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domingo, 26 de abril de 2020

a triste balada dos herculóides contra as leis terrenas


Do Odemir Tex Jr. já havia lido os bons poemas de "Para uma nova didática do olhar", uma edição cartonera, de 2013. "A triste balada dos Herculóides contra as leis terrenas" é seu trabalho mais recente, publicado no final de 2019. Trata-se de uma reunião de 26 poemas, divididos em quatro conjuntos. As epígrafes desses conjuntos já mostram algo do caminho trilhado pelo autor, algo de sua proposta. São citações de Gilberto Mendonça Teles, Wilsawa Szymborska, Tim Burton e Jim Morrison. As duas primeiras, registros que tendem ao erudito, à alta cultura, as duas seguintes, de apelo popular, do "pop" do subtítulo do livro (uma poemática pop-barroca). Nos poemas acompanhamos um narrador que percorre caminhos da memória, de um passado de formação, de estímulos, sensibilizações, aprendizados. É um narrador que, seguindo o mote de Gilberto Mendonça Teles, já na primeira das epígrafes, avisa que "sempre há armadilhas no discurso". Assim, o controle das formas poéticas, virtuosismo, influências do cânone, se infiltram nos poemas, sem fazer alarde. Neles não há "palavras gordurosas", rebuscamentos bestas, léxico de alfarrabistas. O foco sempre está nos substantivos das frases, ou melhor, dos versos. Navegamos, guiados pelo narrador, por um mar de escolhos da juventude, num mundo idílico: histórias em quadrinhos, anúncios de televisão, desenhos animados, revistas pornográficas, coleções polimorfas, filmes em preto e branco, sessões de cinema cult, o desejo de um mundo bom. No último poema do volume o narrador poeta  confronta um velho anarquista, acusa a passagem do tempo, sente-se cansado, começa até acreditar que deve esquecer tudo que poetou antes, mas encontra consolo nas palavras sábias do velho anarquista que diz: "Cada homem traz dentro de si / toda uma época, / do mesmo modo que cada onda / traz dentro de si todo o mar". Evoé, don Tex, Evoé! Vale! 
Registro #1520 (poesia #128) 
[início: 13/04/2020 - fim: 17/04/2020] 
"A triste balada dos Herculóides contra as leis terrenas: uma poemática pop-barroco", Odemir Tex Jr., Jundiaí: Telucazu Edições, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-69708-38-4

sábado, 24 de maio de 2014

4-3-3 e o porteiro do estádio

São doze histórias que gravitam o mundo do futebol. O título do livro, 4-3-3, faz menção a um esquema tático típico do final dos anos 1960 e início dos anos 1970 (hoje em dia o mais popular é o 4-5-1). Onze textos são escritos por autores que emulam cada uma das posições dos jogadores dentro de campo (goleiro, lateral-direito, zaqueiro-central, quarto-zagueiro, lateral-esquerdo, centromédio, meia-direita, meia-esquerda, ponta-direita, centroavante e ponta-esquerda) e um outro utiliza-se da figura de um porteiro de estádio na narrativa. Algumas histórias são organizadas em torno da posição dos jogadores de forma mais fidedigna, ou seja, o que é narrado associa-se mais diretamente com a função daquele jogador dentro de campo, noutras esta ligação é mais frouxa ou inexistente. Isso não é exatamente um problema, mas como o projeto está organizado nesta representação, talvez fosse o caso de explorar melhor o posicionamento tático (no futebol) com a técnica e/ou proposta de cada um dos contos. A última das histórias acaba se destacando por ser a última (claro), por ser desenvolvida através de cartas e por dar conta, ao menos lateralmente, da gênese do futebol no Rio Grande do Sul (afinal é um time gaúcho, o Sport Club Rio Grande, o mais antigo clube de futebol do Brasil em atividade). Quem gosta de futebol se identificará com as histórias compiladas nesse livro, afinal o futebol, território ao qual se debruçam curiosos de todas as classes sociais, presta-se a qualquer experimento cultural, antropológico, sociológico, histórico e, porque não, literário. Além disso, compilações desse tipo sempre são interessantes para todo aquele curioso sobre a produção literária contemporânea (no caso, desta pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, nossa Santa Maria da Boca do Monte). E vamos em frente (sem esquecer que a copa do mundo de futebol está logo ali, nos esperando, sabe-se lá com que terríveis conseqüências).
[início: 27/04/2014 - fim: 05/05/2014]
"4-3-3 e o porteiro do estádio", Athos Ronaldo Miralha da Cunha (organizador), Antônio Cândido de Azambuja Ribeiro, Francisco Ritter, Iuri Müller, José Luiz dos Santos, Maria da Graça Rodrigues, Odemir Tex Junior, Orlando Fonseca, Pedro Brum Santos, Raul Giovani Cezar Maxwell, Tânia Lopes, Vitor Biasoli, Porto Alegre: editora Movimento (coleção Rio Grande, volume 156) / Santa Maria - RS: editora Athena Livros e Revistas, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-7195-225-6

