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sábado, 25 de agosto de 2018

viagem na rússia

Noutro dia mesmo li o excelente "Judeus errantes", de Joseph Roth. No último capítulo Roth falava da situação dos judeus na Rússia, observações fidedignas, recolhidas em uma viagem que ele havia feito à Rússia, no segundo semestre de 1926. Esta viagem foi planejada de forma a permitir que Roth enviasse matérias curtas que fossem publicadas em um jornal na Alemanha, à medida em que percorria o país. Posteriormente todo o material foi reunido, reescrito em livro e é agora também parte da boa coleção antagonista da editora Âyiné. Em "Viagem na Rússia" encontramos registros de um país em construção, que ainda se assombra com as rápidas transformações decorrentes da revolução de 1917. O jornalista que cruza a fronteira russa no equinócio de outono de 1926 voltará otimista em dezembro, mas Roth não teria como antecipar as metamorfoses ainda mais terríveis pelas quais passaria o povo e a sociedade russa nas décadas seguintes. Em 1926 a Rússia soviética ainda era um enigma para os europeus ocidentais. Viajar pelo país não era difícil, apesar da discreta vigilância. Roth parte de Paris, não antes de falar dos russos emigrados que ali viviam, russos que fugiram da revolução, quase todos arruinados, ainda iludidos com a possibilidade de uma volta que jamais se materializaria. Visita várias cidades, da fronteira até Moscou, de lá até Samara (no Volga), a Astracã (no Mar Cáspio), a Baku (onde hoje é o Azerbaijão). Vai a centros urbanos e também ao campo, conversa com gente poderosa (os novos burgueses, que enriqueciam com o programa econômico bolchevique daqueles tempos, o NEP) e com gente simples, em bares e estações de trem. Vai a museus, igrejas, redações de jornal. Cada capítulo trata de um assunto diferente, aborda algo curioso e intrigante sobre o país em transformação. Roth fala da agitação urbana e da força produtiva no campo, dos judeus e do antissemitismo, das práticas de engenharia social, da revolução sexual, das mudanças no papel da mulher na sociedade, no sentido religioso do povo, dos camponeses (mujiques, libertados da servidão dos tempos do Tsar). Vê as paradas militares comemorativas dos dez anos da revolução. No último artigo ele fala do uso da propaganda, da massificação da opinião pública, da censura. Acusa a imprensa soviética de parcial, de não ter independência e, sobretudo, conhecimento factual do mundo. Fala da esterilidade que resulta da censura. Sábio homem. Poucos anos depois Stalin concentraria em si todo o poder, organizaria os expurgos e massacres que definiriam a União Soviética por pelo menos mais trinta anos. Roth em breve estaria morto, deprimido e alcoolizado, talvez vendo o sem sentido do crepúsculo final da Europa daqueles tempos. Lembrei-me de quando, quase ainda adolescente, no final dos anos 1970, li os três poderosos volumes de Trotsky sobre a revolução russa. Aquela massa de informações ajudou-me um bocado, blindando-me de ser tão manipulável nos anos seguintes, imberbe aluno no IFUSP, algo abobalhado nos furiosos debates pela redemocratização do Brasil. Pena não ter conhecido o lirismo e a capacidade de síntese crítica de Joseph Roth naquela época. Vale! 
Registro #1317 (crônicas e ensaios #230) 
[início 19/08/2018 - fim: 22/08/2018]
"Viagem na Rússia", Joseph Roth, tradução de Alice Leal e Simone Pereira Gonçalves, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção antagonista #18), 1a. edição (2017), brochura 10,5x15 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-92649-23-4 [edição original: Reisen in Russland (Berlin: Verlag Die Schmiede) 1927]

