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quarta-feira, 1 de abril de 2020

gravura em metal: passo a passo

Helga Correa é artista plástica, vinculada ao Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal de Santa Maria, e é pesquisadora, coordenadora do Grupo de Pesquisa CNPq "Arte Impressa". "Gravura em metal: passo a passo" é um volume dedicado a descrever e ilustrar os procedimentos técnicos da gravura em metal. Trata-se de um manual didático, um documento que brotou do Atelier de Gravura da UFSM e da experiência acumulada de Helga Correa com a gravura, que remonta o final dos anos 1980. O livro oferece informações práticas ao leitor interessado nos procedimentos e técnicas e também arquiva em livro o trabalho de muitos alunos e pesquisadores que frequentaram o Atelier no período que vai de 2012 a 2019. Muito embora as "receitas" nele reunidas já estejam sistematizadas em vários outros manuais tradicionais, neste livro encontramos o registro de explorações sobre suportes menos usuais no processo de elaboração gráfica. Os suportes experimentados, latão amarelo e offset, mostram-se adaptáveis e de fácil uso para artistas iniciantes. Dentre as técnicas e procedimentos descritos no livro encontramos: água forte; água tinta; água tinta em grânulo fino; água tinta em grânulo grosso; ponta seca e roulette; água forte e betume; água forte e ponta seca; água tinta de nanquim e açúcar; água tinta com lápis litográfico; água tinta com lápis 8B e giz estaca; água tinta com caneta permanente; rebaixamento; gofrado; enxofre; papel amassado sobre verniz; carborundum; verniz mole e ponta seca; transferência de imagem fotográfica; chine collé; maneira negra; falsa maneira negra; água forte com verniz, solvente e açucar. As ilustrações reunidas no livro correspondem a gravuras produzidas por Priscila Baelz, Eliane Amoreti, Kelly Pfüller, Aracy Colvero, Marcela Machado, Ketelen Oliveira, Carol PK, Jean Guerra, Aline Arendt, Daniela Flores, Henrique Ribeiro, Melina Ferreira, Ivelize Flores. Belo livro. Vale!
Registro #1510 (didático #14)
[início - fim: 15/01/2020]
"Gravura em metal: passo a passo", Helga Correa, Santa Maria: Edição do autor, 1a. edição (2020), brochura 15x23 cm, 38 págs. ISBN: 978-65-901771-0-0

segunda-feira, 30 de março de 2020

escola partida

Ronai Rocha é um sujeito industrioso. Quem o conhece sabe de sua obsessão com a precisão das cousas, de sua paciência em entender e se fazer entender, em bem ouvir e contar, em tentar dirimir tons cinzas e equívocos em discussões, mesmo que neste processo acrescente um bocado de outros tons cinzas e pertinentes dúvidas em seus interlocutores. "Escola partida" é seu livro mais recente, publicado agora no início deste já inesquecível 2020. Já registrei aqui algo sobre "Ensino de filosofia e currículo", de 2015, mas não registrei, ai de mim, algo sobre seu livro anterior, o seminal "Quando ninguém educa". Paciência. "Escola partida" é curto, pouco mais de 150 páginas, mas não se trata de um livro que se possa ler sem pensarmos com calma, refletirmos sobre os enunciados e proposições. Ronai apresenta ao leitor reflexões sobre o debate que gravita o movimento "Escola sem partido". Não se trata de um panfleto que poderia ser usado para condenar in totum o movimento em si (nem, tampouco, de forma especular, ser usado para enaltecê-lo, por mais absurdo que fosse fazer uma coisa destas). Ronai procura entender a gênese do desconforto que levou um grupo, em 2003, a propor restrições à atividade docente, condenando práticas que os prosélitos deste grupo entendem como não compatíveis com a docência. Em que pese o fato deste movimento não ter alcançado praticamente nenhuma vitória no campo jurídico, que implicasse em condenação e/ou controle dos educadores, a existência do movimento e a repercussão das teses por eles defendidas afeta todos os atores do sistema educacional brasileiro. Em seis capítulos sintéticos Ronai Rocha: (i) conta a história do movimento escola sem partido brasileiro; (ii) descreve versões mais antigas deste debate, recuperando sobretudo a atuação de Max Weber no contexto do incentivo ou condenação que professores universitários alemães faziam em relação a participação dos estudantes na primeira grande guerra mundial, há mais de cem anos; (iii) fala algo  sobre a  história da educação no Brasil, seus vetustos dilemas e conflitos; (iv) provoca o leitor a acompanhar o que ele chama de "exercício de pensamento de risco", que implica em aceitar as consequências indesejáveis que boas intenções, voluntarismo e hipóteses fracas geram; (v) discute sobre as falácias usualmente repetidas por educadores de todos os matizes, ou sobre coisas que sabemos explicar mas não justificar, ou sobre a fragilidade de certos conceitos - quase sempre palavras vazias quando malabaristas de paradoxos as manipulam sem pudor; (vi) conclui falando da impossibilidade de aceitarmos um "código de deveres dos professores", ou de um "código de ética profissional docente", como advogam os entusiastas do movimento escola sem partido; todavia, ao mesmo tempo, ele conclui falando da necessidade de oxigenação dos educadores que atuam nas escolas, da necessidade de preservá-las das amarguras desnecessárias decorrentes das batalhas políticas que dão-se naturalmente nos demais espaços da sociedade (amarguras desnecessárias são palavras de Hannah Arendt, perene presença e condutora de boa parte do texto de Ronai). Enfim, ou a escola é preservada como um espaço de confiança - para estudantes, professores, pais, gestores, reguladores, avaliadores, etc e tal - ou a escola é nada (palavras minhas essas, claro, bem menos otimista que o Ronai sobre a possibilidade de pactos desta natureza serem efetivos em um país tão primitivo e tosco como o Brasil). Eu poderia tentar falar mais sobre esse notável livro. Falar sobre o conceito de "segundas pessoas", de Annette Baier; sobre o modelo aristotélico hierárquico em espiral: força, poder e autoridade; sobre Cecília Meireles, outra serena guia de Ronai pelos escolhos da história da educação no Brasil e sobre seu aforismo: "A escola tem de ser o território mais neutro do mundo..."; sobre a "atmosfera sebastianista e autoindulgente" que brota do desejo de modificar toda a sociedade antes de modificar apenas as práticas escolares, visando um mínimo de letramento, capacidade de compreensão, de entendimento básico da matemática; falar sobre o saboroso conceito de maoismo tropical utilizado por ele. Mas "Escola partida" não é o tipo de livro que se preste a ter frases ou capítulos pinçados em uma curta resenha como essa minha. Acredito ser algo que merece uma leitura completa, pois cada leitor é quem deve responder sobre o "Que fazer?" com a educação brasileira. Para quem quer realmente entender os aspectos técnicos do livro do Ronai recomendo muito o ensaio de Vítor Costa, leitor de primeira hora. Grande Ronai, grande livro. Evoé! Vale! 
Registro #1509 (didático #13) 
[início: 17/03/2020 - fim: 29/03/2020]
"Escola partida: Ética e política na sala de aula", Ronai Pires da Rocha, São Paulo: editora Contexto, 1a. edição (2020), brochura 16x23 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-520-0177-5

