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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

não incentivem o romance

Há duas semanas terminei de ler e fiquei entusiasmado com os ensinamentos de Berardinelli que encontrei em "Direita e esquerda na literatura". Por conta disto resolvi ler um outro livro dele que repousava em meus guardados, o igualmente instigante "Não incentivem o romance". A origem dos ensaios reunidos neste livro é bem variada, na forma e na cronologia. O texto mais antigo é de 1992 e o mais recente de 2005. São nove textos; seis deles correspondem a conferências, dois a ensaios publicados em revistas e o último a uma entrevista publicada em jornal. O livro inclui um índice onomástico, que facilita o leitor a localizar informações sobre um determinado autor em particular (Berardinelli cita dezenas deles). Como li esse e o "Direita e esquerda na literatura" quase simultaneamente devo ter misturado um bocado das conclusões dos ensaios, que de fato podem ser lido separadamente, já que cada um deles ofece ao leitor uma impressão definitiva sobre um assunto, muito embora a leitura do conjunto de quase vinte ensaios somados dos dois livros produza um efeito de compreensão mais robusto de como Berardinelli entende a produção de ficção e de como opera a indústria cultural e a sociedade contemporânea. Como todo intelectual forte sua prosa oferece ao leitor várias sínteses, aforismos que passam habitar nossa memória e que ressurgem de tempos em tempos. Não quero acrescentar muito além do que já registrei sobre seu outro livro. Trata-se de um ensaísta que merece ser lido repetidas vezes, de cada leitura brota um viés diferente, uma abordagem mais clara sobre assuntos complexos e polêmicos. Deve ser divertido assistir suas conferências. De qualquer forma não posso deixar de registrar o quão facilmente se percebe que Berardinelli não tolera sobretudo artificialismos, jargões acadêmicos, a ilusão das teorias literárias, a existência de professores de literatura que não lêem ficção e sim teóricos e outros embusteiros, os "textos de museu ou de laboratório universitário". Ele vergasta Umberto Eco sem dó, identificando-o como um escritor de best-selller medíocre, no mínimo. Lembra muito o estilo cirúrgico de Coetzee em seus ensaios sobre livros, muito embora Berardinelli parece gritar como um bom italiano, enquanto Coetzee apenas sussurra e franze o rosto. Belo livro. Por fim registro que esta edição da Nova Alexandria é bem mais precisa que a da Âyiné, pois sabe informar ao leitor a origem dos ensaios. Os três primeiros "A poesia italiana após 1945", "A narrativa italiana após 1945" e "A ensaística italiana após 1945" correspondem a transcrição de conferências de Berardinelli proferidas na Universidad Autónoma de México, em 1996; "Dante ou Petrarca?, Pasolini ou Calvino? Uma teoria literária nacional", de 2005 e "O best-seller pós-moderno: De O Gattopardo a Stephen King", de 2003, são transcrição de conferências proferidas na Universidade de São Paulo e na Università Roma 3; "Clássicos do romance europeu: de Stendhal a Kafka" e "Não incentivem o romance" foram publicados, respectivamente, na revista de arte Lo Straniero, em 2002 e por uma editora universitária, Liberal Libri, em 1999; "O problema do personagem na narrativa do século XX" é um texto utilizado em uma conferência para professores e estudantes de ensino médio proferida na Itália, em 1992; e por fim,  "Entrevista", foi publicada no jornal Folha de São Paulo, em novembro de 2005. Se cabe ainda uma última citação, destaco sua opinião sobre a criação literária: "Ou ela é uma brincadeira - para crianças grandes - ou ela é nada". Como não concordar com esse ferino romano setentão. Vale! 
Registro #1366 (ensaios #244) 
[início: 03/09/2018 - fim: 08/09/2018]
"Não incentivem o romance e outros ensaios", Afonso Berardinelli, tradução de Doris Nátia Cavallari, Francisco Degani e Patrícia De Cia, organização de Lucia Wataghin, São Paulo: Nova Alexandria / Humanitas Editorial, 1a. edição (2007), brochura 14x21 cm., 206 págs., ISBN: 978-85-7492-168-6 [edição original: várias fontes]

