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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

o professor do desejo

Esse é o primeiro livro de Philip Roth que leio após saber que ele não voltará a escrever. "O professor do desejo" é antigo, de 1977. David Kepesh, o protagonista da história, já havia sido apresentado por Roth em um livro de 1972 ("O seio") e voltaria a aparecer no "Animal agonizante", de 2001. A história é bem interessante, mas dividida de forma convencional (comparada com os deslocamentos temporais de outros romances dele). O primeiro capítulo do romance é vertiginoso, elétrico. No início somos apresentados ao jovem Kepesh, filho estudioso de pais de judeus de classe média, proprietários de um hotel que só funciona no verão. Ele entra em uma universidade e apesar de hipersexualizado não consegue consumar satisfatoriamente uma relação sexual que seja com suas colegas. Por outro lado faz amizade com um colega (que é homossexual e foge do recrutamento militar obrigatório). O entendimento dele da complexa sociedade americana dos anos 1950 ganha novos matizes. Kepesh ganha uma (cobiçada) bolsa da fundação Fulbright e viaja para estudar na Europa. Lá ele se envolve com duas garotas suecas (Birgitta e Elisabeth) e experimenta jogos progressivamente lascivos, quase perversos. Em algum momento ele se separa de Birgitta e viaja com Elisabeth pelo continente europeu, chegando até Veneza. Rompe também com Elisabeth e volta aos Estados Unidos. Se casa com uma garota branca e protestante chamada Helen, que viveu (praticamente) como escrava sexual de um grande banqueiro americano em Hong Kong. Kepeseh vive modestamente como professor universitário na costa oeste e sua vida de casado torna-se rapidamente um inferno. Suas aulas (basicamente sobre os contos e peças de Tchekhov) são entediantes. Helen tenta voltar a seus dias de juventude lúbrica no extremo oriente mas é presa. Kepesh usa alguma influência para tirá-la da prisão e volta com ela para casa. Roth conta tudo isso em 80-90 páginas, um autor mais modesto pararia por aí. Mas é a partir daí que surge uma história realmente potente: a de como Kepesh se divorcia, muda para a costa leste dos Estados Unidos, faz psicanálise, atravessa anos de bloqueio sexual, experiencia a morte da mãe e a aposentadoria do pai, conhece melhor as nuances de caráter de um colega de trabalho e de seu ex-orientador e sua mulher (a troca de cartas entre Kepesh e essa mulher é muito divertida, principalmente pela solução prática proposta pelo psicólogo de Kepesh para encerrar a questão). Sentindo-se curado da "ressaca" pós-divórcio com Helen, Kepesh conhece Claire, uma jovem e ambiciosa professora do nível médio, viaja ao norte da Itália e ao leste europeu com ela. Apesar de algo exasperado com as manias de organização de Claire (e com a inevitável comparação desta com sua primeira viagem acompanhado de uma namorada pela Europa) Kepesh tem bons insights sobre o início do semestre letivo. Ele imagina que seus cursos de literatura (principalmente sobre Flaubert e Kafka) poderiam ser contextualizados à sua própria experiência sexual (ele pretende incentivar os alunos a comentarem a vida sexual deles a partir da leitura dos livros destes autores). Na última noite européia ele sonha com uma prostituta que teria sido amante de Kafka. Sonho muito divertido. Já no capítulo final encontramos Kepesh vivendo com Claire em uma casa no subúrbio, afastados de Nova York apesar de continuarem com suas atividades didáticas (e sem estarem casados, ainda receosos de abandonarem a liberdade da vida de solteiro). Num dia Kepesh tem uma série de epifanias esclarecedoras, na forma de uma conversa (com Claire, que confessa ter feito um aborto - sem consultá-lo), de uma visita inesperada (de Helen, que basicamente quer apresentar a ele seu atual marido e comunicar sua gravidez) e de uma visita planejada (de seu pai e um amigo, sobrevivente dos campos de concentração). Estas três momentos fazem com que Kepesh confesse que sua inteligência não o capacita para entender as cousas da vida prática, o comportamento daqueles que ama e que estão perto dele. Há muito sobre o quê pensar ao ler esse livro: do quanto a literatura não substitui a vida; do quanto ser professor de algo pode apenas nos fazer constatar que seremos sempre aprendizes naquele ofício; das vantagens - por vezes até dúbias - de se alcançar uma boa educação; de como o amor só acontece mesmo por acaso; de como a vida carece de sentido afinal de contas. Os grandes temas de Roth estão todos no livro: psicanálise, amor e sexo, judaísmo. Sua forma de ver e analisar o modo de vida americano de seu tempo é mesmo arguta, exuberante, certeira. Esta tradução optou por verter "The professor of desire" por "O professor do desejo". A primeira tradução para o português (assinada por Mendonça Taylor) opta por "O professor de desejo". Não sei o motivo da escolha (os caminhos das traduções são labirínticos), mas, se é que eu entendi bem, Kepesh planeja criar um curso de desejo (Desire 341, na nomeclatura dos cursos nas universidades americanas), planeja transformar suas aulas em um laboratório onde professor e alunos farão leituras sexualizadas de textos literários. Assim, digo eu, o menor dos anões desta província, que "de desejo" talvez seja uma acepção mais próxima do que há de factual no livro, todavia Jorio Dauster (que é um sujeito muito articulado e tradutor experimentado, deve ter uma explicação válida para sua proposta "do desejo"). Bom livro, com certeza. E vamos em frente.
[início - fim: 09/02/2013]
"O professor do desejo", Philip Roth, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2012), brochura 14x21cm., 251 págs. ISBN: 978-85-359-2213-4 [edição original: The professor of desire (New York: Farrar, Straus e Giroux) 1977]