sábado, 11 de agosto de 2018

judeus errantes

De Joseph Roth já li bons romances ou novelas ("", "Marcha de Radetzky", "A lenda do santo beberrão", "Hotel Savoy" e "Fuga sin fin") e um espetacular livro de ensaios sobre "Berlin". "Judeus errantes" é um outro livro de ensaios, uma outra pequena maravilha. Joseph Roth viveu entre 1894 e 1939. Nasceu na Áustria e viu o poderoso império Austro-Húngaro fragmentar-se após a primeira grande guerra mundial, na qual voluntariou-se como jornalista, interrompendo seus estudos universitários. "Judeus errantes" é ainda mais impressionante que "Berlin". Foi publicado originalmente em 1927 e descreve as migrações de judeus do leste europeu, expulsos da Rússia e da Polônia após os conflitos decorrentes da Revolução Russa e ascensão do regime comunista. Esses judeus errantes eram os que vagavam rumo a Europa do oeste e também para os Estados Unidos. Não se trata apenas de uma descrição histórica. Roth faz uma sociologia multi fragmentada de um fenômeno que apenas estava se iniciando (ele não viveu para acompanhar a tragédia da segunda guerra mundial). Roth fala do abrigo que os judeus encontravam na periferia das cidades da Europa ocidental, nos guetos que ali se formavam; das dificuldades de seus documentos (quando existiam) serem reconhecidos e validados; das atividades profissionais as quais se dedicavam, do talento inato deles; de seus costumes e hábitos, que chocavam os ocidentais, tanto cristãos quanto protestantes, e também os judeus já estabelecidos nestes novos lugares. Roth chama esses últimos de judeus burgueses, sefarditas orgulhosos de sua raça antiga e nobre. Enfim, ele descreve bem as diferenças entre os judeus de origem askenazi e os de origem sefardita, fala do alvorecer do movimento sionista, daqueles que ele define como judeus proletários (que vivem sobretudo para a religião, mas não se furtam de trabalhar duro), judeus nacionalistas (que querem um estado próprio) e judeus burgueses (aqueles já radicados na Europa ocidental). Ele viajou a União Soviética em 1926 e escreveu uma última e curta sessão do livro, baseada nesta experiência. Apesar de otimista esta é a parte mais terrível do livro. Roth é uma espécie de visionário, antecipa questões que serão discutidas, e até violentamente discutidas, após o fim da segunda grande guerra, como a necessidade da criação de um estado nacional judeu, a importância dos judeus americanos no futuro dos judeus de todo o mundo, o recrudescimento do antissemitismo. O livro é dividido em sessões: uma que trata da definição de quem são os tais judeus errantes; outra que fala de como se organizava originalmente uma cidadezinha de minoria judaica, na Polônia e na Rússia; dos guetos ocidentais em Viena, Berlim e Paris; do status dos judeus que conseguiam emigrar para os Estados Unidos e sobre a situação dos judeus que continuaram na Rússia soviética. Hoje, para um leitor contemporâneo, seu livro parece algo que brota do trabalho de um arqueólogo, tamanha a força e o frescor das análises. O texto é jornalístico (alto lá: jornalismo como era praticado no século passado, não o pastiche idiotizado e medíocre que majoritariamente se encontra hoje em dia nas diferentes mídias). As frases são claras, bem escritas, convincentes. A sociologia é refinada. A editora Âyiné publicou um outro volume de Roth, "Viagem a Rússia", que li quase simultaneamente a este. Em breve o registrarei aqui. Vale! 
Registro #1308 (crônicas e ensaios #229) 
[início 19/07/2018 - fim: 05/08/2018]
"Judeus errantes", Joseph Roth, tradução de Simone Pereira Gonçalves, Belo Horizonte: Editora Âyiné, 1a. edição (2016), brochura 10,5x15 cm., 164 págs., ISBN: 978-85-92649-12-8 [edição original: Juden Auf Wanderschaft (Berlin: Verlag Die Schmiede) 1927]