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

direita e esquerda na literatura

Alfonso Berardinelli é escritor e crítico literário italiano, nasceu em 1943. Houve um tempo em que foi professor universitário, mas abandonou a cátedra há mais de 20 anos. De qualquer forma seus textos não disfarçam a vocação pedagógica, didática, professoral. Não se trata de um ensaísta que relativize suas opiniões. Em todos os textos encontramos afirmações concretas, pontos de vista que permitem diálogo e eventual contestação, mas nunca desdém, nenhum soa vago, incerto, mal fundamentado. A edição não precisa a época em que foram produzidos, mas acredito que eles devem ter sido retirados de "Casi critici: Dal postmoderno alla mutazione", publicado em 2007 pela "Quaderni Quodlibet", todavia pelas informações do índice esse último parece bem mais extenso, de forma que a edição da Âyiné deve ter pinçado dele apenas o primeiro terço dos ensaios. O assunto é literatura, a definição do que é pós-moderno na literatura e a proposta de um novo termo para definir o que se faz atualmente na ficção, que ele grafa como a "era da mutação". Antes de dedicar-se a esses temas ele define aqueles que são identificados ou se auto intitulam intelectuais, chegando até a classificá-los, com verve e ironia, sarcasmo, deboche até. Apesar de seus exemplos gravitarem o mundo da literatura italiana, as reflexões facilmente podem ser adaptadas a qualquer grupo literário, à literatura de qualquer pais. O livro é dividido em oito capítulos curtos, onde ele se debruça a tópicos mais ou menos autônomos. A linha de chegada é a definição do papel dos escritores neste ocaso da pós-modernidade, a inserção deles em novas vanguardas artísticas. Talvez eu esteja limitando muito ao restringir suas idéias apenas ao mundo da literatura. Berardinelli também faz uso de exemplos pertinentes ao mundo do cinema, das artes plásticas, da musica. Mais que tratar da apreciação estética da literatura ou das teorias acadêmicas que se arvoram explicar os mecanismos de construção poética, Berardinelli fala da recepção das obras literárias, do fenômeno cultural que dá aos leitores, aqueles que de fato lêem, alguma presciência sobre aqueles que não lêem. Todavia esse verniz de alta cultura, quando apenas filtrado pela mídia, professores e intelectuais, quase sempre medíocres, nada mais é que uma triste e cúpida ilusão. Somos enfeitiçados como marinheiros pelas sereias no mar. Perdemos nosso tempo e dinheiro. Nos ensaios faz-se digressões sobre literatura e sociedade, história, filosofia. Ele antes faz perguntas, instiga o leitor a pensar sobre uma miriade de fenômenos: o que é um intelectual; em que medida o público de massa dos grandes eventos culturais mudou seu próprio comportamento; se as escolhas destes indivíduos em relação aos livros são de fato autônomas; se existe relação entre a participação ou acesso a estímulos culturais e a capacidade de assimilar as informações propaladas neles; sobre quantos de fato têm tempo e hábito de ler livros. Berardinelli escreve certamente antes da hegemonia das redes sociais na psique humana, mas de alguma forma antecipa tendências e fatos. Cousas como a extraordinária proporção de autores dentre os leitores, a existência de escritores que não lêem, e a própria idéia de que qualquer pessoa pode escrever seu livro (aprendendo técnicas em oficinas literárias) tem algo de vulgar. O número de leitores nunca cresce, jamais cresceu de forma significativa. Esse livro complementa um que li há décadas, o bom "Livros demais", do Gabriel Zaid, que trata dos milhares de livros que são publicados por dia. Ri um bocado das diatribes de Berardinelli dirigidas aos filósofos metafísicos; às patotas de auto-ajuda literárias;  à cumplicidade tola entre editores ambiciosos, jornalistas venais e escritores ruins; a vã esperança que a industria cultural parece ter na literatura; a inutilidade quase criminosa que é o oficio de ensinar e entediar estudantes com literatura. Gostei tanto deste volume que já li um outro livro dele editado no Brasil, mas isso fica para um outro registro. Vale!
Registro #1362 (crônicas e ensaios #243)
[início 28/12/2018 - fim: 04/01/2019]
"Esquerda e direita na literatura", Alfonso Berardinelli,
 tradução de Pedro Fonseca, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Biblioteca Antagonista #11), 1a. edição (2016), brochura 10,5x15 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-92649-11-1 [edição original: ???]