sábado, 18 de junho de 2011

homem comum

Este é um daqueles livros que comprei na época do lançamento, deixei para ler mais tarde e esqueci completamente. Só recentemente, ao ler "Nemesis", descobri que "Homem comum" é a primeira de um ciclo de quatro novelas de Philip Roth dedicadas a descrever aspectos do impacto da morte sobre os homens. "Homem comum" (Everyman, no original) é uma história curta, que se lê com animação e prazer (em que pese o terrível do tema). A economia formal do livro é mesmo rara. Acompanhamos rapidamente a vida pessoal atribulada, o sucesso profissional como publicitário e as reiteradas doenças de um sujeito. O livro começa com ele descrevendo seu funeral. Ele faz o censo dos presentes, tenta fixar o estado de espírito de cada um: seu irmão mais velho, duas das mulheres com quem se casou, seus filhos (os que o detestam e uma que o ama), um ou outro amigo. Este início lembra um tanto o filme "Sunset Boulevard", onde um corpo morto flutuando em uma piscina começa a contar a história de como acabou chegando até ali (lembra também o "Memórias póstumas de Brás Cubas", claro, mas o livro de Machado de Assis é linear nas reminiscências, enquanto que o personagem de Roth embaralha as suas). Ele recorda, em cenas curtas, fragmentárias, os sucessos e fracassos de sua vida: seus casamentos, as desavenças com os filhos mais velhos, suas mentiras, a inveja do irmão, suas aventuras sexuais. Há algo de monôtono nas reiteradas explicações sobre os procedimentos cirúrgicos pelos quais o personagem principal passa, mas me parece que esta saturação é proposital. Roth parece nos lembrar que os aborrecimentos pelos quais os doentes crônicos passam são mesmo infindáveis e sempre originais. Gostei particularmente de uma passagem onde este personagem principal conversa com um coveiro (pensar em Hamlet e a caveira de Yorick é uma associação óbvia). A decadência e as provações pelas quais o personagem passa são visíveis, palpáveis, inevitáveis. Este bom livro provoca reflexões potentes. A morte é mesmo um detalhe besta. [início 07/06/2011 - fim 14/06/2011]
"Homem Comum", Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 1a. edição (2007), brochura 14x21 cm, 131 págs. ISBN: 978-85-359-1087-2 [edição original: Everyman (Houghton Mifflin) New York, 2006]

quinta-feira, 2 de junho de 2011

nemesis

Comprar edições em capa-dura é um mimo que faz bem a alma. Consolamos o Scrooge que late dentro de nós lembrando que o papel é melhor e menos ácido, que as costuras são bem acabadas, que a sobrecapa irá proteger melhor o livro. Encontrei este "Nemesis" em uma daquelas excursões aos jardins de cimento dos Campos de Piratininga (quem está cansado de São Paulo está cansado da vida). Para os gregos Nêmesis era a força contraposta à soberba dos homens, a força inevitável que pune aqueles que ultrapassam uma certa medida (o duro é descobrir esta justa medida). Para Philip Roth Nêmesis é o grande tema que une suas últimas histórias (Homem Comum, Indignação, A humilhação, Nêmesis). Não há Kepeshs, Roths ou Zuckermans em "Nemesis", uma novela curta (mas com enredo denso), que se resolve em três breves passagens. O tema parece ser mesmo a morte e o acaso da vida. Ele fala principalmente de como as decisões que tomamos pouca influência têm no fluxo natural das coisas, já que a vida é mesmo um sopro. No caso de "Nemesis" o narrador é Arnie Mesnikoff, nas duas primeiras partes do livro ainda um garoto, na terceira já um senhor de meia idade. É Arnie quem conta a história dramática do personagem principal, Eugene Cantor, um jovem professor de educação física. No verão de 1944 Cantor dá aulas de recreação em um parque público da periferia de Newark (New Jersey), onde vivem majoritariamente judeus. Ele não foi convocado para a guerra pois tem um problema bobo nos olhos, mas é um excelente atleta e incentiva seus alunos a tornarem-se bons atletas também eles. Sua namorada, também uma jovem professora, mudou-se para a região das montanhas Pocono (na Pennsylvania). Ela tenta convencê-lo a aceitar um posto de professor na mesma escola (ou acampamento de verão, não estou certo) em que ela está trabalhando. Como quase sempre nos livros de Philip Roth, ele apresenta uma situação mais ou menos ideal, previsível e logo coloca seus personagens narradores para falar e destrinchar o que há de podre nela. Em "Nemesis" é uma epidemia de poliomelite (uma doença incurável até meados dos anos 1950). Seus alunos do parque público começam a contrair a doença. O pânico por conta das primeiras mortes, principalmente pelo contraste com as mortes nos combates na Europa, é imenso. Sua garota tenta convencê-lo a aceitar a posição no acampamento da Pennsylvania (tanto por medo da doença, quanto pelo desejo de ficar perto dele e casar-se). Todavia Cantor fica dividido moralmente, pois acredita ser seu dever permanecer ao lado de seus alunos (que continuam ficando doentes e morrendo). Ele se pergunta se não há uma deidade que velaria pela segurança e felicidade dos homens. Roth sustenta este dilema por todo o livro. O leitor realmente partilha algo deste dilema. Há mais, claro, Philip Roth nunca se contenta em apresentar apenas um problema moral para seus leitores ideais, mas se eu continuar daqui a graça do livro se perde. O velho urso de Connecticut parece não ter mais fôlego para histórias longas, mas ainda sabe surpreender um leitor. Bom livro. [início 09/05/2011 - fim 26/05/2011]
"Nemesis", Philip Roth, New York: Hougton Mifflin Harcourt, 1a. edição (2010), capa-dura 13,5x20 cm, 280 págs. ISBN: 978-0-547-31835-6