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

investigando a roda

Do Antonio Rodrigues Neto já li "Descobrindo a cada passo", de 2016, "Calculando com fatias", de 2017, e "Brincando com o conta gotas", de 2014. Esses livros foram pensados como ferramentas didáticas dedicadas aos professores que trabalham com matemática no ensino fundamental. Segundo o Antonio Neto serão seis volumes, que correspondem aos conteúdos programáticos de matemática da base curricular do ensino fundamental. "Investigando a roda" é o quarto volume da série. Desta vez o autor trata de geometria, de razão e proporção entre as coisas, do cálculo de perímetros, da relação entre translação e rotação, das engrenagens, da ideia do número . Situações do cotidiano são utilizadas para ilustrar os conceitos. Já disse nas resenhas dos demais volumes que a linguagem é simples mas absolutamente rigorosa. Não se faz uso de malabarismo tontos para empurrar abstrações matemáticas na mente dos estudantes, antes sim a provocá-los aos espantos que a natureza nos oferece por meio da matemática. Estes livros da coleção "Para gostar de matemática" ficam bem em qualquer biblioteca de pais que têm filhos (nem tudo pode ser deixado aos professores, nas escolas, já se sabe. Vamos a ver se o Sesi-SP publica logo as demais aventuras matemáticas do Toninho Neto. Vale!
Registro #1491 (didático #12) 
[início: 02/02/2020 - fim: 03/02/2020]
"Investigando a roda", Antonio Rodrigues Neto, São Paulo: SESI-SP editora (Educação; Coleção: Para gostar de matemática), 1a. edição (2019), brochura 12x18 cm., 88 págs., ISBN: 978-85-504-0798-2

terça-feira, 21 de agosto de 2018

descobrindo a cada passo

Esse é o segundo volume de uma coleção dedicada ao ensino de Matemática dirigida sobretudo ao público jovem, mas que pode ser lido com deleite por qualquer indivíduo que não tem medo de aprender. Já falei aqui do primeiro volume, "Brincando com o conta-gotas", e do terceiro, "Calculando com fatias". Recentemente achei o segundo volume da série, esse "Descobrindo a cada passo". Desta vez Antonio Rodrigues Neto fala sobre a matemática como ferramenta fundamental para o cálculo de distâncias, para a noção de escala, para entender os sistemas de conversão de unidades, para não se assombrar com as relações entre tempo e espaço. A linguagem é simples, objetiva, mas absolutamente rigorosa, correta, ou seja, o Neto não faz uso de malabarismo tontos para empurrar abstrações matemáticas na mente dos estudantes, antes sim os provoca a deambular junto com ele por vários assuntos, assuntos pelos quais sozinhos talvez neles se perdessem, ou simplesmente, se entediassem, como costuma acontecer com as ciências e, ai de nós, com qualquer assunto árido hoje em dia. Já disse que o Antonio Neto é mestre em escolher bons exemplos do cotidiano para ilustrar conceitos chave em Matemática, reproduzir em bom português situações que todos experimentamos no dia a dia. Sim, os livros desta coleção do Sesi-SP ficam bem em qualquer biblioteca de pais que têm filhos. Vamos a ver se o Sesi-SP publica logo as demais aventuras matemáticas do Toninho Neto. Pelo que entendi são prometidos pelo menos mais três volumes. Logo veremos. Vale! 
Registro #1314 (didático #11) 
[início: 03/08/2018 - fim: 05/08/2018]
"Descobrindo a cada passo", Antonio Rodrigues Neto, São Paulo: SESI-SP editora (Educação; Coleção: Para gostar de matemática), 1a. edição (2016), brochura 12x18 cm., 76 págs., ISBN: 978-85-8205-514-4

