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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

o imperador de sorvete

Nesta antologia, bilíngue, estão reunidos poemas de Wallace Stevens publicados originalmente entre 1923 (quando ele já tinha 43 anos) e 1957 (póstumos, pois ele morreu em 1955). São trinta e seis poemas, sete ou oito deles especialmente longos, que são os que mais cativam o leitor. As propostas de Stevens são quase sempre complexas, cerebrais, de uma abstração que confunde e espanta, porém que também nos enfeitiça e encanta. Há muitas reflexões sobre o ofício do poeta, sobre estética, sobre a capacidade de plasmar com palavras conceitos, ideias, a essência última das coisas. "The poem must resist the intelligence / Almost successfully. Ilustration: (...)", ele diz, no início de Man Carrying Thing. Noutro poema ele lembra que a poesia "Deve ser abstrata, deve mudar, deve dar prazer", mas a organização, seu método, tem algo de campanhas militares, de preparativos para uma guerra. Stevens povoa seus poemas com coisas simples: as cores, os sons, a noite, os rios, as aves, os frutos e árvores, a aurora, o tempo e a velhice. Todavia, a simplicidade das coisas que evocam sua musa é uma ilusão, pois seus poemas sempre cobram do leitor atenção, seja ao rico vocabulário, às imagens e aos jogos sonoros, seja às associações, os contrastes e aos veios de ouro puro e fino de imaginação. Os embates poéticos que aparecem são sempre entre um deus difuso e o homem, eterno e velho fantoche. Lembro de ter lido uma outra versão desta antologia, em meados dos anos 1980 (uma coleção poderosa, que incluía volumes de William Carlos Williams, W.H. Auden, Seamus Heaney, Marianne Moore, Eugenio Montale, Elizabeth Bishop, W.B. Yeats). Paulo Henriques Britto, que já assinava a tradução do livro naquela época, acrescentou novos poemas à antologia original e corrigiu "coisas abomináveis", em suas próprias palavras, que havia feito há quarenta anos. Ele também assina uma apresentação, notas e uma boa discussão sobre seu projeto de tradução (aprende-se um bocado). Aliás, vale a pena ver essa entrevista feita com ele e seu colega Caetano Galindo, sofre o ofício de Tradução literária. Esse foi uns dos volumes que acompanhou-me em meu exílio pandêmico, lá nas terras altas de Itaara. Como toda boa literatura, ajudou-me a suportar os dias de solidão, de frio, de ensimesmamento, de medo. Depois, já novamente aquerenciado ao apartamento citadino, continuei com ele à mão, relendo os poemas que mais me impressionaram, como este, que transcrevo aqui: "The Planet on the Table: Ariel was glad he had written hist poems. / They were of a remembered time / Or of something seen that he liked. // Other maskings of the sun / Were wasste and welter / And the ripe shrub writhed. // His self and the sun were one / And his poems, although makings of his self, / Were no less making of the sun. // It was not important that they survive. / What mattered was that they should bear / Some lineament or character, / Some affluence, if only half-perceived, In the poverty of theirs words, / Of the palanet of which they were part." (Paulo Henriques Britto traduziu assim: "O planeta na mesa: Ariel gostou de ter escrito seus poemas. / Eram de um tempo relembrado / Ou de algo visto que o agradara. // Outros feitos do sol / Eram a gruta e tumulto / E o arbusto maduro retorcido. // Seu ser e o sol eram um só / E seus poemas, embora feitos de seu ser, / Não eram menos feitos do sol. // Que perdurassem não era importante. / O importante era que portassem / Algum traço ou caráter, // Uma afluência, mesmo quase imperceptível, / Na pobreza de suas palavras, / Do planeta do qual faziam parte"). Vale!
Registro #1594 (poesia #139) 
[início: 02/04/2020 - fim: 30/11/2020]
"O imperador de sorvete e outros poemas", Wallace Stevens, tradução de Paulo Henriques Britto São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Penguin Random House / Companhia das Letras), 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 332 págs., ISBN: 978-85-359-3008-5 [edição original: Stevens: Collected Poetry and Prose (New York: Library of America) 1996 e (New York: Alfred A. Knopf/Doubleday Group/Penguin Random House) 1997]

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

moldura de lagartas

Conheci a poesia de Susanna Busato por acaso, lá nas terras altas de Itaara, num dia de frio inverno, ao ouvir seu podcast (Poesia como entrada), gravado com Marcelo Tápia. Curioso, esperei o lançamento anunciado deste seu "Moldura de Lagartas". Neste volume ela oferece ao leitor seis conjuntos de poemas, totalizando 58 propostas. São poemas inventivos, que se por vezes flertam com a fantasia ou o sonho, sempre mostram alguém que domina as formas, os ritmos, as técnicas poéticas, enfim, seu ofício e arte. A metáfora do título: a ideia que um livro é o casulo de uma lagarta, que por sua vez é pensamento, a potência pura dos poemas, domina todo o volume. Como em um ciclo viconiano (que brota da epígrafe do livro), os pensamentos têm fome, percorrem o livro, comem o próprio rabo, conduzem ao leitor por uma aventura e o devolve às indignações iniciais do primeiro conjunto: "Sabe (,) lagarta? / Eu sou. / Eu sendo. / Ex-centro.", onde a ideia parece ser a de gestação, de criação, da vontade lasciva dos poemas de romper a armadura de um casulo, uma não-existência, e da necessidade de experimentar o mundo. Nos demais cinco conjuntos: "A poesia é fuga ou combate?"; "Colíricos"; "Eu exílio / e mefisto / de vermelho."; "Alvéolos de ar comprimido" e "Ex- / pulso / punctum / final", o leitor acompanha como a poeta fala de seu método, suas musas, seu ofício; explora sinestesias e o passar do tempo; força um espaço extra em certas palavras, que por vezes precisam respirar entre as letras que as compõe; explica como funciona sua respiração (que poeta e leitor têm de aprender, quando passam por metamorfoses (seja a de um mundo fluido e líquido que torna-se um mundo menos fluido, que é o ar, ou talvez a metamorfose de quem lê silente e passa a falar e cantar os poemas); faz viagens urbanas; abre asas e alça voos imagéticos; duvida de si e dos outros; sabe-se um corpo que sofre, sente e se extasia; faz homenagens a quem a conduz por escolhos e sombras (Haroldo de Campos, Carlos Drummond de Andrade, Jacques Prévert, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, René Magritte, Augusto de Campos, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, João Cabral de Melo Neto e Hilda Hilst, doces nutrizes de todos os poetas). O volume oferece dois mimos extras aos leitores: ilustrações assinadas por Ricardo Cavani Rosas e um bom posfácio assinado por Antonio Manoel dos Santos Silva (aprender o que não se sabe sempre é uma alegria). Livro bem interessante, de significados, de fôlego, onde os prazeres do intelecto (que emulam aqueles mais primitivos e humanos, do corpo) ganham o dia. Mas chega de mundanidade literária, é hora de voltar as esquivanças da vida, ao hábito (fiel camareiro), aos compromissos. Ai de mim. E vamos, quando possível, partir ao próximo livro. Vale! 
Registro #1591 (poesia #138)
[início: 16/10/2020 - fim: 08/11/2020]
"Moldura de lagartas", Susanna Busato, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2020), capa-dura 16x23 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-66423-78-5

