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sábado, 4 de março de 2017

nomes de lugares

Noutro dia encontrei esse volume das adaptações que Stéphane Heuet, designer e quadrinista francês, tem feito do ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. A experiência de ler essas adaptações jamais substituirá os encantos dos originais, mas deve-se reconhecer que elas são muito bem feitas. O leitor entra no clima dos livros, alcança algumas das alegrias do texto por meio das soluções gráficas produzidas por Heuet. Neste volume (o sexto da coleção produzida até aqui por Heuet) encontramos um dos menores capítulos, "Nome de lugares: O nome", que é justamente o que encerra o primeiro volume do ciclo. Nele encontramos os fragmentos de memórias do narrador de seus dias de juventude, quando imaginava viagens para lugares caros à sua imaginação, como Florença, Parma, Balbec e Veneza, e quando fez os primeiros contatos mundanos com Gilberte, a filha de Odette e Swann, e também com a própria Odette. Assim, as tardes no Bois de Boulogne ou nos Champs-Élysées existem apenas para esses dois propósitos quase amorosos: os encontros para jogos e brincadeiras infantis com Gilberte ou a discreta corte à Sra. Swann, pessoa que a família do narrador interdita de visitá-los oficialmente. É difícil dizer se um dia Heuet alcançara terminar suas adaptações do ciclo. Gostaria mesmo de ver esse projeto finalizado. A edição brasileira continua bem cuidada. Incluí um mapa da Paris retratada no livro, bem como um glossário dos personagens e uma miríade de informações complementares, dirigidas àqueles pouco familiarizados com a obra de Proust e que possibilitam uma apreciação mais prazerosa do livro. Divertido, mas vamos em frente. Em tempo: [Semanas atrás morreu um sujeito que eu admirava muito, autor de um projeto semelhante a este de Heuet, um irlandês chamado Frank Delaney. Ele produzia podcasts semanais com segmentos do Ulysses, de James Joyce. Sua voz, ritmo e humor sempre foram uma inspiração. Ele chegou a gravar integralmente os nove primeiros capítulos do livro, e avançava bem pelo décimo, quando a morte interrompeu seu projeto no último 22 de fevereiro. É pena]
[início 20/02/2017 - fim 21/02/2017]
"Em busca do tempo perdido - No caminho de Swann: Nomes de lugares (volume 6)", Marcel Proust, adaptado e desenhado por Stéphane Heuet, tradução de André Telles, Rio de Janeiro: editora Zahar, 1a. edição (2014), capa dura 21x28 cm, 52 págs. ISBN: 978-85-378-1304-1 [edição original: À la recherche du temps perdu (Du côté de chez Swann - Noms de pays: le nom) Guy Delcourt productions, Paris 2013]

sexta-feira, 22 de abril de 2016

em busca do tempo perdido

Esta versão em mangá de "Em busca do tempo perdido" é um volume de uma série publicada originalmente pela editora japonesa East Press, criada em 2007 para difundir os clássicos da literatura para o público não exatamente entusiasmado em enfrentar as dificuldades dos textos originais. Já registrei aqui, desta mesma coleção, uma tradução para o inglês da versão em mangá do Ulysses. Assim como em relação àquele livro de James Joyce essa versão do ciclo de Marcel Proust tem soluções interessantes e tolices incríveis. Isso é previsível, afinal o conjunto de mais de 3500 páginas do original (na versão de bolso da Gallimard) não poderia metamorfosear-se em uma história em quadrinhos de 400 páginas. Paciência. Os episódios mais conhecidos dos sete volumes do ciclo estão lá. Encontra-se algumas das epifanias e imagens poderosas criadas por Proust, assim como as moças em flor em Balbec; os salões de Paris; os passeios pela alameda das acácias; os ensinamentos de Elstir e da avó de Marcel; entre dezenas de passagens emblemáticas com o Barão de Charlus, Gilberte, Oriane, Madame Verdurin, Saint-Loup, Odette e Charles Swann. Livreto para se divertir. Sempre há a esperança que um jovem leitor, curioso com os sucessos da versão em quadrinhos um dia se anime a enfrentar os desafios do original.
[início: 15/03/2016 - fim: 15/04/2016]
"Em busca do tempo perdido", Marcel Proust, tradução de Drik Sada, adaptação e ilustrações Equipe East Press, Porto Alegre-RS: editora L&PM (coleção Pocket vol. 1187 / mangá), 1a. edição (2015), 11x18 cm., 400 págs., ISBN: 978-85-254-3230-8 [edição original: Ushinawareta toki wo motomete (Tokyo: Manga de Dokura / East Press) 2009]

