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segunda-feira, 29 de junho de 2020

donde todo ha sucedido

Já contei aqui como descobri perdidos em meus guardados dois livros de crônicas do Javier Marías. Um deles era uma antologia de textos sobre futebol, "Salvajes y sentimentales", que já registrei aqui. O outro é "Donde todo ha sucedido", textos sobre cinema, sobre os quais falo agora. São 63 crônicas, publicadas originalmente em jornais, entre 1993 e 2004, e já reunidas em livro anteriormente. O interessante da releitura destas crônicas, no meu caso, é receber de uma só vez o impacto das impressões dele sobre este assunto. Quem já leu algum romance de Javier Marías sabe o quão influenciados pelo cinema eles são. O primeiro deles, "Los domínios del lobo", é uma colagem brutal de cenas cinematográficas, que emulam os filmes americanos que retratam o período que vai da guerra civil, no século XIX, até a grande depressão, nos anos 1930. Em todos os demais é comum encontrarmos alguma reflexão ou memória de uma cena de um determinado filme ou seguir a narrativa, pelos personagens de seus livros, dos atos de algum ator, num contraste sempre especial. Marías fala sobre questões técnicas de apreciação, o papel do cinema em sua geração de escritores e de seus filmes favoritos (que é uma coisa de momento, cambiante), mas que à época destas reflexões sobre cinema ele afirma serem The River, de Jean Renoir; The Man Who Shot Liberty Valance, de John Ford; Campanadas a medianoche, de Orson Welles; The Ghost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz; The Life and Death of Colonel Blimp, de Michael Powell e Emeric Pressburger; Singin' in the Rain, de Stanley Donen e Gene Kelly; North by Northwest, de Alfred Hitchcock; The Apartment, de Billy Wilder; The Wild Bunch, de Sam Peckinpah; The Dead, de John Houston. Escreve bastante sobre John Ford e sobre Orson Welles, seus diretores favoritos. Gostei particularmente de uma crônica sobre Leni Riefenstahl; outra sobre o dia em que dividiu uma mesa de bar madrileña com Hanna Schygulla; ainda outra sobre a influência de um tio seu, cineasta algo maldito, chamado Jesús Franco. Javier Marías fala sobre os grandes temas do cinema (que também são os grandes temas literários): a liberdade, a morte e a dor, o ódio e o amor, o ressentimento e o orgulho, a lei, a justiça e a maldade, a renúncia e a força. Também fala da política, sociedade, boa educação e questões de seu tempo. Nunca me canso de ler o que produz esse especial escritor, já se sabe. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1547 (crônicas e ensaios #274) 
[início: 10/06/2020 - fim: 13/06/2020]
"Donde todo ha sucedido: Al salir del cine", Javier Marías, edicíon de Inés Blanca y Reyes Pinzás, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Círculo de Lectores), 1a. edição (2005), capa-dura 13x21 cm., 286 págs., ISBN: 978-84-8109-513-3

quinta-feira, 11 de junho de 2020

salvajes y sentimentales

Ao tentar arrumar meus guardados, cansado, nestes dias canalhas de pandemia, eis que descubro que não havia lido ainda dois volumes de artigos de Javier Marías. Um deles é esse "Salvajes y sentimentales", onde estão reunidos 72 artigos, publicados originalmente entre 1992 e 2010. A bem da verdade eu já havia lido boa parte deles, quando enfeixados nos volumes em que Marías reúne suas contribuições em jornal a cada dois anos (clika!: Javier Marías). Todavia, neste volume em especial há vários textos que foram produzidos por encomenda, para livros que rendiam homenagem à efemérides do Real Madrid ou do Barcelona, e também escritos para encartes especiais dedicados a cobertura da Copa do Mundo de futebol de 1994. Como tudo que Javier Marías produz os artigos são exemplares, tanto pela técnica literária e argumentativa quanto por conta dos efeitos que provoca no leitor, convidando-o a refletir sobre uma miríade de assuntos. Bom observador e juiz de caráter, Marías sabe destacar nos artigos a dimensão dramática do jogo ("En este juego, si no hay drama no hay nada"); as infinitas possibilidades de interpretação da qualidade e/ou resultado de uma partida ("Como con las traducciones, uno se pregunta cómo una partida puede ser tan distinta según el intérprete, y sin embargo la misma"); o impacto social do jogo ("Ser aficionado al fútbol y a algun que otro deporte no me impide darme conta del carácter enfermizo y perverso que afecta y rige a ese mundo, que tal vez refleja mejor que ningún otro el descabezado espíritu competitivo que domina cada vez más nuestras sociedades"); o porco papel dos dirigentes esportivos ("Si para seguir el fútbol hay que ver a menudo a estos sujetos broncos, será cuestión de ir pensando en quitarse"); a nefasta ligação entre políticos e futebol, quase uma usurpação (canalhas como Havelange, Blatter, Berlusconi e tantos outros são vergastados sem dó); as sadias provocações cruzadas com outros aficionados (Juan García Hortelano, inolvidable colchonero; Manuel Vázquez Montalbán, culé de leyenda);  a ligação do esporte com a euforia e alegrias da infância; o fato das alegrias e vitórias passadas não poderem mitigar a angústia das derrotas de hoje, do presente. De tempos em tempos, rende homenagens a seu santo particular, o argentino Alfredo Di Stéfano, que jogou no Real Madrid, entre 1953 e 1964. A seleção e edição dos artigos foi feita por Paul Ingendaay, um jornalista alemão. Foram publicados neste formato primeiro na Alemanha, país onde os livros de Marías são muito apreciados, para depois ganharem edição na Espanha. Livro bacana, mesmo para um sujeito quase avesso ao futebol, como eu. Vale! 
Registro #1540 (crônicas e ensaios #272) 
[início: 26/05/2020 - fim: 31/05/2020]
"Salvajes y sentimentales: Letras de fútbol", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2010), brochura 15x24 cm, 317 págs. ISBN: 978-84-204-0536-0

