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quarta-feira, 5 de julho de 2017

noite adentro

"Noite adentro", de Tailor Diniz, é o terceiro volume de um ciclo de romances que tem muita chance de passar a ser conhecido como sua trilogia da fronteira. Assim como em "A superfície da sombra", de 2012, e "Em linha reta", de 2014, Tailor torna protagonista a fluida, misteriosa e permeável fronteira física entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul, no sul do Brasil. E assim como nesses dois romances, em "Noite adentro" confundem-se as fronteiras entre sonho e realidade, entre o vivido no passado e no presente, entre o desejado e o praticado, entre a lei escrita e as convenções estabelecidas entre amigos, entre euforia e desalento, entre o português e o espanhol. No primeiro romance um sujeito cruza a fronteira para visitar uma amiga doente, mas o que seria um exercício de cortesia torna-se uma sucessão de experiências amalucadas (cabe registrar que a fronteira neste caso é seca, uma rua em comum entre duas cidades e países, num centro urbano). No segundo uma garota de programa cruza na fronteira as várias vidas, perigos e sucessos de seus clientes (desta vez as fronteiras estão no campo, afastadas, obrigando os personagens a passar por estradas onde apenas viajantes experientes sabem identificar quando se trata de um país ou outro). Em "Noite adentro" a fronteira é um grande rio, que cobra dos homens mais paciência para cruzar, seja por uma ponte com policiais aduaneiros, seja furtivamente, de barco, fazendo força nos remos. Um sujeito, Antônio, cruza pela primeira vez essa fronteira pela ponte ao anoitecer de um dia frio de inverno, numa espécie de auto exílio. Chega à casa de Inácio, um velho conhecido dos tempos de universidade (e talvez também de algum tipo de atividade clandestina). A narrativa que o leitor acompanhará trata das pouco mais de doze horas desta noite, até o início da manhã do dia seguinte. Após beberem um tanto comemorando o reencontro e os relatos de praxe sobre o passado em comum, Inácio diz a Antônio ter um compromisso já agendado para esta noite, o aniversário de um amigo, e que Antônio deveria acompanhá-lo. Para isso eles cruzam a fronteira, mas desta vez de barco, silenciosamente. Nos capítulos que se sucedem Antônio conhece esse aniversariante, sua mulher e os demais personagens da história, todos envolvidos em uma espécie de conspiração que envolve a chegada de alguém, ou algo, chamado de "El Penitente" e também nas circunstâncias da morte de um sujeito, um brasileiro. Não há sentido em revelar mais que isso da trama. O importante é registrar que o leitor levará muito menos que as doze horas da história para ler o livro. Tudo acontece rapidamente. Bebe-se o tempo todo (um dia destes vou reler o livro apenas para ter uma ideia precisa de quanto cada personagem bebeu); o fogo sempre acesso aquece os viventes; armas são eloquentes extensões do corpo dos homens; carnes são postas a assar, como nas oferendas dos gregos à seus deuses; as mulheres bruxuleiam como as chamas das parrillas, expondo suas carnes aos homens e escondendo segredos; as vozes, versões e histórias truncadas se confundem, como numa litania religiosa. Assim como nos dois romances da fronteira anteriores algo do livro parece brotar do "Traumnovelle", romance de Arthur Schnitzler, que foi adaptado em filme muito bom por Stanley Kubrick (De olhos bem fechados): é o caso, desta vez, da ideia de penitência, do "El Penitente". Bueno. O leitor sempre ganha algo quando lê um livro do Tailor. Em tempo: "Noite adentro" será lançado oficialmente hoje mesmo, 05 de julho, às 19h30min, em Porto Alegre. Perderei esse lançamento, é pena, mas num outro dia vou tentar entrar em contato para conseguir uma dedicatória. Evoé Tailor, evoé.
[início 03/07/2017 - fim 04/07/2017]
"Noite adentro", Tailor Diniz, São Paulo: editora Grua livros, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm, 174 págs. ISBN: 978-85-6178-63-3

