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quarta-feira, 21 de abril de 2010

fronteira iluminada

Aprendi com Frank Missell que há livros que se defendem sozinhos. É este o caso deste "Fronteira Iluminada", de Fernando Cacciatore de Garcia. Ele escolheu um assunto específico e reuniu toda a informação factual disponível a partir de uma premissa: as relações diplomáticas entre os povos. Com estas informações produziu um texto que ao mesmo tempo esclarece e ilumina (para usar uma metáfora cara a De Garcia). O livro percorre cinco séculos, dividindo as análises em quatro seções (são cinco na verdade, mas a última vale mais como uma conclusão, um fechamento do texto, que louva as boas escolhas - frutos do iluminismo - feitas pelo Brasil). Se estas quatro seções têm mais ou menos o mesmo número de páginas os sucessos que elas contam se distribuem em períodos de tempo de extensão distinta. A primeira parte do tratado de Tordesilhas e segue até fundação da cidade de Colônia do Sacramento, nascida portuguesa, hoje uruguaia. A grande ambição do rei Carlos III é definir o rio da Prata como a fronteira sudoeste dos domínios portugueses. São 260 anos de história, de indas e vindas, de movimentos ora violentos, ora discretíssimos (como costuma acontecer no mundo diplomático). A segunda parte segue da fundação de Colônia por mais uns cem anos, até sua terceira destruição, em 1777 (Colônia foi construída e derrubada várias vezes, por espanhóis e portugueses). A terceira e a quarta partes percorrem pouco tempo cada uma (os 30 anos que antecedem a vinda do rei D. João VI ao Brasil e os 55 anos que seguem até a criação do estado uruguaio, já nos tempos do rei D. Pedro II). São as mais movimentadas, pois nestes dois períodos acontecem as últimas tratativas que construíram os limites físicos do Rio Grande do Sul. São os períodos onde a disputa é mais renhida, que envolve mais ambição, movimento de tropas, escaramuças (e intensa troca de papéis). Se os sucessos, os nomes dos tratados e das regiões em disputa são mais ou menos conhecidos de todos (pois de fato estudamos tudo isto ainda no ensino fundamental) o tratamento dado por De Garcia realmente nos ensina muita coisa nova, nos acompanha no entendimento da lógica interna dos tratados e das decisões. Aprendi mesmo um bocado neste livro. Ele inclui uma boa introdução, assinada pelo historiador Gunter Axt, copiosas notas e excelentes ilustrações e mapas, que ajudam o leitor a acompanhar sua linha de raciocínio. Fiquei a pensar se é verdade que a história apenas ilumina o já vivido, não justificando o que se passou. Pequenas perturbações, diferentes decisões, poderiam dar um outro rumo para a delimitação destas fronteiras. Parece que assim como Portugal é um capricho inglês, o Uruguai é um capricho brasileiro. Eu, morador da região central do Rio Grande do Sul, poderia estar na fronteira sul do Brasil, lindeiro de um grande Uruguai, que seguiria mais rumo ao norte, até o oeste do Paraná. Ou também poderia estar na parte norte de um Uruguai onde se falasse português e cuja capital fosse uma imponente Colônia do Sacramento, maior e mais influente que uma talvez provinciana Buenos Aires. Estas especulações são minhas, livremente inspiradas pelo belo texto produzido por Fernando de Garcia. É um texto que interessa não apenas o gaúchos, ciosos de seu papel fundamenal na "peleia" por estas terras fronteiriças, mas também pelos demais brasileiros. Só lamento ter perdido o lançamento do livro, lá no porto-alegrense Solar dos Câmara, mas esta é outra história. [início 08/04/2010 - fim 16/04/2010]
"Fronteira iluminada: História do povoamento, conquista e limites do Rio Grande do Sul, a partir do tratado de Tordesilhas 1420 - 1920", Fernando Cacciatore de Garcia, editora Sulina, 1a. edição (2010), capa dura 16x23 cm, 333 págs. ISBN: 978-85-205-0555-7

sábado, 7 de março de 2009

o príncipe irreal

Em novembro do ano passado, quando da feira do livro de Porto Alegre, encontrei meus amigos livreiros, entre eles o André Gambarra da Nova Roma e o industrioso Marcos Lindenmayer. Estávamos todos acompanhando o folhetim do Tailor Diniz, pinçando a miríade de citações e homenagens que o Tailor incluia na história de detetives que contava. Foi divertido. Mas o André e o Marcos estavam a trabalho, lançando vários livros por lá. Através deles acabei conhecendo o Fernando de Garcia, que lançava ali seu "O príncipe irreal e o poeta errante". Segundo ele alguns poemas terçavam com a física e a metafísica. Comprei o livro, li um punhado de páginas mas acabei desviando por outras histórias. Agora mais recentemente, ainda encantado com os poemas de Sylvia Plath resolvi retomaro livro do Fernando. Bom, a edição é muito bem cuidada, com capa dura, bela diagramação e costuras, ilustrações (de Edu Oliveira) que dialogam com o texto e lembram um tanto as cousas do Magritte. São dois conjuntos de poemas. O maior é de 1973, dos tempos que o Fernando de Garcia estava no serviço diplomático brasileiro, viajando mundo afora, errante poeta experimentando a vida. O conjunto menor me parece mais recente, talvez todo ele de 2008 mesmo, mas igualmente fruto de deslocamentos e viagens. Os dois conjuntos mantem um diálogo, como se o Fernando voltasse no tempo e estivesse a conversar com aquele outro autor, após trinta e cinco anos. O segundo conjunto de poemas é quase todo ele dedicado a terceiros, aumentando assim o círculo de interlocutores das conversas que ele estabelece através dos poemas. Os temas são bastante variados, ora ele fala de um encontro em um Rio de Janeiro estival, ora de um beijo roubado na Tailândia, ou ainda conta o percurso por uma rua movimentada de Porto Alegre refletindo um tanto. Em muitos de seus poemas surge o ouro (uma potência ou deidade, quem sabe?), os amigos, os enigmas da vida. Armindo Trevisan assina uma curta introdução, boa de se ler. Estes dias vagabundos de férias se prestam ao vagar que a leitura dos poemas exigia. Bons dias de leitura. [início novembro/2008 - fim 10/02/2009]
"O príncipe irreal e o poeta errante", Fernando Cacciatore de Garcia, editora Nova Roma (1a. edição) 2008, capa dura 17x25, 96 págs. ISBN: 978-85-60859-01-6