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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

balanço de 2020

Claro, fazer um balanço deste 2020 sem falar da pandemia de Covid19 é impossível. Mas primeiro eu vou falar dos livros que li. Nesse blog eu sempre falo mesmo é de mim, de Aguinaldo Medici Severino, do filho do Aguinaldo Severino e da Doña Victória Medici, do velho e cansado Guina, de meu igual Guina Medici, de "me, myself and I", e sempre falo pelo filtro dos livros que eu li ao longo de cada ano, os livros de minhas espraiadas bibliotecas, os livros, meus amigos, meus irmãos. Neste ano produzi registros de leitura de 20 romances, de 12 volumes de crônicas ou de ensaios, de 16 livros de contos, de 16 de poesias, de 4 romances policiais, de 6 novelas, de 9 livros de memórias, perfis ou relatos; de 8 livros de arte, de 6 boas peças de teatro e de 17 de outras classes de divertimentos (catálogos de exposições, gastronomia, música, didáticos, aforismos, turismo, cartuns e mangás, e de livros dedicados ao público infantojuvenil). Fiquei feliz por ter lido quase tanta poesia neste 2020 quanto li em 2019, cousa boa. Li mais livros de arte e menos de gastronomia, li mais ficção, histórias e narrativas inventivas e menos livros de não ficção. Em minha idiossincrática classificação foram 61% de volumes de ficção (69 livros); 21% de não ficção (24 livros) e 18% de variados divertimentos (21 livros). Alcancei 114 novos registros de leitura, completando 1594 desde aquele já distante primeiro de janeiro de 2007, quando inaugurei oficialmente este canal de comunicação. Este número, 114, é exatamente a média dos quatorze anos de leituras (114 livros lidos por ano, 9 por mês, 2 por semana). Está bom para o meu gosto. Mantive minha cota de livros em espanhol, 28 deles, exatamente um quarto, e também 7% de livros em inglês (portanto, os demais 68% foram lidos no meu costumeiro e familiar português). Em 2021, provavelmente, alcançarei alguns números mágicos: 200 livros de contos, 400 romances, 300 livros de ensaios ou crônicas, 150 livros de poesia e os 1600 registros, que não quis alcançar neste 2020 por puro cansaço, um esgotamento temático (vou explorar melhor esse tema no ano que vem). Eu deveria terminar esse balanço aqui. Todavia, porém, entretanto, não obstante e, como não, apesar disto, agora, vamos a ver como é que é (vamos a ver o que realmente foi importante neste ano). Helga e eu fomos em fevereiro para a África do Sul. Foi uma viagem muito bacana e tive uma miríade experiências boas, sobre as qual já falei um tanto aqui (Clica!). Lá vi uma enorme exposição de William Kentridge, que sei agora valeu por tudo o que não foi possível ver ao longo do ano por conta da pandemia. E sobre a África do Sul aqui mais não digo. Logo após nossa volta ao Brasil a sombra da pandemia era visível demais para ser evitada, mesmo para nós, desgraçados brasileiros, povo mais lorpa do planeta, quase todos escravos mentais de criminosos condenados, mentirosos de todos os matizes e outras espécies de jaguaras. Pois logo após voltarmos ao Brasil, ao saber dos sucessos do Carnaval e do errático início das aulas, exatamente no aziago idos de março tomei a decisão de isolar-me nas terras altas de Itaara. Helga e Natália ficaram no apartamento citadino, com os gatos, e eu, em Itaara. Pareceu uma boa solução naqueles dias de início da pandemia, que falsamente prometiam