tempo contrasta nosso mundo contemporâneo com aquele do apogeu da República de Veneza, por meio da arte e das regras sociais. Todavia, o que realmente torna a narrativa relevante são os interregnos entre vários crimes, os momentos em que os personagens debatem, trocam experiências, falam de literatura clássica, de cultura e arte. Donna Leon rouba dos Fastos de Ovídio a estrutura e os motivos para os crimes, enquanto Brunetti lembra de seu bom Cícero, de um de seus discursos, onde esse descreve quais são os deveres de um bom cônsul, mas também fala da sutil arte de fugir da verdade sem mentir. Enfim, eis que encontro neste décimo oitavo volume da série dedicada ao comissário Brunetti mais uma honesta e inventiva história de Donna Leon. Vale! 
Registro #1365 (romance policial #79) 
[início: 03/09/2018 - fim: 08/09/2018]
"La otra cara de la verdad" (Brunetti #18), Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2011), brochura 12,5x19 cm., 327 págs., ISBN: 978-84-322-5058-3 [edição original: About Face (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2009]

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

la chica de sus sueños

Por supremíssimo e pessoano cansaço deixei de ler Donna Leon. Fiquei um tempo sem pensar nas aventuras de Brunetti e sua turma. Acho que tenho três ou quatro volumes dela já lidos, mas não me animei em registrá-los aqui. A bem da verdade deixei tanto bons livros para trás como outros algo frouxos, uma salada dos diabos. Paciência. "La chica de sus sueños" foi publicado originalmente em 2008. Assim como nos demais volumes que já li desta série, o comissário Brunetti sempre resolve um  ou dois crimes cometidos em sua Veneza fundamental, todavia a narrativa é apenas um subterfúgio para que Donna Leon desvele seu entendimento de algum aspecto condenável da sociedade italiana, algo que não necessariamente seja um mal absoluto, mas que talvez pudesse ser praticado de uma forma diferente (talvez seja exatamente por isso que ela não permite que seus livros sejam traduzidos para o italiano). Trata-se de uma fórmula, óbvio, mas que fórmula! Mulher realmente interessante essa Donna Leon. Neste volume Brunetti precisa investigar a morte de uma garota cigana que aparece morta,. afogada em um dos canais venezianos. A morte da garota só aparece no livro no final do primeiro terço do livro. Digo isso para exemplificar o quão secundário são os crimes para Donna Leon, seu interesse é mesmo sociologia selvagem de sua cidade de adoção, e também do país onde vive. Essa trama inicial - a morte da garota cigana, punguista que sobrevive de pequenos golpes pela cidade - se confunde com outra, que envolve negócios escusos entre a máfia e o filho de um importante ministro italiano. A narrativa aborda questões que hoje, dez anos após a publicação original do livro, mostram-se fundamentais: a questão da legião de imigrantes que chegam à Europa, a banalização das leis italianas, o conflito entre o entendimento comunitário, europeu, e o local, italiano, sobre o quê é realmente importante e necessário, urgente. O Brasil aparece numa nota amarga, como exportador de novelas de gosto popular e duvidosos (culebrones, é o termo espanhol) e também de prostitutas. O inspetor Vianello, braço direito de Brunetti, e a signorina Elettra, eficiente como sempre, o ajudam na solução dos crimes. Outros personagens ganham relevo, algum estofo, um humor inusitado. O romance se define em função das questões morais que apresenta. Não mais digo sobre os sucessos do livro. Vale! 
Registro #1360 (romance policial #78) 
[início: 05/05/2017 - fim: 20/07/2017]
"La chica de sus sueños" (Brunetti #17), Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Booket (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2013), brochura 12,5x19 cm., 317 págs., ISBN: 978-84-32250-022-4 [edição original: The Girl of His Dreams (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2008]