sexta-feira, 13 de julho de 2018

calculando com as fatias

Já contei aqui sobre minha amizade de décadas com o Antonio Neto, de sua dedicação ao oficio de bem ensinar Física e Matemática, e já registrei aqui algo sobre um volume desta mesma série dedicada ao ensino de Matemática focado no público jovem, que ele publicou em 2016, "Brincando com o conta-gotas". Nesse novo volume (que é o terceiro da série, estou devendo a leitura do segundo) ele fala de frações, de como as cousas podem ser divididas, de comparações, escalas, gráficos, porcentagens, unidades de medida, ângulos. Não há ingenuidade no livro. Há rigor cientifico e também metodologia, ludicidade, magia, encantamento. Acho que foi o Aníbal quem disse que o Toninho era o mais irônico de nós todos lá do curso de Física da USP nos anos 1980 e ele esta coberto de razão. Mas se ele é um mestre na ironia também o é na capacidade de invenção, de escolher exemplos do cotidiano para ilustrar conceitos chave em Matemática, reproduzir situações que todos experimentamos: a compra e divisão de uma pizza, a ida a um supermercado, o compartilhamento de uma prateleira, a leitura de um numeral qualquer, a interpretação de um gráfico ou ilustração de um jornal. Os livros desta coleção do Sesi-SP ficam bem em qualquer biblioteca de pais que têm filhos de qualquer idade. Em tempo: Ainda no início do ano, encontrei por acaso com o Toninho na rua, lá perto da esquina da Paulista com a Consolação, mas era difícil continuar a conversa e deixamos para nos ver no futuro. Será que um dia destes conseguimos? Logo veremos. Vale! 
Registro #1288 (didático #10) 
[início: 03/04/2018 - fim: 06/04/2018]"Calculando com as fatias", Antonio Rodrigues Neto, São Paulo: SESI-SP editora (Educação; Coleção: Para gostar de matemática), 1a. edição (2017), brochura 12x18 cm., 88 págs., ISBN: 978-85-504-0276-5

sexta-feira, 15 de abril de 2016

brincando com o conta-gotas

O Antonio Rodrigues Neto foi meu colega no IFUSP. Ele sempre preocupou-se em encontrar o jeito certo de ensinar as coisas que sabia. E era também sempre o sujeito com o humor mais refinado, irônico, da turma. Em uma sexta-feira de abril de 1986 ele convidou um pequeno bando de físicos para vermos o cometa Halley, lá nos altos da Serra da Cantareira. Foi um fiasco, não por culpa dele, claro, mas sim do Halley, que ficou tímido no céu, decepcionando a todos. Mas nós nos divertimos à beça e esperamos o sol nascer, já algo intoxicados e prometemos nos reunir na próxima aparição, em 2061. Bons tempos. Neste seu pequeno livro, primeiro volume de uma coleção da editora SESI-SP, ele apresenta uma proposta para despertar a curiosidade pelo conhecimento matemático. Ele parte de um conta-gotas, objeto do cotidiano de qualquer criança que toma vacinas ou remédios, e propõe uma brincadeira, um método, cujo objetivo é calcular o número de gotas que podem ser encontradas em frascos, copos, garrafas, baldes, caixas d'água, até que, progressivamente aumentando a escala,  chegar ao volume dos grandes reservatórios de uma cidade. Claro, o que ele disfarçadamente alcança é ensinar ao leitor conceitos matemáticos básicos: as quatro operações matemáticas, frações, unidades de medida, regra de três. No final do livro ele incluiu uma seção dedicada a preservação ambiental e aos hábitos saudáveis que possibilitam alguma economia de água. A linguagem é simples, descontraída, mas também precisa, correta. Seguro que esse pequeno livro vai divertir e ensinar muita gente. Parabéns Toninho.
[início: 11/04/2016 - fim: 13/04/2016]
"Brincando com o conta-gotas", Antonio Rodrigues Neto, São Paulo: SESI-SP editora (Educação; Coleção: Para gostar de matemática), 1a. edição (2014), brochura 12x18 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-8205-272-3