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

marcha de radetzky

"Marcha de Radetzky" é o romance mais ambicioso de Joseph Roth. Antes de ser a história de três gerações de uma família, desde meados do século XIX até o início da primeira grande guerra, o que o leitor acompanha são os últimos momentos de um império, o Austro-húngaro, que se esfacela. Um jovem tenente de origem eslovena chamado Joseph Trotta salva a vida do imperador, o Kaiser Francisco José I, durante a batalha de Solferino, em 1859. Por conta deste gesto ganha um título de nobreza, o de barão de Sipolje. Trotta casa-se e enviúva cedo. Incomodado com as citações algo exageradas sobre sua bravura ao salvar o Kaiser, transcritas em livros escolares, ele resolve abandonar o exército e educar seu filho único, Franz Freiherr, para seguir carreira como funcionário público. Esse filho, o segundo barão von Trotta, torna-se um respeitado comissário distrital, uma espécie de governador geral de uma das províncias centrais do Império (na região da atual República Tcheca). Ele pouco sabe do passado simples do pai, das razões dele ter se afastado do exército apesar de seu reconhecido heroísmo, e da existência do avó esloveno, um velho guarda caça da periferia. Passa os dias como eficiente membro da enorme máquina burocrática de administração do Império. Franz von Trotta também se casa e enviúva cedo, também tem um único filho, Carl Joseph. Ao contrário de seu pai, Franz não impede o desejo do filho de entrar para o exército. Carl Joseph torna-se tenente como seu avô e é designado para servir num respeitado regimento de cavalaria. De alguma forma a burocracia do Império facilita os planos do rapaz, assim como havia facilitado a ascensão do pai, mas sua inaptidão para a vida militar faz com que Carl se envolva em situações embaraçosas que acabam obrigando-o a mudar de regimento, passando a servir na inóspita fronteira Russa. Mas também ali seus vícios de caráter e tibiez geram problemas e constrangimentos: o envolvimento com uma mulher casada, o contínuo entorpecimento provocado pela bebida, as mentiras que conta para o pai e o acúmulo de dívidas de jogo o fazem flertar com a possibilidade de fugir do exército. Quando o pai se prontifica a encontrar-se com o próprio Kaiser para conseguir uma solução para os problemas do filho eis que o Império sofre o trauma do assassinato do herdeiro do trono e se mobiliza para o que viria a ser o início da primeira grande guerra. Carl poderá finalmente experimentar as loucuras de um campo de batalha, como seu avô. Roth é um mestre no encadeamento de cenas. O romance é longo, mais de quatrocentas páginas compactas, mas a leitura é fácil, a psicologia dos personagens nítida, os diálogos quase sempre irônicos e divertidos. Roth nos apresenta uma sociedade sem identidade, que passou por muitas experiências mas não aprendeu nada com elas, um conjunto de indivíduos que não percebe o anacronismo de sua situação, a proximidade de um desastre definitivo, a inevitabilidade de sua destruição e morte. A mediocridade da educação das elites burocráticas e do treinamento dos militares condena antecipadamente a todos. Os interesses difusos de todos os povos aglutinados ao Império são mais que contraditórios. Não há o que lamentar quando um povo inteiro se ilude, não pesa as consequências de seus atos desarrazoados e escolhas ruins. Belo livro.
[início: 09/09/2015 - fim: 01/10/2015]
"Marcha de Radetzky", Joseph Roth, tradução de Luís S. Krausz, São Paulo: editora Madalena/Mundaréu (coleção Linha do Tempo), 1a. edição (2015), brochura 13x21 cm., 423 págs., ISBN: 978-85-68259-01-6 [edição original: Radetzkymarsch (Köln: Kiepenheuer) 1932]

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Joseph Roth alcançou publicar "Jó: Romance de um homem simples" ainda na Alemanha, em 1930, antes da ascensão do nazismo e de seu exílio na França. A versão original dessa história é a que encontramos na Bíblia e talvez seja uma das mais antigas já registradas pelo homem. Como se sabe trata-se de uma história de provação, onde se fala sobre os limites da fé e da convivência com o mal absoluto, assim como das futuras recompensas reservadas àqueles que praticam o bem e seguem fielmente a crença em Deus. Na versão alegórica de Roth acompanhamos os sofrimentos de Mendel Singer, um judeu russo que vive como professor numa modesta aldeia. Pai de dois filhos quase adultos (Jonas e Schemariah) e de uma bela garota adolescente (Miriam), Mendel vê no nascimento de um quarto filho, seu caçula Menuhim, que é frágil e provavelmente epilético, uma espécie de provação de sua fé (similar aquela experimentada pelo Jó bíblico). Por apenas concentrar-se em sua religião e na doutrina que ensina às crianças da aldeia, Mendel não percebe as rápidas transformações de seu tempo. A Rússia está envolvida em uma guerra com o Japão e seus filhos, por serem saudáveis e fortes, certamente serão recrutados para o serviço militar. Débora, sua mulher, o despreza, sobrevive pela crença na previsão feita por um rabino local de que seu fraco Menuhim crescerá normalmente e um dia alcançara a glória e o sucesso. Mendel tenta evitar o recrutamento de seus filhos mais velhos e vê angustiado a impossibilidade de casamento e vida digna para sua filha. A possibilidade de emigrar para a América é um sonho distante. A crença na recuperação do filho caçula ainda mais fantasiosa. Roth faz seu personagem passar por sofrimentos sem fim e mescla à história de Jó algo da de José (o filho de Jacó e Raquel que é exilado no Egito e redime toda sua família e tribo). O leitor antecipa um bocado destes desdobramentos, por mais que Roth invente reviravoltas e trapaças (afinal ele é, como escritor, uma versão tão vingativa e poderosa quanto o Deus do velho testamento). Todavia o livro é bem escrito e descreve com detalhes hábitos e práticas de um judeu ortodoxo, tanto na Rússia czarista quanto nos Estados Unidos dos tempos da primeira grande guerra. Bom livro. 
[início: 21/08/2015 - fim: 28/08/2015]
"Jó: Romance de um homem simples", Joseph Roth, tradução de Laura Barreto, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2008), brochura 14x21 cm., 196 págs., ISBN: 978-85-359-1309-5 [edição original: Hiob: Roman eines einfachen Mannes (Berlin: Kiepenheuer) 1930]