quinta-feira, 16 de maio de 2013

para uma nova didática do olhar

"Para uma nova didática do olhar" reúne três ciclos de cinco poemas ("Ilíada", "Navigare Necesse" e "Panis et Circences"). São quinze peças poéticas muito delicadas, curtas mas potentes, férteis em associações, ricas em imagens. Um mundo grego e o mar parecem brotar de um circo, de um campo de futebol, de um cinema de cidade pequena. Odemir Tex Jr. registra o mundo das grandes descobertas infantis, da camaradagem dos que se sabem iguais, daqueles que crescem juntos e vivem, plenamente, sem temor. Mas quem escreve não é um menino, um jovem, nem um saudosista de afetos infantis, mas sim um autor muito seguro de si, que denuncia em seus versos ser um leitor rigoroso de clássicos (Homero, Melville, Borges, Pessoa), de conhecer muito da tradição de seu ofício. Os poemas sabem se defender sozinhos (e vários deles já foram premiados ou publicados anteriormente em antologias). A forma em que são apresentados os poemas, o livro que os enfeixa, faz parte de um projeto muito interessante. Trata-se de uma "edição cartonera", um formato de edição artesanal onde a encadernação é feita com capas de papelão trabalhadas artisticamente, o que torna cada exemplar uma peça única (meu exemplar é numerado 85/176 e pode ser rastreado pela editora - não sei exatamente como, mas sei que ao menos a editora sabe que este exemplar foi comprado por mim, o que nos torna algo cúmplices, Tex, a editora Estrela Cartonera, o volume que acolhi em meus guardados e eu). Este processo editorial surgiu há cerca de dez anos, na Argentina, e tem sido utilizado por artistas plásticos, fotógrafos e escritores - sobretudo na América Latina, como alternativa aos meios tradicionais de publicação. Não sei se cada exemplar poderia mesmo ser definido como um "livro de artista", mas o método de produção do livro lembra algo daquele formato. Poesia de primeira num livro-objeto de primeira, o quê mais faria um leitor feliz?
[início - fim: 23/04/2013]
"Para uma nova didática do olhar", Odemir Tex Jr., Santa Maria: editora Estrela Cartonera, 1a. edição (2013) capa de papelão 15x21,5cm., 42 págs., ISBN: 978-85-66301-08-3

quinta-feira, 28 de maio de 2009

o gol iluminado

No Rio Grande do Sul futebol é levado a sério, você não pode simplesmente ter um time e eventualmente torcer por ele, você deve manifestar seu encantamento sempre que possível e preferencialmente em voz alta. Metade dos viventes destes pagos são gremistas, metade colorados. Os dois times estão entre os mais vitoriosos e são respeitados Brasil afora. Neste ano o Internacional comemora seu centenário, pois foi fundado no dia 04 de abril de 1909. Festas mil pintaram de vermelho as cidades do Rio Grande do Sul e aqui em Santa Maria não foi diferente. Um grupo de colorados cá da cidade lançou um livro de crônicas futebolísticas neste dia de centenário. Não estive lá, santista que sou, mas soube que foi um dia especial. O Athos foi o grande capitão desta empreitada. Lembro-me bem dele perguntar-me mais de um ano atrás se fulano ou beltrano que moram no meu prédio eram colorados, pois gostaria de convidá-los para um "projeto", como ele gosta de dizer. De fato Athos descobriu esta veia de empreendedor literário, um motivador/quase editor de projetos e os livros tem saído cada vez mais bem acabados, mais bonitos e com o conteúdo mais bem trabalhado também. Ele convidou seis colorados da gema, de diferentes gerações e profissões. Cada um contribuiu com oito ou dez crônicas sempre focadas no futebol e nas passagens míticas nas quais se envolveu o Internacional nestes cem anos. Cada um deles (Athos, Zanatta, Zé Mauro, Maiquel, Tex, Pedro, Tânia) tem um estilo pessoal e uma forma específica de se expressar, mas encontramos em todos a paixão, o encantamento, o prazer de torcer, típicos de quem leva mesmo o futebol a sério. São histórias boas de se ler, embora eu perca um ou outro detalhe besta. A capa é do Elias Monteiro, muito boa por sinal. O título do livro, "O gol iluminado", é homenagem a um certo gol que eu mesmo nunca vi, o gol da vitória contra o Cruzeiro na decisão do campeonato brasileiro de 1975, feito por um outro Elias, o Figueroa. Antes que um gremista me aborreça prometo que vou ler algo sobre o grêmio e resenhar aqui (não é bom se envolver em brigas com estes irredutíveis gauleses, digo, gaúchos, seja de que time for). Bom divertimento. [início 04/04/2009 - fim 05/05/2009]
"O gol iluminado", Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Humberto Gabbi Zanatta, José Mauro Batista, Maiquel Rosauro, Odemir Tex Junior, Pedro Brum Santos, Tânia Lopes, editora Manuzio (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 144 págs. ISBN: 978-85-7782-061-0