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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

cavalos de cronos

Foi só no inicio de 2018 que li "A árvore que falava aramaico", excelente livro de contos de J. F. Botelho, que havia ganho o prêmio Açorianos de contos em 2012 e do qual nunca havia tido notícia. Lembro-me da surpresa de encontrar no livro histórias bastante inventivas e uma linguagem cheia de mimos, exuberância, cousas difíceis de serem bem enfeixadas na literatura brasileira contemporânea. Recentemente Botelho publicou uma nova coleção de contos: "Cavalos de Cronos". Ele divide sua proposta em dois conjuntos, um dito "A  terra soturna", outro chamado "Os encontros infernais". Em ambos novamente se destacam uma imaginação dos diabos e uma linguagem riquíssima. Ojo! Talvez haja um excesso no dedilhado barroco da linguagem, mas já sabemos que é possível mesmo por esse caminho alcançar o bom palácio da sabedoria. Faço esse reparo pois talvez um neófito leitor se afogue no texto, embriagado pela vertigem de imagens, figuras de linguagem, associações ricas e potentes, léxico vasto e inusual. Os quatro contos do primeiro conjunto (A terra soturna) têm como orografia os campos neutrais entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai. São quatro narrativas curiosas: "Uma história bem contada", na qual um casal segue pistas de um texto mítico (e a mulher parece uma musa encarnada ou uma metáfora do ofício criativo envolvido na ficção); "Cavalos de Cronos", que dá nome ao livro e envolve três jovens, que após terem fugido de uma batalha são emboscados por um traidor (e dão chance para que um digno cavalo faça uma escolha moral); "O silêncio dos campos", no qual um casal enfrenta os cães negros da depressão numa tapera perdida no pampa; e "Coturba dos Ermos", no qual pai e filho se reencontram para novamente se separarem, após uma espécie de travessia, que lembra algo do ritmo de Cormac Mccarthy). Pois nestas quatro historias o pampa faz as vezes de um mar, no qual os personagens de Botelho singram e passam por provações. Os seis contos reunidos no segundo conjunto (Os encontros infernais) são mais mágicos, ambientados em cidades imaginárias ou distantes, espacial e/ou temporalmente, fazendo o leitor viajar à China do imperador Wu, no século II a.C. (O imperador de bambu); ao Oriente Médio de Simão Estilita, no século V (Simeão do Deserto); a uma cidade duplicada, Mirador, onde dois destinos possíveis parecem coabitar e se comunicar por meio de um criado mudo, devidamente destruído numa espécie de Auto-de-Fé canettiano (Neste mundo); a uma ilha distópica, onde tudo é regrado e proibido - e que lembra os mundos de Jonathan Swift (Os deuses de Tingitana); ao Mediterrâneo dos tempos das cruzadas (Romance do Cativo e da Mourisca); à Roma dos tempos das guerras púnicas (O sonho de Catão). Botelho da pistas de sua Yoknapatawpha fundamental, que ele chama de Mirador, o lugar imaginado de onde brotam parte de suas histórias (valeria a pena discutir com ele uma eventual camada psicanalítica desta criação: a cidade, que vê a passagem dos homens, e o narrador, que observa e cria os destinos deles). Uma "Sesmaria dos Lopes", não muito distante desta cidade imaginada, amplia o horizonte onde habitam seus personagens, sendo que os Lopes, citados em vários contos, lembram os Snopes faulknerianos. Dois contos,"Romance do Cativo e da Mourisca" e "Simeão do Deserto", parecem ser cantos de um projeto maior e futuro, dito "A Jangada de Caronte", um poema épico talvez, que enfeixe as influências literárias e estéticas de Botelho. Já falei do barroco da ourivesaria dos contos, mas cabe acrescentar o rosário de mitos literários, a notável linguística campeira, o compêndio dos hábitos e regras mundanas gaúchas, os vaticínios bíblicos incorporados às narrativas, o surgimento recorrente de duplos, espelhos, bibliotecas, o elogio aos livros e à leitura. Difícil dizer qual dos contos é o mais bem resolvido. Cada leitor encontrará o seu. Vale!
Registro #1343 (contos #148)
[início: 22/11/2018 - fim: 28/11/2018]
"Cavalos de Cronos", José Francisco Botelho, Porto Alegre: Zouk editora, 1a. edição (2018), rochura 14x21 cm., 192 págs., ISBN: 978-85-8049-073-2

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

a árvore que falava aramaico

Em "A árvore que falava aramaico", de José Francisco Botelho, estão reunidos 15 contos, divididos em dois conjuntos. Nos 6 enfeixados em "Peripécias" sempre um narrador jovem conta algo fragmentário, resgatado da memória, um fato marcante, vivido no campo, ou perto de uma fronteira (a do Uruguai, claro) ou num litoral. São histórias variadas: de uma ventania que revela mais que a destruição física das cousas; de uma viagem clandestina de barco, aproximando pai e filho; da presença de um primo turco, contrabandista, e seus segredos; da sedução que uma gringa sardenta provoca num rapaz; da venda de uma antiga propriedade e a dor da separação; de um morto que continua a ver o mundo enquanto é roído pelos bichos do lugar onde caiu. As descrições são muito interessantes, mas é a linguagem que se destaca nos contos. O vocabulário é rico, cheio de mimos, de uma exuberância que não intoxica o leitor. Esses seis contos pareciam ecoar o pampa, traírem uma influência de Mario Arregui. Entretanto, no conjunto seguinte, nos 9 contos reunidos em "Grimório", o leitor é levado para ambientes mágicos e complexos, ao mundo interior de personagens enigmáticos, perturbados, intoxicados por suas próprias histórias, memórias e sucessos. Alguns parecem lembranças de sonhos ou pesadelos, fragmentos de feitiços e encantamentos, noutros parece que é o tédio que se encarna, para tornar-se interlocutor dos personagens, ou ainda é um espírito ou um duende brincalhão que confunde as percepções da realidade deles. A linguagem fica ainda mais rica nessas histórias, mas de uma erudição que não afasta o leitor, algo raro. Como escrevi para uns amigos quando terminei o livro, ainda no início de dezembro, impressionado com a potência dos contos, Botelho parece um mago, um djin, um Huysmans caboclo, um sujeito de quem vale a pena esperar novas conjurações literárias. Ojo! 
Registro #1252 (contos #145) 
[início: 01/12/2017 - fim: 03/12/2017]
"A árvore que falava aramaico", José Francisco Botelho, Porto Alegre:  Editora Zouk, 2a. edição (2014), brochura 12,5x18 cm., 174 págs., ISBN: 978-85-8049-028-2