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

salões de paris

Quando soube da edição de "Salões de Paris" fiquei realmente entusiasmado. São vinte e duas crônicas, publicadas originalmente em jornais e revistas francesas e que foram reunidas em livro pela primeira vez ainda em 1927. A maioria (quatorze) das crônicas foram publicadas no jornal Le Figaro, entre 1903 e 1913, mas há também trabalhos mais antigos, dos anos 1890, publicados nas revistas Le Gaulois (um), Le Mensuel (cinco), Revue d'Art Dramatique (um), Revue Blanche (um). Metade das crônicas são assinadas por Proust. Nas demais foram utilizados pseudônimos que especialistas acreditam terem sido efetivamente criados por ele. Quem já teve a experiência de ler todo o ciclo "Em busca do tempo perdido" vai ter uma boa cota de alegrias. Ao menos oito dos textos são de fato narrativas ficcionais que foram adaptadas posteriormente nos volumes do ciclo (publicado originalmente entre 1913 e 1927). O leitor encontrará narrativas que lembram várias das passagens mais poderosas daquele ciclo: (i) a dos passeios do narrador com seus pais por dois caminhos (o de Swann e o de Guermantes); (ii) a descrição das virtudes (e vicissitudes) de sua avó; (iii) o retrato de um jovem valoroso (um Robert Saint-Loup ainda pálido); (iv) a associação entre uma menina e uma sebe de pilriteiros, as visitas que fazia a um parque parisiense para vê-la passear; (v) a vista oblíqua dos campanários de uma igreja no horizonte; (vi) o sonho de uma viagem há muito prometida pelos pais (para Florença aqui, mas que sabemos ser para Veneza na versão final do ciclo); (vii) as comodidades de um hotel de praia distante da Normandia; (viii) o reencontro de um narrador com uma velha amiga após anos de isolamento e as dificuldades da senhora em reconhecê-lo. Nenhum desses textos antecipa exatamente sua metamorfose em livro, mas é curioso lê-los e acompanhar sua gênese. O livro incluí também textos absolutamente mundanos: descrição dos vestidos, adereços e da melhor toalete da temporada; a lista interminável dos participantes de uma recepção em Versalhes; outra com várias dezenas de artistas plásticos que mereciam serem visto numa determinada época; hiperbólicas críticas literárias de livros aparentemente irrelevantes; comentários ora jocosos e ferinos ora no limite da bajulação dos salões musicais e literários de que participa. A leitura é sempre divertida, aprendemos um bocado e recordamos aquela atmosfera tão original criada por Proust. Apesar da edição do livro ser realmente bonita de se ver (com lombadas douradas, uma capa bem produzida e vários outros mimos) o livro é frágil demais. Acredito que a capa deveria ser colada de outra forma. Não acreditei quando vi um livro tão bonito perder a capa tão rapidamente. Eu incluiria também notas identificando exatamente que passagens das crônicas acabaram sendo incorporadas (ao menos em parte) na versão final dos romances do ciclo (teimosos contumazes como eu irão até seus guardados e farão a procura para eventualmente cotejar as passagens, mas os editores poderiam facilitar a vida daqueles não completamente familiarizados com os livros). De qualquer forma Proust sabe se defender sozinho. Vale.
[início: 18/08/2015 - fim: 17/08/2015]
"Salões de Paris: Marcel Proust", Marcel Proust, tradução de Caroline Fretin de Freitas e Celina Olga de Souza, São Paulo: editora Carambaia, 1a. edição (2015), capa-dura 12x20 cm., 208 págs., ISBN: 978-85-69002-03-1 [edição original: Chroniques (Paris: La Nouvelle Revue Française / Gallimard) 1927]

terça-feira, 28 de outubro de 2014

días de lectura

Semanas atrás Marilda e Leonardo convidaram-me para falar sobre Joyce e Proust para seus alunos. Foi uma tarde produtiva, divertida, agradável. O bom destas ocasiões é que inevitavelmente voltamos aos originais, seja para dirimir alguma dúvida que surge do nada, de repente, seja para nos certificar de um detalhe bobo que gostaríamos incluir na palestra. Também relemos aqueles textos de apoio que são necessários uma vez mais, por muito que estejamos familiarizados com o assunto sobre o qual iremos falar. Foi assim que retirei dos guardados e reli um ensaio de Samuel Beckett (que em breve registrarei aqui) e esse pequeno livro (que achei em um sebo madrilenho, em fevereiro, como que por encanto). Em "Días de leitura" estão reunidos ensaios curtos de Marcel Proust. Os ensaios são: "John Ruskin" (extraído de Pastiches et Mélanges), "Dias de leitura" (prefácio incluído na tradução que Proust fez do "Sésame et les Lys" de Ruskin), "Sobre o método de Sainte-Beuve" (vários trechos extraídos do Contre Sainte-Beuve) e "Swann explicado por Proust" (incluído em Essais et Articles, mas produzido para um jornal da época do lançamento do primeiro volume de sua série "Em busca do tempo perdido"). Os textos falam sobretudo do entendimento possível das obras que lemos (Proust fala de Ruskin e de Saint-Beuve - e da obra dos dois - cotejando-as com conceitos filosóficos, referências de teóricos de arte e literatura, além dos textos ficcionais de seus contemporâneos). Aprendemos que a boa leitura é exatamente uma boa conversação com homens muito mais sábios e interessantes que aqueles que eventualmente temos chance de conhecer em nosso redor, na vida cotidiana (Proust escreve no início do século XX, o que dizer então da mediocridade encarnada reinante deste ridículo início de século XXI). O livro incluí várias notas de rodapé, uns mimos eruditos que fazem a festa do leitor que gosta de detalhes e das fontes originais. Leitura mais do que satisfatória, uma verdadeira educação dos sentidos.
[início: 13/07/2014 - fim: 15/10/2014]
"Días de lectura", Marcel Proust, tradução de Alicia Martorell e Núria Petit Fontserè, Madrid: Taurus (Great Ideas) Santillana Ediciones Generales (Grupo Prisa), 1a. edição (2012), brochura 11x18 cm., 134 págs., ISBN: 978-84-306-0933-8 [edição original: extratos de Contre Sainte-Beuve (Paris: Bernard de Fallois) 1954, Pastiches et Mélanges (Paris: La Nouvelle Revue française) 1919 e Essais et Articles (Paris: Gallimard) 1971]