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

da física do faraó ao fóton

Conheci os Tufailes, ou seja, a Adriana e o Alberto, lá no IFUSP, nos anos 1990, quando ambos ainda eram estudantes de graduação e estavam envolvidos em projetos de iniciação científica. Hoje eles são ativos e respeitados pesquisadores nas áreas de sistemas dinâmicos, caos e outras cositas mais. Em 2013 eles lançaram esse "Da Física do Faraó ao Fóton", mas só no início deste ano tive a chance de utilizar o livro deles em uma das minhas aulas e fiquei animado em incluir um registro aqui. Eles compartilham com o leitor, com disciplina e método, uma série de atividades práticas que podem ser utilizadas tanto para fins didáticos quanto para divulgação científica ou mesmo entretenimento. Eles discutem conceitos físicos importantes e sofisticados a partir de situações simples do cotidiano, utilizando-se de balões, imãs de geladeira, papagaios/pandorgas, espelhos e velas, material de escritório e brinquedos, dentre uma miríade de outras coisas. Trata-se assim de um livro que propicia sobretudo um exercício de encantamento, de treinamento do olhar científico, de aproximação descompromissada da ciência para aqueles que são curiosos pelos fenômenos naturais porém não gostam de entrar em laboratórios. Claro, aqueles que são educadores das distintas áreas das ciências da natureza são os que mais diretamente se valerão desta proposta, pois poderão com a ajuda deste livro oferecer a seus estudantes não apenas demostrações qualitativas de fenômenos físicos, mas também propor experimentos quantitativos de física e desenvolver atividades práticas, estimulando-os ao mesmo tempo a procurar na bibliografia técnica respostas a quaisquer dúvidas. O livro tem dezenas de referências bibliográficas, afortunadamente distribuídas ao longo do texto, logo após cada tópico ou assunto, não acumuladas no final, o que sempre desestimula o leitor. Adriana e Alberto se utilizam de fotografias e ilustrações para indicar aos leitores a melhor forma de abordar cada problema e não se furtam de incluir equações e fórmulas quando elas são necessárias para explicar corretamente um fenômeno. Por fim, cabe dizer que "Da Física do Faraó ao Fóton" é um livro que resume as atividades práticas desenvolvidas por eles nos últimos anos na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e em cursos de divulgação oferecidos pelo Instituto de Ciência e Tecnologia de Fluidos Complexos (INCT-FCx), do qual ambos fazem parte. Há um curto teaser sobre o livro no YouTube e um vídeo curioso com o trabalho mais recente deles (o sol de laboratório) na edição de março de 2015 da Revista Fapesp. No final do livro eles fazem um convite aos leitores que todos aqueles que também trabalham com ciência certamente respaldam: "Descubram outras maravilhas através da ciência nos mais diversos lugares e situações, como museus, exposições, laboratórios, brinquedos, meios de comunicação, literatura e nas situações quotidianas. Boa sorte!". Parabéns meus caros, continuem com suas lasersices por aí. Vale.
[início: 12/04/2015 - 19/09/2015]
"Da Física do Faraó ao Fóton: Percepções, Experimentos e demonstrações de Física", Adriana Pedroso Biscaia Tufaile, Alberto Tufaile, São Paulo: Editora Livraria da Física, 1a. edição (2013), brochura 16x23 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-7861-195-8

sábado, 5 de outubro de 2013

pura picaretagem

Daniel Bezerra e Carlos Orsi, autores de "Pura picaretagem" (que tem o subtítulo "Como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!" impresso explicitamente na capa) são dois otimistas inveterados. Não fosse assim não teriam a disposição de publicar um livro que fala o que deveria ser óbvio para qualquer pessoa minimamente educada, mas só sendo muito otimista para acreditar que um dia a população brasileira deixará de se iludir com bobagens esotéricas amalucadas. Mas devemos louvar esse otimismo deles. Neste pequeno livro eles explicam como nenhum dos conceitos da mecânica quântica pode ser utilizado, nem remotamente, para resolver problemas da vida prática das pessoas, como a busca de sorte no amor e nos negócios, ou a experiência da felicidade nos relacionamentos e nas viagens, ou a eficiência técnica em questões jurídicas apresentadas em tribunais ou mesmo em projetos mirabolantes para alcançar sucesso nas carreiras profissionais de cada um. Enfim, deveria ser fácil de entender que não há nexo causal entre física quântica e a cura de problemas de saúde ou entre ciência e o poder de uma pessoa fazer seus desejos mundanos se concretizarem. Infelizmente a maior parte da população prefere explicações mágicas e o malabarismo mental de trambiqueiros ao invés estudar ciências. Bezerra é físico, Orsi jornalista, ambos escrevem regularmente sobre ciências, sociedade e literatura em blogs e jornais impressos. Nos capítulos iniciais do livro eles apresentam uma versão condensada da história da física dos últimos quatrocentos anos. Descrevem os conceitos mais importantes da física moderna, especialmente as interpretações da mecânica quântica e as implicações filosóficas que advém delas. O texto é bem curto e escrito numa linguagem coloquial, sem tecnicidades intransponíveis,mesmo para os neófitos em ciências. Nos capítulos finais eles desconstroem os argumentos de místicos, escritores de livros de auto ajuda, arautos do pensamento positivo e outros picaretas profissionais que usam argumentos da mecânica quântica em seus eficientes projetos de retirar dinheiro da mão dos tolos. É um bom livro. Talvez eu não devesse ser tão pessimista e compartilhar com Bezerra e Orsi algo deste entusiasmo no poder de convencimento das ciências.
[início: 12/08/2013 - fim: 19/09/2013]
"Pura picaretagem: Como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!, Daniel Bezerra, Carlos Orsi, São Paulo: editora LeYa, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-8044-826-9