domingo, 2 de junho de 2019

cuando la sociedad es el tirano

Neste volume estão reunidas 96 crônicas de Javier Marías que foram publicadas originalmente nos domingos entre 05/02/2017 e 27/01/2019, no suplemento El País Semanal. Quarenta e quatro são de 2017, quarenta e oito de 2018 e quatro já deste terrível 2019. Todas estas crônicas podem ser lidas também em seu blog: javiermariasblog. As crônicas não são monotemáticas, em geral ele enfeixa vários assuntos e propõe uma síntese, um ponto de vista original e sempre rico. De qualquer forma tentei organizá-las nos temas mais dominantes e as reduzi a quatro conjuntos: vinte e sete são basicamente sobre questões políticas (seja da madrilenha, catalã - viveu-se a tentativa de independência da catalunya nestes dias, espanhola ou europeia, mas também tratam de intolerância, terrorismo, o debate entre esquerda e direita no mundo); quarenta e três gravitam a sociologia (a vida em sociedade, comportamento, questões de gênero, o mundanismo, percepção da realidade, a boa educação); nove correspondem a registros ou fragmentos da memória (da família, dos amigos, do futebol, de experiências pessoais) e dezessete de questões culturais (do ofício da literatura, do cinema, das artes plásticas, da música, de questões linguísticas ecoadas na RAE, da estética, de ideias e ideais). Marías é um sujeito que percebe tendências, não se deixa enganar pelas aparências, pelo convencional. Ali de seu apartamento na Madrid de los Austrias, aquela região mítica do centro-oeste de Madrid, ele acompanha os sucessos do mundo e reflete, digita em sua vetusta Olympia Carre de Luxe suas seminais crônicas. Cada uma delas é um pequeno bálsamo semanal, um lenitivo aos aborrecimentos e surpresas da vida. Pouco importa se sua matéria prima cultural seja a Espanha, já que suas digressões falam do mundo contemporâneo, dos homo sapiens de hoje, daquilo que repercute em todo o globo. Ele não se furta de provocar tribos organizadas, de denunciar a estupidez daqueles que defendem temas ditos politicamente corretos, de lamentar o vitimismo e a absoluta falta de educação que grassa nestes dias. Ele aceita as limitações humanas, entende sua complexidade, acompanha as metamorfoses e o ritmo deste tempo. Lamentavelmente não há no Brasil nenhum articulista que emule uma fração de sua honestidade intelectual e argumentação clara. Nenhum registro substitui o genuíno prazer de ler sua prosa.  Recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falteA veces un caballeroHarán de mí un criminalEl oficio de oír lloverDemasiada nieve alrededor, Lo que no vengo a decir, Ni se les ocurra disparar, Tiempos ridículos, Cuando los tontos mandan e Juro no decir nunca la verdad. A bem da verdade recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus livros, há 50 registros deles aqui no Livros que eu liVale!
Registro #1408 (crônicas e ensaios #257)
[início: 22/05/2019 - fim: 25/05/2019]
"Cuando la sociedad es el tirano", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2019), brochura 15x24 cm, 304 págs. ISBN: 978-84-204-3781-1