quinta-feira, 1 de março de 2012

o tempo redescoberto

Ler Proust não representa a felicidade, mas não ler Proust é insuportável. Bem disse isso uma vez don Renato Cohen, que partilhou comigo sua leitura dos volumes do ciclo "Em busca do tempo perdido". Nestas últimas semanas reli "O tempo redescoberto", vinte e cinco anos após a primeira vez, como vi anotado no surrado volume que retirei de meus guardados. Reli imerso em sensações boas, desfrutando cada parágrafo, refletindo sobre as idéias, lendo passagens em voz alta para doña Helga, retardando a inevitável chegada a página final, como quem lamenta antecipadamente a perda de um grande bem, de uma jóia rara.  Os aborrecimentos da vida pareceram mais toleráveis, tolos, desprezíveis. Cronologicamente este deve ter sido o primeiro dos livros imaginado por Proust, já que dá conta da gênese dos romances do ciclo. Tão devastadora é a passagem do tempo sobre as personagens e sobre os valores mundanos da sociedade descrita por ele que pouco resta ao leitor, a não ser refletir sobre suas próprias histórias, seus amores, seu comportamento, suas vitórias e derrotas, suas mazelas e diatribes cotidianas. Proust divide este livro em três capítulos, mas os dois primeiros são bem curtos, formam peças que complementam, retrospectivamente, os sucessos daquilo que lemos nos dois volumes anteriores, "A prisioneira" e "A fugitiva" (e também algo dos demais: Sodoma e Gomorra, No caminho de Swann, À sombra das raparigas em flor, O caminho de Guermantes). O narrador descreve inicialmente como ficou impossibilitado de frequentar as recepções e festas durante um longo período de tempo, por conta de problemas de saúde. No primeiro capítulo ele fala de seus dias em Tansonville, nos anos que antecedem a primeira grande guerra, sendo recebido por Gilberte, com quem relembra os anos de infância e primeira juventude. A metamorfose pela qual passa Saint-Loup é algo inesperado (lembro-me que Paulo Francis defendia ser injustificado), mas se encaixa bem no projeto global do ciclo. O narrador reconhece finalmente sua incapacidade de conceber um projeto literário, como almejava desde muito jovem. No segundo capítulo, já nos anos finais da grande guerra, ele descreve um encontro com o Sr. de Charlus, metamorfeado por sua vez em uma espécie de rei Lear, um homem cujo corpo decrépito encerra uma mente ainda ágil e inteligente, que quase inspira compaixão do leitor. Mas é no terceiro capítulo, onde o narrador descreve sua ida a uma grande recepção na casa dos príncipes de Guermantes, após sua segunda longa internação em um sanatório, que domina o volume. Este capítulo é ao mesmo tempo uma síntese do projeto literário que o narrador programa empreender e um desfecho de todas as histórias mundanas que foram desenvolvidas nos volumes anteriores. Ao se deslocar para a festa o narrador experimenta uma série de epifanias (há um pequeno ensaio de Samuel Beckett onde ele fala do acumulo de sensações que estas epifanias provocam no leitor). Estimulado por estas sensações, que o fazem entender as diferenças entre o valor da memória voluntária, inteligente e o da memória involuntária, ele, ao ser finalmente admitido ao salão principal da recepção, já tem a concepção completa de seu longo romance, que enfeixará miríades de histórias, como nos contos árabes das mil e uma noites. As camadas de entendimento possível sobre cada personagem, sobre o papel de cada personagem no mosaico social a que pertence, sobre a forma como cada indivíduo é lembrado pelas gerações que advêm sucessivamente exemplificam para o leitor o efeito da passagem do tempo. A idéia da morte assusta o narrador, pois ele imagina que talvez não tenha tempo de colocar no papel tudo o que já idealizou, mas a idéia da morte não é um obstáculo, mas sim justamente o contrário, um catalisador do processo criativo. Livros como este emparedam de alguma forma o coração de um sujeito, aprendemos que não há nas relações sociais valores intrínsicos e/ou imutáveis, que a vida é mesmo um sopro, que a energia que depreendemos para manter uma posição social, um papel na sociedade, não vale muita coisa. Um leitor preguiçoso talvez pudesse apenas ler este capítulo. Claro, ele perderia infinitas maravilhas, inúmeros prazeres, incontáveis momentos de alegria, mas poderia dizer que entende qual é o projeto do livro, do que é mesmo que se trata na obra de Proust. Talvez eu tenha a sorte de viver uns outros vinte e cinco anos e tenha a sorte de reler os volumes deste ciclo. Gostaria de saber como será a encarnação do velho e cansado Guina aos setenta e cinco anos (um senil consumido pelo Alzheimer, incapaz de compreender as sutilezas das histórias ou um senhor de longas cãs e bonachão, já menos amargo, que desfruta novamente o jardim de delícias criado por Proust). Logo veremos. [início 17/02/2012 - fim 29/02/2012]
"Em busca do tempo perdido: O tempo redescoberto (vol.7)", Marcel Proust, tradução de Lúcia Miguel Pereira, Porto Alegre: editora Globo, 7a. edição (1983), brochura 14x21 cm, 252 págs. sem ISBN [edição original: Le Temps retrouvé (éditions Gallimard), 1927]