segunda-feira, 9 de maio de 2016

mistério no centro histórico

"Mistério no centro histórico" é um divertido romance policial. No "Crime na feira do livro", publicado pelo Tailor Diniz em 2010, acompanhamos os sucessos do investigador Walter Jacquet e de seu amigo Joãozinho Macedônio nas movimentadas semanas de uma feira do livro num outono porto-alegrense. Já no "O assassino usava batom", de 1997, Jacquet ainda vivia fora do Brasil e resolvia um rocambolesco causo em New Orleans. Neste novo volume o leitor segue Jacquet e Macedônio pelo centro histórico de Porto Alegre, como o título promete, mas oferece escapadas para o Alegrete, no centro do estado, e também mais para o sul, na fronteira com o Uruguai (cabe lembrar que o Tailor ambientou na fronteira dois outros romances, o "Em linha reta" e o "A superfície da sombra" mas essa é outra história). Cronologicamente, este novo volume dá conta de sucessos acontecidos logo após a volta de Walter Jacquet de seu exílio norte-americano e um tanto antes do "Crime na feira do livro". A história envolve especulação imobiliária, ambições e campanhas políticas, a presença de árabes na fronteira do estado e o medo do terrorismo pós queda das Torres Gêmeas do World Trade Center, em 2001. Macedônio (desta vez bem mais lúbrico e vagabundo) usa um recente caso policial para produzir uma novela, mas Jacquet percebe que a solução do crime não está tão bem contada na versão policial (o livro dentro do livro é uma brincadeira do Tailor sobre as possibilidades da auto-ficção, no caso a auto-ficção de um personagem seu). Entre baforadas de puros, goles de conhaques, comentários irônicos da cozinheira Inácia e degustação de pratos da culinária campeira Jacquet usa a lógica e sua capacidade de dedução para desvendar a realidade dos fatos do crime e a verossimilhança da trama do livro de Macedônio. Bom romance policial, que tem o ritmo das melhores histórias do Andrea Camilleri. Vale.
[início: 03/05/2016 - fim: 04/05/2016]
"Mistério no centro histórico", Tailor Diniz, Porto Alegre: editora Dublinense, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-8318-075-3

domingo, 25 de maio de 2014

em linha reta

Acredito que se pedirem para o Tailor Diniz escrever uma história sobre o mais inusitado dos temas (Incas venusianos, escravas brancas na Malásia, senhores de engenho no Recife colonial, pistoleiros de Laredo em crise existencial ou monges tibetanos em férias no Caribe) ele vai se sair bem. O cara sabe contar uma história. Claro, as que ele realmente escreveu são bem menos amalucadas das que sugeri acima. No caso desse "Em linha reta", último livro dele publicado, somos apresentados a algo que mescla o clima das histórias de mistério, de detetives, com o fantástico, numa espécie de flerte com o realismo mágico. Na verdade esse formato aparente do livro mascara um tanto o que eu acredito ser a verdadeira preocupação dele: explorar a hipocrisia de nossos tempos ou, ao menos, aquele comportamento muito em moda atualmente em que todos nós brasileiros parecem cobrar algum respeito as regras e ao poder estabelecido enquanto simultaneamente nos imaginamos cada um o primeiro a merecer alguma espécie de exceção ou isenção às mesmas regras (o Brasil nunca foi para amadores, mas ultimamente a coisa parece ter se complicado mais). Porque digo isso? Primeiro porque o título do livro lembra um poema de Fernando Pessoa em que ele abusa da ironia ao fazer crítica social e explicitar os problemas de seu tempo (Pessoa pergunta: "Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?"). Em segundo lugar por conta de em seu romance anterior, "A superfície da sombra", Tailor já ter trabalhado com o tema das fronteiras. Naquele caso havia uma fronteira geográfica, entre o Rio Grande do Sul e o Uruguay, mas também sinais de uma fronteira entre sonho e delírio (lembro-me de ter associado seu livro a Traumnovelle, de Arthur Schnitzler), agora é essa fronteira menos objetiva que domina completamente o livro. Em terceiro e último lugar porque a narrativa de Tailor acaba provocando o leitor a entender se aquilo que se acaba de ler é na verdade uma alegoria, um sonho, o produto da mente de alguém que passou por uma violência indizível, absurda, e que plasma seu sofrimento com elementos menos agressivos de sua memória afetiva: a música, a tecnologia, o churrasco, os cavalos, a literatura, ou se trata da realidade objetiva - porém kafkiana, como sempre acontece - experimentada por alguém. Li em algum lugar que Tailor imaginou estes dois últimos romances como partes de um tríptico. Assim sendo: ojo!,  haverá um terceiro livro onde estas questões deverão ser retomadas. É só termos paciência e esperar don Tailor nos presentear com mais um de seus bons livros. Nota bene: Perdi o lançamento em Porto Alegre no final de maio mas não perderei a próxima chance de conseguir uns minutos de prosa com ele sobre esse seu livro. Principalmente porque penso agora que a acepção correta seja pensar em "fronteira" como a margem do mundo habitável e não o limite  de um mundo em relação ao outro (que merecem leis e tratamentos diferentes), mas essa é outra história e eu sou o menor dos anões desta paróquia) . Vamos a ver.
[início: 12/05/2014 - fim: 13/05/2014]
"Em linha reta", Tailor Diniz, São Paulo: Editora Grua, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 127 págs., ISBN: 978-85-61578-32-9