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

a companion to javier marías

Ler Javier Marías é das coisas mais gratificantes que fiz nos últimos anos. Além do encantamento provocado por seu estilo e vocabulário, cada um de seus livros fez-me refletir sobre assuntos sobre os quais talvez eu não atentaria, caso não tivesse a fortuna de encontrá-los (devo isto a doña Cristina Gomez-Polo, amiga madrileña que vive agora nas terras altas de Navarra). "A companion to Javier Marías" é um livro para quem já leu a obra ficcional de Marías e quer partilhar das impressões de um especialista, no caso, David Herzberger, professor de um departamento de estudos espanhóis na Universidade da California. Herzberger discute toda a obra ficcional de Marías, com a exceção do último de seus romances, Los enamoramientos. Também ficam de fora os livros onde estão compilados sua produção jornalística, suas contribuições dominicais publicadas em jornais espanhóis, atividade a qual ele se dedica ininterruptamente desde o início dos anos 1990. A apresentação é praticamente cronológica, como talvez um leitor neófito devesse mesmo abordar o conjunto de romances de Marías. A introdução é realmente muito boa, pois não apenas fala do estilo, influências, técnicas e procedimentos literários utilizadas por Marías, mas também um tanto sobre a sociedade espanhola da segunda metade do século passado (interessante para contextualizar o trabalho de Marías no conjunto da literatura espanhola produzida neste período). Como em todo bom "Companion book", os livros são analisados estruturalmente, de forma a simultaneamente destrinchar a narrativa e desnudar a técnica. Herzberger faz isto muito bem. As citações que ele escolhe provocam no leitor já familiarizado com os originais o desejo de voltar a eles. Os comentários sobre os romances são apresentados por blocos: Los domínios del lobo e Travesía del horizonte; El siglo e El hombre sentimental; Todas las almas e La negra espalda del tiempo; Corazón tan blanco e Manãna em la batalla piensa em mí; Tu rostro mañana. Isto ajuda um leitor que queira informações de volumes específicos a se localizar mais facilmente. A descrição da psicologia dos personagens que frequentam volumes distintos da obra de Marías e a análise de seus Leitmotivs (tempo e memória, imaginação e realidade, justiça e vingança, o acaso, cinema, Shakespeare) me pareceram muito pertinentes. Cito três que todos os leitores de Marías devem conhecer e/ou reconhecer de alguma forma: (i) que seus personagens são sempre muito observadores e usualmente tem uma compreensão nítida da realidade objetiva; (ii) que nas obras de Marías a metalinguagem e a intertextualidade não são meros artifícios; (iii) que para ele também a realidade deve ser imaginada, pois a narrativa ficcional não reproduz a realidade, antes sim produz distorções e transformações que contingenciam a própria realidade. Herzberger incluí também digressões sobre Vidas escritas e Miramientos; Mientras ellas duermen, Cuando fui mortal e El monarca del tiempo (breves biografias os dois primeiros, conjuntos de contos os dois seguintes e um romance híbrido, o último). O leitor também não vai poder reclamar da completa bibliografia, que inclui toda a fortuna crítica existente (em inglês) sobre sua obra. Grande livro. [início 17/01/2010 - fim 09/02/2010]
"A companion to Javier Marías", David E. Herzberger, Woodbridge (Suffolk, UK): Tamesis books (Boydell & Brewer), 1a. edição (2011), capa-dura 16x24 cm, 244 págs. ISBN: 978-1-85566-230-8