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

a fugitiva

Ainda em janeiro do ano passado eu havia decidido reler o ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, como forma de comemorar meus cinquenta anos. Comecei pelos volumes bens reeditados pela editora Globo a partir de 2006. Todavia eles não conseguiram até agora produzir - sabe-se lá por quê - os dois últimos volumes (este A Fugitiva e O tempo redescoberto). Voltei então a meus surrados volumes de vinte e cinco anos atrás. Eles estão bem amarelados, as folhas quase teimando em se soltar, mas ainda se prestam aos prazeres da leitura. Metade de "A fugitiva" segue quase imediatamente os sucessos de "A prisioneira". Após a intempestiva fuga de Albertine o narrador passa a alternar dois sentimentos contraditórios: lamenta a perda dos prazeres de sua companhia e se alegra com o tempo que poderá dedicar a seus projetos literários. Mas como o hábito é um amigo cruel logo faz com que o ciúme fale mais alto e o narrador passa a se esforçar por reencontrá-la. Infelizmente, com o tempo, ele acaba tendo uma surpresa ainda mais atroz que a confirmação de suas suspeitas em relação aos relacionamentos amorosos de Albertine. A segunda metade do livro tem três capítulos curtos que antecipam as revelações do último volume do ciclo. No primeiro reecontramos Gilberte Swann, por quem um dia o narrador foi um devoto apaixonado. Ela tornou-se uma herdeira muito rica, sutilmente disputada por aristocratas, apesar dos preconceitos em relação a sua ascendência judaica e do passado duvidoso de sua mãe. No segundo destes capítulos o narrador finalmente visita Veneza com sua mãe, afastando-se dos aborrecimentos mundanos e sofrimentos que a lembrança de Albertine provocavam. Aparecem os primeiros argumentos sobre a implacável passagem do tempo nos personagens (que serão explorados no volume final do ciclo). Descobrimos que a velhice só não retira o desejo das pessoas. A geografia desta parte é algo confusa, mas qualquer pessoa que já tenha tido a fortuna por flanar por Veneza suspirá seus ais junto com o narrador. O capítulo final também apresenta surpresas. Robert de Saint-Loup se casa com Gilberte Swann, de certa forma unindo os dois caminhos da infância do narrador em Combray (os caminhos de Swann e de Guermantes). Mas o Saint-Loup que reencontramos é um personagem diferente. Mas sobre metamorfoses como esta, que mais de surpreendentes são habilmente descritas pelo narrador, escreverei só após reler "O tempo redescoberto". Comparado com todos os volumes anteriores este tem um ritmo frenético, mas não pela movimentação dos personagens e sim por toda a realidade que é imaginada. Com o material que acumulou nos volumes anteriores Proust parece construir todo um mundo novo em poucas páginas. Impossível não ficar encantado com o poder de sua imaginação. [início 02/02/2012 - fim 09/02/2012]
"Em busca do tempo perdido: A fugitiva (vol.6)", Marcel Proust, tradução de Carlos Drummond de Andrade, Porto Alegre: editora Globo, 6a. edição (1983), brochura 14x21 cm, 214 págs. sem ISBN [edição original: Albertine Desparue (éditions Gallimard), 1927]

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

a prisioneira

"A prisioneira" é o quinto volume do ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. Foi publicado postumamente, em 1923 (assim como os dois volumes restantes: A fugitiva e O tempo redescoberto). " A prisioneira" é quase um tratado de psicologia humana. Proust contrasta o relacionamento de um casal com a vida em sociedade, demonstrando como as relações mundanas que estabelecemos em nosso grupo social são tão enganadoras como aquelas que experimentamos na intimidade. Ele fala da impossibilidade de compreender verdadeiramente qualquer indivíduo, por mais próximo que esteja de nós. O que é narrado segue imediatamente os sucessos de Sodoma e Gomorra. O livro é dividido em três seções. A primeira e a última falam da vida do narrador com Albertine, a segunda do rompimento entre os Verdurin e o barão de Charlus. Factualmente, o que é narrado se passa em poucos dias, mas a magia de Proust alcança apresentar ao leitor coisas do passado remoto do livro - dos outros volumes do ciclo: No caminho de Swann, À sombra das raparigas em flor, O caminho de Guermantes - e já antecipar seu desfecho (que é o da concepção de escrever o livro que o leitor está a ler). O narrador passa a viver com Albertine, alternando jogos sexuais e compras, com absoluto controle sobre ela. Além da governanta da família, Françoise, e a mãe, que é comunicada por cartas do que se passa, ninguém de seu círculo de amizades sabe desta vida em comum. A contradição fundamental do narrador é identificar no sofrimento e no ciúme a força motriz de seu amor por Albertine. Sem sofrimento não há amor, apenas tédio e aborrecimentos. Ele sabe que a solidão teria sido melhor e mais produtiva, mas entre a solidão e a dor do ciúme ele escolhe esta última. A convivência com Albertine reaviva sua curiosidade sobre o passado sexual dela. Ele mortifica-se por não saber exatamente como ela se relacionava com mulheres e tenta impedir que Albertine possa sair de casa e encontrar-se com elas. Se mesmo pontuada pelo ciúme e pelo sofrimento havia alguma felicidade no relacionamento deles, essa felicidade não poderia durar muito. O narrador decidi ir a uma recepção oferecida pelos Verdurin e organizada pelo barão de Charlus, que convida seu pares, aristocratas sobretudo, para conhecer um salão burguês típico. Enfeitiçado por sua paixão pelo violinista Morel, Charlus não percebe que seu comportamento exaspera a verdadeira anfitriã, a Sra. Verdurin. Ela força Morel a romper seu relacionamento com Charlus. O narrador, que esperava uma das conhecidas respostas furiosas do barão (principalmente por sua covardia em não alertá-lo de sua iminente queda, interessado que estava apenas em saber se Albertine tiverá ou não um relacionamento amoroso com a atriz Léa) assiste constrangido sua humilhação. A cena final desta seção, em que a rainha de Nápoles acolhe o barão, poupando-o dos crescentes achincalhes, é soberba. Ao voltar para casa o narrador confronta Albertine por conta de seus ciúmes, mas ela, sem saber exatamente o que ele descobrira sobre sua vida pregressa, acaba se traindo, detalhando vários deslizes amorosos dos quais o narrador sequer desconfiava. O narrador decide romper definitivamente com ela, entretanto, viciado pelo hábito e pelo binômio sofrimento/ciúme seu coração faz com que eles se reconciliem. Nas cinquenta ou sessenta páginas finais deste volume Proust fala da melancolia que acompanha a memória de alguém que sabe já ter perdido um grande amor, mesmo que compartilhe ainda algo dele. São passagens terríveis e memoráveis. Mas a realidade é a mais hábil das inimigas, apenas dois dias depois da última reconciliação, como ao acordar de um sonho ruim, o narrador é avisado da fuga repentina de Albertine. Não me lembro exatamente do que senti quando li esse volume pela primeira vez, há trinta anos. Certamente eu era jovem demais para entender todas as ilações e sentimentos cruzados que Proust oferece e não tinha experimentado na vida quase nada daquilo que ele descreve. Talvez agora eu seja cínico demais, amargurado demais, para me identificar com as intermitências do narrador, mas ainda assim me surpreendo e me identifico com as várias facetas de sofrimento que transbordam do livro. Essa reedição não tem a infinidade de erros tipográficos do volume anterior, mas ainda assim encontrei cinco ou seis notas de rodapé mal numeradas. A numeração do resumo desta vez está correta. O prefácio assinado por Guilherme Ignácio da Silva e o posfácio de Olgária Féres Matos são muito bons. Agora me resta reler os dois últimos volumes. A fugitiva é dos livros mais tristes que já li, mas no O tempo redescoberto encontramos algum conforto. Logo veremos como esse velho e cansado Guina reagirá ao reencontrá-los. [início 19/12/2011 - fim 15/01/2012]
"Em busca do tempo perdido: A prisioneira (vol.5)", Marcel Proust, tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar, São Paulo: editora Globo, 13a. edição, revista (2011), brochura 16x23 cm, 524 págs. ISBN: 978-85-250-4229-3 [edição original: La Prisonnière (éditions Gallimard), 1925]