quarta-feira, 27 de junho de 2012

a superfície da sombra

No início deste movimentado junho, por um lance de sorte, eis que consegui participar da alegre festa de lançamento do romance "A superfície da sombra", de Tailor Diniz. Comecei a ler o livro naquela noite mesmo, na já invernal Porto Alegre, mas os dias que havia passado recentemente na vaporosa Manaus, somados à aborrecida viagem de volta para casa acabaram me cobrando logo algum descanso. Só retomei o livro um par de dias depois e terminei de lê-lo feliz, sem atropelos ou interrupções. Tailor conta uma história curiosa, que se passa na fronteira física entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul, mas também está na fronteira entre vigília e sonho. Um sujeito se desloca a uma pequena cidade para visitar uma amiga que ele sabia adoentada, mas somente chega a tempo de participar de seu enterro. Hospeda-se na casa da filha desta amiga e passa a experimentar situações progressivamente bizarras. O texto incluí um punhado de registros em castelhano e a cidade parece serpentear pela fronteira, como se a cidade, o narrador e os personagens que povoam o livro se dissociassem ao cruzá-la. Tailor narra sua história alternando blocos em primeira e em terceira pessoa, uma técnica que permite ao leitor acompanhar o que poderia ser entendido como factual, verdadeiro, e o que é interpretado conscientemente pelo narrador como factual, mas que pode ser fruto de um lento, mas inevitável, deslocamento da realidade. Claro, o leitor nunca poderá ficar seguro sobre o que se passa realmente na mente do personagem e esta ambiguidade faz bem ao livro. Tailor habilmente inclui no texto referências literárias (Borges, Poe, Rubem Fonseca) e mitológicas (um tipo de "Caixa de Pandora" e uma espécie de "Noite de Walpurgis" campeira). Coisas assim fazem a fortuna dos leitores mais cerebrais, mas ao mesmo tempo ele mantém com maestria o suspense típico, mas descompromissado, de romances de mistério ou policiais, que tornam a leitura ágil. "A superfície da sombra" lembrou-me uma história de Arthur Schnitzler (o excelente Traumnovelle, que virou um filme muito bom de Stanley Kubrick: De olhos bem fechados). O protagonista de Tailor parece ser tangido pelas circunstâncias e cabe ao leitor se deliciar com isto. Bom livro de um bom escritor. [início 06/06/2012 - fim 09/06/2012]
"A superfície da sombra", Tailor Diniz, São Paulo: editora Grua livros, 1a. edição (2012), brochura 14x20 cm, 159 págs. ISBN: 978-85-61578-21-3