quarta-feira, 7 de julho de 2010

do big bang ao universo eterno

Apesar deste pequeno livro aparentemente ter sido escrito para alcançar o grande público não especialista em astronomia ou física, não estou certo se alguém sem um mínimo de treino nestes temas possa acompanhar os argumentos de seu autor, o cosmólogo Mário Novello. O livro é inegavelmente bem escrito e objetivo, incluindo um bom glossário dos termos mais fundamentais e também uma pequena bibliografia. Mas no fundo encontramos um texto bastante técnico em seus fundamentos, cujas proposições não podem ser recebidas sem uma devida reflexão (o que nem sempre um leigo pode fazer). O livro se equilibra entre os argumentos técnicos e muita especulação, que necessariamente não podem ser comprovadas experimentalmente hoje (ou, ao menos, não se encaixam no modelo hegemônico de representação do universo hoje). O que Novello discute é um modelo alternativo ao Big Bang, um modelo de cosmologia sem singularidade. Segundo ele os argumentos científicos favoráveis à teoria do big bang foram historicamente superestimados. Na teoria do big bang se entende a origem do universo a partir de um estado extremamente denso e quente. Esta origem é razoavelmente bem localizada no tempo (algo em torno de 13,73 bilhões de anos atrás). Mas há dez anos comprovou-se experimentalmente que o universo está acelerando sua expansão e isto implicou em uma espécie de adaptação do big bang para incluir o que se chama usualmente de energia escura (esta conversa mereceria um detalhamento melhor, mas o leitor curioso deve ler o livro, paciência). Novello argumenta que futuros resultados experimentais farão com que a comunidade científica volte a discutir a possibilidade do universo não ter tido origem em uma singularidade, associando o que identificamos hoje como um ponto singular a um mínimo local no horizonte visível do universo. Ele discute brevemente as propriedades não convencionais do espaço tempo, as possibilidades de formas de energia exóticas, faz um catálogo de cosmologias alternativas. O livro funciona bem como um convite à reflexão sobre estes temas, mas trata-se de uma tarefa árdua (e que certamente não alcançará respostas definitivas tão cedo - como sempre acontece na ciência afinal de conta, pois sua força reside na capacidade de aceitar novos resultados experimentais, novos argumentos e reciclar-se, construindo sempre modelos novos, modelos mais acurados, modelos mais precisos). O livro inclui dois apêndices. Um é uma cronologia breve da cosmologia (muito breve mesmo) e outro um diálogo algo ficcionalizado onde parte dos argumentos do livro são apresentados com a estrutura utilizada por Galileu no seu "Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo" (há algo de pretensioso nisto, pois ele enfatiza que estamos vivendo um momento tão seminal quanto aquele experimentado no início da ciência moderna e não sei bem se esta forma de argumentar ajuda ou atrapalha a discussão apresentada no corpo principal do livro). Eppur si mouve! Vamos ao próximo livro. [início 19/06/2010 - fim 06/07/2010]
"Do bing bang ao universo eterno", Mário Novello, editora Jorge Zahar, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 130 págs. ISBN: 978-85-378-0237-3

sábado, 29 de maio de 2010

criação imperfeita

Bueno. "Criação imperfeita" é o tipo de livro que só serve na verdade para quem já saiba um tanto de física, um tanto de história da ciência. Por mais que Marcelo Gleiser se esforce por encontrar um tom didático e acessível os temas que ele aborda são naturalmente áridos para não se permitirem reduções tão elásticas como aquelas que ele faz. Paciência. Como um bom malabarista de paradoxos me parece que ele escreveu este livro mais para se desculpar do passado, de suas escolhas no passado, do que escrever algo realmente novo ou original (tudo parece muito improvisado e mal articulado). Com este livro aparentemente ele prepara terreno onde espera esgrimir seus argumentos (de divulgador científico) no futuro. Ele tenta agrupar toda a comunidade de físicos em um equívoco (a busca infrutífera por uma grande e final unificação) que nunca foi partilhado por toda a comunidade de físicos. Talvez ele devesse ser mais honesto intelectualmente e dizer que esta questão sempre foi um problema restrito a um grupo reduzido. A maioria dos físicos deste último século fez seu trabalho sem se preocupar com as implicações de uma eventual e mítica grande unificação. Ele vincula a busca por simetrias na ciência com o mito da grande unificação e, ao mesmo tempo, desqualifica as simetrias. Ora, no mundo real são muitos os fenômenos associados às simetrias e às quebras de simetrias. Não consigo entender sua aparente incapacidade de aceitar o fato das lei de Gauss para a eletricidade e para o magnetismo serem intrinsicamente distintas (existem cargas elétricas, porém não existem monopolos magnéticos). O livro é dividido em cinco seções. A primeira e a última são muito ruins, pois vagas, dispersivas, onde o tom, pessoal demais, personalista demais, chegaria a ser irritante se não fosse risível (ele pontua certas descobertas científicas com fatos de sua vida, como se o universo realmente girasse em seu redor). O epílogo é ainda mais pessoal e apocalíptico, como se as dúvidas e as questões entre ele e seus filhos importassem algo para o futuro da humanidade. Na segunda seção e na quarta, o tom é um tanto mais adequado, mas o tratamento dado aos temas continua frouxo demais. A seção central, onde ele descreve os fundamentos da física da matéria condensada e da física de partículas é bom, mas duvido que alguém não familiarizado com física possa aproveitá-lo plenamente. Tem um lacanismo besta no livro (uma brincadeira com "procura " ser "pró-cura") que não dá para aguentar. Gosto de dizer que "o mundo é assim" para sintetizar o quão surpreendente ele o é. Gleiser parece querer chamar para seu campo teórico aqueles que não compartilham exatamente os fundamentos da ciência. Neste temas compartilho o cetismo e o tom de Richard Dawkins ou Christopher Hitchens por exemplo, estes sim sujeitos que não têm medo em delimitar o quê é aceito cientificamente do que pertence a uma outra forma qualquer de conhecimento. Paciência. "Eppur si muove", já disse Galileu muitos anos atrás. [início 10/05/2o1o - fim 17/05/2010]
"Criação imperfeita", Marcelo Gleiser, editora Rocco, 1a. edição (2010), brochura 16x23 cm, 366 págs. ISBN: 978-85-01-08997-7