ser curtos. Acontece (como diz aquele bom Fado), que fiquei quase seis meses por lá, de março a agosto, com poucas interações, conversas ou contatos. Foram dias de introspecção, de uma administrada solidão e logo de chuva, vento e frio, de dias de longas caminhadas, de muitas leituras (ora caóticas, ora sistemáticas). Foram dias de ouvir muita música e descobrir podcasts (dos quais recomendo fortemente o "Agora, agora e mais agora", de Rui Tavares; o Cenáculo, de dois jovens porto-alegrenses: Miguel e Guilherme; o De modo geral (boa invenção do Paulo Scott) e o maravilhoso PodCastizo, que fez-me viajar a Madrid uma vez mais, desta vez conduzido pela sempre querida Mnemósine). Foram também dias de fotografar muitas vezes o céu, acompanhar os arrebóis, as nuvens e os pássaros, de sentir a presença solitária da araucária que seguramente me guardava, ali de perto. Neste período, Helga e Natália trouxeram-me Cappuccio, um pequeno gato, que agora já faz parte de minhas cotidianas alegrias. No 16 de junho, não pude organizar o Bloomsday Santa Maria, como faço desde 1994 aqui, porém participei virtualmente de dois eventos, um produzido em Dublin e outro em São Paulo. No segundo semestre, já de volta à cidade, retomei as aulas de forma remota, mas ninguém jamais será capaz de me convencer da validade pedagógica destas aulas, pois de hipocrisia eu entendo e, ademais, sou velho demais para acreditar em mágica. Paciência. A ignorância é sempre um doce bálsamo, que mitiga as misérias da maioria das gentes. Em novembro, tive um raro privilégio, ser entrevistado por um dos gigantes da cultura gaúcha, don Sergius Gonzaga. Falamos sobre livros e literatura, sobre arte e ciência, sobre a vida vivida. Foi mesmo uma festa e uma das alegrias mirradas deste ano aziago. Bueno. Em 2021 pretendo recomeçar os registros de leitura. Tantos e tantos projetos já foram baldados por mim mesmo ao longo dos últimos quatorze anos. Vamos a ver o que acontecerá. Só me resta agradecer a companhia que essa melancólica vilegiatura de 2020 proporcionou-me: Canetti e Coetzee, Marías e Pérez-Reverte (que soberbo "Línea de Fuego" ele publicou neste ano), Cave e Coleridge, Tokarczuk e Handke, Schwob e Hughes, Stevens e Busato, Bashô e Issa, Camilleri e Donna Leon, Massao Ohno e Augusto de Campos, Aleixo e Benet, Shakespeare e Hilst, e tantos outros que carregarei comigo para fora deste 2020 e levarei a 2021, sempre em minha memória. Sem eles os dias seriam menores, menos férteis, pouco valorosos, muito tristes, insuportáveis. O espírito deste tempo é algo que só os antropólogos (ou paleontólogos) do século XXV entenderão. O jornalismo nunca mostrou-se tão medíocre e irresponsável. A estupidez parece que encontrou o terreno fértil onde vicejar. Alas! Há pouco fez um ano que morreu  Salen, nosso Buda revivido e privado. Já se passaram quatro anos da morte de doña Vic e três do primeiro e verdadeiro Guina.  Em 2021 organizarei novamente as estantes, os 4 ou 5 mil livros das prateleiras, estantes, nichos, para colocá-los ao alcance da mão e do acaso. Os livros sabem me encontrar por aí, brotar dos guardados, como sempre acontece. Agora é verão. Verão. William Carlos Williams já nos ensinou, quando é verão nenhuma dúvida é permitida, pois nós somos apenas mortais e sendo mortais devemos desafiar nosso destino. Saúdes para todos e para cada um. Boa sorte. Nos vemos em 2021. E, sempre, Thalatta! Thalatta!