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sodoma e gomorra

Publicado originalmente em duas partes, em 1921 e 1922, ¨Sodoma e Gomorra¨ é o quarto dos volumes do ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. Entre cada um dos três volumes anteriores ["No caminho de Swann", "À sombra das raparigas em flor", "O caminho de Guermantes"] observamos um lapso temporal considerável, que correspondem a diferentes estágios da vida do narrador. Já de "O caminho de Guermantes" a "Sodoma e Gomorra" observamos uma continuidade na narrativa. Há trechos que antecipam e/ou fazem retrospectiva de acontecimentos distribuidos nos dois volumes. A transição não é temporal, mas antes na forma de entendimento das coisas do mundo. Este volume tem duas partes, bem diferentes em extensão. Na primeira parte, de umas cinquenta páginas poderosas, o narrador da história descreve sua descoberta da homossexualidade no barão de Charlus. Proust retoma os instantes imediatamente anteriores a seu encontro com Swann, o duque e a duquesa de Guermantes (a adorável sessão dos "sapatos vermelhos da duquesa"). Usando uma série de metáforas botânicas e entomológicas ele descreve como Charlus e Jupien se atraem, fazem a corte e seduzem um ao outro. O narrador entende, retrospectivamente, as atribulações pelas quais passou em todos os encontros que teve com o barão. A segunda parte de "Sodoma e Gomorra" é bem mais extensa, dez ou onze vezes maior que a primeira. Acompanhamos como o narrador alcança o ápice de sua vida mundana, ao ser recebido com reverência no círculo íntimo de relações dos aristocráticos Guermantes. Depois ele decide passar novamente suas férias de verão na região costeira de Balbec. Ali o narrador retoma seus encontros com a burguesia ascendente representada pelos Verdurin. Estes dois mundos (antes os habitantes destes dois mundos) irão estabelecer relações progressivamente mais complexas e reveladoras, tanto de suas virtudes e valores, quanto de suas limitações e defeitos. O tema principal deste volume é o comportamento sexual (notadamente o comportamento homossexual) de homens e mulheres, mas Proust também reflete com exuberância sobre o judaísmo e a política de seu tempo. De certa maneira o caso Dreyfus (um complicado problema que dividiu a sociedade francesa do final do século XIX e início do século XX, envolvendo militarismo, espionagem, política e xenofobismo) serve metaforicamente aos propósitos de Proust de descrever como os indivíduos se relacionam e se comportam em sociedade. O narrador também reencontra Albertine. Seu envolvimento com ela passa por várias metamorfoses, por ciúme e paixão, mas justamente quando ele decide dela se separar descobre que não pode viver sem ela (a paixão é destruidora). Os personagens que Proust cria são críveis, mutáveis e impressionantes, cada um a sua maneira. Nenhum personagem é absolutamente bom ou mau, esquemático ou plano. Apesar da violência com que somos apresentados ao que há de pior no comportamento humano (este deve ser um dos livros menos condescendentes com a espécie humana que já li) depreendemos que até isso é irrelevante, o ser humano é mesmo uma besta capaz dos crimes mais hediondos, das desculpas morais mais canhestras. A nenhum leitor é dada a ventura (ou escusa) de permanecer ingênuo após ler todo o ciclo. O julgamento moral que experimentamos tem a nós mesmos como juiz, jurí, promotor, carcereiro e carrasco. As passagens mais torpes ainda estão por vir, nos três volumes restantes do ciclo. Como já registrei em outras resenhas esta reedição da Globo da tradução original é cheia de mimos para o leitor (prefácio, resumo, caudalosas notas, posfácio), mas nota-se que desta vez o trabalho foi feito sem apuro ou revisão adequada. A paginação do resumo está totalmente errada, o que o torna inútil. Talvez seja a constatação de erros como este (há vários outros, de grafia, menos importantes, mas que poderiam ser evitados) que tenha feito a editora globo interromper a seqüência da reedição. Paciência. Vou reler meus volumes antigos. Ainda há tempo de sobra neste ano. [início 01/05/2011 - fim 11/07/2011]
"O caminho de Guermantes: Sodoma e Gomorra (vol.4)", Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, São Paulo: editora Globo, 3a. edição, revista (2008), brochura 16x23 cm, 637 págs. ISBN: 978-85-250-4228-6 [edição original: Sodome et Gomorrhe (éditions Gallimard), 1919-1922]