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

aulas de marie curie

Muito do que passa por educação é apenas pedagogia. Sempre digo isto quando alguém tenta me fazer acreditar que o importante em uma relação de aprendizagem é só a forma de ensinar algo em contraposição e detrimento do conhecimento em si, do saber em si. Sempre acrescento que a educação é um ensaio destrutivo, pois o "corpo de prova" da experiência educacional é um ser humano que não pode voltar no tempo se a tal experiência for mal sucedida (como costuma acontecer). No caso do Brasil, onde gerações de crianças são educadas para continuarem analfabetas e manipuláveis pelos governistas de plantão, o quadro é ainda mais terrível e desanimador (basta ver os resultados de testes simples como o PISA ou o ENEM). Pois uma experiência educacional na área de ciências realmente inovadora e responsável foi aplicada por Marie Curie e alguns colegas seus no início do século passado. Marie Curie foi uma pessoa especial. Ganhou dois prêmios Nobel, um de Física, em 1903, e outro de Química, em 1911. Ganhou-os em áreas normalmente fechadas a participação de mulheres, já que mesmo hoje conta-se nos dedos o número de mulheres que alcançam o mesmo destaque científico. Pois ela e este grupo de colegas (nada ordinários cabe dizer: os físicos Jean Perrin e Paul Langevin, o escultor Jean Magrou, o naturalista Henri Mouton) criaram uma espécie de cooperativa de ensino a seus filhos (no que seria equivalente aos anos intermediários do ensino fundamental de nossos dias, para crianças de dez, onze anos.) As aulas eram dadas nos laboratórios ou nos estúdios de trabalho de cada um. Além de conhecimento estas aulas transmitiam amor pela ciência e prazer pelo trabalho em equipe, respeito aos métodos de pesquisa e o uso de linguagem adequada à ciência. A experiência dura só dois anos, mas foi perene a marca deixada nas crianças que a experimentaram. Os colegas, sobrecarregados de trabalho resolveram após dois anos que suas crianças deveriam voltar aos programas oficiais de ensino e fazerem os exames adequados para seguirem suas carreiras. Isabelle Chavannes foi uma destas alunas de Curie e tomou notas detalhadas de dez aulas de física entre janeiro e novembro de 1907. As notas incluem ilustrações e comentários ligeiros sobre o humor da professora (que costumava terminar as aulas com uma distribuição de quitutes). As aulas envolvem problemas que ficam progressivamente mais difíceis e elaborados. São problemas de hidrostática, equivalentes a aquilo que estudamos em física dois de um curso básico de física. O fato das anotações terem sobrevivido a virada do século e terem sido recuperados por total acaso uns dez anos atrás dá uma idéia do quanto são tênues as marcas que deixamos ao longo de nossa vida. Qualquer pessoa interessada no ensino de ciências e mesmo em história da ciência vai gostar muito de folhear este livro e acompanhar as aulas de Curie. A tradução foi feita por Waldyr Muniz Oliva, que faz uma boa apresentação do livro (Oliva é engenheiro e foi Reitor da Universidade de São Paulo). A educação só existe quando forma e conteúdo estão equilibrados. Quando um sujeito só se interessa pela forma, mata o conteúdo, torna o aluno um inbecil sem a ossatura do conhecimento. Assim, como na área que eu conheço muito bem, se um sujeito não sabe nada de ciências, principalmente da ciência do século XXI, jamais vai saber ensinar nada que importe em ciências. E é esta a tragédia do ensino de ciências neste país. Enfim, impressionante este livro. Que bom seria se um aluno dos nível médio de nossas escolas tivessem aulas assim hoje em dia. Cabe dizer ao fim que só tomei conhecimento deste livro devido ao zêlo de don Renato Cohen. Grato meu velho. [início 23/12/2009 - fim 04/01/2010]
"Aulas de Marie Curie: Anotadas por Isabelle Chavannes em 1907", Isabelle Chavannes, tradução de Waldyr Muniz Oliva, editora da USP, 1a. edição (2007), brochura 16x23 cm, 136 págs. ISBN: 978-85-314-1003-1

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

galileu galilei

Neste pequeno livro Antônio Augusto Passos Videira (professor e pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro) nos apresenta com rigor e riqueza historiográfica um pouco da vida e das descobertas de um sujeito que contribuiu muito para mudar a forma como o ser humano se vê e interpreta o mundo em que vive. Em meados de 1609 Galileu Galilei usou e aperfeiçoou um recém-descoberto instrumento, aparentado ao que hoje chamamos de luneta, para observar o céu. Galileu viu que Júpiter tinha satélites como a Terra, que Vênus tinha fases como a Lua, que o Sol tinha manchas e sobretudo observou detalhadamente a Lua. Estas observações foram publicadas no livro "Siderius Nuncius - O mensageiro das estrelas", em 1610. O impacto da forma que Galileu usou para proceder seu trabalho experimental e expôr suas conclusões teóricas marca uma mudança fundamental nas ciências naturais, sobretudo a matemática, em certa medida contribuindo para consolidar aquilo que chamamos de ciência moderna, e na própria história do homem, fortalecendo o papel do trabalho intelectual, o papel do indivíduo que produz conhecimento a partir de observações (e não a partir de revelações místicas). A União Astronômica Internacional escolheu 2009 como o Ano Internacional da Astronomia para lembrarmos e comemorarmos os feitos de Galileu. Guto Videira disserta no livro as descobertas em si, mas também comenta e reflete sobre as muitas contribuições científicas de Galileu, pontuando e exemplificando repetidas vezes. O livro é escrito em uma linguagem acessível, inclui uma generosa sessão de sugestões comentadas de leitura e uma completa relação dos livros publicados por Galileu. Voltado para todo aquele que tem curiosidade científica mas também não suporta diluições e vulgarismos "As descobertas astronômicas de Galileu Galilei" é um livro que se deixa ler com muito prazer. [início 01/10/2009 - fim 03/10/2009]
"As descobertas astronômicas de Galileu Galilei", Antônio Augusto Passos Videira, Vieira & Lent editores (1a. edição) 2009, brochura 13x18, 112 págs., ISBN: 978-85-88782-61-7

