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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

refusões

"Refusões", de Marcelo Tápia, é o maior portento poético que li no ano (o maior portento que li em prosa foi "Berta Isla", de Javier Marías). "Refusões" desdobra-se em seis volumes, reunindo a produção poética de Tápia, de 1982 a 2017. Trinta e cinco anos de boa poesia é para poucos. Tápia fez girar sua roda da fortuna, acrescentando a "Primitipo" (1982), "O Bagatelista" (1985), "Rótulo" (1990), "Pedra Volátil" (1996) e "Valor de Uso" (2009), um novíssimo e estimulante volume, "Expirais". Conhecia já quase todos desde os tempos de minha encarnação paulista, quando frequentava a USP e os Bloomsday paulistanos, capitaneados por Haroldo de Campos e secundados pelos cavaleiros da távola haroldina, Tápia dentre eles sempre o mais industrioso. Sobre "Valor de Uso", de 2009, já registrei algo aqui (clica!). Foi um bom exercício voltar a cada um dos volumes, sair do "Expirais" e lentamente acompanhar o corsi e ricorsi marcelotapiano. Na curta e seminal introdução, Tápia explica tudo o que precisa ser dito com a chave da inteligência sobre o "Refusões". Ele precisa seu procedimento, informando que nem todos os poemas originais foram republicados, que alguns foram alterados, cortados, ilustrando que após nossas contínuas metamorfoses eventualmente temos a fortuna de nos tornar mais sábios e melhores leitores de nós mesmos, compreendendo melhor com as cãs da experiência aquilo  que forjamos no tempo. Tápia, também um Janus redivivo, nos diz em sua introdução como vê a gênese e a lógica de sua produção do passado e decifra algo daquilo que agora entende como seu projeto (ele chama esse procedimento de emancipação de "uma 'fórmula' antes enunciada"). Para usar um símile da mecânica, Tápia parece aplicar o princípio de Hamilton à seu ofício, encontrando nesse conjunto de livros/poemas antigos e no novo "Expirais" a trajetória artística que sempre alcançou o valor extremo de sua ação, sua poesia. A refinada edição da Perspectiva inclui textos críticos de Jaa Torrano, Susana Busato, Antonio Vicente Pietroforte,  Aurora Bernardini e Rodrigo Bravo. Cada um desses textos oferece ao leitor ferramentas de entendimento e apreciação à poesia do Tápia. E o leitor não pode deixar de acessar a página do livro no site da editora Perspectiva. Tápia lê trinta de seus poemas. Vale a pena conferir e desfrutar da dicção e entonação dele: Clica!. Enfim, não será nesse curto registro de leitura que alcançarei apresentar a potência e riqueza de soluções poéticas de cada um dos seis livros reunidos. Na falta de um registro próprio para cada um dos livros, só sintetizo aqui: (i) que no último poema de "Primitipo",  seu primeiro livro, o poeta já cantava que "expira espirais do tempo / que rola no rio d'infância", remetendo o leitor à ideia geral de seu livro mais recente; (ii) que no "O Bagatelista" encontramos poemas visuais à la Bossa, à la e.e. cummings, poemas signo; (iii) que "Rótulo" é um livro de ismos, de um homem sociológico que usa as ferramentas de ofício e ironia bruta, para perscrutar verdades e mentiras; (iv) que em "Pedra Volátil" se fala da paisagem urbana, de causos históricos e políticos, explicita o Tápia forte, leitor de outros poetas fortes; (v) que "Valor de uso" talvez seja o mais musical, é o que mais gosto de ler em voz alta; (vi) que "Expirais" é puro deleite, em imagens, invocações, sínteses. O aedo procura uma musa perdida, é menos explícito quanto às fontes e inspirações, labuta para não deixar oxidados poemas, faz anamnese da vida inteira, faz brotar a memória caipira, concretiza tudo, sai a navegar, mediterrâneo e genealogia afora. Que conjunto, que alegria. Evoé Marcelo, Evoé. ÔBeleza. E Vale! 