sábado, 14 de novembro de 2020

o livro dos hai-kais

Sempre que mergulhava em doce mel, nos dias em que lia e via o belo livro/homenagem à Massao Ohno, escrito por José Armando Pereira da Silva e publicado pela Ateliê, sobre o qual já falei aqui, eis que consultava meus guardados para tentar achar um ou outro dos volumes editados por ele. Alguns brotavam fáceis, outros tive que investir tempo e paciência para encontrar. Na estante da poesia achei esse belo volume de 1980, que eu comprei na verdade muitos anos depois, ainda nos meus tempos paulistas. A edição inclui, além de poemas de Matsuo Bashô, Kobayashi Isssa e Yosa Buson, sobre os quais falarei mais abaixo, alguns mimos preciosos: (i) um curto ensaio de Octavio Paz, que trata da definição de hai-kais/haikus (que nos ensina ser esta forma poética um arranjo em que três versos de 5, 7 e novamente 5 sílabas compõem uma estrofe e que devem equilibrar uma parte descritiva, enunciativa (temporal e espacialmente falando) com uma parte ativa (relampejante, nas palavras de Paz); uma introdução, assinada por Osvaldo Svanascini, que também trata de explicar as funções poéticas desta forma; algumas boas notas e uma curta, porém fundamental, bibliografia sobre o assunto. São 151 poemas, traduzidos pela também boa poeta carioca Olga Savary, que morreu neste ano das pragas, 2020, ai de nós. Cada conjunto deles é ilustrado por um desenho colorido de Manabu Mabe. Curtas biografias dos três grandes poetas japoneses (que percorrem do século XVII ao século XIX) contextualizam algo da produção de cada um deles. Já falei aqui sobre os milhares de haikus que li de Issa e Bashô, em robustas e maravilhosas edições da Assírio & Alvin. De Buson só havia lido uns poucos, em uma antologia deles, traduzidos por Sérgio Medeiros. Na antologia de Olga Savary (que traduziu os poemas a partir de versões em inglês, francês e espanhol, não diretamente do japonês) encontramos uma pequena mostra de como pode-se encontrar deleite em pequenos objetos, neste encantador livro-arte. Bashô, Issa e Buson falam dos dias, dos espantos, do imanente, do belo, da magia do mundo. ÔBeleza. Só um último registro. Esse volume foi publicado em 1980, em uma edição de 3000 exemplares. Grande Massao Ohno, que editor teria a coragem de fazer algo assim nestes dias aziagos em que vivemos? Vale! 
Registro #1588 (poesia #137)
[início: 25/09/2020 - fim: 14/10/2020]
"O livro dos hai-kais", Bashô, Buson, Issa, tradução de Olga Savary, São Paulo: Massao Ohno/Roswitha Kempf, 1a. edição (1980), brochura 14x21 cm., 134 págs., sem ISBN

domingo, 1 de novembro de 2020

poesie

Esta antologia de poemas de Augusto de Campos foi produzida pela Demônio Negro e lançada durante a exposição "Poesie ist Risiko", de poesia concreta, que aconteceu em Zurique, na Suíça, entre outubro e novembro de 2019 (tratava-se de uma colaboração com a Universidade de Zurique e com curadoria dos poetas e professores Eduardo Jorge de Oliveira e Vanderley Mendonça). A antologia é bilíngue. Simone Homem de Mello assina a tradução dos poemas de Augusto de Campos para o alemão e também um detalhado prefácio (valei-me meu são Goethe, o Alzheimer parece que comeu o que restava de meu alemão, preciso estudar mais, definitivamente). Paciência. Em "Poesie" encontramos trabalhos criados num período longo, de quase seis décadas, desde o primeiro volume publicado ("O rei menos o reino", de 1951) até propostas da primeira década do século XXI, como Contemporâneos, de 2009. Cabe dizer que Augusto continua ativo e produzindo, fazendo notável uso de várias mídias e/ou suportes digitais. Um neófito da poesia concreta tem chance de ilustrar-se um bocado com este livro. Encontramos várias daquelas propostas que provocam espantos e encantam o leitor até hoje: Poetamenos (de 1953); Ovonovelo (de 1956), Pluvial (de 1959); Cidade/City/Cité (de 1963); Luxo (de 1965); Viva Vaia (de 1972), Não (de 1990), dentre tantas outras. Na falta desta bela edição à mão, a melhor forma de "ver" a poesia de Augusto de Campos é procurá-la no Google (experimente, por exemplo, clica aqui!). Bom divertimento. Em tempo: esse volume será lançado oficialmente no Brasil no próximo dia 03/11, terça-feira, no Instituto Goethe Paulista, e que pode ser acompanhada pelo Facebook (clica aqui!). Vale!
Registro #1584 (poesia #136)
[início: 01/10/2020 - fim: 30/10/2020]
"Poesie", Augusto de Campos, edição bilíngue (português e alemão), tradução de Simone Homem de Mello, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2019), capa-dura 16x23 cm., 115 págs., ISBN: 978-85-66423-70-9