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

cuando los tontos mandan

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Quando soube, ainda em 2017, do pré-lançamento de "Cuando los tontos mandan", preparei-me bem. Graças aos bons serviços da Casa del Libro espanhola e da DHL o livro saiu de Madrid no dia 15 de fevereiro à tardinha e chegou aqui, no interior do interior do Rio Grande do Sul, no dia 20 de fevereiro, fresco como pão quente, ainda com cheiro de livro novíssimo que era. Já conhecia todas as 95 crônicas de Javier Marías reunidas nele, pois as leio todos os domingos assim que são publicadas no El Pais Semanal. As reli ainda nas férias e antes do início das aulas, em março, mas deixei para fazer esse registro só agora, ao finalizar os registros possíveis em 2018 no Livros que eu li. Esse volume sintetiza meu ano, meu humor, meu entendimento da vida. Vivemos sim numa desgraçada época onde os tontos mandam. É insuportável. Paciência. Como não concordar com Marías? As crônicas são variadas. Sua curiosidade intelectual é vasta. As crônicas foram publicadas entre 8 de fevereiro de 2015 e 29 de janeiro de 2017. Ele fala de política espanhola e política internacional; de costumes e modismos; de Cervantes e Shakespeare; recupera fragmentos de sua biografia, louvando amigos e vergastando inimigos; fala de filmes antigos, de religião, de guerras, de terrorismo, da Europa e de linguagem, de literatura contemporânea, de questões filológicas discutidas na RAE e de sexo discutido com amigos, da vaidade e de suas obsessões literárias, seus hábitos, sua rotina e seu oficio. Poucas pessoas me parecem tão honestas intelectualmente quanto ele (como nos ensinou Isaiah Berlin, ato que exatamente define verdadeiramente um intelectual). Poucas pessoas me parecem tão corajosas, implacáveis com a má-fé, com a mentira e a desfaçatez. Seu sarcasmo é sempre onipotente, ferino, necessário. A mediocridade o importuna, mas ele dá exemplos de como faz para blindar-se dela e da legião de escravos mentais que nela vicejam. Ele fala da tragédia que é o pensamento politicamente correto. Fala do curral mental em que se transformaram as escolas, onde muitos professores praticam sem pudor o que pior alguém pode fazer a um aluno: mentir, desinformar, falsear. Sempre é implacável justamente com os indivíduos que deveriam ser exemplares e confiáveis, mas são exatamente o contrário: filisteus acadêmicos, juízes venais, jornalistas que nem fazem mais questão de esconder sua estupidez, políticos profissionais e seus assessores amestrados, professores universitários, maus críticos e pensadores ruins. De qualquer forma um humor sereno percorre as crônicas, um humor que desarma qualquer fascista ou canalha de plantão. É possível escolher uma como a melhor dentre elas? Não consigo. Em todas encontra-se reflexões de alguém que sempre respeita seus leitores, convida-os a raciocinar, a pensar com lógica e independência, a devotar nosso bem mais valioso, que é o tempo, em ações que promovam a liberdade, a democracia, a correção, a verdade, valores morais e a boa educação, a vida bem vivida. Recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falteA veces un caballeroHarán de mí un criminalEl oficio de oír lloverDemasiada nieve alrededorNi se les ocurra disparar, Tiempos ridículos e Juro no decir nunca la verdad. Em todos encontramos aulas exemplares da história recente da Espanha e de como opera um intelectual notável em todos os sentidos. Bom divertimento. Evoé Marías, evoé! Vale!
Registro #1354 (crônicas e ensaios #240)
[início: 20/02/2018 - fim: 04/03/2018]
"Cuando los tontos mandam", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2018), brochura 15x24 cm, 301 págs. ISBN: 978-84-204-3231-1