sexta-feira, 6 de maio de 2011

o caminho de guermantes

Nestes últimos dias, imerso na releitura deste livro, fiquei a me perguntar se haveria ainda algo em mim daquele rapaz de vinte e poucos anos que o leu pela primeira vez. As metamorfoses pelas quais passei teriam obliterado completamente o jovem Guina? Difícil saber. Publicado originalmente em duas partes, em 1919 e 1922, ¨O caminho de Guermantes¨ é o terceiro dos volumes do ciclo "Em busca do tempo perdido". Este volume é composto de duas partes simétricas e, em extensão, similares. Como em uma peça musical - uma sinfonia por exemplo - Proust expõe primeiramente os temas com que vai trabalhar, depois os concentra e os desenvolve em uma cena longa (no caso deste livro, em recepções mundanas, primeiro na casa da marquesa de Villeparisis, depois no salão da duquesa de Guermantes) e por fim retoma os temas em breves, mas intensas, codas de encerramento. Na primeira destas duas partes encontramos o narrador e sua família como locatários do duque e da duquesa de Guermantes, Oriane, por quem ele se apaixona (como já havia se apaixonado por Gilberte, pelas moças em flor de Balbec e pela Sra. Swann). Ele vai a ópera e faz uma apreciação estética das qualidades vocais e dramáticas da atriz Berma bastante distinta da que fizera anteriormente. Depois ele visita seu amigo Saint-Loup em sua guarnição militar (Doncières) e logo volta a Paris (onde continua assediando a duquesa) e almoça com Robert e sua amante (Raquel, que o leitor já conheceu em outra circunstância). É na longa cena seguinte que o narrador visita o salão da marquesa de Villeparisis e tudo o que havia sido discutido antes (a vida em sociedade, a aparência enganadora das pessoas, a história e a genealogia da França, a moral dúbia dos homens, as implicações e desdobramentos do caso Dreyfus, as relações profissionais e pessoais, as relações de classe entre os franceses) é refletido em diálogos impressionantes, vívidos. No dia seguinte duas surpresas quebram o ritmo do livro (e elas irão modificar a forma de ver o mundo do narrador). Primeiro seu breve encontro com o barão de Charlus logo após sairem do salão da marquesa e depois o passeio com a avó pelos Campos Elíseos (quando ela tem uma apoplexia). Na segunda parte Proust retoma os mesmos temas e argumentos da primeira (e faz seus personagens usarem a retórica quase da mesma forma) mas agora seu narrador como que amadureceu. Os primeiros movimentos desta parte: a morte da avó, o luto e a solidão do narrador, os encontros amorosos com Albertine, uma outra visita ao salão da marquesa, os preparativos para um encontro amoroso com a Sra. de Stermaria e o jantar noturno no Bois de Boulogne com Saint-Loup e seus amigos, preparam ao leitor para a maravilha que é a descrição dos sucessos do jantar na casa da duquesa de Guermantes (onde o narrador - para seu espanto - é o convidado de honra). Tudo o que ele vê (e Proust faz com que seja o leitor que experiencie tudo aquilo com se fosse o leitor aquele narrador) entra em uma espécie de máquina de análise. Apesar da frivolidade das pessoas depreendemos verdades e leis morais. Como na primeira parte o livro termina com uma coda surpreendente: a visita noturna do narrador a casa do barão de Charlus (e sua dificuldade de entender o seu caráter - bem como sua cifrada proposta sexual) e o reencontro com Swann na casa da duquesa (quando a morte comparece novamente, onipotente). É impossível sintetizar o prazer que extraímos deste livro, o prazer que na verdade extraímos de nós mesmos, ao comparar nossas experiências com aquelas descritas no livro. Difícil escolher o que mais gosto: o sarcasmo com a aristocracia, a ironia, o desprezo pela inconsequência dos médicos, o manual infernal de arrivismo, as metáforas deliciosas. Tudo neste livro leva o leitor a um novo patamar de compreensão do mundo. Esta reedição da Globo da tradução original de Mario Quintana é bonita e cheia de mimos para o leitor (prefácio, resumo, caudalosas notas, posfácio), mas há uns reiterados erros bobos (como grafar Oriana e Oriane para o nome da duquesa) que mereceriam outra classe de apuro. Já tenho o ¨Sodoma e Gomorra¨ desta nova edição para ler. Mas os três volumes restantes do ciclo não foram revistos e publicados, portanto talvez eu acabe lendo mesmo as versões mais antigas. Mas não há pressa. Logo veremos. [início 18/04/2011 - fim 28/04/2011]
"O caminho de Guermantes: Em busca do tempo perdido (vol.3)", Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, São Paulo: editora Globo, 3a. edição, revista (2007), brochura 16x23 cm, 687 págs. ISBN: 978-85-250-4227-9 [edição original: Lé côté de Guermantes (éditions Gallimard), 1919-1922]