terça-feira, 27 de outubro de 2020

despedida

"Despedida: Poemas en tiempos del virus" é o volume mais recente de poemas de Cees Nooteboom. Foi lançado há pouco, em julho. O título e o tom remetem, claro, à morte, ao fim, à uma última vez, ao adeus, mas Nooteboom sabe brincar com o leitor, e sabe que nada está predestinado, nada é finito, mesmo estando todos nós vivendo o impacto desta pandemia dos diabos. Nooteboom nasceu em 1933. À exemplo de seu volume anterior de poemas (Ojo de monje), encontramos nesse "Despedida" 3 conjuntos de 11 poemas, ou seja, 33 poemas, 33 quartetos todos eles (a edição é bilíngue, mas ao menos na tradução que li, em espanhol, são quartetos não rimados, onde faz-se uso notável de enjambement). Os enjambement dos últimos versos dos poemas capturam o olho do leitor e forçam uma interrupção extra na leitura (esperamos um pouco mais antes de virar a página, pensamos no efeito daquela frase truncada, antes de começar o poema seguinte). Os poemas começam na fundamental Menorca de Nooteboom, na cidade de Sant Lluís, em novembro de 2019. Como todos nós, ele e seus poemas foram capturados pela pandemia, de forma que os últimos deles foram compostos em sua Holanda natal, em Hofgut Missen, em abril deste 2020. No primeiro conjunto o narrador do poeta vê-se em seu jardim espanhol, não no verão luminoso das ilhas Baleares, mas já no inverno. Ele cuida das plantas, vê fotografias antigas, lê jornais, lembra de seus dias de criança, da segunda grande guerra, da morte do pai, dos seres que passam pela cidade ou marchando em triunfo ou arrastando a dor da derrota. Dois eus surgem e o narrador vê-se como uma garça. No segundo conjunto o narrador reflete sobre o entorno, sobre os personagens criados pelo autor, os mortos, o sentido da vida, o ofício do escritor. No terceiro conjunto os poemas falam de como as pedras são o melhor substrato para a verdade, lembra de sua ilha, daquilo que se perdeu, das perdas, da velhice, de como Orfeu tentou mas não conseguiu seguir sem olhar para trás, do medo de se perder a voz poética. A palavra que mais aparece no livro é "cabeças". Difícil dizer o quê são. Serão as gentes, os personagens dos livros, os inventados? Serão os amigos, os senhores dos mundo, os atores da realidade? Serão os mortos-vivos, os escravos mentais, a maldita gente má que nos sufoca? Em algum momento se pergunta: "Cuántos misterios puede uno suportar?". No final, um réquiem: "Ahora el silencio / es la distancia restante, / sin memoria / no hay vida. // He dejado de oír / mis pasos, / lo que me rodea / permanece oculto. // A ciegas prosigo mi camino, un pálido perro / en el frío. Debe de ser aquí, / aquí me despido de mí mesmo / y lentamente me transmuto en // nadie". Eu - e o Daniel Dago, certamente - vamos esperar mais coisas de Cees Nooteboom, vamos esperar algo mais deste adorável viajante dos sentidos, deste sensível e antenado senhor. Evoé don Cees, Evoé. Vale!
Registro #1583 (poesia #135)
[início/fim: 14/10/2020] 
"Despedida: Poemas en tiempos del virus", Cees Nooteboom, tradução de Isabel-Clara Lorda Vidal Madrid: Visor Libros (coleccíon Visor de Poesía #MCIX), 1a. edição (2020), brochura 12,5x19,5 cm., 88 págs., ISBN: 978-84-9895-409-8 [edição original:  Afscheid: gedicht uit de tijd van het virus (Amsterdam: Uitgeverij Karaat) 2020].

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

a balada do velho marinheiro

Desde março, quando subi para as terras altas de Itaara, isolando-me desta nossa já perene pandemia, tenho lido muito, única forma a meu alcance de encontrar um descanso na loucura. Li muito sobre a dor e a morte (Canetti, Coetzee, Cave, entre outros). Quando subi lembrei de levar meu volume  do "The rime of the ancient mariner", de Samuel Taylor Coleridge. É um poema estranho, que provoca no leitor uma experiência de sonho, vertigem e assombro. Sua história é uma forma de enfrentar morte e destino, fugir da destruição e da loucura. É um poema que a cada leitura fornece um detalhe que se furtou revelar nas leituras anteriores, que encanta continuamente o leitor. Nele acompanhamos o relato de um velho marinheiro, dirigido a um sujeito que ele aborda no início de uma festa de casamento, sujeito que se rende a narrativa como se estivesse hipnotizado. O marinheiro conta como ele e seus colegas rumam ao sul em um navio, até chegarem próximos ao gelo da Antártida. Presos em um denso nevoeiro, em algum momento parecem estar sendo guiados para o bom caminho por um Albatroz (símbolo da pureza e das virtudes cristãs), mas o marinheiro narrador conta como por impulso usou sua balestra e abateu o pássaro. A partir daí todos no navio passam a culpar o marinheiro/narrador pelo destino infausto deles, e passam a ser assombrados, disputados, atormentados por demônios, condenados à danação. Dois destes demônios disputam as almas dos marinheiros. O demônio "Morte" ganha a alma de todos, que se afogam no mar, menos a do marinheiro narrador, cuja alma é vencida pelo demônio "Vida-em-morte". Assim sendo, parcialmente redimido pelo lance de dados e o navio fantasma desaparecer num redemoinho, o velho marinheiro se salva, é resgatado por um eremita e seu filho, e alcança a terra firme. Todavia, sabe-se condenado a eternamente contar sua história, a cantar os vivos sobre seus pecados, a ensinar como o destino dos homens e da natureza estão conectados, a falar sobre os perigos decorrentes da soberba e dos atos impensados. Lembro da primeira vez que li este poema, meados dos anos 1990 (em uma tradução do grande Paulo Vizioli, e inspirado pelo ótimo Sexual Personae: Art & Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson, da Camille Paglia, que falava maravilhas de Coleridge - ela gostava especialmente da vampira Geraldine, mas essa é outra história). Esse belo volume da Ateliê inclui também a versão original em inglês; um longo ensaio do tradutor, Alípio Correia de Franca Neto; uma curta apresentação assinada por Alfredo Bosi; e o famoso fragmento Kubla Khan (também de Coleridge), que tem uma história de lenda. Diz essa lenda que Coleridge, estimulado por ópio, sonhou um longo poema, mas ao tentar transcrevê-lo, na manhã seguinte, foi interrompido por uma pessoa (um sujeito de Porlock) e com isso esqueceu as linhas seguintes daquilo que havia sonhado/imaginado. Coleridge, estimulado por amigos, só publicou este fragmento vinte anos após sua composição. O volume da Ateliê inclui também um poema de Jemery Reed (A pessoa de Porlock), em que se conta uma versão ligeiramente diferente desta história de inspiração e perda. Belas e terríveis histórias Coleridge nos legou. Mas temos todos que seguir nossas Vida-em-morte particulares, neste estúpido século XXI, neste ano besta de pandemia. Após ouvir a balada do velho marinheiro, na manhã seguinte, o convidado da festa de casamento, atordoado, desamparado, já um homem mais triste e mais sábio, parece ter ressuscitado. Boa sorte a todos que ouvirem baladas de velhos marinheiros, ai de nós. Vale!
Registro #1580 (poesia #134)
[início: 17/03/2020 - fim: 29/09/2020]
"A balada do velho marinheiro", Samuel Taylor Coleridge, tradução de Alípio Correia de Franca Neto, Cotia: Ateliê Editorial, 1a. edição (2005), capa-dura 20x27 cm, 240 págs. ISBN: 85-7480-273-5 [edição original: The rime of the ancient mariner, 1797; Kubla Kahn, 1816]