sábado, 1 de setembro de 2018

quem sofre são as crianças

"Quem sofre são as crianças" é o décimo sexto volume com os sucessos do comissário Guido Brunetti, poderosa invenção de Donna Leon. Desta vez os temas abordados por ela são a maternidade, as infidelidades conjugais, as regras de adoção, o xenofobia, a privacidade de nossos dados e a questão do aborto. Brunetti não deveria envolver-se no caso (o sequestro de uma criança que supostamente foi adotada ilegalmente), pois trata-se de uma investigação sob a responsabilidade dos "Carabinieri", mas por um imperativo moral ele ao menos precisa saber qual a motivação e as circunstâncias do fato. Há algo de teatral neste volume, o ritmo é lento, como se cada tema precisasse maturar por bastante tempo antes de seguir-se ao próximo, criando um contínuo suspense. Brunetti sabe que de fato não há um crime a ser investigado, mas não consegue deixar de lado a oportunidade de estudar uma variedade nova do comportamento humano, perscrutar a moral serpeante dos hipócritas, refletir como se justificam os próceres da "Lega Nord", o partido político italiano que advoga a separação da Padânia (todo o norte) do resto do país. Paola, Vianello e sobretudo o sereníssimo Conde Orazio Falier, pai de Paola, o ajudam a entender vários aspectos da trama. Assim como "Veneno de cristal", "Pedras ensanguentadas", "Provas manipuladas" e "Assassínio na academia" esse volume foi editado em Portugal e oferece ao leitor o prazer extra de apresentá-lo a palavras incomuns, que a cada página brotam e o faz sorrir, cúmplice. Adorei saber o significado de coscuvilhice. Que palavra! Enfim, outro bom volume desta série. E vamos ao próximo, seguro que sim. Vale! 
Registro #1320 (romance policial #77) 
[início: 15/08/2017 - fim: 21/08/2017]
"Quem sofre são as crianças" (Brunetti #16), Donna Leon, tradução de Carlos Pereira, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2012), brochura 15,5x23,5 cm., 278 págs., ISBN: 978-989-657-291-4 [edição original: Suffer the Little Children (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2007]

domingo, 19 de agosto de 2018

veneno de cristal

"Veneno de cristal" é o décimo quinto volume com os sucessos do comissário Guido Brunetti, invenção da sereníssima Donna Leon. Desta vez a investigação é algo informal, um favor para um amigo do inspetor Vianello que enredou-se numa trama na qual se fundem a cobiça dos homens por poder e riqueza com a soberba daqueles que possuem um dom raro que não querem compartilhar com ninguém. O cenário muda um tanto. Brunetti e Vianello precisam ir mais ao norte de Veneza, ao pequeno arquipélago de Murano, ilha onde se concentram os sopradores de vidro,  fabricantes de cristal, artífices do fogo. O ritmo é lento, primaveril. Dificilmente, nos livros de Donna Leon, o crime acontece na primeira página e resolvido na última. Neste caso a única morte que precisa ser investigada acontece mesmo já na segunda metade do livro. O que se investiga mais atentamente é a poluição da laguna, os métodos que pessoas inescrupulosas utilizam para não seguir normas da comunidade europeia de proteção ambiental. Vianello mostra mais de seus matizes: leitor de artigos científicos, quase vegano, solidário à questões sociais, hábil hacker de computadores, cético sobre a união europeia, um livre pensador que respeita as mulheres. O ritmo tranquilo de almoços familiares e jantares onde comer, beber e desfrutar da companhia um do outro vividos por Paola, Brunetti e seus filhos sempre é invejável, muito embora saibamos que não se pode emular uma vida assim, fazê-la facilmente brotar desde um livro. O livro rediscute também temas já conhecidos do leitor da série: questões linguísticas, o problema crônico do turismo, as transformações urbanas da cidade, os "carteiristas não-comunitários", a sutil arte da etiqueta veneziana. Os crimes se resolvem por um detalhe, lugar onde o diabo mora, sempre. Falar em solução do crime talvez não seja apropriado. Os casos não são exatamente solucionados nos livros de Donna Leon. Quando muito sabemos a motivação, o como, quando, quem e porque de algo, mas nunca os mecanismos implacáveis da justiça em ação (isso é para otimistas ou ingênuos). Só o sarcasmo salva um sujeito da depressão, caso espere correção e ordem nas engrenagens do sistema de poder e no aparato judicial (de qualquer país e lugar, em qualquer tempo). Esse é o último dos livros dela que li fora da ordem cronológica, há mais de um ano. Agora os próximos volumes serão lidos e registrados na ordem certa. Outro bom e honesto volume esse "Veneno de Cristal". Vale! 
Registro #1312 (romance policial #75) 
[início: 18/07/2017 - fim: 24/07/2017]
"Veneno de cristal (Brunetti #15"), Donna Leon, tradução de António Carlos Carvalho, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2011), brochura 15,5x23,5 cm., 278 págs., ISBN: 978-989-657-173-3 [edição original: Though a Glass, Darkly (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2006]