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

balanço de 2019

Li bastante em 2019. Tantos livros quanto em 2018, muito embora naquele ano eu tivesse deixado pelo menos uns quinze volumes lidos sem registrar, cansado que estava no final. Neste 2019 alcancei registrar tudo que de fato li. As promessas literárias robustas anteriores, de 2017 para trás (reler o Cervantes, terminar o Tristram Shandy, ler as muitas novas traduções dos russos, terminar um fundamental Canetti, voltar com afinco aos gregos e aos mitos, etc e tal), restaram perdidas. Mas, assim como em 2018, fiz desvios felizes, encontrei bons veios literários, variados títulos, cousas que fizeram à essa alquebrada alma um grande bem. Neste ano produzi registros de leitura de 18 romances; 25 de volumes de crônicas ou de ensaios; 9 de contos; 21 de poesia; 16 de romances policiais; 9 de memórias, perfis ou relatos; 8 de gastronomia; 4 de livros de arte, 3 boas peças de teatro e 13 de outras classes de divertimentos (cartas, aforismos, técnicos, fotografias, catalogos de exposições, cartuns e mangás, infanto-juvenis). Li muita poesia neste 2019, como há muito não fazia. Continuei lendo os bons ensaios editados pela Âyiné. Li também minha boa cota de 33 livros em espanhol, aproximadamente 26% do total, mas apenas seis livros em inglês. Continuei com o bom ritmo de leituras dos romances policiais de Donna Leon, senhora de Veneza e da fina ironia. Li dois bons Paulo Scott e dois bons Joca Terron, dois autores que estão produzindo cousas muito mais robustas que a média dos demais autores brasileiros. Li boas traduções de autores holandeses, engendradas por Daniel Dago. O tradicional Ponto de Cinema (de Santa Maria), fechou definitivamente num 17 de junho, um dia após o Bloomsday, evento que não pude organizar adequadamente neste ano por variados motivos, inclusive o mais fundamental, a ausência do Ponto de Cinema, que nos recebia desde 1996, terceiro ano de nossos festejos locais. De qualquer forma, Doña Lourdes e Doña Ana estão em um novo local, o Bar da Casa, e o Bloomsday Santa Maria 2020 acontecerá nos domínios destas duas mulheres altas, melhorado e renovado. Minha média histórica de leitura segue estabilizada. Nos treze anos do blog li cerca de 114 volumes por ano, mais de 9 por mês, 2 por semana, um terço de livro por dia. Já há 1480 registros de leitura no "Livros que eu li" (desde 01 de janeiro de 2007). Resumidamente posso dizer que são 862 de ficção (romances, novelas, contos, poesia e peças de teatro); 373 de não ficção (ensaios, crônicas, biografias, perfis, didáticos e catálogos de arte) e 245 de divertimentos variados, absolutamente não classificáveis em categorias simples, mas todos eles de alguma forma prazerosos. Esse foi um ano em que dois prêmios Nobel de literatura foram outorgados (para o austríaco Peter Handke e para a polonesa Olga Tokarczuk); em que a aventura febril das livrarias Saraiva e Cultura alcançou a seara do estelionato, pois ambas jamais irão pagar o que devem a centenas de indivíduos e a dezenas de pequenas editoras; foi o ano em que fiz apenas minha cota regimental de viagens pelo Brasil para as avaliações do MEC. Helga e eu fomos as praias no verão e ficamos em casa nas férias de inverno. Morreu o genial Andrea Camilleri, de quem já li tantas maravilhas (agora espero a publicação do Riccardino, seu réquiem já há tanto tempo escrito, o livro sobre a morte do comissário Montalbano). Já se passaram três anos da morte de doña Vic e dois do primeiro e verdadeiro Guina. No final de 2019 morreu Salen, nosso Buda revivido e privado, que tantas alegrias nos deu. Das leituras de 2020 pouco sei dizer, sei antecipar. Os livros irão me encontrar, como sempre fazem. Organizei as estantes durante as festas de fim de ano. Tenho pelo menos 4 mil livros nas prateleiras, nas estantes, nos nichos, ao alcance da mão e do acaso. Sei que eles me encontrarão por aí, brotarão dos guardados, fazer-se-ão lembrados por uma epifania qualquer, como sempre acontece. Sei também que uma legião de escravos mentais e a turma podre do Alzheimer moral certamente continuará a tentar me incomodar, mas Humphrey Bogart já me ensinou que não se deve perder tempo desprezando alguém, basta esquecê-los, mantê-los por profilaxia bem distantes. Bueno. É quase hora de fazer-se ao mar bravio de 2020. Já é tempo, e, como já disse no ano passado: Thalatta! Thalatta!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