domingo, 7 de novembro de 2010

nuestra pandilla

Dei sorte ao encontrar este livrinho perdido em um balaio da feira do livro de Porto Alegre. Cousa boa. "Nuestra pandilla" (ou "Our Gang" no original) é uma deliciosa sátira política publicada por Philip Roth em 1971. Na verdade ao menos a versão inicial dos seis capítulos deste pequeno livro foram publicados antes disto como artigos da New York Review of Books. O livro descreve sucessos delirantes, discursos tortos, entrevistas patéticas e conversas abúlicas de um amalucado presidente americano chamado Trick E. Dixon, óbvia caricatura de Richard Nixon. É hilariante, do começo ao fim. Mesmo quem pouco sabe do processo de impeachment pelo qual passou Nixon no meio de seu segundo mandato presidencial consegue acompanhar este livro sem maiores problemas. O incrível deste livro é saber que ele foi publicado antes do segundo mandato de Nixon, ou seja, antes do caso Watergate, antes do impeachment, antes que a maioria dos americanos entendessem o quão criminoso e estúpido era Nixon. Os bons romancistas sabem ser antenas da raça, como dizia Ezra Pound de alguns bons poetas. Philip Roth nos apresenta um Dixon sem escrúpulos, disposto a qualquer mentira, qualquer trapaça para continuar no poder. Não há método em sua loucura. Não há limites para sua desinteligência. O logro, a manipulação, a lógica difusa e obtusa do sujeito está a serviço de todo e qualquer mal. Seu discurso defendendo o voto dos fetos, seu comunicado à nação defendendo a invasão da Dinamarca por conta da pujante (e ultrajante) industria pornográfica instalada naquele país, sua reunião de gabinete nos porões da Casa Branca, são algumas das passagens divertidíssimas que encontramos no livro. Mas diferentemente do mundo real (onde Nixon foi reeleito com estrondosa maioria) no livro Dixon é assassinado e já no inferno candidata-se a suceder o próprio demônio. Ele não é eficiente o bastante para continuar neste posto, afirma Dixon em seu discurso infernal. Qualquer sujeito que não tenha sido lobotomizado e tenha alguma honestidade intelectual terá muitos motivos para se divertir com este livro, mesmo sabendo o quão revelador ele é do estado das cousas deste néscio Brasil de nossos dias. Grande Philip Roth. [início 02/11/2010 - fim 07/11/2010]
"Nuestra pandilla", Philip Roth, tradução de Ramón Buenaventura, editora Debolsillo, (Contemporánea) 1a. edição (2010), brochura 13x19 cm, 176 págs. ISBN: 978-987-566-578-1

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

cuando ella era buena

Publicada originalmente em 1967 "Cuando ella era buena" é um romance atípico na caudalosa produção de Philip Roth. Trata-se de seu segundo romance ("Letting go" é o primeiro e o poderoso "Portnoy´s complaint" o terceiro), e o que soa atípico é o fato da personagem principal ser uma garota e de não haver nenhuma menção ao judaísmo em toda a trama do livro. Lucy Nelson é a filha única de uma família de ascendência nórdica radicada no meio oeste americano. Ela vive com os pais e os avós maternos. Educada em uma escola cristã ela desenvolve uma personalidade rude, com a qual julga moralmente e implacavelmente a si mesma, bem como a todos a seu redor. Não há lugar para ambiguidades no trato pessoal com ela. Quando ainda menina ela chama a polícia quando seu pai agride sua mãe, o que acaba provocando a prisão do pai e eventualmente a separação deles. Trabalhadora e estudiosa ela alcança entrar em uma universidade, mas logo no primeiro semestre letivo engravida de seu primeiro namorado e assume o papel fundador de mãe americana modelo (além de esposa americana modelo, mesmo com as restrições iniciais da família do marido). Manipuladora ao extremo ela constrange todos de seu círculo pessoal e familiar, sempre impondo seus pontos de vista: seja sobre a educação de seu filho, as escolhas profissionais do marido (um fotógrafo medíocre), ou sobre o eventual segundo casamento da mãe. Trata-se mesmo de uma mulher infernal e manipuladora, uma garota cuja piedade extrema mais destrói que conforta, uma "agressiva passiva" clássica, que exaspera o leitor. O final de uma personagem deste tipo só pode ser trágico (ela enlouquece lentamente e acaba morrendo em uma nevasca). Não é o melhor Philip Roth que já li, mas percebe-se que o sujeito sabe contar uma história. [início 10/09/2010 - fim 15/09/2010]
"Cuando ella era buena", Philip Roth, tradução de Horacio González Trejo e Margarita González Trejo, editorial Debolsillo, 1a. edição (2007), brochura 12,5x19 cm, 352 págs. ISBN: 978-987-566-330-5

terça-feira, 8 de junho de 2010

a humilhação

Não é o melhor Philip Roth que já li, ficando muito a dever se comparado as potências de "O teatro de Sabbath" ou "Complexo de Portnoy" mas um livro dele sempre vale o tempo que investimos. O enredo de "A humilhação" poderia ser transcrito para uso no palco sem muitos ajustes. Não por isto, mas o resultado não me agradou muito. A estrutura padrão de peça em três atos é óbvia. Mas para mim o terceiro ato (a terceira - e final - parte do livro) é previsível demais, só sustentada pela prosa sempre inventiva, deliciosa mesmo, de Roth. Um ator de sessenta anos sofre uma crise que o incapacita para o palco e passa uma temporada em uma clínica psiquiátrica (este é o resumo do primeiro ato, a apresentação do problema). Ele se envolve com uma moça, filha de amigos com quem não mantêm contato há anos, gente de teatro também, mas que não alcançaram seu sucesso. A vida sexual dele com a moça é complexa. Ela é uma ave de rapina sexual e a espiral do sexo entre eles passa por estágios rapidamente, estágios de experimentação, troca de papéis, perversões. Ele tem encontros breves com a antiga namorada da moça e com os pais dela, cada um a seu turno (este é o resumo do segundo ato, a complicação do problema). O terceiro ato deixo à curiosidade do leitor, mas acho difícil não se imaginar os finais possíveis da trama ainda no meio do segundo ato. Entretanto, gostei das descrições de como um sujeito sustenta uma conversa mas pensa algo totalmente oposto do que assente, que verbaliza ao interlocutor (são breves, mas intensos, e lembram os bons trechos de fluxo de consciência utilizados por Joyce). Curioso também como Roth consegue mostrar um sujeito que interpreta sua vida real como se estivesse em um palco, em um mundo de aparências, de ficção (claro, podemos pensar que todo ator alcança fazer isto, mas o efeito no texto, o efeito literário é realmente bom). [início 02/06/2010 - fim 03/06/2010]
"A humilhação", Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, editora Companhia das letras, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 102 págs. ISBN: 978-85-359-1658-4