terça-feira, 15 de setembro de 2020

assombro zen

Marco Aurélio de Souza apresenta neste pequeno volume 38 poemas curtos. Não são exatamente haikus (ou anti-haikus), mas flertam com a estrutura de três versos em uma única estrofe. Nos poemas encontramos a justaposição de imagens e ideias dos haikus tradicionais, mas o mundo imagético de Marcos Aurélio não é aquele idílico, da natureza, do mundo flutuante japonês, antes sim do mundo rude, sujo e barulhento, citadino, contemporâneo, repleto de misérias e cruel, bem nosso, brasileiro (essa proposta estética já se encontrava em seu volume de contos: "Os touros de Basã"). Vamos a ver o que esse jovem paranaense vai inventar no futuro. Deixo aqui uma de suas propostas: "No centro velho a cidade saciada / Regurgita seu fastio / Pipocam putas pelos bares de biombo". Segue o baile. Vamos em frente. Vale!
Registro #1568 (poesia #133)
[início - fim: 07/06/2019]
"Assombro Zen, Marco Aurélio de Souza, Curitiba: Kotter Editorial, 1a. edição (2020), brochura 13x18,5 cm, 88 págs., ISBN: 978-65-80103-87-4

domingo, 5 de julho de 2020

potnia

"Potnia" é um livro de poemas, e também o livro de um único poema: extenso, estirado, multifacetado, polimorfo. Segundo Leonardo Chioda, logo no início de seu livro, "Potnia (...) é um título de honra, usado pelos poetas para exaltar deusas e mulheres de extremo poder". Estamos no mundo das ideias de Robert Graves, no mundo da "Deusa branca", aquela que sob vários nomes fez-se cultuar por todo o orbe, aquela que tornou-se a linguagem poética de todos os mitos e religiões originais, todos os gênesis, todos os círculos de renascimento e morte. Após um prólogo/contrato entre narrador e leitor, e de três cantos evocativos, emerge o livro, dividido em três partes principais: "Épura & Medula", "Nume" e "Axioma". No primeiro conjunto encontramos 74 poemas, onde um narrador, desde a orla de um mundo novo que vai sendo gerado a cada verso, contempla a vastidão de um grande mar (o signo que domina "Potnia" é o da água, em todas suas possibilidades, como James Joyce já nos ensinou: sua universalidade, vastidão, inquietação, quietude, imperturbabilidade, virtudes curativas, infalibilidade como paradigma e modelo, onipresença, metamorfoses como vapor, névoa, nuvem, chuva, granizo, neve e granizo). São poemas complexos, que cobram tempo e esforço do leitor, onde as imagens evocadas importam mais do que se está sendo descrito (descrições que se desdobram, em parênteses, travessões e chaves em cascata). No segundo conjunto, "Nume", o narrador é Ulysses, que faz-se ao mar, navega de volta a sua Ítaca fundamental. A água continua soberana e as musas condutoras dos poemas são as deidades aquáticas: as sereias, as ondinas, as nereidas, as náiades. Elas fazem 35 conjurações, 35 encantos, que provocam em Ulysses o melhor entendimento de sua jornada. Somos lembrados que se o corpo é quase água, que é branca, transparente, o sangue que flui por nossas veias é salgado e rubro. O porto do narrador neste conjunto não é Ítaca, mas a poesia forte de João Cabral de Melo Neto, que oferece lições ao narrador e ao leitor. O último conjunto de poemas é "Axioma", um conjunto de 30 poemas curtos e três codas, que tratam de conceitos/palavras, potências mitológicas, oferecem um contraste entre a tradição e o cotidiano, demonstram a circularidade da vida, o eterno retorno de todos nós, seres em busca da palavra perfeita, da capacidade de expressão, de comunicação. "Potnia" não me parece um livro fácil, mas recompensa o leitor diligente com imagens, metáforas e histórias realmente potentes. Lembrei de coisas da Hilda Hilst (um reverdeço, uma vida espessa, um respeito por nossa capacidade de amar, mas talvez isso seja apenas devido a coincidência de ter relido ela recentemente, acontece), e também da Teogonia (a invenção de um mundo). Enfim, vamos a ver se encontro outras coisas de Leonardo Chioda. Vale! 
Registro #1550 (poesia #132) 
[início: 16/06/2020 - fim: 21/06/2020]
"Potnia", Leonardo Chioda, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2016), brochura 16x23 cm., 198 págs., ISBN: 978-85-66423-29-7

quarta-feira, 1 de julho de 2020

mil sóis

Neste volume estão reunidos 60 poemas de Primo Levi, produzidos entre janeiro de 1946 e janeiro de 1987. Os 49 primeiros foram selecionados pelo tradutor, Mauricio Santana Dias, dentre os 63 incluídos no volume "Ad ora incerta", premiada reunião de toda produção e tradução poética de Levi até junho de 1984. Outros 11 poemas, produzidos entre setembro de 1984 e antes da morte de Levi, em abril de 1987, também foram incluídos nesta seleção. Os poemas escritos logo após a segunda grande guerra são obviamente marcados por sua experiência no campo de concentração de Auschwitz. São poemas curtos, mas duros, que cobram do leitor não solidariedade, antes sim capacidade de indignação, de indignação frente ao horror, da necessidade de que todos guardem memória daquela tragédia. Nos demais poemas encontramos vários temas recorrentes: os animais e a natureza, a passagem no tempo, a velhice, as estações que governam o cotidiano dos homens, a ideia de viagem, afastamento, o Sol e a neve, o jogo de xadrez, as relações de trabalho e a necessidade do ócio, o contato social, humano. É um livro lírico, repleto de belas imagens, metáforas, que se lê com muito prazer. A edição é bilíngue, porém, ai de mim, meu italiano lamentável pouco ajudou-me na leitura. Cito aqui um dos poemas, "Despedida", de 1974, que diz: "Ficou tarde, meus caros; / Por isso não vou aceitar o pão ou vinho de vocês, / Somente umas poucas horas de silêncio, / As histórias de Pedro, o pescador, / O perfume de musgo deste lago, / O cheiro antigo dos sarmentos queimados, / O grasnido falastrão das gaivotas, / O ouro grátis dos líquens nas telas / E uma cama para dormir sozinho. / Em troca, lhes deixarei versos nebbich como estes, / Feitos para serem lidos por cinco ou sete leitores: / Depois seguiremos, cada um por si, / Pois, como eu dizia, ficou tarde". Li esse volume quase simultaneamente a um outro livro de poemas, de Wallace Stevens, muito cerebrais e diferentes destes de Primo Levi, mas esta é outra história. Sigamos pois, em nosso baile macabro. Vale! 
Registro #1548 (poesias #131) 
[início: 01/03/2020 - fim: 20/05/2020] 
"Mil sóis: Poemas escolhidos", Primo Levi, tradução, seleção e apresentação de Mauricio Santana Dias, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm, 160 págs. ISBN: 978-656-80309-19-1 [edição original: Ad ora incerta (Milano: Garzanti Libri / Gruppo Editoriale Mauri-Spagnol / GEMS)1984, 1990, 1998, 2004]