segunda-feira, 7 de março de 2011

à sombra das raparigas em flor

"À sombra das raparigas em flor" é um livro que fala dos prazeres - e dos perigos - da inteligência. No volume anterior de "Em busca do tempo perdido" aprendemos algo do amor e da paixão, experimentamos como podem ser mutáveis o tempo e a memória, comparamos nosso comportamento na juventude e na maturidade. Já neste segundo volume somos apresentados ao processo de entendimento do mundo, ou melhor, de várias das facetas possíveis do mundo, que um sujeito ao crescer é forçado a experimentar. Vivemos todos os dias, um a cada vez, e a cada vez somos uma metamorfose, uma mutação, do dia anterior. O livro é divido em duas partes. Na primeira, "em torno da sra. swann", encontramos o narrador se esforçando para conhecer a menina Gilberte que vislumbrou de longe, e se apaixonou, quando era mais jovem, em Combray. Há sempre um jogo de contrastes nesta parte: entre o diplomata Norpois e o médico Cottard (aquele mais articulado, porém falso; este aparentemente tolo, porém correto); entre o entendimento de uma obra de arte pela leitura (pela inteligência) e a fruição da mesma obra de arte (pela experiência física); entre a idéia de um amor (do narrador por Gilberte, fugaz) e a construção real de uma amizade (do narrador por Odette, marcante). Já na segunda parte, "nome de terras: o nome", há um câmbio no tempo e na ambientação. O narrador já não está apaixonado por Gilberte e viaja com a avó para uma temporada nas praias de Balbec. Ali ele aprende alguns dos jogos da mundanidade, ou seja, de como operam as relações de classe, entre aristocratas e burgueses, entres estes e trabalhadores assalariados. Proust nunca faz um juízo autêntico de valor, mas antes nos apresenta o mundo como ele é, sem concessões. E a verdade do sentido da vida que ele alcança nos mostrar é cruel. Um sujeito não precisa já ter experimentado todos os prazeres e aborrecimentos da vida para imergir neste livro (imergir em todo o ciclo proustiano). A capacidade de Proust de nos surpreender (com suas construções, suas metáforas, sua lógica, seu enfoque) é algo que paira sobre todo o livro. Em " à sombra das raparigas em flor" conhecemos novos e poderosos personagens, entre eles Robert Saint-Loup, Palaméde de Guermantes e Albertine Simonet. Esta segunda parte é como um rosário de aulas de educação dos sentidos. O narrador é apresentado aos personagens bizarros da cidade à beira mar; à generosidade da marquesa de Villeparisis; à ambivalência - e depois as surpresas - de Sant-Loup; ao amor pela literatura de Bergotte; à rusticidade dos Bloch; ao enigma que é Charlus; ao entendimento da arte e da vida, enfim, à experiência do pintor Elstir; aos amores serpeantes (e cambiantes) que tem por Albertine, Andrée, Gisèle e Rosemonde. Mais do que tudo o narrador é apresentado a sua personalidade, aos câmbios de seu entedimento das coisas. Neste volume qualquer leitor pode vir a se ver retratado. Ora encontramos uma frase reiterada que nos é familiar, ora concordamos com uma particular forma de entender o mundo, ora sorrimos por ver a mesma maneira que utilizamos para reagir a certos estímulos, ora compartilhamos os compromissos da vida que escolhemos. Sempre é um grande prazer ler este livro. Devemos ser gratos aos autores que nos proporcionam prazeres desta natureza. Haverá mais Proust aqui este ano, seguro que sim. [início 18/01/2011 - fim 27/02/2011]
"À sombra das raparigas em flor: Em busca do tempo perdido (vol.2)", Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, São Paulo: editora Globo, 3a. edição, revista (2006), brochura 16x23 cm, 669 págs. ISBN: 85-250-4226-9 [edição original: À l´ombre des jeunes filles en fleurs (éditions Gallimard), 1919]

quarta-feira, 2 de março de 2011

em busca do tempo perdido

Não há muito que acrescentar ao que escrevi tempos atrás da primeira parte da adaptação em quadrinhos de "Um amor de Swann" feita por Stéphane Heuet. Nada substitui a leitura do original [meus comentários sobre os volumes originais estão em "No caminho de Swann", "À sombra das raparigas em flor", "O caminho de Guermantes"]. Mas ao menos um sujeito desavisado pode entrar no clima dos livros, experimentar uma ou outra alegria com as belas soluções gráficas que Heuet encontra ao ilustrar o sofrimento de Charles Swann e a displicente crueldade de Odette de Crécy. Heuet é um publicitário e artista plástico belga de cinquenta e poucos anos que decidiu adaptar para os quadrinhos alguns dos romances que formam o ciclo de sete volumes do "Em busca do tempo perdido". Mesmo no original francês ele só alcançou preparar uma fração bastante pequena do projeto (dois terços do primeiro volume e metade do segundo). Neste ritmo ele precisará de toda uma outra vida para terminar de adaptar o ciclo. Mas inegavelmente ele consegue dar alguma vida aos personagens, relevo à ambientação e mostra tino ao escolher certas passagens produzidas por Proust. É um outro tipo de experiência. Quem optar por ficar apenas com esta adaptação não poderá dizer que conhece o texto de Proust, mas cada um sabe o que faz ou não com seu tempo. Para os verdadeiros prazeres da inteligência proporcionados por Proust há que se ler o texto original e pronto. A edição continua bem cuidada, traz um mapa da Paris retratada no livro, bem como uma espécie de glossário, onde os personagens são apresentados, incluíndo informações complementares, dirigidas àqueles pouco familiarizados com a obra de Proust e que possibilitam uma apreciação mais prazeirosa do livro. [início 18/02/2011 - fim 19/02/2011]
"Em busca do tempo perdido - Um amor de Swann (parte2)", Marcel Proust, adaptado e desenhado por Stéphane Heuet, tradução de André Telles, editora Zahar, 1a. edição (2011), capa dura 21x28 cm, 52 págs. ISBN: 978-85-378-0488-9 [edição original: À la recherche du temps perdu (Un amour de Swann - volume II) Guy Delcourt productions, Paris 2008]