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

o complexo de portnoy

"Complexo de Portnoy" é um dos livros mais divertidos que já li. Em meados dos anos 1980 li uma edição surrada que tomei emprestado. Quando vi esta edição (comemorativa dos 35 anos do lançamento original) achei que estava na hora de voltar as aventuras de Alexander Portnoy. Aquilo que Philip Roth conta como autobiografia em "The facts" (que li noutro dia em uma edição espanhola, já resenhada aqui) é trabalhado ficcionalmente em "Complexo de Portnoy". Quarto livro de Roth e publicado em 1969, provocou muita discussão dentro da comunidade judaica e curiosidade do público "goy", garantindo a Roth, nos seus trinta e poucos anos, reconhecimento como um dos grandes escritores americanos de sua geração. Portnoy, um advogado de sucesso, 33 anos, funcionário importante da prefeitura de Nova Iorque, conta em suas sessões de análise (nas quais nada sabemos do analista) as memórias que o incomodam. Ele descreve a si mesmo como um retardado emocional. O livro é dividido em seis partes (icônicas daquilo que se entende como tipicamente judaicas). As três primeiras partes falam de um Portnoy jovem e adolescente, sua relação com a família, com a masturbação, suas crises religiosas, sua relação com a escola e os esportes. Mesmo se aceitando que hoje em dia ninguém se escandaliza tanto com descrições detalhadas de como o sexo é central na vida de cada um, o texto continua sendo realmente divertido de se ler. Esta parte inicial toma só um terço do livro. Em algum ponto no final da adolescência, após uma operação delicada e o medo da morte, Portnoy passa por uma metamorfose e o sexo torna-se de fato o centro explosivo de sua vida. De certa maneira ele usa as experiências sexuais como caminho para uma libertação pessoal (da família, dos amigos, das regras sociais). Ele abandona de vez a sinagoga, passa a ter uma vida sexual regular, se envolvendo com várias mulheres nas universidades que frequenta. Quando encontra uma namorada culta e inteligente descobre que ela é em geral reprimida sexualmente ou beata demais; quando encontra uma mulher boa de cama, liberada, não consegue dividir intelectualmente nenhuma experiência mais sofisticada. Portnoy tenta resolver seu Édipo seduzindo uma moça judia sardenta parecida com sua mãe; após brigar com sua namorada liberal, com a qual tem as experiências sexuais mais divertidas do livro, viaja para Israel em busca de algum tipo de iluminação, mas descobre que os problemas são dele, não dos outros. Em Israel tudo é desconhecido, reencontra uma amiga em um kibutz, mas descobre-se algo impotente, como se estivesse punindo a si mesmo por suas estrepolias sexuais. Na última sessão de análise mostra sua paranóia uma vez mais e dá um grito que lembra o Joyce do Finnegans Wake. Após isto o analista (Dr. Spielvogel) diz finalmente algo como "Agora podemos começar a trabalhar, sem mais teatro". Muito divertido mesmo. [início 14/12/2009 - fim 17/12/2009]
"O complexo de Portnoy", Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, editora Companhia das Letras , 1a. edição (2004), brochura 14x21 cm, 261 págs. ISBN: 978-85-359-0589-2

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

los hechos

Não faz muito tempo que li "Indignation", o penúltimo - e muito bom - livro de Philip Roth. Este ano ele publicou "The humbling", que não foi muito bem recebido pela crítica nos EUA. Bem. Quando vi este "Los hechos" na vitrina de uma das livrarias da Aribau em Barcelona, sabia que ele não ficaria ali nem um minuto mais. "The facts" (que é o título original) foi publicado em 1988, justamente entre "O avesso da vida", de 1986, e "Mentiras", de 1990, ambos já resenhados aqui. Formalmente este é um livro autobiográfico, mas sempre há muita invenção nas coisas que Philip Roth escreve. "O avesso da vida", seu livro anterior a este, é um livro francamente ficcional. Por mais que possamos identificar que várias das situações criadas podem ser associadas livremente com fatos da vida de Roth, aceitamos o livro como pura ficção. Mas a fragmentação das histórias neste livro serve talvez para lembrar o leitor que por entre as frestas das vidas vividas e das vidas contadas nós - homo sapiens sapiens - sabemos nos esconder bem. Já em "Mentiras", publicado dois anos depois de "Los hechos" Roth volta a usar seu próprio nome (e provavelmente coisas de sua vida pessoal). O leitor é induzido a permanecer em dúvida se deve ou não continuar identificando o narrador e protagonista da história com o escritor. Em "Los hechos" há um hibridismo entre realidade e ficção mais explícito. O livro começa e termina com cartas. A primeira é de Roth para um personagem (o mercurial Nathan Zucherman, seu alter-ego). A segunda deste, Zucherman, respondendo à Roth. Ele fala brevemente, mas de forma cruel, sobre os problemas acredita ter encontrado no enredo e na construção do romance que estamos lendo. As duas cartas funcionam como uma crítica automática e antecipada do livro. Entre as duas cartas encontramos no livro seis passagens biográficas de Roth: as duas primeiras bem curtas, uma sobre seu pai e a outra sobre sua infância de menino judeu em sua Newark natal. As demais um tanto mais extensas: uma sobre sua vida na universidade, seus primeiros relacionamentos amorosos; outra sobre sua vida com sua primeira mulher, seus projetos pessoais; a seguinte sobre a indignação que seu primeiro livro - Goodbye, Columbus - gerou na comunidade judaica; e a última sobre sua crise de peritonite, suas complicadas tentativas de divórcio e a acidental morte de sua primeira mulher - que formam a parte mais divertida do livro - e também sobre o sucesso comercial de seu terceiro livro - Complexo de Portnoy. Na segunda carta Zucherman censura o livro, aponta omissões e falhas, lamenta as elisões, pede a opinião de sua mulher inglesa - que igualmente censura a própria existência ou idéia do livro. Zucherman sugere por fim que Philip Roth faça a barba, que seja menos judeu, que não se deprima mais. Trata-se de um livro muito divertido. Se inegavelmente devemos classificá-lo de auto-biográfico, ao menos podemos dizer que Roth utiliza uma forma muito especial de contar certas passagens de sua vida. Lembro-me de que ao ler "Mentiras" fiquei curioso por entender melhor onde ficava a fronteira entre ficção em realidade. Aparentemente Roth - que teve mesmo uma depressão e passou por um longo período de recuperação de saúde após uma intervenção cirúrgica logo após a publicação de "O avesso da vida" - experimentou uma crise de falta de criatividade após vinte anos bastante produtivos. Ao produzir "The facts" parece reiniciar seu trabalho, sua obra literária, tateando um tanto em terreno conhecido, e o faz pedindo a opinião de seu alter-ego favorito. [início 22/11/2009 - fim 26/11/2009]
"Los hechos", Philip Roth, tradução de Ramón Buenaventura, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2009, brochura 12,5x19, 254 págs. ISBN: 978-84-8346-782-4