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

nova ortografia

Em 1990 foi assinado um tratado internacional entre os países que têm o português como língua oficial. Este tratado ganhou o nome de Acordo Ortográfico (da língua portuguesa) e pretende instituir uma ortografia oficial única da língua e com isso dar maior prestígio internacional à ela. Pelos termos do tratado a partir do momento em que três países o aprovassem ele entraria em vigor automaticamente e isto aconteceu em 2006 (após as aprovações de Brasil - 1995, Cabo Verde - 2004, São Tomé e Príncipe - 2006). Mais recentemente (2008) o tratado foi aprovado por Portugal, cujo governo considerou aplicar a norma apenas após um período de 6 anos. No Brasil decidiu-se que desde o início de 2009 duas ortografias serão legalmente vigentes e aceitas. A partir de janeiro de 2012 apenas a nova ortografia corresponderá à norma culta da língua e deverá ser utilizada oficialmente. Assim sendo o Brasil (junto com Portugal, claro) são os únicos países do mundo que promoveram quatro reformas ortográficas no período de um século (1911, 1943, 1971 e 1995 no caso brasileiro). Cabe dizer que os demais países signatários deste acordo nem existiam na primeira metade do século passado. O teor do acordo e o valor jurídico do tratado estão longe de alcançar consenso por qualquer grupo interessado neste tema (desde linguistas e filólogos, no meio acadêmico, até escritores e jornalistas, massivos operários da língua). Vale dizer que o acordo prevê apenas uniformização da ortografia, ou seja, o modo de escrever em português. Não existe lei que uniformize os modos de falar o que está grafado, porque isso é claramente impossível. Bem. Como todos os demais brasileiros eu tenho quatro anos para aprender a usar a nova ortografia. Não será difícil. Já fiz isto em 1971, quando ainda estava no que hoje é a primeira metade do ensino fundamental. Para começar a entender um tanto do problema li este "Guia prático da Nova Ortografia", do Paulo Ledur, conhecido escritor e homem de letras gaúcho. Trata-se de um livro pequeno, menos de 100 páginas. Na primeira terça o autor apresenta as mudanças obrigátorias e comenta as formas duplas (aquelas que ainda permitirão grafias distintas de muitas palavras nos países signatários, ulalá!). Na segunda terça parte o autor se esforça para exemplificar as regras de uso da nova ortografia, apresentando as normas e algumas estratégias práticas para sua aplicação. A última terça parte reproduz textualmente o tratado aprovado em 1990. O que acrescentar: parece claro para mim que o único objetivo prático desta reforma é propiciar que as grandes editoras de livros sediadas no Brasil possam alcançar o mercado dos outros países lusófonos (!?) sem impedimentos legais quanto a grafia das palavras. Estamos falando de puros e sonantes interesses econômicos. Qualquer pessoa que tenha entrado em uma livraria nestas primeiras semanas do ano acompanha o açodamento com que professores, dirigentes escolares, pais e estudantes procuram a tal "nova ortografia", como se ela fosse um ítem material a ser colocado em uma prateleira mental. O governo brasileiro gastará milhões de reais para adquirir livros adaptados à nova ortografia para serem distribuídos nas escolas de todos os níveis. Milhares de funcionários públicos farão cursos de capacitação às novas regras. Milhões de documentos oficiais serão reescritos. Estou seguro que os cartórios e todo o sistema judiciário tentarão ganhar um naco deste mercado em breve, talvez exigindo correção ortográfica em documentos e petições. Cabe registrar que ainda há um ato final: a Academia Brasileira de Letras deverá publicar um Vocabulário Oficial. É este documento que servirá de base para a republicação de todos os dicionários, todos os manuais de estilo e redação, todos os livros de auto-ajuda ortográfica nos anos vindouros (até um novo acordo, que estou certo acontecerá antes que eu morra, afinal de contas o Brasil não é mesmo para amadores). [início 14/01/2009 - fim 16/01/2009]
Guia prático da nova ortografia, Paulo Flávio Ledur, editora AGE (1a. edição) 2008, brochura 14x21, 95 págs. ISBN: 978-85-749-7410-1