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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

a coisa mais próxima da vida

Há seis anos li o bom "How fiction works", de James Wood. Fiquei bastante impressionado com a capacidade de síntese do sujeito e com suas ideias sobre crítica literária. Ele é jornalista de formação, inglês, mas radicado há duas décadas nos Estados Unidos. É bastante respeitado - e claro - temido. Nunca fez pós-graduação, mas dá aula em Harvard. É colaborador recorrente de vários jornais e revistas literárias americanas e inglesas. Parte de sua notoriedade vem da forma como entende seu ofício, preferindo destacar o impacto estético, os sentimentos provocados, as epifanias e associações que o leitor infere diretamente das obras literárias, ao invés de utilizar aparatos acadêmicos, analíticos, ou submeter-se a comprometimentos ideológicos (esse tipo de crítica ideologicamente direcionada é muito comum, sobretudo em um país marginal, como o Brasil). Para ele a boa crítica é uma "redescrição apaixonada", o bom crítico alguém que lê os livros com o entusiasmo de quem os escreveu. Em "A coisa mais próxima da vida" estão reunidos quatro ensaios curtos, que originalmente foram proferidos como palestras, passaram pelo filtro da comunicação direta com o público. Três deles são de 2013 (parte das Mandel Lectures da Brandeis University) e uma de 2014 (em um evento do British Museum). O tom é bem pessoal. Wood fala sobretudo sobre os livros que leu e releu, que o ajudaram a desenvolver sua técnica crítica, mas também fala algo de sua biografia, de seus anos de formação, suas escolhas, sua lenta imersão no mundo dos livros. As três palestras Mandel da Brandeis podem ser acessadas livremente. Vale a pena assisti-las. Em "Por quê?" ele compara a experiência de ler ficção com a experiência de refletir sobre a morte de uma pessoa que conhecíamos bem. A vida inteira daquela pessoa é apenas parte de nossa memória, pois a pessoa não existe mais, parece inventada, assim como um personagem de ficção é apenas um capricho, fruto das escolhas estéticas e humor do autor. Em "Observação séria" Wood fala sobre o controle do tempo e dos detalhes que precisamos aprender a observar para alcançarmos compreender completamente uma história (e que os autores precisam aprender a produzir para tornar suas histórias críveis e interessantes, literariamente válidas). Em "Fazer uso de tudo" ele fala das diferenças entre a crítica literária acadêmica e as críticas práticas (selvagens, diria eu), valoriza o bom uso das metáforas, da elisão necessária tanto na produção artística quanto na crítica. Na última palestra, "Desabrigo secular", Wood fala ao público, inglês, de sua experiência de quase exílio nos Estados Unidos, de como vários bons autores (Sebald, Naipul, Coetzee, Kadaré) alcançaram reproduzir literariamente o estranhamento que é a compreensão de um mundo novo, não aquele confortável onde nascemos e nos criamos. Essa habilidade, a de integrar-se ao novo e sentir saudades do passado, é similar aquela que o leitor tem ao conhecer aos poucos o mundo literário de um livro novo que lê. Interessante. Mas é tempo de mudar de assunto, ir ao Shakespeare, aos portentos que Lawrence Pereira, José Francisco Botelho e José Roberto O'Shea traduziram recentemente.Vale!
Registro #1236 (crônicas e ensaios #219)
[início: 25/10/2017 - fim: 30/10/2017]
"A coisa mais próxima da vida", James Wood, tradução de Célia Euvaldo, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 14,5x23 cm., 125 págs., ISBN: 978-85-504-0480-6 [edição original: The nearest thing to life (New England/USA: Brandeis University Press) 2015]

sexta-feira, 1 de abril de 2011

how fiction works

Soube deste pequeno livro através do Daniel Piza, talvez ainda no natal de 2008, mas não me preocupei em comprá-lo naquela época. Acabei encontrando "How fiction works" mais recentemente, em uma tarde estival, paulista, acompanhado de don Renato Cohen e discutindo livros. Li o bom texto de James Wood entrecortando o tempo com outras cousas (como sempre acontece afinal de contas). O inglês de Woods é relativamente fácil, entretanto ele usa vez ou outra uns termos que só meu arsenal de dicionários e alguma invenção lograram decifrar (se é que consegui fazê-lo certo, confesso, pois há que se considerar que teoria literária não é exatamente minha seara). O livro é dividido em dez capítulos, mas cada parágrafo, focalizado em uma idéia ou conceito, é numerado. Isto facilita localizar posteriormente um argumento qualquer dele. Trata-se de um livro bem objetivo. Serve-se de exemplos do que há de melhor na prosa: Flaubert (principalmente) e Henry James, mas passando por Nabokov, Bellow e Joyce, Proust, McCarthy, Foster Wallace, Roth e Sebald, entre uma miríade de citações. Ele consegue não deixar o livro tornar-se pedante e/ou demasiadamente acadêmico. No final incluiu uma lista com os quase cem títulos citados - até aqueles que o foram apenas episodicamente. Qualquer programa sério de leituras certamente acolheria este cânone sem maiores problemas. Ele levanta questões interessantes sobre a dose certa de artifício e verossimilhança que toda criação literária pode aspirar alcançar (isto sem cair na vala comum do realismo, que não é o tipo de ficção que possa se prestar a ser lida neste início de século). Não é, nem de longe, um livro para amadores ou beletristas, leitores que se contentam com ler apenas o que é oferecido pelo cardápio literário contemporâneo, ou aqueles que leem por encomenda, sem maturidade. O que ele parece dizer é que há autores que um sujeito que preze a literatura não pode se furtar em ler, pois é através da leitura destes bons livros que, primordialmente, inferimos o quê realmente importa na vida, nas questões morais e nos homens. Seu argumento original aspira emular o que John Ruskin fez com o desenho e a pintura em "The elements of drawing". Por fim, cabe registrar que um inglês como ele tem de ter coragem para escrever: "The english language is a van cousin of the french language". Ulalá. Vou procurar outras coisas deste sujeito. Belo projeto de interpretação, belo livro. [início 12/01/2011 - fim 14/03/2011]
"How fiction works", James Wood, Great Britain: Vintage Books U.K. (Random House Group), 1a. edição (2009), brochura 13x20 cm, 194 págs. ISBN: 978-1-845-95093-4