quinta-feira, 2 de julho de 2009

indignation

Comprei este "Indignation" do Philip Roth em um dia paulista com Renato Cohen e Luiz Melo. Gostei da edição, impressa com letras grandes e em papel reciclado. Logo após de terminar o "Questões de honra" decidi que era hora de enfrentar mais um Philip Roth (e comparar Begley e Roth uma vez mais). A história é curta, mas intensa, e leva o leitor a refletir um bocado. Acompanhamos uns poucos meses da vida de um jovem estudante universitário americano do início dos anos 1950 (mais exatamente no início da guerra da Coréia, a mesma Coréia que ultimamente tem merecido destaque nos jornais por conta de seus planos de dominar o ciclo de produção de armas atômicas e desenvolvimento dos vetores balísticos que as transportem o mais longe possível). Esta guerra entre os Estados Unidos e a Coréia do Norte tecnicamente ainda não terminou, apenas está em uma longa fase de armistício tácito. O rapaz, Marcus Messner, um judeu filho de um açougueiro kosher, acabou de entrar na universidade, o típico ritual de ascenção social que frequentemente encontramos nos livros de Roth. Mas Marcus é um sujeito mais complexo que apenas um alpinista social que usa sua inteligência. Ele é persecutório e paranóico do início ao fim do romance. Usa a entrada na universidade para se afastar fisicamente e intelectualmente dos pais, mas após o primeiro ano se transfere para uma universidade ainda mais afastada de sua Newark (New Jersey) natal, indo para uma universidade conservadora e cristã no estado americado de Ohio. Tanto no primeiro ano quanto no segundo ano da universidade ele tem experiências limite, principalmente nos campos do convívio social, da iniciação sexual, do compromisso acadêmico, de sua saúde física e mental e das relações afetivas com seus pais. O que paira sobre ele e todos os demais acadêmicos é a certeza de somente serem poupados de irem à guerra, ou seja, de serem convocados para a guerra da Coréia, pelo fato de serem estudantes universitários. O romance se desenvolve rapidamente, mas logo descobrimos que Marcus está morto e o texto é uma longa reflexão sobre sua nova condição, imediatamente após ter sido abatido na guerra. Como ele foi parar lá? É isto o que o romance descreve. Philip Roth nos mostra como pequenas, bobas, impensadas decisões, sobre temas banais, têm repercusões incontroláveis, inimagináveis sobre nossas vidas. Por mais articulados, espertos ou inteligentes que possamos ser a história de nosso tempo e os fatos exteriores a nós sempre irão nos tragar sem remissão. A idéia do livro ser escrito por alguém moribundo "under morfine", como ele coloca no título do longo primeiro capítulo (que domina praticamente todo o livro), ou já morto, como podemos inferir do pequeno segundo capítulo "out from under", faz uma curiosa simetria com a dicotomia entre o mundo real e o nossa leitura interna deste mundo real. A meu juízo neste livro Roth nos diz que o mundo real está para nossa mente, nossa consciência enfim, como a consciência e a memória estão para o mundo de além morte. Podemos ficar ali um tempo infinito refletindo sobre um único ato, uma única fala, um único devaneio e imaginarmos as infinitas possibilidades que estes gestos teriam sobre nossas vidas. "Indignation" é mesmo mais um bom soco na boca do estômago do leitor. Não dá para ficar indiferente à ele. [início 29/05/2009 - fim 31/05/2009]
"Indignation", Philip Roth, editora Random House (1a. edição) 2008, brochura 12,5x19, 356 págs., ISBN: 978-0-7393-2811-8

quinta-feira, 5 de março de 2009

adeus, columbus

Em "Adeus, Columbus", publicado originalmente em 1959, Philip Roth nos ensina como se conta uma história. Qualquer aprendiz de escritor com pretensões literárias termina este livro e só pode desejar em ter uma fração deste talento quando crescer. São seis histórias na verdade, uma é um tanto maior que as demais. No título original ele escreve: "Goodbye, Columbus - and five short stories", portanto temos uma novela e cinco contos. Na novela Neil, um jovem judeu que vive com os tios em um subúrbio de Nova York se envolve com Brenda, judia novaiorquina cujo pai é um próspero construtor (exemplo típico da "jewish princess" cantada sarcásticamente por Frank Zappa, cabe dizer). O relacionamento é bom, mas na primeira crise entre eles (banal, pois surge quando os pais dela descobrem que ela usa um diafragma) ambos concordam que são menos sofisticados do que acreditavam ser. O sexo era mesmo um tabu nos anos 1950. Lembro de ter visto uma versão cinematrográfica desta história (com Ali MacGraw, deliciosa, e Richard Benjamin). Os contos do livro são igualmente poderosos: no primeiro um garoto humilhado por um rabino acaba obrigando toda uma comunidade a abjurar o judaísmo; no segundo um soldado judeu às vésperas de embarcar para a segunda grande guerra utiliza de artimanhas para escapar do serviço pesado; no terceiro um velho senhor trai a esposa e se vê enredado em uma série de confusões por conta de uma nódoa que aparece em sua virilha; no quarto um rapaz se aproxima de garotos encrenqueiros e paga um preço pelo azar; no quinto conto acompanhamos o choque cultural entre os habitantes de uma típica cidade protestante americana e um imigrante judeu ortodoxo (um jovem que está em vias de tornar-se pai é quem faz a intermediação entre a comunidade e o sujeito, que montou uma Yeshivá a revelia das tradições do lugar, hilário). São histórias curtas, mas todas muito interessantes. Muitos dos temas que vão ser tornar típicos da prosa de Philip Roth (o judaísmo, a sexualidade, os ideais americanos) aparecem com força. De fato é o livro ideal para entrar em contato com este excelente escritor. [início 28/01/2009 - fim 02/02/2009]
"Adeus, Columbus", Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2006, brochura 12,5x18, 285 págs. ISBN: 978-85-359-0947-8