sábado, 22 de janeiro de 2011

no caminho de swann

Não me lembro de um único momento de aborrecimento ou tédio em nenhuma das vezes em que li "Em busca do tempo perdido". É verdade que na primeira vez, ainda no final dos anos 1970, em São Bernardo, tive de voltar várias vezes a biblioteca pública e renovar o empréstimo, pois Proust teimava em solicitar de mim um esforço não habitual. Lembro-me sim do velho professor Piccini, em uma manhã estival no Instituto de Física, sorrindo de minha concentração já nas páginas finais do ciclo (isto já era em meados dos anos 1980), comentando que as releituras seriam ainda mais prazerosas, apesar de igualmente trabalhosas. Nas palavras do próprio Proust: Sejamos gratos às pessoas que nos propiciam felicidade, são elas os adoráveis jardineiros que nos fazem florir a alma. Agora em 2011 farei cinquenta anos. Decidi que voltarei aos prazeres e os dias de leitura de muitas coisas, como este "No caminho de Swann". É o primeiro de um ciclo de sete volumes que conta a história de um aprendizado, que é vasto e complexo como a vida. Desafortunadamente destas vastidão e complexidade só teremos consciência plena após vivê-la completamente. Marcel Proust publicou-o em 1913. Nos nove anos seguintes ele se dedicaria a completar os demais volumes, mas só chegaria a corrigir completamente as provas tipográficas dos três volumes seguintes, mas isto tenho tempo de contar depois. "No caminho de Swann" é dividido em três partes: Combray, Um amor de Swann e Nome de terras: o nome. Em Combray, cidade do campo, afastada de Paris, acompanhamos as lembranças do narrador. Inicialmente ele é um jovem muito frágil, que cobra a presença da mãe para dormir, principalmente nos dias em que sua família recebe a visita do sofisticado Sr. Swann, pai de uma filha da mesma idade que o narrador. Os dias do narrador, na casa de sua tia-avó Léonie, são dados a conversações e passeios; um curto, o de Méséglise, passa perto da propriedade do Sr. Swann, e um outro caminho, longo, o de Guermantes, passa pelas terras dos senhores da região, perto de velhas igrejas românicas. As lembranças não são apenas da juventude do narrador, mas de todas suas, digamos assim, encarnações, fases de sua vida, pois ele sempre dá a entender ao leitor aspectos da evolução e das metamorfoses por que passarão ele, as coisas e as gentes que ele conheceu. Na segunda parte, um amor de Swann, voltamos no tempo, para os anos em que o Sr. Swann ainda não era casado. Ele é um sujeito muito rico e muito bem relacionado com a aristocracia - decadente, logo saberemos, na sociedade francesa do final do século XIX. Apesar da diferença de interesses e cultura ele se aproxima de um grupo de burgueses enriquecidos que se reune em um salão, o da Sra. Verdurin. Ali ele se envolve com uma jovem, Odette de Crécy, que certamente não é de sua classe social e nem do "seu tipo", como confessará a si mesmo anos depois. O leitor tem de ter um coração emparedado para não sofrer com Swann. Qualquer um que já amou lê como suas as paixões descritas por Proust. Qualquer um que já se desgraçou inutilmente por amor ou pela ilusão que o amor engendra irá se enredar na prosa de Proust como quem se afoga nas águas de um grande mar. Estas devem ser as páginas mais tristes que alguém já escreveu, principalmente por ser efêmera a eficácia do desgosto. Na última parte do livro, bem menor que as duas primeiras, encontramos o jovem narrador fazendo planos de ir as praias, ou a Veneza, no verão, mas sua saúde acaba prendendo-o em Paris. Ele passa as tardes nos Campos Elíseos parisienses, em jogos e brincadeiras, seu coração devotado à filha de Swann, Gilberte. Como em um sonho o livro termina e deixa o leitor a percorrer sua própria história, tentando encontrar ecos de si nos destroços de suas memórias. Não há nada que substitua a experiência de ler cada um dos livros deste ciclo. São tantos detalhes, alusões, digressões, que apenas o leitor atento e dedicado que completá-lo repetidas e entusiásticas vezes poderá, um dia, sorrir algo arrogante e dizer: Entendi, mas ainda há tanto para ser garimpado. Vamos começar novamente! A edição que li desta vez é a terceira, de 2006. É ainda a do Mario Quintana, publicada originalmente em 1948, mas revista e atualizada. A edição inclui uma cronologia da vida de Proust, um prefácio assinado por Olgária Matos, um longo posfácio assinado por Jeanne-Marie Gagnebin e um pequeno resumo e notas assinados por Guilherme Ignácio da Silva. Há notas que são curiosas e que apimentam a curiosidade do leitor, porém há coisas que são totalmente dispensáveis. Não há porque um leitor neófito saber que tal ou qual personagem se metamorfoseará em outro. Será somente no último volume do ciclo que as descrições do efeito da passagem do tempo nos personagem serão confrontadas com aquilo que o leitor imagina para o desfecho da trama. Acho inútil uma tola nota de rodapé roubar estes prazeres do leitor. Paciência. Dias após ter terminado soube que a Companhia das Letras irá publicar a partir do ano que vem uma tradução inteiramente nova de todo o ciclo. Incrível. Será esta provavelmente que lerei quando voltar aos "caminhos" quando tiver sessenta ou setenta anos. Com Proust estas felicidades nunca são mirradas. [início 01/01/2011 - fim 10/01/2011]
"No caminho de Swann: Em busca do tempo perdido (vol.1)", Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, São Paulo: editora Globo, 3a. edição, revista (2006), brochura 16x23 cm, 558 págs. ISBN: 85-250-4225-0 [edição original: Du côté de chez Swann (Bernard Grasset), 1913]

sábado, 9 de janeiro de 2010

em busca do tempo perdido

Stéphane Heuet é um publicitário e artista plástico belga de cinquenta e poucos anos que decidiu adaptar para os quadrinhos os romances que formam o ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. O primeiro dos ensaios saiu originalmente em 1998. A editora Zahar havia publicado a versão brasileira do "Um amor de Swann - parte1", quarto volume da série, em 2007, mas esta deve ter se esgotado muito rapidamente pois só agora, no final de 2009, consegui um exemplar. Claro que esta adaptação não substitui a leitura da versão original (poucos livros são tão seminais e poderosos como os sete volumes deste ciclo), mas é uma experiência rica voltar aos personagens, à ambientação, ser novamente apresentado a algumas das passagens memoráveis produzidas por Proust. Como não sofrer, junto com Charles Swann, das dores do amor e do ciúme. A edição é bem cuidada e traz um bom mapa da Paris retratada no livro, bem como uma espécie de glossário, onde os personagens são apresentados e com informações complementares, dirigidas àqueles pouco familiarizados com a obra de Proust, que possibilitam uma apreciação mais prazeirosa do livro. De ser mesmo uma ocupação maravilhosa dedicar-se a esta adaptação. [início 15/12/2009 - fim 15/12/2009]
"Em busca do tempo perdido - Um amor de Swann (parte1)", Marcel Proust, adaptado e desenhado por Stéphane Heuet, tradução de André Telles, editora Zahar, 1a. edição (2007), capa dura 21x28 cm, 52 págs. ISBN: 978-85-7110-992-6