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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

lontananza bar

De David Toscana  já li os bons "Santa Maria do circo" e "O último leitor". Recentemente a editora santista Realejo publicou esse "Lontananza bar", que é um dos livros mais antigos dele, publicado originalmente em 1997. São nove contos curtos, autônomos sim, mas também algo aparentados, pois gravitam uma cidade (talvez a Monterrey natal de Toscana) e um bar (o Lontananza do título). São histórias de desilusões, de fracasso, de desesperança e solidão. Em cada uma delas uma pessoa, em geral um homem, pois nelas as mulheres são sempre coadjuvantes, passa por um momento terrível da vida e eventualmente acredita ser possível servir-se do bar como uma espécie de confessionário ou divã. Há uma cronologia sutil nas histórias. Se na primeira encontramos o proprietário do Lontananza, Odilon, ainda ativo e forte, na última ele já é memória, porém o bar continua. Estas pessoas, estes homens (Amaro, Odilon, Hildebrando, Rúbem, Alberto, Héctor, Ruço, Victor, Amílcar) vivem no bar ou próximo dele suas misérias, covardias, medos, mentiras e frustrações. O México que Toscana nos apresenta é um lugar amaldiçoado, onde os empregos desaparecem como por encanto e que dilui lentamente a dignidade e os sonhos de seus habitantes. Mesmo na história em que acompanhamos um sujeito que conseguiu se radicar no rico vizinho do norte, os Estados Unidos, o resultado é um desalento só. Não há o que invejar de quem nasceu naquela província árida e distante da fortuna. Tenho uns outros Toscana perdidos entre os guardados. Talvez seja a hora de retomá-los, lê-los com calma e atenção. Vale. 
[início: 31/01/2017 - fim: 02/02/2017]
"Lontanzana bar", David Toscana, tradução de Manoel Herzog, Santos: Realejo Livros e Edições, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 146 págs., ISBN: 978-85-99905-92-0 [edição original: Historias del Lontananza,  Ciudade de México: Editorial Joaquím Mortiz (Grupo Planeta) 1997]

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

santa maria do circo

Ano passado eu havia lido "O último leitor" do mexicano David Toscana quase de uma sentada só. Foi uma leitura bastante agradável. A imaginação deste sujeito é mesmo poderosa. O que ele faz não pode ser classificado como realismo mágico, o que seria um rótulo fácil, apesar de gasto, a ser aplicado a um escritor latinoamericano jovem. Andei procurando críticas de e sobre Toscana e ele prefere cunhar seu próprio rótulo chamado-o de "realismo desvairado". Segundo ele o leitor médio de hoje sofre um "mal do real", pois existe tanta informação disponível e estas são reeditadas tão rapidamente que este leitor médio acaba acreditando entender como funciona a realidade, mas na verdade opera em um mundo tão falso como aquele imaginado por Don Quixote por exemplo. Bom. Neste "Santa Maria do Circo" (que é uma piada pronta para nossa Santa Maria gáucha, mas esta é outra história) somos apresentados a um grupo singular de artistas que vaga por uma região não nominada do México natal do autor. O grupo acabou de ser formado pela divisão de um circo maior e acaba chegando a uma cidade abandonada. Eles resolvem se estabelecer por ali e sorteiam entre si cargos e ocupações aleatórios: um padre, uma jornalista, um militar, um camponês, um escravo, uma puta, uma médica, entre outros (até um diabo se revela no fim.) Numa sucessão de episódios observamos como cada um reage a sua sorte/azar/fortuna. O lado menos conhecido de cada um aflora e conflitos entre eles se sucedem. Várias vozes, vários narradores, contam suas histórias e também um tanto da história do México. O livro parece engraçado, mas é sombrio do começo ao fim. Gostei de uma técnica curiosa: os capítulos se sucedem de forma que a ação, o enredo de cada um, começe mais ou menos no meio do que foi descrito nos capítulos anteriores. Claro, o irrealismo assumido de tudo que se conta nos obriga a pensar como operamos nestes tempos sombrios em que vivemos, onde ninguém está fora do alcance de pequenas tragédias, surpresas desagradáveis, manipulações em escala global, bobagens terríveis repetidas todos os dias por atores de todas as classes sociais, de todas as regiões, de todos os credos, de todas as etnias. Já que a história oficial é feita pela repetição de versões; que a vida nada mais é do que contar uma história e se acreditar nela; que os arranjos pessoais se fazem na maior parte das vezes em um misto de hipocrisia e oportunismo, é possível se falar em esperança, em futuro, em evolução por exemplo? No Brasil especialmente, onde o governo de plantão opera como se toda a população fosse perfeitamente manipulável à sua cota de mentiras diárias, este livro serve como um alerta. Este é mesmo o tipo de livro, do tipo de autor, que se faz importante nestes tempos.
"Santa Maria do circo", David Toscana, tradução de Maria Alzira Brum Lemos, , editora Casa da Palavra, 1a. edição (2006) ISBN: 85-7734-00-66

terça-feira, 20 de março de 2007

mexicano curioso


Este é um livro curioso que li basicamente no ônibus, viajando. Ele demonstra que não há limites à criação literária e no fundo sempre haverá um sujeito que vai inventar um jeito diferente de contar uma história. O mexicano David Toscana tem 46 anos e já publicou vários livros e os teve traduzido para várias línguas. O último leitor é o primeiro livro dele traduzido para o português brasileiro. Trata-se de um romance sobre um velho senhor que é o bibliotecário de uma cidade perdida nos desertos do México que lentamente vai substituindo a vida factual pelo universo dos livros, confundindo-os e reinterpretando-os repetidas vezes. A cidade está sem água já há vários meses. O bibliotecário têm um filho que logo no primeiro capítulo do livro retira o corpo de uma menina de seu poço (o único da região que ainda tinha água potável na cidade). Ela foi aparentemente morta e jogada lá. Curioso como vários livros que li recentemente usam este artifício de apresentar um crime logo no primeiro capítulo - "Meu nome é vermelho" do Ohram Pamuk, prêmio Nobel do ano passado, é um dos casos; "Eragon", do jovem Paolini, outro. Todo aquele que gosta de literatura não convencional vai gostar deste curto livro. Como não conheço quase nada da história mexicana fiquei na dúvida se certos personagens são mesmo reais ou tudo é mesmo invenção. De resto, um jovem (!?) escritor latino-americano nos é apresentado e isto é sempre uma boa novidade. Gostei mesmo do livro. Recomendo. Soube que a Casa da Palavra também lançou "Santa Maria do Circo", um romance que é "realismo desvairado", nas próprias palavras do autor. Vou procurar deixar aqui minha cabotina resenha (quando terminar de ler, é claro!).

"O último leitor", David Toscana, tradução de Ana Pelegrino e Magali Pedro, editora Casa da Palavra, 1a. edição (2005) ISBN: 85-87-22096-9