balanço de 2018

Neste funesto 2018 fiquei quase sempre dividido entre seguir o  ensinamento de Archilochus, que sugere ferirmos duramente os indivíduos que nos ferem, ou aceitar o estoicismo que brota das reflexões de Proust, quando ele fala da eficácia efêmera do desgosto. Li como um demônio neste ano terrível, neste ano aborrecido e previsível, neste país onde só floresce, entranha e reina a estupidez. Se fiz só 104 registros de leitura foi por absoluto cansaço, aquele cansaço do Pessoa, supremíssimo cansaço. Fiquei meses sem resenhar, apenas lendo, com método, alheio a quase tudo. Deixei pelo menos uns 20 livros lidos para registrar no ano que vem. Vamos a ver se coloco a casa em ordem durante as férias. Bueno. Não cumpri nenhuma das promessas literárias de 2017 (reler o Cervantes, terminar o Tristram Shandy, voltar aos gregos, etc e tal). Mas fiz desvios felizes, encontrei bons veios literários, variados títulos. Neste ano produzi registros de 24 romances, 18 volumes de crônicas ou ensaios, 15 de contos, 11 de poesia, 10 romances policiais, 6 de arte, 6 novelas gráficas e 14 outros divertimentos. A boa surpresa foi ter lido 10 livrinhos da editora Âyiné. Li também minha boa cota de 20 livros em espanhol, aproximadamente 20% do total, mas apenas um livro em inglês, um bom e fundamental Coetzee, apenas um. Li 9 livros da Donna Leon e bons livros de poesias (Ficowski, Britto, Andresen, Tranströmer, Aleixo, Hilst, Portella, Nooteboom, Moura, Medeiros e a Lira Argenta organizada pelo Mendonça. Tive uns assombros, umas surpresas: Botelho, Czekster, Tavares, Nogy, Musil, Krause, Nei Lopes, Brasiliense. Reencontrei o Nooteboom, sempre fundamental, o genial Javier Marías, o Camilleri, o Pellanda, o Modiano, o Vargas Llosa, o Pérez-Reverte, o Vila-Matas. Tive a alegria de ver o grande livro do Abdon Grilo ser publicado (peça fundamental para entender algo sobre o Ulysses, de James Joyce). Depois de anos Ulysses mais uma vez fez-se ao mar. Evoé Abdon, Evoé. A média histórica de leitura segue estabilizada. Nos doze anos do blog foram lidos cerca de 113 por ano, mais de 9 por mês, 2 por semana, um terço de livro por dia. Já há 1354 registros de leitura no "Livros que eu li" (desde janeiro de 2007). Resumidamente posso dizer que são 793 de ficção (romances, novelas, contos, poesia e peças de teatro); 338 de não ficção (ensaios, crônicas, biografias, perfis, didáticos e catálogos de arte) e 223 de divertimentos variados, absolutamente inclassificáveis, mas sempre prazerosos. Esse foi um ano sem prêmio Nobel de literatura, em que a aventura febril das livrarias Saraiva e Cultura as fez quase falirem, em que fiz boas viagens pelo Brasil para as avaliações do MEC, de uma copa do mundo de futebol discretíssima. Ano em que fomos, Helga e eu, a Buenos Aires, e vimos doña Natália Diacoyannis formar-se, para logo tatear outros mundos. E viva Naty! Foi o ano da morte do Bourdain, do Schlee e do Cony; do Hamburger, do Videira e da Elisa Frota-Pessoa, três grandes físicos. Já se passaram dois anos da morte de doña Vic e um do primeiro e verdadeiro Guina. Sei que lerei minha boa cota de livros em 2019, mas não farei planos desta vez. Sei que eles vão me encontrar por aí, brotar dos guardados, fazerem-se lembrados por uma epifania qualquer, como sempre acontece. Sei também que os escravos mentais e a turma do Alzheimer moral certamente continuarão a tentar me incomodar, mas Humphrey Bogart já me ensinou que não se deve perder tempo desprezando alguém, basta esquecê-los, mantê-los por profilaxia bem distantes. Bueno. É quase hora de fazer-se ao mar de 2019. Já é tempo. Thalatta! Thalatta!