Registro #1250 (poesia #91)
[início: 16/06/2016 - fim: 19/12/2017]
"Refusões: poesia reunida 2017-1982", Marcelo Tápia, São Paulo: Editora Perspectiva, 1a. edição (2017), brochura 15x20,5 cm., 448 págs., ISBN: 978-85-273-1099-4
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Balanço final 2017
Em 2017 entendi na prática as palavras de Flaubert que li há tantos anos: "Meu coração está se transformando numa necrópole". À morte de minha mãe, no final de dezembro de 2016, seguiu-se a de meu pai, no meio de junho. Perdemos também uma de nossas gatas, a Niham. Que praga! Enterrei alguns amigos, perdi-me de outros. Acontece. Li bastante poesia e peças de teatro em 2017. De fato, desde o início de 2007, quando esse "Livros que eu li" fez-se às ondas do rumoroso mar digital, só em 2012 li tantos e bons volumes de poesia. Bueno. Em 2017 fiz 125 registros de leitura, aumentando um tanto a media dos dez anos do blog. Foram 28 romances (22% do total), 19 livros de crônicas ou de ensaios (15%), 19 de contos, 10 de poesia, 10 romances policiais, 7 livros de arte, 6 novelas, 6 peças de teatro, 4 de perfis e memórias, 4 histórias em quadrinhos, 3 infantojuvenis, 3 de turismo, 2 de gastronomia, e um mais ou menos dentro da seguinte classificação: de fotografias, de cartas, catálogo de uma exposição de arte e de aforismos (talvez o mais fundamental deles, o do Ambrose Bierce). Já disse que li bastante boa poesia (Tápia, Medeiros e Aleixo, entre outros) e bons dramas (Shakespeare, nas estimulantes traduções de Botelho, Lawrence e O'Shea; Sófocles, na da Kathrin ); li cousas boas japas (Tanizaki, Kafu, Buson, Murakami); li a excelente biografia de Von Hunboldt; oito bons romances policiais de Donna Leon, 4 belas plaquetes do povo da At it Again. Li os quatro volumes da Série Napolitana de Elena Ferrante. Li o bom Pamuk mais recente. Li poucos livros em inglês (só 5% do total) e em espanhol (6%), talvez meu pior registro histórico. Paciência. Isso se deu pois nunca havia lido tantos autores nacionais. Foram 40 volumes, 32% do total. Alguns foram gratas surpresas, outros merecem uma releitura, mas não me entusiasmaram tanto assim. Aqueles que deixei de 2016 para ler em 2017 continuaram no limbo das promessas e dos planos, aquela zona fantasma, muito embora eu tenha avançado um bocado no Tristram Shandy traduzido pelo Javier Marías. Foram 0,35 livros por dia, 2,46 por semana, 10,5 por mês. Foram aproximadamente 2/3 livros de ficção, 1/5 de não ficção e 1/5 de bons divertimentos, seguindo o bom conselho do Montaigne. Ajudei minimamente o industrioso Abdon Grillo a editar seu estudo sobre o Ulysses, que será lançado no início de fevereiro, no dia de aniversário do Joyce. Que alegria. Acompanhei os sucessos das meninas da famiglia, Helga e Natália, que receberá seu título de bacharelado em Psicologia em breve, no próximo dia 06. Viajei bastante, conheci alguns lugares realmente interessantes do interior do Brasil. Em 2018 haverá mais boa poesia, haverá os haikus do Bachô editados em Portugal, os novos livros de Sérgio Medeiros e Ricardo Aleixo, a leitura do Finnegans Wake da Dirce do Amarante, as novas transcrições caetnogalindescas, a sempre postergada biografia do Johnson. Haverá mais Donna Leon, gostei do estilo dela. O Javier Marías deverá lançar mais um livro com suas crônicas semanais reunidas. Haverá mais biografias e coisas musicais. Pretendo voltar aos gregos e aos mitos. Talvez irei seguir o conselho de um amigo de longe, para fazer registros das leituras antigas, prévias a existência do blog. É uma ideia ainda bruxuleante. Haverá Copa do mundo de futebol, eleições, um Bloomsday Santa Maria novo. Talvez eu volte para a Irlanda, desta vez com a Helga. Logo veremos. É isso. Vale!

