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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

últimas palavras

Nesse pequeno livro acompanhamos as últimas palavras de um grande polemista, de um sujeito que nunca teve medo de defender suas idéias. Dele já havia lido o seminal "Deus não é grande", um impressionante ensaio onde ele defende as vantagens da inteligência e do secularismo, em contraposição ao obscurantismo, a fé religiosa e o medo. Hitchens descreve como descobriu por acaso que estava com câncer já em estágio avançado, justamente no dia em que seu livro de memórias alcançava o primeiro lugar em uma lista de livros mais vendidos nos Estados Unidos (a vida sabe proporcionar ironias deste tipo). Sabendo que os ateus jamais devem oferecer consolo ele não pede solidariedade nem palavras de incentivo. Estóico que era, ele apenas pede que o leitor acompanhe suas digressões, como num rito de despedida. Se um leitor ficar com dúvidas se deve ou não ler o livro não deve experimentar o primeiro parágrafo, incrívelmente sedutor: "Mais de uma vez em minha vida acordei com a sensação de estar morto. Mas nada me preparou para o começo da manhã de junho em que recobrei a consciência sentindo-me como que acorrentado a meu próprio cadáver." Depois de um início como esse é impossível largar o livro, por mais que as detalhadas descrições de quimioterapias, radioterapias e outros procedimentos médicos sejam devastadoras. De qualquer forma trata-se de um livro curto, como curtos foram os dias que se seguiram a descoberta de seu câncer, já que pouco mais de um ano e meio o separaram da morte. Carismático, vibrante, hiper-ativo, Hitchens viveu uma vida plena, e como ateu determinado, soube escolher seus embates, direcionar sua inteligência e língua afiada, esgrimir sua lógica e argumentos demolidores até o final. Para ele o que deve-se evitar com fúria é imergir no "reino da ilusão", acreditar nos programas que incentivam a "idiotice das metáforas que comparam os tratamentos como batalhas contra o câncer que sejam possíveis de serem vencidas". Os auto-enganos sempre custam caro.
[início: 27/01/2013 - fim: 29/01/2013]
"Últimas palavras", Christopher Hitchens, tradução de Alexandre Martins, Rio de Janeiro: editora Globo, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 91 págs., ISBN: 978-85-250-5274-2 [edição original: Mortality (New York: Twelve Books / Hachete Book Group) 2012]

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

deus não é grande

Estamos já no estágio avançado de uma guerra aberta. Curiosamente trata-se de uma guerra que estamos perdendo feio. A guerra se dá entre nós (eu explico este nós depois) e as forças da ignorância e do obscurantismo, fortemente armadas e com miríades de adeptos. Nós para mim é cada um que tenha a civilização como um valor. Acontece que nós, aquelas pessoas que vivem no século XXI e preza valores seculares e humanistas tende a não se preocupar com os sinais ameaçadores no horizonte. Sendo pessimista (como afinal de contas deve-se sempre ser) o mundo como nós conhecemos está em vias de ser tomado de assalto por uma legião de inquisitores sedentos de sangue. Hoje em dia as pessoas que professam alguma crença em força superior, em um deus, em duendes e feiticeiros, em poderes mágicos transcendentais, em alguma religião organizada não têm mais pejo em afirmar os maiores absurdos como se estivessem apresentando fatos irrefutáveis. A grande verdade é que a religião envenena tudo. É uma perversa forma de dominação e está no mercado já há tempos, aprendeu todas as regras e truques de dominação, desde as mais sutis até as mais canalhas.A religião envena tudo. Este é o argumento principal deste seminal livro de Christopher Hitchens. Quando vemos uma ministra de estado defendendo o criacionismo; quando um grupo utilizando brechas na torpe legislação brasileira se une para intimidar jornalistas; quando um grupo de patetas decide proibir pesquisas pelo simples fato de não compreendê-las; quando um bush da vida desafia o bom senso; quando um ministro do judiciário posterga pesquisas sobre células-tronco pelo simples fato de ser um católico praticante, quando uns ferozes bárbaros se insurgem contra o aborto e o sexo; quando se tenta dar o falso status de ciência a mágia e ao obscurantismo, estamos tratando dos avanços das legiões dos adeptos de alguma religião. Para mim este livro deveria ser lido por qualquer pessoa minimamente interessada que um mundo secular, humanista, onde valores do iluminismo e da modernidade sejam preservados e continuem existindo. Não se interessar por este tema, não ler este livro (e lê-lo como quem se prepara para um grande combate) tem como única alternativa a volta bovina para as cavernas escuras da estupidez, onde entregaremos nossas vidas aos desejos patológicos dos proselitistas das religiões (sejam elas quais forem: cristianismo, judaismo, hinduismo, islamismo, protestantismo, budismo, espiritismo, paganismo, esoterismo, cientologia, religiões moderninhas, descoladas, etc e tal, enfim, não há a menor diferença prática nos objetivos destes senhores da guerra). Prepare o seu tacape ou seu taco de beisebol.
"deus não é grande", Christopher Hitchens, tradução de Alexandre Martins, editora Objetiva, 1a. edição (2007) brochura 15,5x23,5cm, 286 pág., ISBN: 978-85-00-02231-9