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

pedras ensanguentadas

Esses volumes de Donna Leon editados em Portugal são mesmo interessantes. Acompanhamos as rotineiras investigações de crimes na Veneza do comissário Guido Brunetti, porém o leitor brasileiro delas ganha uma pátina de linguística, que brota da presença de uma miríade de palavras que não usamos rotineiramente aqui, mas que são correntes em Portugal. Se no volume "Provas manipuladas" havia só anotado um par delas, neste "Pedras ensanguentadas" marquei dezenas, numa festa para os sentidos e imaginação.  Como não se deliciar com a súbita presença de um "marimbou-se", um "algures", ou "prendas", ou ainda "vou ter com elas", "mo dizer", "cacifo", "cabedal", "comezaina", "perorações", "cariz", "tisana" e "ecrã", entre tantos outros vocábulos. Claro, o sujeito sabe que já leu essas palavras um dia, entende o sentido, ainda que por elipse, mas não são cousas que estamos sempre a ouvir. Pois neste volume Brunetti vê-se envolvido em um crime que parece banal, o assassinato de um vendedor ambulante (em italiano um neologismo ofensivo, "vu'cumprà") de origem africana, mas que se revela uma trama que ascende a questões de estado, a geopolítica europeia, a vis interesses econômicos e as guerras civis que grassam pela África. As pedras ensanguentadas do título são aquelas pedras que Ruskin um dia descreveu, aquelas que fizeram o jovem Marcel de Proust experimentar uma de suas epifanias fundamentais, mas também são diamantes, motivação mais que suficiente para que tribos rivais, acidentalmente reunidas em um mesmo país pelos europeus no século XIX, lutem até a quase extinção. Mais que investigar, Brunetti tem que atuar como refinado diplomata, travestir suas intenções o suficiente para avançar, para entender um caso que será oficialmente encerrado sem punição alguma. Em paralelo a essa narrativa de cobiça e morte, Donna Leon acrescenta reflexões sobre como, quando jovens, somos capazes de emitir opiniões contraditórias, agir sempre sem limites, sermos cruéis e amorosos ao mesmo tempo. Um bom e honesto volume esse. Vale! 
Registro #1309 (romance policial #74) 
[início: 04/08/2018 - fim: 08/08/2018]
"Pedras ensanguentadas (Brunetti #14)", Donna Leon, tradução de Carlos Pereira, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2010), brochura 15,5x23,5 cm., 286 págs., ISBN: 978-989-657-097-2 [edição original: Blood from a Stone (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2005]

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

sin brunetti

O título original deste livro ("On Venice: Music, People and Books") explica melhor que encontramos nele: ensaios sobre música (sobretudo erudita), pessoas (que vivem em Veneza) e livros (que Donna Leon leu, por prazer ou por encargo). O "Brunetti" do título desta edição espanhola é um óbvio chamariz para os leitores aficionados de seu famoso personagem. Paciência. São cinquenta e dois relatos, a grande maioria publicados em jornais ou revistas (a edição original é de 2005, mas o livro não dá indicações de quando exatamente os artigos foram escritos e publicados). Todos os relatos são curtos, crônicas de encomenda talvez, digressões não muito extensivas acerca de algo específico, objetivo (ela não dá saltos aleatórios, não muda de tema rapidamente, nem tenta mostrar sua bem provável vasta erudição). Para ser mais detalhista que o título original cabe registrar que o livro é de fato dividido em seis conjuntos. Vamos a ver. Os doze ensaios reunidos em "Sobre Veneza" são de reflexões panorâmicas da cidade, onde ela fala da história mais remota e também da contemporânea, dos problemas contemporâneos. A cronologia acompanha a de sua familiarização com os costumes do lugar, desde a primeira visita, turista deslumbrada como qualquer outra, até os eventuais dias nos quais o tédio se superpõe ao encantamento. "Sobre a música" reúne seis críticas profissionais sobre apresentações líricas, montagens que ela cobriu profissionalmente ou entrevistas com cantores líricos e diretores. Trata-se de um trabalho acurado, coisa de melômano, especialista. Enfim, como quase todo escritor Donna Leon deve ter sido obrigada a fazer trabalhos deste tipo antes de poder viver apenas dos direitos literários de sua obra. "De humanos e animais" é o conjunto menos interessante. São onze ensaios legítimos, ou seja, uma forma de prospecção d verdades e conceitos, mas os exemplos que ela utiliza e o sarcasmo discreto que recai sobre os indivíduos sobre os quais digressa são frouxos e nada específicos de Veneza, poderiam ser ditos de qualquer lugar. "Dos homens" enfeixa onze ensaios sobre as relações entre homens e mulheres. Não há neles um feminismo militante, explícito, de almanaque, porém as posições firmes e os argumentos sólidos demonstram que ela sabe defender-se e defender seu sexo, sem malabarismos retóricos. Sua descrição dos dias em que foi professora em uma universidade saudita deveria ser lida por qualquer mulher que tenha a pretensão de falar sobre a condição humana, como um todo, e da condição da mulher na sociedade, em particular. Nos seis relatos reunidos em "Sobre os Estados Unidos da América" sabemos algo das razões que a levaram a um auto exílio europeu, apesar de nunca ter renunciado a cidadania americana. Trata-se de um rosário de críticas, aos políticos, aos americanos "médios", ou seja, a ignorância média dos americanos, à mídia, ao sistema de saúde, ao mercado editorial. Por fim, em "Sobre os livros" Donna Leon dá seis lições práticas de como um neófito pode aventurar-se ao mundo da criação literária, especificamente a construção de romances policiais. Não são exatamente aulas de escrita criativa, antes são reparos que antecipam os erros mais comuns que um jovem escritor comete, sugestões para o aperfeiçoamento da técnica e da necessária obsessão para bem exercer este ofício. O quê acrescentar? Donna Leon é obviamente uma mulher muito inteligente e muito prática, que antes de inventar mundos, criar suas histórias de detetive, viveu (e vive) algo pleno, viajou pelo mundo, deu aulas (no Irã, na China, na Arábia Saudita, nos EUA, na Itália), conheceu pessoas, leu muito, estudou com disciplina, conversou com amigos, amou e foi amada. O Brasil, ai de nós, aparece rapidamente em uma das crônicas, quando ela escarnece de um livro qualquer comparando-o a um roteiro de novelas brasileiras, encerrando a crítica dizendo algo do tipo: "qualificar este livro de barato, sórdido, é coroar e louvar sua autora". Muito divertido. Vale! 
Registro #1305 (crônicas e ensaios #228) 
[início: 13/04/2018 - fim: 16/04/2018]
"Sin Brunetti", Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 4a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 261 págs., ISBN: 978-84-322-2800-1 [edicão original: On Venice: Music, People and Books (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2005]