sábado, 11 de setembro de 2010

o assassino usava batom

Ainda em 2008, quando acompanhava o folhetim de Tailor Diniz "Crime na feira do livro", comprei este exemplar de "O assassino usava batom", mas deixei-o perdido nos meus guardados esperando sua vez. Nestes dias frios reencontrei-o e decidi por fim conhecer a gênese do detetive Walter Jacquet. A trama é típica dos livros de detetive: ambientação restrita a poucos lugares, personagens fortes, algum humor, manias, detalhes, ironias e movimentação. Os nomes dos personagens são totalmente bizarros, e não se pode afirmar que Tailor ambienta a trama em New Orleans, New York, ou um vilarejo perto do mar na Austrália ou Inglaterra (tudo é muito vago, indefinido). Tailor nos apresenta um detetive Jacquet muito meticuloso, que sabe ouvir e perguntar, manipular jornalistas, disfarçar-se, ser agressivo e ágil quando necessário, mas Jacquet ainda é um solitário investigador neste volume, o que não permite o tradicional artifício de espirituosos e ágeis conversas de uma dupla na solução dos crimes, como encontramos no folhetim, onde o já alegretense Jacquet mantem diálogos divertidíssimos com João Macedônio em uma cobertura dos altos da independência, em Porto Alegre. Bueno. A trama envolve tráfico de drogas, contrabando de carros, empresas de fachada, clubes clandestinos de jazz, transformismos, assassinatos que escondem outros assassinatos, corrupção policial, envelopes de dinheiro. Coloquei "Satin doll" para ouvir noutro dia e entrei no clima enebriante que Tailor cria neste "Assassinato...". Lê-se o livro com prazer. Claro, há umas incorreções aqui e acolá (não entendi direito até agora toda a correria por um elevador que sobe e desce com um bandido que não se deixa capturar), mas nada que prejudique o ritmo frenético. Agora é esperar "A confraria do quibe" e as novas aventuras de Jaquet. [início 20/08/2010 - fim 11/09/2010]
"O assassino usava batom", Tailor Diniz, editora Mercado Aberto, 1a. edição (1997), brochura 11x2o,5 cm, 213 págs. ISBN: 85-280-0392-2

segunda-feira, 5 de julho de 2010

crime na feira do livro

"Crime na feira do livro" é uma divertida e movimentada novela policial. Mas esta novela tem uma espécie de irmão mais velho, um folhetim, publicado em 2008, durante os dezessete dias da Feira do Livro de Porto Alegre. Em "Quem matou Adavilson?" um garimpador e revendedor de livros raros, conhecido no mundo dos livreiros porto-alegrenses, é assassinado logo no início da feira. A partir dali Tailor Diniz contava os sucessos da investigação policial na qual Porto Alegre (a Porto Alegre do rio Guaíba, dos jacarandás da Praça da Alfândega, das barracas da Feira do Livro, dos altos da Independência, dos restaurantes, das glamurizadas ruas do Moinho de Ventos, de suas invulgares tribos urbanas) é a grande protagonista. Mas o formato, os dias finitos da feira e os limites do folhetim engessavam a história. Pois Tailor transformou o que era um pequeno folhetim em uma novela que se lê com muito prazer. Claro, ele modificou um bocado do enredo: personagens mudaram de nome, diálogos foram mais encorpados, a ambientação de vários momentos da trama foi melhor definida, enfim, a história encontrou seu formato mais adequado. O investigador inventado por Tailor, o alegretense Walter Jacquet, e seu anfitrião João Macedônio (pois Jaquet parece viver nos Estados Unidos, mas esta é outra história) formam uma bela dupla, icônica das histórias policiais. Entre baforadas de robustos puros, goles de perfumados conhaques e degustação de pratos tradicionais da culinária campeira e gaúcha, eis que Jacquet conta a Macedônio os resultados de sua faina diária na investigação. Os muitos personagens da trama, alguns reais - do mundo porto-alegrense que todos conhecemos, outros inventados, como a curiosa delegada Florença Flores - dão vida e força a esta divertida história. Ao ler o livro lembrei de coisas, nomes, citações talvez, que remetem ao Manuel Vazquez Montalbán e ao Andrea Camilleri, mas isto preciso checar com o Tailor. Na apresentação do livro faz-se menção a um outro livro, onde a gênese de Jacquet é contada. Pois vamos esperar o lançamento de "A confraria do quibe". [início 02/07/2010 - fim 04/07/2010]
"Crime na feira do livro", Tailor Diniz, editora Dublinense, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 133 págs. ISBN: 978-85-62757-12-9