sábado, 9 de setembro de 2017

livro aberto

Foi Helga Correa, senhora das gravuras, das colagens e dos livros de artista, quem primeiro perguntou-me se eu conhecia "Livro aberto", de Marcelo Tápia. Como eu estava envolvido com a leitura do notável "Refusões", livro mais recente dele, onde está reunida sua produção poética, de 1982 a 2017, resolvi garimpar por aí um exemplar e consegui. Um livreiro lá do Rio de Janeiro tinha um volume, que acabou incorporado a meus guardados. "Livro aberto" é antes de tudo um conto, mas também é um livro-objeto, um experimento de design gráfico, uma inventiva proposta narrativa. O volume, impresso em preto, com identificação apenas na lombada, tem 82 páginas, com um retângulo recortado em todas elas e na capa. Lembra imediatamente o obturador de uma câmera escura (quando o livro fica na vertical) ou um poço de elevador (quando o livro repousa na horizontal), atraindo nos dois casos o olho do leitor para uma escuridão no fundo (que é o verso da contracapa, único elemento não vazado do livro). Ao abrir o livro o leitor parece entrar em um teatro, momentos antes de uma peça começar a ser encenada, com os elementos cenográficos já instalados num palco. O conto envolve seis personagens (narrador, marido, assistente, esposa, amante, inimigo) e tem uma chave de leitura, na forma de um diagrama. Cada personagem da trama se apresenta apenas em espaços previamente determinados (dois espaços acima, dois espaços abaixo e em cada um dos dois lados do retângulo recortado das páginas. O "narrador" e o "inimigo" têm liberdade para ocupar os espaços dos demais. Cada voz narrativa se diferencia graficamente por ter uma fonte tipográfica distinta. O livro inclui breves citações, também diferenciadas tipograficamente. A história que se conta pode ser separada em três atos, de mais ou menos dez páginas cada um. Os seis personagens, funcionários de um escritório e que se conhecem muito bem, entram em um elevador que trava, deixando-os na escuridão. A cada página o autor registra breves e episódicos pensamentos deles, em geral apenas de um ou dois a cada vez. A consciência do quinteto (marido, assistente, esposa, amante e inimigo) flui recortada, enquanto o narrador conduz o leitor ao entendimento do drama, da história e tensões acumuladas entre eles. Na cabine escura do elevador o tempo congela, passado, desejos, medos e pulsões dos personagens se fundem. Há um clima de sonho, onde se misturam sexo e crime. Eventualmente o grupo será resgatado, mas será que o leitor não ficou demasiado tempo focado no poço, no abismo, no jogo do livro, não terá perdido alguma coisa? Volte a ler ou conte melhor a história, conte outra história, parece sugerir o autor. Interessante mesmo. Mas agora é hora de voltar às imagens poderosas dos cinco livro reunidos no "Refusões". Vale.
Registro #1214 (conto #142)
[início: 04/09/2017 - fim: 06/09/2017]
"Livro aberto", Marcelo Tápia, São Paulo: Editora Olavobrás,  1a. edição (1991), brochura 18x23 cm., 82 págs., sem ISBN

quinta-feira, 1 de abril de 2010

valor de uso

Ler poesias sempre é um desafio. Talvez por conta das aulas pedestres de literatura que tive ou de minha pouca familiaridade juvenil com a gramática, demorei para um dia me encantar com aquilo que à diferença da prosa a poesia nos oferece: a potência das imagens e a sedução dos sons, o intrincado que estimula as sinapses, a eventual epifania que espouca na memória. Mas o treino e a eventual paciência nos ensina que os prazeres que a poesia oferece fazem a alma um grande bem. Este belo livro de Marcelo Tápia pertence a classe daqueles que servem para a simples fruição dos pequenos poemas que contêm e também para demonstrar a maquinaria das construções mentais de um autor forte. Nos poemas Tápia dialoga com filósofos, com prosadores e poetas, mas o que nos oferece parece burilado para esconder sua erudição instrínsica, como se ele quisesse atingir o leitor em um nível mais fundamental, mais primitivo, de nossa consciência. No livro encontramos duas séries de poemas: "Des-enganos" e "Aquém-emulações, intervenções e além-traduções", precedidos por um poema-epígrafe e um poema-preâmbulo que achei muito poderosos, instigantes mesmo. Pois o preâmbulo começa com um "Fui e sou servidor de muitos senhores" que magnetiza e estimula o leitor. Como sempre com as poesias fico a pensar se não deixei passar detalhes, se não interpretei corretamente uma passagem, se não fui inteligente e ágil o suficiente. Mas talvez seja isto mesmo que as palavras fortes devem fazer: forçar o leitor a expressar o algo novo que já estava ao alcance de nossos sentidos e teimávamos não perceber. A edição é muito bem cuidada . Este é mesmo um livro para se lembrar. É tempo. [início 01/03/2010 - fim 25/03/2010]
"Valor de uso", Marcelo Tápia, editora Annablume, 1a. edição (2009), brochura 16x23 cm, 90 págs. ISBN: 978-85-63141-02-6