terça-feira, 7 de agosto de 2018

provas manipuladas

Esse é o décimo terceiro volume da série dedicada aos sucessos do comissário Guido Brunetti em Veneza. Em "Provas manipuladas" acompanhamos a solução clássica de um crime que foi atribuído a uma pessoa inocente, por xenofobia, sexismo, racismo. Uma idosa e irascível senhora é encontrada morta e a polícia italiana resolve facilmente o caso ao verificar que uma mulher de origem romena que prestava serviços de faxina a ela havia saído apressadamente do país com uma soma considerável de euros (já estamos nos tempos da unificação monetária da Europa, Donna Leon sempre sincronizando a realidade com sua invenção). Apesar desta evidência, Brunetti é instado a envolver-se e investigar novamente o crime por um padre para quem ele devia alguns favores, ainda na juventude. A trama é bem elaborada, intrincada mesmo, todavia funciona. Mas o crime e a inventiva narrativa são na verdade apenas um artifício que Donna Leon criou para espezinhar mais uma vez a sociedade italiana, exemplificar o alcance perverso dos hábitos, dos infinitos recursos que a lei de lá permite aos muito ricos e muito culpados, dos costumes italianos, da cobiça dos incorporadores imobiliários, das leis trabalhistas fascistas, da inevitabilidade do confronto entre os cidadãos daquela sociedade e os imigrantes (seja do leste europeu, seja do mundo muçulmano, sejam latinos americanos). Apesar das críticas aos métodos alucinantes da burocracia italiana quem auxilia Brunetti na solução do caso é uma cidadã italiana, que mesmo contra pressões públicas defende a empregada romena e explica as circunstâncias de sua saída da Itália e o porquê dela estar com muito dinheiro. Brunetti é um detetive que sabe ouvir, que deixa fatos e evidências aflorarem do cipoal de meias verdades e mentiras completas. Esse volume explora as virtudes privadas, os vícios públicos e os pecados capitais, que coexistem e assombram qualquer sociedade contemporânea. Elettra e Vianello trabalham no limite da lei para contornar a crise que a interferência de seu chefe na investigação. Paola, nos agradáveis almoços e jantares em família, proporciona com sua sagacidade e até cinismo, uma espécie de bolha de tranquilidade, de paz, para Brunetti. Trata-se de um volume que reforça a importância de um círculo de amizades não tóxicas para a saúde mental de qualquer sujeito, de qualquer família. Assim como o anterior, "Assassínio na Academia", esse é dos mais amargos volumes da série. Como minha versão foi editada em Portugal tive um prazer complementar ao ler o livro, pois encontrei vários termos que não são rotineiramente utilizados aqui no Brasil, como comboio, assoalhada, se mo permitem, gelosias, forreta, coscuvilhar, entre tantos outros. Como é rico e vasto nosso português. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1304 (romance policial #73) 
[início: 21/02/2018 - fim: 24/02/2018]
"Provas manipuladas (Brunetti #13)", Donna Leon, tradução de Ana Lourenço, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2010), brochura 15,5x23,5 cm., 246 págs., ISBN: 978-989-657-066-8 [edição original: Doctored Evidence (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2004]