domingo, 14 de junho de 2020

amavisse

Já contei aqui sobre o dia em que fui ao lançamento de "O caderno roda de Lori Lamby", da Hilda Hilst, porém, por arrogância ou timidez, acabei não comprando o livro naquele momento e só levando seu "Amavisse", que já tinha, para ser autografado. Trinta anos depois, nestes dias bestas, isolado em minha mansarda, recolhi vários livros que estavam perdidos nos guardados. Lembrei-me novamente da Misa, do Péricles, dos dias paulistas, daquele "mezzo del cammin di nostra vita", pois um dos livros que encontrei foi exatamente "Amavisse", que há época ela dizia ser seu último livro de poesias (felizmente ela abandonou esse projeto e publicou pelo menos três outros volumes de poesias depois, antes de morrer, em 2004). "Amavisse" enfeixa três conjuntos: Amavisse, Via espessa e Via vazia, com, respectivamente, vinte e um, dezessete e doze poemas. Num poema de apresentação ela se diz uma porca-poeta e reclama da fome de deus por desgraças, perguntando se ele já ouvira falar na palavra amor. No primeiro conjunto, Amavisse, encontramos poemas de amor, lançados ao vento por uma mulher que se escancara (a mulher-avesso) e são levados ao leitor metamorfoseados em pássaros (os pássaros-poesia). Hilda cria várias imagens realmente bonitas, faz brotar neologismos (adoro seu reverdeço e também de suas muitas palavras valise, sempre geniais), mostra sua paleta das paixões: o peito tingido de vermelho, o amor púrpura, chagado. Ao final do conjunto ela se pergunta "(...) o que há de ser da minha boca de inventos / Neste entardecer. E do outro que sai / Da garganta dos loucos, o que há de ser?". No segundo conjunto, Via espessa, um louco se apresenta, nas vestes junguianas da sombra, aquele arquétipo que representa o lado sombrio, conturbado e primitivo da personalidade dos homo sapiens, aquela parte da consciência individual que não foi exatamente assimilada e possa ser incorporada à consciência coletiva. Esse louco segue sua Samsara pessoal, suas metamorfoses, seus renascimentos, saltimbanco. No final do conjunto, acontece a fusão, entre a poeta e sua sombra: "E enfeixando energia, cintilando / Fez de nós dois um único indivíduo". O último conjunto, Via vazia, é de poemas com menos versos, comparados aos dois conjuntos anteriores. Como um animal em uma floresta primitiva a poeta reclama do pai, das vicissitudes deste mundo, acusa esse pai de já estar cumprido o fado do homem, transformado em um "(...) escuro cego raivoso animal (...)", como esse pai pretendia desde o início. Todavia, é dela, a poeta, ao final também deste terceiro conjunto, a palavra final, o controle do processo, em uma antropofagia pessoal: "O tempo não roerá o verso da minha boca. / Águas manchadas de um torpor de vinhos: / Hei de tragá-las todas. E lúbrico, descontínuo / O tempo não viverá se tocar a minha boca". Que belo livro, ao qual um sujeito precisa sim voltar de tempos em tempos, sobretudo neste, tão contaminado por desinteligência e voluntária escravidão à totalitarismos. Só coisas como o amor, os amores de Hilda Hilst, parecem ser capazes de poder nos salvar. Vale! 
Registro #1542 (poesia #130)
[início: 17/05/2020 - fim: 22/05/2020] 
"Amavisse", Hilda Hilst, São Paulo: Massao Ohno Editor, 1a. edição (1989), brochura 14x21 cm., 48 págs., sem ISBN

sábado, 30 de maio de 2020

rapaz com cicatriz

Do Escobar Nogueira já registrei aqui três bons volumes de poesias: Curta-metragem (2006), Pejuçara (2009) e Borges vai ao cinema com Maria Kodama (2015). "Rapaz com cicatriz" é sua publicação mais recente. São 42 poemas divididos em três conjuntos. São propostas curtas, que quase sempre capturam uma experiência, um momento que se esvai, uma conversa entre um poeta e suas encarnações antigas, ainda não exatamente poéticas, mas que já tinham tino de grafar no corpo as cousas da vida, que são agora são por ele recolhidas. No primeiro dos conjuntos, Rapaz com cicatriz, o poeta fala de uma infância remota, da escola e da família, de histórias em quadrinhos e de planos ou sonhos de um futuro. No segundo conjunto, "O livro caixa de Ramilo Rocha", bipartido entre dois subconjuntos, primeiro o narrador faz um censo sentimental de seus amores, talvez apenas imaginados, sublimados, depois explicita a experiência igualmente  bruta e doce que é a do sexo, pago em dinheiro ou em dores. O último conjunto, "Máquina lírica", já é a do poeta precursor de si mesmo, em seu tempo, que viaja, vence o cotidiano, lê, amarga a vida, olha para o passado sem pressa, sem culpa, sem temor. Poemas bem burilados, de um bom leitor e artífice. Evoé Escobar, evoé. Vale! 
Registro #1535 (poesias #129) 
[início: 06/05/2020 - fim: 08/05/2020]
"Rapaz com cicatriz", Escobar Nogueira, Porto Alegre: Artes & Ecos, 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 72 págs., ISBN: 978-85-93459-27-6

domingo, 26 de abril de 2020

a triste balada dos herculóides contra as leis terrenas


Do Odemir Tex Jr. já havia lido os bons poemas de "Para uma nova didática do olhar", uma edição cartonera, de 2013. "A triste balada dos Herculóides contra as leis terrenas" é seu trabalho mais recente, publicado no final de 2019. Trata-se de uma reunião de 26 poemas, divididos em quatro conjuntos. As epígrafes desses conjuntos já mostram algo do caminho trilhado pelo autor, algo de sua proposta. São citações de Gilberto Mendonça Teles, Wilsawa Szymborska, Tim Burton e Jim Morrison. As duas primeiras, registros que tendem ao erudito, à alta cultura, as duas seguintes, de apelo popular, do "pop" do subtítulo do livro (uma poemática pop-barroca). Nos poemas acompanhamos um narrador que percorre caminhos da memória, de um passado de formação, de estímulos, sensibilizações, aprendizados. É um narrador que, seguindo o mote de Gilberto Mendonça Teles, já na primeira das epígrafes, avisa que "sempre há armadilhas no discurso". Assim, o controle das formas poéticas, virtuosismo, influências do cânone, se infiltram nos poemas, sem fazer alarde. Neles não há "palavras gordurosas", rebuscamentos bestas, léxico de alfarrabistas. O foco sempre está nos substantivos das frases, ou melhor, dos versos. Navegamos, guiados pelo narrador, por um mar de escolhos da juventude, num mundo idílico: histórias em quadrinhos, anúncios de televisão, desenhos animados, revistas pornográficas, coleções polimorfas, filmes em preto e branco, sessões de cinema cult, o desejo de um mundo bom. No último poema do volume o narrador poeta  confronta um velho anarquista, acusa a passagem do tempo, sente-se cansado, começa até acreditar que deve esquecer tudo que poetou antes, mas encontra consolo nas palavras sábias do velho anarquista que diz: "Cada homem traz dentro de si / toda uma época, / do mesmo modo que cada onda / traz dentro de si todo o mar". Evoé, don Tex, Evoé! Vale! 
Registro #1520 (poesia #128) 
[início: 13/04/2020 - fim: 17/04/2020] 
"A triste balada dos Herculóides contra as leis terrenas: uma poemática pop-barroco", Odemir Tex Jr., Jundiaí: Telucazu Edições, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-69708-38-4