domingo, 1 de fevereiro de 2009

entre nós

Publicado originalmente em 2001 no livro "Entre nós: Um escritor e seus colegas falam de trabalho" encontramos reflexões de e sobre vários escritores, reflexões produzidas a partir de entrevistas organizadas por Philip Roth. Os temas das entrevistas (ou mais bem encontros informais entre Roth e seus colegas) tratam de assuntos variados, notadamente aqueles que tratam da literatura produzida por eles e o processo de escrever, ou mais bem dito, entre a vida real dos escritores, suas escolhas e motivações e a matéria ficcional que são capazes de produzir a partir dali. Segundo Roth grandes escritores não gostam de discutir seus livros entre si, mas nas entrevistas ele alcança produzir par a par com cada um dos entrevistados curtas sínteses do trabalho deles. Além das entrevistas (com Primo Levi, Aharon Appelfeld, Ivan Klíma, Isaac Singer, Milan Kundera e Edna O´Brien) o livro inclui também uma troca de cartas com Mary McCarthy (exatamente sobre "Counterlife" / "O avesso da vida" que li semanas atrás) e três ensaios ou relatos, vamos dizer assim, sobre dois outros escritores (Bernard Malamud e Saul Bellow) e um ilustrador (Philip Guston). São dez bons textos, que dão uma mostra da inteligencia e versatilidade de Roth. As duas cartas trocadas com Mary McCarthy dão o tom de como Roth é zeloso de seu ofício: em meia dúzia de curtos parágrafos defende com garra seu estranho livro. A descrição da decadência física de Malamud tem algo de cruell, porém nada que um honesto amigo não possa registrar. Qualquer pessoa que goste de literatura e acompanhe os textos de Roth vai gostar desta vertente analítica. [início 20/12/2008 - fim 04/01/2009]
"Entre nós: Um escritor e seus colegas falam de trabalho", Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2008, brochura 14x21, 176 págs. ISBN: 978-85-359-1358-3

domingo, 18 de janeiro de 2009

o avesso da vida

Entre fevereiro e julho do ano passado li cinco livros de Philip Roth. Em agosto continuei e li o primeiro capítulo deste "O avesso da vida" mas resolvi parar, pois estava saturado daquilo tudo: principalmente do binômio sexo e câncer, mas também dos jogos mentais, do judaísmo e da psicologia, da alta literatura e falta de otimismo. Claro, são exatamente estes os ingredientes que sempre me agradam na obra de Roth, mas há épocas da vida em que temos de escolher entre um bom livro e nossa saúde mental. Deixei o livro empilhado na estante. No final de dezembro, quando o estado de Israel recomeçou seu massacre da vez na faixa de Gaza resolvi retomar o livro. Afinal a única coisa que salva o sionismo é a existência de bons escritores como Philip Roth. Neste livro, escrito em 1986, o personagem Nathan Zuckerman, que eu tinha acabado de ver definhar no bom "Fantasma sai de cena" aparece no auge da maturidade, enredado em uma série de situações bizarras. São cinco capítulos algo díspares. No primeiro acompanhamos a história da morte de seu irmão, um dentista indeciso entre a manutenção de sua vida sexual e os cuidados com uma doença coronária. No capítulo seguinte reecontramos este mesmo irmão (não morto obviamente) vivendo em um asssentamento judaico próximo a Belén, na Cisjordânia, em meados dos anos 1970. Nathan e este irmão discutem o fanatismo religioso dos judeus ortodoxos destes assentamentos e o papel de líderes religiosos radicais nas organizações sociais e em um estado não-laico como Israel. Como se trata mesmo de um romance onde a imaginação parece construir sempre a realidade, no terceiro capítulo Nathan tem uma alucinação: sentado a seu lado em um avião da El Al um jovem judeu americano tenta sequestrar ou explodir o avião e é impedido por agentes do Mossad disfarçados. Natham é rudemente tratado como cúmplice do fanático religioso (cuja motivação parece ser fazer com que Israel siga seu caminho sem explorar o holocausto como justificação de violência contra os árabes). No capítulo seguinte acompanhamos como Nathan se envolveu com uma inglesa cristã casada e de como esta descobre, durante um aparente impedimento de Nathan por motivos de saúde, entre seus guardados, material ficcional onde o relaciomento afetivo, familiar e conjugal deles é trabalhado e friamente descrito. Curiosamente o próprio Nathan morre neste capítulo e lemos algo sobre os discursos elegíacos de seu funeral. No último capítulo, que se passa em Londres, discute-se principalmente sobre situações à reação de Nathan a vários ataques anti-semitas. Ataques de um casal em um restaurante sofisticado, da cunhada em uma igreja e da própria sogra em sua senhorial casa de campo, que mais surpreendem, constragem e chocam sua mulher que aliviam a fúria sionista de Nathan. Ele e a mulher também discutem se é médica ou religiosa a necessidade de se fazer a circuncisão no filho deles que está para nascer. É um livro difícil. Eu não diria que um capítulo contradiz o anterior como se lê na quarta capa da edição que li. Mais bem me parece uma série de descrições de como as idéias de um romancista se misturam com suas experiências reais e propiciam ou não material que se torna um texto de ficção. Afinal o livro nem é um ensaio sociológico ou histórico. Nas palavras do Roth no livro: "Em vez disto, copiei tudo para as minhas notas pessoais, aquele próspero armazém de estocagem de minha fábrica narrativa, onde não existem demarcações precisas separando o que acontece de fato, e é relegado eventualmente à imaginação, daquilo imaginado e tratado como tendo de fato ocorrido - a memória tão interligada com a fantasia quanto ela é no cérebro." Bom livro, pena que ao terminar de lê-lo ainda existia a fria realidade das centenas de civis palestinos massacrados pelo estado de Israel. Vamos em frente. [início agosto/2008 - fim 30/12/2008]
"O avesso da vida", Philip Roth, tradução de Beth Vieira, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2008, brochura 13,5x18, 371 págs. ISBN: 978-85-359-1249-4

