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domingo, 1 de setembro de 2019

o matrimônio de céu e inferno

Enéias Tavares, professor de literatura da UFSM, e Fred Rubim, designer gráfico, uniram-se para engendrar o ambicioso projeto que foi o de recriar algo dos livros iluminados de William Blake na forma de uma graphic novel. O resultado é bacana. Claro, qualquer reinvenção de um clássico envolve as limitações de cada gênero, a liberdade criativa dos autores, as camadas de recepção do original já acumuladas, o público a quem a nova transcriação é oferecida e tantas outras condições de contorno. No caso específico de Blake deve-se acrescentar o quão enigmático e metafórico é o próprio original. De qualquer forma, acho que os dois apresentam uma proposta honesta ao leitor. Blake foi poeta, pintor, gravador, escritor, viveu entre a segunda metade do século XVIII e o primeiro quarto do século XIX. Produziu uma obra vastíssima, que pode ser acessada no "Arquivo Blake". O livro iluminado  transcriado por Enéias e Fred, composto originalmente em 1790, pode ser acessado no link "The Marriage of Heaven and Hell". A história de Enéias e Fred acrescenta ao propósito de homenagear Blake uma miríade de alusões de outros autores que nele se inspiraram nos últimos 200 anos (de Yeats e Jung a Aldous Huxley e Jim Jarmusch, entre tantos). O enredo é confessadamente tarantinesco, ou seja, deve algo ao universo criativo de Quentin Tarantino, a estilização da violência e cultura pop. Os dois autores criaram uma narrativa que alterna o destino de quatro personagens (um matador de aluguel, uma prostituta, um pastor evangélico e uma designer), viventes de uma furiosa São Paulo contemporânea, com as partes do livro de Blake, onde o diabo oferece ao poeta sua versão dos sucessos de sua queda, sua bíblia infernal. A paleta de cores de cada personagem funciona como marcador e facilita, eu diria até demais, a vida do leitor. O livro inclui vários mimos: notas de referência sobre as associações cifradas no texto e nas imagens; reproduções das pranchas de Blake, o making of do roteiro de Enéias; o making of da concepção plástica de Fred Rubim; vários curtos textos críticos, que contextualizam o trabalho de Enéias e Fred no universo da produção de literatura fantástica e gráfica brasileira contemporânea. Como já disse, bacana. Vamos a ver o que esta dupla inventará na sequência. Segue o baile. Vale! 
Registro #1443 (graphic novel #74) 
[início: 12/07/2019 - fim: 21/07/2019]
"O matrimônio de céu e inferno", Enéias Tavares e Fred Rubim, Porto Alegre: AVEC, 1a. edição (2015), capa-dura 15x21 cm., 384 págs., ISBN: 978-85-5447-042-5

sábado, 4 de outubro de 2014

a lição de anatomia do temível dr. louison

Se o sujeito gosta de ficção científica, mundos alternativos, realidades inventadas, fantasias descompromissadas, sociedades secretas, narrativas onde tecnologia e história se fundem (e que sejam fundamentalmente bem escritas), irá divertir-se um bocado com "A lição de anatomia do temível Dr. Louison", de Enéias Tavares, vencedor do concurso Fantasy Casa da Palavra (editora carioca que faz parte do grupo português Leya). Descobri que os sub-gêneros da literatura fantástica são quase tão numerosos como os grãos de areia de um mar. O livro do Enéias pertence a categoria steampunk, onde são utilizados elementos que remetem à era vitoriana, personagens históricos reais (ou ficcionais, de outros autores) e alta tecnologia, sobretudo mecanismos movidos a vapor (daí o steam - vapor em inglês). Enéias povoa seu livro com personagens de Lima Barreto, Machado de Assis, Álvares de Azevedo, Raul Pompéia e vários outros numa cidade que poderia ser Porto Alegre, fosse o planeta Terra um lugar ligeiramente mais bizarro do que esse em que vivemos. A história é movimentada, não dá fôlego ao leitor e faz uso de várias técnicas narrativas: cartas, diários, entrevistas, transcrição de documentos. Enéias consegue manter atento mesmo o leitor não familiarizado com o gênero com uma série de mimos, na forma de citações, alusões e associações com textos clássicos, crítica literária, teorias sociológicas, filosóficas ou psicanalíticas. Claro, diverte-se mesmo o leitor que embarca de imediato na proposta e aprecia as ironias recorrentes que ali encontra (num certo sentido parece que o autor, Enéias, tenta desculpar o histrionismo de seus narradores, tenta estabelecer uma ligação direta com o leitor). Os personagens, quase todos empolados, retóricos, afetados cada um à seu modo, propiciam o exercício de vários registros de linguagem, e nisso Enéias demonstra total controle e versatilidade (e um sarcasmo quase cruel), criando o aspecto mais saboroso do livro. A história que se conta é a de uma vingança bem elaborada, a eterna luta do nobre bem e do absoluto mal. Um sujeito é acusado pelo desaparecimento de personalidades importantes da cidade. Um grupo de amigos tenta entender sua motivação e eventualmente ajudá-lo. As duas partes finais me pareceram demasiadamente explicativas, como se o narrador não pudesse deixar nada sem ser elucidado (mas talvez isso faça parte dos estatutos deste gênero literário). Aparentemente haverá mais sucessos dos protagonistas do livro a serem contados no futuro, numa série chamada "Brasiliana Steampunk". A ver.
[início: 01/10/2014 - fim: 03/10/2014]
"A lição de anatomia do temível Dr. Louison", Enéias Tavares, Rio de Janeiro: editora Casa da Palavra (Grupo Leya) selo Fantasy, 1a. edição (2014), brochura 16x23 cm., 303 págs., ISBN: 978-85-7734-489-5