quinta-feira, 23 de abril de 2020

os animais

Comecei a ler esse livro assim que terminei o seminal "O eremita viajante", de Matsuo Bashô. Desde então, a exemplo do que havia feito com os haikus de Bashô, tenho lido um punhado deles a cada vez, ao ritmo do acaso, da curiosidade, estado de espírito, humor. Nestas últimas semanas, isolado como quase todos, resolvi dedicar mais tempo a Kobayahi Issa. Em uma longa apresentação, o tradutor e organizador destes haikus, Joaquim M. Palma, nos ensina que Issa produziu aproximadamente vinte mil haikus, sendo que dois mil deles referem-se explicitamente a animais, faz deles protagonistas, mensageiros de sua sensibilidade. Issa viveu aproximadamente um século após Bashô, de 1763 a 1827, foi um monte laico budista (do grupo Jôdo Shinshu). Teve uma vida de muitas tragédias, perdas, dificuldades, mortes, assombros ("Chacun de nous a dans le coeur une chambre royale; je l'ai murée, mais elle n'est pas détruite", já nos ensinou Flaubert). Nesta antologia estão reunidos os haikus em que o poeta fala de animais com os quais teve alguma interação em termos sensoriais e emocionais. Ele fala de animais pequenos (abelhas, formigas, piolhos) e grandes (veado, polvo, falcão); fala de mamíferos, de aves, répteis, insetos, peixes, crustáceos, moluscos); fala sobretudo de sua tríade afetiva: a borboleta, o cuco e o rouxinol. A edição é muito bonita, organizada em ordem alfabética dos animais e incluindo um síntese cronológica da biografia de Issa, uma bibliografia e um índice dos primeiros versos dos quase dois haikus nele reunidos. Uma miríade de notas ajudam o leitor a entender passagens enigmáticas ou cifradas dos poemas, algum fato histórico de sua composição, contrastar interpretações e certas variantes. Que notável livro é esse. Vamos a ver se Joaquim Palma traduzirá também Yosa Buson e Masaoka Shiki, os outros dois grandes mestres desta forma poética. Se encontrei esse livro no início da chuvosa primavera passada, abandono-o (ou melhor, devolvo-o a estante, ainda deixando-o ao alcance dos olhos e das mãos) neste início de outono, nestes dias conspurcados por esta pandemia infernal. De qualquer forma, nestas últimas semanas senti-me como um Buda redivivo, cercado pelos animais de Kobayashi Issa, recluso, tendo minha pele de urso como companhia, Cappuccio e eu, sobretudo lembrando sempre deste haiku: "Javalis e ursos / são meus vizinhos / reclusão de inverno". Vale! 
Registro #1519 (poesia #127) 
[início: 15/06/2019 - fim: 10/04/2020] 
"Os animais", Kobayashi Issa, tradução de Joaquim M. Palma, Lisboa: Assírio & Alvim (Grupo Porto Editora), 1a. edição (2019), capa-dura 15,2x21,2 cm., 432 págs., ISBN: 978-972-37-2083-9

sábado, 29 de fevereiro de 2020

book of longing

Encontrei por acaso esse livro, antigo e algo surrado, publicado originalmente em 2006. Estava displicente olhando livros no aeroporto de Cape Town quando topei com ele. Trata-se de uma coleção de mais de 160 poemas e cerca de 40 ilustrações, todos da lavra de Leonard Cohen. Já havia lido transcrições de muitas de suas canções e comecei a ler um livro dele em prosa (A brincadeira favorita, de 1963, que abandonei no meio, se tanto). Os poemas aqui reunidos tratam sobretudo de espiritualidade, auto conhecimento, meditações, estados de consciência; registram estados de humor, dor, amor, sofrimentos e espantos; conversam com musas fugidias; tratam do mistério que é a produção poética, o ofício do verso; são por vezes dedicados a amigos, pessoas queridas, a seus mestres, várias vezes citados, Kyozan Joshu Roshi e Ramesh Balsekar. Alguns são datados, dos anos 1970, 1980, 1990, outros não. Foram escritos em vários lugares: Montreal, Mumbai, Palestina e em Mount Baldy, um retiro zen budista, próximo a Los Angeles, onde ele morou por muitos anos (cabe dizer que ele tornou-se um monge zen, em 1997, passando a usar, nestas práticas, o nome Jikan, "O silencioso". Estes poemas e desenhos foram recolhidos de vários cadernos de anotações. Boa parte das ilustrações e desenhos são autorretratos, intervenções em fotografias e experimentos com ferramentas digitais de produção de imagens (as coisas tipicamente toscas do final do século XX, com os pixels explodindo quando impressos). Alguns dos poemas tornaram-se canções (em parceria com Sharon Robinson, o Ten New Songs, de 2001, por exemplo), outros foram publicados em revistas e coletâneas de poetas. Todos eles foram cedidos por Cohen para serem depositados em um site finlandês, administrado por um sujeito chamado Jarkko Arjatsalo, dedicado a sua obra (o impressionante leonardcohenfiles, verdadeiro manancial de informações, pois tudo o que você precisa saber sobre Leonard Cohen está ali). Aprendi um bocado sobre esse complexo artista, e algo também sobre a vida e o fluir do tempo, sobre a força da amizade e o amor. Sobre os anseios, como bem diz o título do livro. Vale!
Registro #1494 (poesia #126) 
[início 16/02/2020 - fim: 28/02/2020] 
"Book of Longing", Leonard Cohen, London: Penguin Books, 1a. edição (2007), brochura 12x18 cm., 232 págs., ISBN: 978-0-141-02756-2