quarta-feira, 2 de julho de 2008

fantasma sai de cena

Mais uma vez estou a escrever sobre Philip Roth e isto nunca é um problema (e é sempre uma experiência gratificante, não canso de dizer). Este é o último romance dele publicado no Brasil. Resolvi ler após o combate com o cachalote de Melville (acho que para mudar rapidamente de século, voltar a paisagem deste brutal século 21 de uma vez por todas). O livro tem como personagem principal um velho conhecido dos leitores de Roth: Nathan Zucherman. Não li nenhum destes, onde Zucherman é uma espécie de alter-ego ou porta voz das idéias de Roth, mas li os livros de uma trilogia dele ("Pastoral Americana", "Casei com um comunista" e "A marca humana"), onde Zucherman é observador e narrador dos sucessos e perturbações de outros personagens. Neste livro ele é um senhor de setenta e poucos anos que mora já há uma década longe de sua New York natal, escondido em uma cidadezinha da Nova Inglaterra, escrevendo seus livros sem acompanhar pela mídia os acontecimentos de seu tempo e praticamente sem vida social. O enredo se desenvolve nos dias anteriores a segunda eleição de George Bush. Zucherman, impotente por conta de um severo câncer de próstata e amargando uma desconfortante incontinência urinária, reencontra por acaso uma pessoa com quem conversou apenas uma vez, quase cinquenta anos antes, mas que foi amante de um escritor já morto que foi muito importante para sua própria formação, também como escritor. Este escritor mais velho (Lonoff) é parcialmente inspirado em Henry Roth (um autor que nunca li, mas por quem me interessei agora). Um jovem escritor resolve contatar Zucherman pois quer ajuda na produção de uma biografia bombástica sobre este escritor mais velho. Zucherman, fragilizado pela doença, com lapsos graves de memória, dividido entre o carinho fraternal pela antiga amante de seu antigo mestre e o interesse súbito por uma jovem garota que tem pretensões literárias e com quem ele quer trocar de apartamento por uns tempos (e voltar a viver em New York), não sabe como se livrar da atenção do jovem escritor. É um romance curioso, com muito material escrito na forma de diálogos de uma peça de teatro. Este estratagema ajuda o leitor a entender um tanto como se dá o processo de elaboração de uma história, de uma ficção, por um grande novelista. É um romance complexo, que vale sim uma leitura atenta. Nele Roth discute a política de George Bush; a vida sob a tensão do terrorismo real e o terrorismo de estado praticado pelos EUA; a fronteira entre ficção e a realidade; o papel da cultura na estabilidade emocional das pessoas; o poder devastador das limitações físicas e das doenças sobre todos nós; o sexo, o câncer e o judaísmo. Curiosamente Melville é citado neste livro. Também Conrad merece várias citações. Dois homens do mar me lembrando do Moby Dick recém lido. Aparentemente Roth disse que este é o último livro onde Zucherman aparecerá e de fato, como em uma peça, no final do livro o personagem sai de cena se desintegrando. Belo romance.
"Fantasma sai de cena", Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2008) brochura 14x21cm, 282 pág. ISBN: 978-85-359-1248-7

segunda-feira, 12 de maio de 2008

operação shylock

Escrever sobre Philip Roth é sempre uma experiência gratificante. Um sujeito que consegue de forma tão direta, mas elegante, atingir nosso estômago e nosso cérebro simultaneamente é sempre algo de se admirar. Este operação Shylock é mesmo um livro bom. Comprei em uma bienal do livro paulista, uma edição bela com guardas e sobrecapa de plástico muito bonita, mas só agora coube-me lê-lo. Publicado quando o autor já estava com 60 anos, senhor de todas as técnicas literárias e com o corpo repleto de experiências limite, eis que Roth resolve discutir um tanto mais profundamente o tema mais sagrado de todos para um judeu: a existência em si do estado de Israel. Roth não poupa substantivos em sua vibrante e vertiginosa análise do judaísmo e do sionismo. Desta feita ele usa a figura do duplo, do doppleganger, símile que sempre foi muito usado para fins literários. Roth, um escritor tranquilo após passar pelas confusões de um ataque cardíaco, do diagnóstico de um possível câncer, de uma separação difícil, descobre que um outro Roth está em Israel defendendo uma nova diáspora judaica, uma diáspora as avessas, de forma que todos os judeus europeus que emigraram para a palestina após a segunda grande guerra deveriam voltar para seus países de origem (alemanha, aústria, polônia, ucrânica, rússia, etc e tal). Com este mote e utilizando uma técnica onde a própria obra parece ganhar autonomia física em relação ao autor ele discute à exaustão seu leque de temas habituais: sexo, câncer, judaísmo, fama, psicanálise. Ele explicita de um jeito radical sua técnica narrativa e isto em si já é um truque literário difícil de ser emulado. Este ano é mesmo o ano da metalinguagem e dos livros onde a metalinguagem é norma (Reparação, Patrimônio, Mentiras, Montalbán). Há trechos do livros que são factuais: uma conversa com um escritor israelense e a descrição do julgamento de um antigo colaborador dos nazistas capturado nos Estados Unidos. As versões se cruzam, como tiros em um território ocupado. A memória do homens se confunde com os fatos. No livro Roth torna-se progressivamente mais paranóico quando o tema chega na definição do que é mesmo terrorismo de estado e na sutil diferença entre o sionismo e o semitismo. O jogo de espelhos entre autor e personagens segue até o final. Mais que polêmico o livro é profético, pois escrito no início dos anos 1990 suas reflexões não poderiam ser mais certeiras hoje, quando vemos a situação da Palestina ainda pior e mais incerta do que naquela época. Não há mesmo remissão possível, parece dizer-nos Roth, para quem tem mantêm, permanentemente, o dedo no gatilho de uma Uzi. A condição judaica e mesmo o destino possível dos judeus e do judaísmo devem a Roth uma seminal contribuição. A curta nota ao leitor do final (uma espécie de capítulo extra) embaralha uma vez mais o jogo e deixa ao leitor a responsabilidade por uma cota honesta de reflexão. A frase que mais me marcou é dura, mas fundamental para um aprendiz de escritor: "Você não é um escritor antes de enfrentar seus fantasmas mais entranhados". Vale.
"Operação Shylock, uma confissão", Philip Roth, tradução de Marcos Santarrita, editora Companhia das Letras, 1a. edição (1994) brochura 14x21cm, 355 pág. ISBN:85-7164-372-5