sábado, 22 de agosto de 2015

berlim

Há livros que descrevem cidades como se seus autores fossem flâneurs dedicados, aquelas generosas criaturas que partilham suas observações de uma viagem e que invejamos talvez não discretamente. Há também livros onde o autor é um anti-flâneur, pois faz uma espécie de serviço sujo para o leitor, vai a lugares, conversa com pessoas e vê a realidade de coisas que talvez nossa sensibilidade naturalmente débil ou romântica demais não nos permitiria jamais perceber adequadamente. É o que Joseph Roth faz com a Berlim nos textos reunidos nesse livro. Suas crônicas foram publicadas em jornais de Berlim, Munique e Frankfurt do final da primeira grande guerra (textos escritos sobretudo na primeira metade dos anos 1920) até a tomada constitucional do poder alemão pelo nazismo (1933). O sujeito é preciso, claro e objetivo em suas digressões. Trata-se de um jornalista icônico, mítico, clássico, que nunca se perde na aparência das coisas, sabe procurar a realidade tanto nos salões do Reichstag quanto nos cabarés mais decadentes e sombrios. Mas são crônicas de um escritor habilidoso, de um estilista, de alguém que equilibra informação e qualidade literária. Ele é quase sempre irônico, mas sem ofender ou menosprezar ninguém (talvez seja sarcástico mesmo apenas com policiais e detetives que seguem regras e códigos obsoletos). A Berlim do início dos anos 1920 está tomada de emigrantes muito pobres, refugiados do leste europeu, mas é também um lugar efervescente, com vários  jornais diários, intensa atividade artística, literária, mundana. Os textos estão organizados em blocos temáticos: há crônicas sobre os refugiados e o bairro judaico; sobre as obras viárias e a construção de arranha-céus que modificam a velha capital prussiana; sobre os burgueses e boêmios, sobre seus hábitos; sobre a indústria de entretenimento (inclusive o comércio sensual); sobre os políticos e a política daqueles dias. Saber um tanto da história da Alemanha ajuda a entender as alusões e comentários de Roth (lembro sempre do bom "História concisa da Alemanha", de Mary Fulbrook). O último artigo do livro é de 1933, já escrito e publicado em Paris, para onde Roth exilou-se, antecipando as terríveis consequências da ascensão de Hitler ao poder (ele não contemporiza: "O mundo ameaçado e aterrorizado precisa se dar conta de que o ingreso do cabo Hitler na civilização européia significa não apenas o início de um novo capítulo na história do anti-semismo: longe disso! O que dizem os incendiários é verdade mas em outro sentido: esse Terceiro Reich é o início do fim! Ao exterminar os judeus, perseguem Cristo. Pela primeira vez os judeus não são assassinados por terem crucificado Jesus, mas por terem lhe dado vida."). Como muitos fascistinhas que vicejam hoje em dia no Brasil Hitler foi eleito democraticamente, mas foi um ditador desde o primeiro minuto em que assumiu o poder. A democracia é apenas uma palavra vazia quando no espírito de um sujeito - ou no de muitos partidos, como no caso brasileiro, - prospere apenas o desejo de escravizar mentalmente todos os cidadãos do país. O livro inclui um posfácio de Alberto Dines (que eu confesso não ter gostado nem um pouco, paciência). Haverá sim mais Joseph Roth por aqui. 
[início: 01/08/2015 - fim: 05/08/2015]
"Berlin", Joseph Roth, tradução de José Marcos Macedo, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / coleção Jornalismo literário), 1a. edição (2006), brochura 14x21 cm., 206 págs., ISBN: 978-85-359-0836-6 [edição original: Joseph Roth in Berlin: Ein Lesebuch für Spaziergänger (Köln: Verlag Kiepenheuer & Witsch) 1996]