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

poemas de natal

Havia encomendado esse livro para ler mesmo nos dias que antecedessem o  Natal, mas um erro bobo só o fez chegar às minhas mãos neste início de 2020. Este infortúnio não tirou nada da força dos poemas, claro, mas roubou-me o prazer de mergulhar literariamente no inverno russo, conduzido por Joseph Brodsky. Neste volume estão reunidos dezoito poemas dele, inspirados e/ou produzidos por ocasião das festas natalinas, num arco temporal de mais de três décadas, de sua juventude nos anos 1960 a de exilado, saudoso e ferino nos anos 1990 (ele recebeu o prêmio Nobel em 1987 e morreu em 1996). A edição é bilíngue, assinada pela industriosa senhora das letras eslavas Aurora Bernardini. Os temas dos poemas gravitam obviamente o milagre do Natal, o nascimento do menino jesus, a sagrada família, ecoam a luz do deserto, o céu e as estrelas, as cores dos mantos dos reis magos, o fogo na noite, a expectativa do momento, a história e as personagens bíblicas, a neve cândida de pura (que talvez só caia mesmo muito esporadicamente na Palestina, e muito pesadamente na São Petersburgo natal de Brodsky). Brodsky também povoa seus poemas com as circunstâncias da época em que os escreve, fala de seus aborrecimentos, duas dúvidas, seus espantos, do azar de estar em lugares remotos da Russia, experimentando a pena de exílios forçados. O volume inclui uma longa entrevista/conversa entre Brodsky e Piótr Vail (), produzida em 1993, em que eles discutem a gênese destes poemas de Natal, um marco referencial importante em sua obra, e também questões estilísticas, de métrica dos poemas, de sua compreensão da religiosidade, de fé (ele era um agnóstico praticante, avesso a todo misticismo religioso). Grandessíssimo Brodsky. Lembro-me de ter procurado vestígios de sua passagem por Veneza, de sua tumba em San Michele, mas isso já faz tanto tempo. Paciência. Vale!
Registro #1492 (poesias #125) 
[início 25/01/2020 - fim: 28/01/2020] 
"Poemas de Natal", Joseph Brodsky,  tradução de Aurora Fornoni Bernardini, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Das Andere #17), 1a. edição (2019), brochura 12x18 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-92649-58-6

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

giacomo joyce 3rd

Li pela primeira vez "Giacomo Joyce" na já icônica tradução de Paulo Leminski, publicada pela Brasiliense em meados dos anos 1980. Era um livrinho pequeno, com pranchas em fac-símile dos originais espelhadas à tradução de Leminiski. A obra é pequena, foi publicada postumamente, após ter sido encontrada nos guardados do espólio de James Joyce (de sua mulher, Nora Barnacle, mais precisamente), em 1968 (as anotações são de 1914, do período em que Joyce morava em Trieste. São aproximadamente cinquenta frases/aforismos/poemas livres. Lê-se em uns minutos, mas não se deve fazer isto. Os registros são como algo balsâmico, que precisam de mais tempo para aguçar todo seu poder, oferecer toda sua potência, demonstrar toda sua universalidade. Depois da de Leminski li meia dúzia de outras versões: a original, claro; as de José António Arantes e de Roberto Schmitt-Pryn, em português; e também várias em espanhol, catalão e italiano. Sempre é uma alegria voltar a estes registros, de um alter ego de Joyce, um professor que se enamora de sua aluna, mas sabe conter-se, purgando apenas literariamente sua lubricidade. Eclair Antonio Almeida Filho, tradutor e professor universitário (da UnB), publicou recentemente sua versão deste livro, editado pela pequena editora independente Lumme. O original do livro pode ser lido aqui! Diversão garantida. Vale! 
Registro #1485 (poesia #124) 
[início 02/01/2020 - fim 04/01/2020] 
"Giacomo Joyce", James Joyce, tradução de Eclair Antonio Almeida Filho, São Paulo, Lumme Editor, 1a. edição (2015), brochura 12x18 cm, 50 págs., ISBN: 978-85-8234-113-1

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

patuá

Mell Renault, mineira de Belo Horizonte, oferece neste seu "Patuá" três conjuntos de propostas poéticas. No primeiro conjunto encontramos 37 poemas curtos, livres como a vida, que tratam das cousas da terra, dos elementos e dos fenômenos naturais, dos animas e das plantas, das estações e passagem do tempo. São construções que ambicionam congelar momentos, situações corriqueiras e mágicas da vida. No segundo conjunto a forma é distinta. Mell Renault faz uso de registros aforísticos (36 é o número exato), registros de estados de ânimo, reflexões curtas que mesclam o sonho e a memória, de um eu interior da poeta que se deixa observar, que parece filtrar-se nas palavras, que se declara, se posiciona. No terceiro conjunto, novamente com versos livres convencionais (38 deles), é onde o eu da poeta e as coisas interagem (é uma seção menos cerebral e distante que aquela primeira, onde apenas a abstração dos conceitos parecia ter força). Há algo mais visceral e orgânico nesta última seção, fala-se das  formas da água, das aves, flores e árvores, de um ser pensante que se relaciona de fato com a natureza, não apenas a observa ou descreve. A edição da Coralina é muito bonita, inclui várias ilustrações abstratas em preto e branco, assinadas por Carlos Figueiredo. É isso. Vamos em frente. Vale!
Registro #1779 (poesias #122) 
[início: 01/12/2019 - fim: 09/12/2019]
"Patuá", Mell Renault, Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 132 págs., ISBN: 978-85-80360-07-9

