Publicada em 1987, esta pequena edição de contos de John Cheever é muito boa. A seleção deles foi feita por Sérgio Augusto e a tradução por Paulo Henriques Britto. São treze histórias, que originalmente sairam em revistas e jornais, entre 1947 e 1973. Quase todas elas envolvem pessoas da classe média americana, na periferia de grandes cidades, com suas excentricidades ou inaptidão às circunstâncias de suas vidas. Cheever conta (antes ironiza) as pequenas misérias delas e explora quase sempre algum preconceito, problemas de relacionamento, o limiar terrível da depressão, crise ou loucura. Nas histórias ele nunca é redundante, repetitivo, pois ao longo da narrativa, como numa espécie de labirinto, progressivamente acrescenta elementos, ora similares, ora contrastantes, que tornam seus contos realmente especiais. Ele explora também alguma fantasia, que pode sim ser associada a transtornos psicológicos ou outras patologias, mas que funciona como invenção do mundo especial onde habitam seus personagens. Gostei particularmente de "O nadador", "Balada triste", "A quimera" e "Percy". Os demais também são interessantes, só não gostei de "Miscelânia de personagens que não vão aparecer", "Uma visão do mundo" e "O Natal é triste para os pobres". O conto que dá nome ao livro, "O mundo das maçãs", fala de um velho poeta americano radicado na Itália. Apesar do deslocamento geográfico são suas memórias da vida nos Estados Unidos que assombram o livro. Há neste conto uma associação entre a poesia (e a arte em geral) com a auto-destruição, que é bem interessante. Vou procurar mais histórias deste sujeito. [início 26/04/2012 - fim 30/04/2012]
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quarta-feira, 2 de maio de 2012
domingo, 8 de abril de 2012
a crônica dos wapshot
"A crônica dos Wapshot" é o primeiro romance de John Cheever. Foi premiado com o National Book Awards de 1958. Fazia tempo que não lia um livro tão divertido. Todavia há algo de perverso neste divertimento. John Cheever parece zombar de seus personagens, apresentando-os ao leitor sempre com sarcasmo. Cheever conduz sua narrativa num ritmo frenético, acumulando histórias e pequenos causos que se encaixam num crítico e complexo panorama da decadência de uma família da região nordeste dos Estados Unidos. O mais patético dos curiosos personagens de Cheever é Leander Wapshot. Ele comanda um pequeno navio de cabotagem, organizando passeios e algum transporte comercial pelo delta de uma região que está longe das rotas de navegação importantes e economicamente viáveis. Leander e sua família são dependentes economicamente de uma prima sua, uma velha senhora chamada Honora. Leander espera fazer de seus filhos, Moses e Coverly, herdeiros dela. O livro é organizado em três grandes blocos de histórias. A primeira parte é basicamente linear, onde acompanhamos a genealogia e o cotidiano dos Wapshot até a saída algo abrupta dos irmãos Moses e Coverly da cidade onde se passa a história (também ela uma espécie de personagem, St. Botolphs). Na segunda parte Cheever fragmenta sua narrativa, alternando capítulos com as memórias de juventude (algo inventadas) de Leander e o cotidiano dos irmãos em Nova Iorque e em Washington. Difícil dizer qual dos dois é mais inepto e desafortunado, tanto na vida profissional quanto em seus envolvimentos afetivos. Na terceira parte do livro acompanhamos a vida conjugal de Moses e Coverly com duas mulheres tão amalucadas quanto eles. Ficamos sabendo também que Leander sobreviveu ao naufrágio de seu barco (provocado por sua própria inaptidão) e que Sarah, sua mulher, montou um promissor negócio de presentes e turismo (usando os destroços do navio de seu marido) deixando-o bastante contrariado. O nascimento dos filhos de Moses e Coverly os reconcilia com a matriarca Honora, a única que parece ter dinheiro na família. Cheever reserva duas boas passagens cômicas para o final, uma no funeral de Leander e outra na descoberta dos últimos apontamentos de seu livro de memórias. Como sou dado a fazer associações amalucadas entre tudo o que leio não me furto de registrar que "A crônica dos Wapshot" parece ser uma versão arquetípica do "Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Márquez. Claro, Cheever é bastante realista e não contamina seu livro com surrealismos e invenções mágicas, nem multiplica seus personagens à exaustão, como faz Garcia Márquez, mas o sentido trágico da narrativa, a ironia e o humor, a espiral de decadência, a repetição dos erros cometidos pelos personagens e o estoicismo com que eles aceitam suas misérias, parece aproximar de alguma forma estes dois livros. Seguro que vou procurar mais livros desde sujeito. [início 08/03/2012 - fim 21/03/2012]
"A crônica dos Wapshot", John Cheever,
tradução de Alexandre Barbosa de Souza, São Paulo: editora Companhia das Letras (Companhia de Bolso), 1a.
edição (2011), brochura 12,5x18 cm, 309 págs. ISBN: 978-85-359-1941-7 [edição original: The Wapshot Chronicle (New York: Harper) 1957]
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