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

fuga sin fin

O interessante nos bons escritores é que pouco importa quando e como o sujeito inventa e publica suas histórias, elas continuam poderosas e seminais mesmo muitos anos após a morte deles. É o caso desse interessante "Fuga sin fin" de Joseph Roth, de quem já li também "Hotel Savoy" e "A lenda do santo beberrão". Roth é narrador e personagem da história. Seu truque literário é fazer crer que apenas compilou e deu forma ficcional aos apontamentos e memórias de um amigo seu, Franz Tunda, filho de uma próspera família de burgueses austríacos, noivo de uma rica herdeira, militar em serviço do Império Austro-Húngaro e que é feito prisioneiro pelos russos durante a primeira grande guerra. Por mais interessante e movimentada que seja a história de Tunda o que Roth oferece ao leitor é a descrição do esgotamento dos valores e pressupostos da Europa no período entre as duas grandes guerras do século passado. Roth (que publica esse curto romance originalmente em 1927) antecipa as contradições e circunstâncias que iriam gerar o nazismo. Seu personagem,Tunda, após fugir de seus captores, passa muitos meses isolado na Sibéria; assume provisoriamente a identidade de um polonês, Baranowicz; luta pelo exército vermelho durante a Revolução Soviética; incorpora-se na máquina de propaganda soviética (por conta de sua boa educação e facilidade com línguas); enamora-se de duas garotas que também lutam pela revolução. Num dia, ao fazer o papel de guia para um grupo de franceses que inspecionava as instalações petrolíferas de Baku (onde é hoje o Azerbaijão) ele dá-se conta que precisa sair do leste europeu e voltar para seu país (que não mais existe, cabe lembrar). Com esse início poderíamos pensar que tratar-se-ia de uma adaptação da célebre novela de Balzac (O Coronel Chabert), onde acompanhamos a história de um homem que volta das guerras napoleônicas para encontrar na França sua noiva e fortuna tomadas, sua identidade e glória negadas. Mas não. Roth faz Tunda voltar a condição de europeu ocidental, ilustrado, aceito socialmente (ele faz as pazes com um irmão, que tornou-se um respeitado maestro numa cidade do vale do Reno alemão; que conta histórias algo fantasiosas de seu exílio forçado pelas estepes russas; que conversa com seu amigo Joseph Roth nos cafés de Berlim; que discute sobre os valores socialistas e as perspectivas de implantação do comunismo por toda a Europa). Tunda viaja pela Alemanha, mas não se ilude com a propaganda de que ali tudo funciona, tudo é maravilhoso, todos são felizes. Seu destino está ligado a França, pois é lá que mora sua antiga noiva (agora casada) e também uma mulher sedutora e misteriosa que ele conheceu em seus dias em Baku. Em Paris ele experimenta novos encantamentos, novas maravilhas, mas assim como em Berlim ele não acredita naquele mundo de sonhos, prazeres, artificialismos. Tunda, o homem que adota Paris para viver é ainda jovem, pouco mais de trinta anos, mas é alguém sem profissão e sem amor, sem alegria ou esperança, sem ambição ou egoísmo. É um sujeito completamente supérfluo e dispensável, como o é a Europa que surgiu dos escombros da primeira grande guerra. Nas palavras de Tunda, "antes  de tentar conservar essa comunidade europeia de seus sonhos será necessário criá-la". Bom isso acabou acontecendo, após a segunda grande guerra. Mas o que Tunda não sabia é que pouco importa existir um aparato jurídico e social que justifique os valores de uma pretensa comunidade europeia, pois serão sempre os indivíduos, os homens, através de seus atos, votos, ações, os que irão inevitavelmente questionar (e eventualmente destruir) aqueles mesmos valores. Belo livro. 
[início: 06/08/2015 - fim: 07/08/2015]
"Fuga sin fin", Joseph Roth, tradução de Juan Luis Vermal (revisão de José Vivar), Barcelona: Acantilado Editorial, 1a. edição (2003), brochura 13,5x20,5 cm., 167 págs., ISBN: 978-84-96136-00-7 [edição original: Die Flucht ohne Ende (Berlin: Kurt Wolff Verlag) 1927]