domingo, 15 de dezembro de 2019

iluminuras

Vanderley Mendonça é um agitador cultural, um miglior fabbro nascido no Ceará, que navegou como Odisseu por várias cidades deste orbe e vive hoje em São Paulo; que por vezes mostra suas habilidades como designer, noutras como tradutor, noutras como poeta ou jornalista, e também como editor (de sua já icônica Demônio Negro). Já registrei vários livros editados por ele (Lustra, de Erza Pound; Poesia vista, e 99 poemas, do Brossa; Poemóbiles, de Augusto de Campos e Júlio Plaza, entre outros). Esse "Iluminuras" é o primeiro volume dele que li e tenho a chance de resenhar aqui. São dois conjuntos de poemas. O primeiro, correspondendo a um terço do volume, são de cousas dele mesmo; o segundo de traduções feitas por ele de invenções engendradas por outras pessoas. Seus poemas são sempre curtos, sintetizam ideias, reflexões, vivências, formas de pensar a vida. Em alguns destes poemas ele registra sua interlocução com outros poetas: o português Ernesto M. de Melo e Castro, o paulistano Augusto de Campos, o santista Marcelo Ariel, talvez a paulista Pagu. Ele conversa também com uma musa diáfana, com a cidade de São Paulo, com a língua catalã, na qual imaginou vários poemas, bem antes de transcrevê-los em português. O segundo conjunto do livro corresponde a fragmentos, pequenas epifanias, estalos poéticos, partes de poemas que ele chama de Iluminuras (" ... aquelas partes dos poemas que me guiaram ao longo da vida como leitor e que me dão o dom de luzir quando falo delas", explica ele mesmo). Estas Iluminuras são de aproximadamente trinta autores diferentes, pessoas que viveram num longo arco de tempo, desde o distante século XII até este nosso terrível século XXI, autores que lhe são particularmente caros. São propostas tradutórias do provençal, do catalão, do francês, do italiano, do alemão, do inglês, do polonês. Esses fragmentos provocam o leitor a voltar à primeira seção do volume, a reler os poemas dele, buscar neles a inspiração e o engenho original. Apesar de ser um volume muito curto, coisa de cento e poucas páginas, fiquei várias semanas com ele à mão, retomando uma ou outra passagem, comparando com as outras coisas que estava lendo (cousas que, ai de mim, teimo em não terminar e registrar aqui, covarde que sou). Transcrever todos os poemas aqui não posso, mas deixo sim um fragmento que agora sei de cor: "Não há arte sem vida, disseste. / Por que a arte é contra a morte. / A arte reinventa a vida / para pensar o novo de novo virar começo. (...)". Sim, não há arte sem vida; morrer é fácil, viver é difícil. Evoé Mendonça, Evoé. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1477 (poesias #122) 
[início: 11/11/2019 - fim: 15/12/2019]
"Iluminuras", Vanderley Mendonça, São Paulo: Editora Patuá, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm., 138 págs., ISBN: 978-85-64308-86-6

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

poemas de amor ainda

No último 20 de setembro, dia da Revolução Farroupilha, feriado no Rio Grande do Sul e dia do gaúcho para os íntimos, estava eu longe de casa, em uma missão de trabalho. Em Curitiba, folheando um jornal digital (pobre Curitiba, não mais afeita a jornais impressos), descobri que haveria um lançamento de dois livros de poesia, justamente naquele 20 de setembro, em um bar/boate do centro, não muito longe de meu hotel. Resolvi experimentar, e dei sorte. Conheci um bocado de poetas em fúria (já resenhei aqui um deles, o bom "A caverna dos destinos cruzados", de Sergio Viralobos, Monica Berger e Leonardo Chioda; ouvi boa música; conversei com muita gente bacana; entre elas o industrioso Vanderley Mendonça - mas esta é outra história). O outro livro lançado naquela noite foi esse "Poemas de amor ainda", de Antonio Thadeu Wojciechowski, experimentado poeta (e publicitário, e professor, e pescador, e compositor, como ele mesmo se define) curitibano, de seus quase 70 anos. Se é que eu contei bem, este volume é o  trigésimo quarto de uma vasta produção. Nele estão incluídos seis conjuntos de poemas. Cinco são da lavra dele mesmo, Wojciechowski, e um sexto, de poemas traduzidos por ele, poemas de Szymborska e Dickinson, Rimbaud e Maiakóvski, Hölderlin e Baudelaire, Poe e Gandhi, cummings e Yeats, e de Shakespeare. Nos cinco conjuntos autorais - quase sempre líricos - ele faz uso de várias formas poéticas: as fixas (sonetos e haikus, talvez baladas, talvez trovas, talvez rondós, talvez odes) e também versos livres, mas quem disse que eu sei escandir poemas? Seus poemas explicitam uma alegria de viver, quase sempre são confessionais, transbordam fé na humanidade, no caótico inerente das paixões que nos conduzem nesta vida. Sou o menor dos anões neste assunto, ai de mim, mas da leitura dos poemas brota um sujeito que parece explorar o mundo sempre com olhos de menino, curioso, pleno, whitmaniano. Claro, eu precisaria conhecer mais cousas dele para ter a ambição de classificá-lo corretamente, mas quem disse que um poeta precisa ser entendido em todos seus matizes, em todas suas sutilezas. Vamos a ver se no futuro encontro mais cousas deste polonês errante. Vale! 
Registro #1469 (poesias #121) 
[início: 20/09/2019 - fim: 09/11/2019]
"Poemas de amor ainda", Antonio Thadeu Wojciechowski, Florianópolis: Bernúncia Editora, 1a. edição (2019), capa-dura 16x23 cm., 324 págs., ISBN: 978-65-80391-00-4

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

poesia holandesa

Daniel Dago, jovem senhor das cousas holandesas, organizou um volume com trinta poemas produzidos entre 1852 e 2009, a "primeira ampla antologia de poesia holandesa no Brasil", segundo ele mesmo diz, na apresentação. Nesta ele diz também que a tradução dos poemas foi feita a quatro mãos, as dele e as de Rubens Chinali, tradutor mais afeito aos jogos, métrica e rimas, ao ofício poético propriamente dito. Um pequeno parágrafo biográfico apresenta os autores incluídos na antologia. Não é o tipo de livro que lê-se de capa a contracapa, num fôlego só. São propostas poéticas muito variadas, cada uma delas uma pequena nesga na vastidão de poemas que cada um dos trinta engendrou ao longo de suas vidas. De qualquer forma o leitor diligente ganha muito escolhendo ao azar quaisquer dos poemas para ler. Do conjunto gostei particularmente de um, Hans Faverey, que diz: "Primeiro a mensagem mata / o destinatário, então / mata o remetente. / Não importa / em qual idioma. // Eu me levanto, abro / com força as portas da sacada / e respiro fundo. // As gaivotas que circulam / sobre a rua sem neve / não vou atrair / com gestos de alimentá-las. // Acendo um cigarro; / volto para meu posto / e respiro fundo. / Não há nada a se sonhar. / Tudo é possível. / Pouco importa." Bueno. Os poetas incluídos na antologia são: Piet Paaltjens, Jacques Perk, Albert Verwey, Herman Gorter, Willem Kloos, Henriette Roland Holst, Adriaan Roland Holst, Hendrik de Vries. J.H. Leopold, Theo Van Doesburg, P.C. Boutens, Jan Jacob Slauerhoff, Martinus Nijhoff, Hendrik Marsman, M. Vasalis, Ida Gerhardt, Jan Campert, J.C. Bloem, Gerrit Achterberg, Hans Lodeizen, Lucebert, Jan Hanlo, Remco Campert, Leo Vroman, Rutger Kopland, Gerrit Kouwenaar, Hans Faverey, Gerrit Komrij, Nachoem MN. Wijnberg e Ester Naomi Perquin. A edição é bilíngue, e é da Demônio Negro, ou seja, garantia de boa qualidade. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1468 (poesia #120) 
[início: 19/09/2019 - fim: 28/09/2019]
"Poesia holandesa: do século XIX à atualidade", Daniel Dago (organização), tradução de Daniel Dago e Rubens Chinali, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2019), capa-dura 16,5x23,5 cm., 152 págs., ISBN: 978-85-66423-64-8