sábado, 3 de maio de 2008

mentiras

Na última vez que fui a Porto Alegre achei este "Mentiras" em um balaio de 3 reais. Comprei e comecei a ler ainda no ônibus de volta, mas eis que a partir do meio o livro havia uma infinidade de erros de edição: cadernos trocados, páginas faltando, caracteres ilegíveis. O dinheiro explica quase sempre quase tudo. Consegui trocar o livro (o livreiro é meu amigo, mas acho que ele faria o mesmo com qualquer cliente lesado). Ainda bem que fiz a troca, pois a segunda metade do livro é fantástica. "Mentiras" foi escrito mais ou menos na época do livro posterior que li recentemente de Roth (Patrimônio). A primeira metade é feita de "sketches" ou cenas curtas, descrevendo aqueles momentos onde amantes ficam na cama conversando bobagens relacionadas ou não ao sexo e a relação de ambos. Parece algo como um catálogo de conversas pós-trepadas. É bem esquemático mais curioso de se ler. Os temas são os de sempre: sexo, adultério, literatura, judaísmo, psicologia, casamentos, intelectualismo, doenças graves. Philip Roth não é nunca um autor sutil ou discreto afinal de contas. "Mentiras" é um belo livro, cabe dizer, assim como não é demais escrever que Roth é um excelente escritor. Uma das frases favoritas que compilei neste livro diz que na vida as ironias nunca acabam. Grande verdade. Na segunda parte do livro o esquema das cenas curtas muda um tanto. O câncer surge como sempre nos livros dele, pois é uma ferramenta de trabalho para Roth. A vida das pessoas sofisticadas que ele descreve se torna ainda mais rica e complexa. No final um par de torpedos metalinguísticos explicam o livro para o leitor. De certa forma o final de "Reparação", que li recentemente e resenhei aqui, já está contido neste "Mentiras", escrito por Roth dez anos antes (mas isto não é exatamente um demérito para Ian MacEwan). No final o emulador de todo efebo: Homero e sua Odisséia, pairam sobre tudo. Grande livro.
"Mentiras", Philip Roth, tradução de Sérgio Flaksman, editora Siciliano, 1a. edição (1991) brochura 14x21cm, 183pág. ISBN:85-267-0324-2

sexta-feira, 11 de abril de 2008

patrimônio

Há livros que compramos e guardamos como quem investe na bolsa de valores. Ouvimos uma opinião, um indicação, folheamos displicentemente o livro mas resolvemos seguir o instinto mais primário de o deixarmos de lado. Anos depois o reencontramos (ou ele nos reencontra) e eis que o livro está pronto para ser lido. Foi o que aconteceu com este: "Patrimônio", de Philip Roth. Reencontrei o livro, li quase de uma sentada só, muito satisfeito. Não que o livro seja banal, longe disto, trata-se de um belo texto que descreve o que deve ser o mais difícil: um filho se despedir de um pai dignamente. Ulalá. O que mais dizer? Publicado no início dos anos 1990 o livro descreve os últimos meses de vida do pai quase nonagenário de Philip Roth. Como ele mesmo teve um ataque cardíaco neste período sua dupla experiência de morte torna este texto, ironicamente, uma espécie de réquiem em tempo real. Para mim as palavras chave do livro são estoicismo e memória, mas a memória é múltipla: do judaísmo, da psicanálise, das relações afetivas, dos legados familiares. Roth pai dizia "não se deve esquecer de nada" e Roth filho vai se analisando no processo, registrando de forma obsessiva as várias fases pelas quais o pai passa, rememorando outras mortes, de avós, mãe, irmãos, amigos, vizinhos, amantes. Belíssimo livro. Fez-me pensar em procurar nos meus guardados outros livrinhos dele há muito tempo deixados de lado. Talvez seja a hora de voltar a ler o "Operação Shylock", o "Teatro de Sabbath", "Avesso da Vida", "Mentiras", sim Mentiras, eis um livro para se voltar a ler.
"Patrimônio, uma história real", Philip Roth, tradução de Beth Vieira, editora Siciliano, 1a. edição (1991) brochura 14x21cm, 202 pág., ISBN: 85-267-0400-1

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

animal agonizante

Já li vários livros de Philip Roth. Sempre instigante ele é um de meus favoritos. Lembro sempre do impacto da leitura de "O teatro de Sabbath" e das diversões de "O complexo de Portnoy". Noutro dia achei perdido na estante este "O animal agonizante", sua capa vermelha, vibrante, parecia mesmo me chamar atenção. Li rápido e com muito prazer (são pouco mais de 150 páginas). Acho mesmo que serve para um leitor conhecer o ritmo e os temas do sujeito. Não que seja um livro fácil, longe disto. Os temas principais são duros, tratados sem dó pelo autor, afinal ninguém fala de educação, sexo e morte sem deixar marcas indeléveis pelo caminho. Não li os livros anteriores dele onde o personagem principal (David Kepesh) também aparece (O seio, O professor do desejo, publicados no Brasil em meados da década de 1970). De qualquer forma "O animal agonizante" se explica sozinho: um professor universitário bastante respeitado descreve como uma aluna de seios generosos muda radicalmente sua forma habitual de envolvimento afetivo e amoroso (sempre com moçinhas muito mais jovens do que ele). Escrito retrospectivamente, lembra algo de Proust, não o Proust de "O caminho de Swann" (óbvio demais), mas o Proust de "O fim do ciúme", um conto de "Os prazeres e os dias". Ao envolver-se com a ex-aluna o personagem principal fica dividido e impotente entre o turbilhão da paixão e o porto seguro da razão. Claro, Philip Roth, sem otimismo e sempre exagerado, não deixa apimentar um tanto o enredo incluíndo a descoberta de um câncer e seus desdobramentos, uma cruel descoberta que no fundo gera uma chance de redenção pessoal. Não somos mesmo apenas humanos afinal de contas?
"O animal agonizante", Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Brito, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) brochura 14x21cm, 128 pág., ISBN: 978-85-359-0843-5