segunda-feira, 29 de junho de 2015

hotel savoy

De Joseph Roth apenas li o último de seus livros: "A lenda do santo beberrão", que é de 1939. Noutro dia encontrei "Hotel Savoy", que é um dos primeiros, de 1924. Trata-se de um história curta, que descreve um mundo de imobilidade, letargia, paralisia, tanto física quanto emocional. O narrador é Gabriel Dan, um refugiado da primeira grande guerra que assim como milhares de outros volta da Rússia revolucionária, a Rússia dos Soviets. Ele interrompe sua viagem rumo ao oeste europeu numa cidade não nominada (que é sua cidade natal e que provavelmente faz parte da Polônia). Assim como todos os demais refugiados ele imagina ficar ali apenas um par de dias, somente o tempo de conseguir algum dinheiro com um tio que outrora fora bastante próspero, mas como por um encanto acaba permanecendo na cidade. O hotel em que se hospeda é um microcosmo da cidade, do país e do mundo daquela época conturbada. Tudo é provisório, a incerteza e o medo impedem as pessoas de tomarem decisões, de se afastarem daquele lugar enfeitiçado. Gabriel entende que seu tio e primo vivem ainda sob as regras de um passado já destruído, que jamais voltará. E percebe também que ganhar dinheiro não é uma ocupação associada ao trabalho, a virtude, a valores morais, mas sim resultado da sorte (com o câmbio favorável do dia, a chegada de um amigo, a necessidade de alguém por um favor). O crescente número de refugiados, as greves dos trabalhadores das indústrias do local, a ausência de autoridade constituída parecem indicar que a guerra voltará a acontecer, cedo ou tarde. Roth descreve o tipo de pessoas que vivem no hotel: artistas, empresários, prostitutas, veteranos de guerra, velhos funcionários e desocupados em geral (como Gabriel e um amigo seu dos tempos da guerra, Zwonimir, convertido à causa revolucionária). A notícia da chegada iminente de um rico americano traz alguma esperança a todos do hotel e da cidade, mas essa expectativa não pode se concretizar. Roth consegue registrar em seu livro o quão terrível é viver em um mundo que desaparece lentamente, em câmera lenta, sem ser interrompido por nenhuma força (nem a fé, nem a esperança, nem a vontade, tampouco a disciplina e a ordem). Não são apenas os deuses que um dia experimentarão o seu crepúsculo.
[início: 21/06/2015 - fim: 25/06/2015]
"Hotel Savoy", Joseph Roth, tradução de Silvia Bittencourt, São Paulo: Estação Liberdade, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 183 págs., ISBN: 978-85-7448-229-3 [edição original: Frankfurter Zeitung (Berlin: Verlag Die Schmiede) 1924]

terça-feira, 26 de novembro de 2013

a lenda do santo beberrão

Joseph Roth nos conta em "A lenda do santo beberrão" uma fábula, uma espécie de conto de fadas, no qual acompanhamos os últimos dias de Andreas, um imigrante polonês que vaga pelas ruas de Paris, intoxicado por dores e bebida, num transe alcoólico e religioso. Uma sucessão de pequenos milagres o faz encontrar algum dinheiro e ver esse dinheiro multiplicar-se, o que possibilita que ele alterne nestes dias experiências aparentemente felizes (boas refeições e bebedeiras, comprar roupas novas, ir ao cinema, reencontrar amigos e uma ex-namorada) e duras decepções (a consciência de sua ruína, a lembrança dos seus anos na prisão, a culpa pela morte de um amigo). A promessa de doar uma certa quantidade de dinheiro para uma santa, numa igreja da periferia, é a única coisa que anima seus dias, o faz seguir adiante. A promessa foi feita a um sujeito que lhe dá uns poucos francos no início da história, mas esse sujeito pode ser o próprio diabo, a divertir-se em fazer Andreas experimentar uma última cota de tentações. A felicidade humana não foi incluída no desenho da criação (é o que Joseph Roth parece querer nos fazer lembrar). Bom livro, que foi publicado postumamente, em 1939.
[início: 13/11/2013 - fim: 20/11/2013]
"A lenda do santo beberrão", Joseph Roth, tradução de Mário Frungillo, editora Estação Liberdade, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 77 págs., ISBN: 978-85-7448-228-6 [edição original: Die Legende vom heiligen Trinker (Amsterdam: Albert de Lande) 1939]