sábado, 30 de setembro de 2017

berta isla

É pouco provável que seja verdade, mas nos acostumamos a identificar em um homem, Homero, o autor de duas das maiores criações da espécie humana, que são os poemas épicos que chamamos Ilíada e Odisseia. Se no primeiro poema se canta a ira de Aquiles, um breve episódio da longa guerra entre gregos e troianos, no segundo se conta as aventuras de Ulisses/Odisseu em sua longa jornada de volta à Ítaca. Pois ao terminar esse notável "Berta Isla", livro mais recente de Javier Marías, senti-me como um efebo grego do século VIII antes do inicio desta nossa era (in)comum, que ao redor de uma fogueira, após terminada a frugal refeição do cair da noite, pede a um velho aedo que conte uma vez mais os sucessos daqueles heróis que alternavam batalhas sangrentas com holocaustos e libações aos deuses. Javier Marías, venerável aedo contemporâneo nosso, com seu engenho inventou um novo portento, tão bom e instigante quanto seu "Tu rostro mañana", de forma que para mim "Berta Isla" está para a Odisseia como Tu rostro mañana está para a Ilíada. Vamos a ver. "Berta Isla" é longo, quase 550 páginas, dividido em dez cantos/capítulos, ora narrados por um observador onisciente, em terceira pessoa, ora pela heroína da historia, Berta, em primeira pessoa. O que o leitor encontra no livro são as lembranças de Berta (lembranças contemporâneas, de 2016, 2017), sobre as circunstâncias de como conheceu nos anos 1960 um rapaz, Tomás Nevinson, casou-se e teve um casal de filhos com ele, nos anos 1970, e ficou treze anos, de 1982 a 1994, sem ter a certeza se esse seu marido estava morto ou vivo. Trata-se, como o próprio Marías diz em um teaser, da história de uma espera, uma espera como a de Penélope na Odisseia. Tomás (ou Thomas ou Tom) é daquela estirpe de protagonistas de Marías que tem um especial talento para línguas, para imitação de acentos e comportamentos, posturas, para interpretar rapidamente o caráter de seus interlocutores (como Jaime Deza em Tu rostro mañana ou narrador sem nome de Todas as almas, entre tantos outros). Após conhecer Berta em um colégio interno na Madrid franquista, na segunda metade dos anos 1960, Tomás, filho de uma espanhola com um cidadão inglês, viaja para a Inglaterra para seus estudos universitários, onde acaba conhecendo Peter Wheeler (o grande hispanista, professor de Oxford, que já conhecemos de Tu rostro mañana) e, por um desvio do destino, que define todo o livro, o diabólico Bertram Tupra, também personagem daquele livro e que talvez seja mesmo o alter ego ideal de Javier Marías (sempre imagino Marías dizendo para mim don't linger or delay, toda vez que postergo uma tarefa ou decisão). Ao voltar para Madrid e casar-se Tomás assume um posto importante na embaixada inglesa, mas suas viagens recorrentes e ausências logo fazem Berta entender que seu marido atua não em tarefas burocráticas, mas em algo relacionado a espionagem, ligado ao serviço secreto inglês. Não me atrevo a descrever mais detalhadamente o livro, pois estaria roubando do leitor o prazer de uma miríade de descobertas. Não se trata de um romance de época, onde se fala da sociedade espanhola ou europeia dos anos 1970, 1980 ou 1990, que retrate panoramicamente estes anos, o ambiente e acontecimentos destes anos. Todavia, ao acompanharmos as reflexões e digressões de Marías, aprendemos algo sobre como o destino dos indivíduos é aleatório e único, como é impossível que uma acepção simples, como "anos 1980", por exemplo, identifique algo que seja válido para não mais do que apenas um punhado de pessoas que viveram naquela época ou estudaram detalhadamente sobre aqueles tempos. Enfim, mesmo a lembrança dos fatos que vivemos é construída. Talvez eu volte a esse registro e escreva mais. Escreva sobre Little Gidding, poema de Eliot, tão presente no romance; sobre as metamorfoses de Tomás Nevinson; sobre o caráter de Tupra; sobre como Lord Wheeler lembra as Moiras gregas; sobre Eric Southworth, amigo real de Marías, inserido no livro, como já vimos Marias fazer com Francisco Rico em "Los enamoramientos"; sobre o papel do cinema na imaginação de Marías; sobre uma passagem retirada do Henry V, de Shakespeare; sobre a figura dos fantasmas; sobre a manipulação, de indivíduos e de toda a sociedade, em todos os tempos; sobre o fato de também Ulisses ter ido a guerra de Tróia por força de um ardil; sobre a força da frase: "Desde cuándo la gente ha elegido sus vidas?"; sobre os livros que há em Berta Ilsa (há uma boa compilação deles no Librotea); e sobre tantas outras coisas. Mas não consigo fazer isso agora. Paciência. Preciso e vou reler o livro. Não consegui conter-me e o li quase de um fôlego só, um longo fôlego de quatro dias. Marías terminou de escrever "Berta Isla" em abril deste ano, o livro foi impresso em agosto e lançado oficialmente no 02 deste setembro que hoje termina. Recebi o livro na manhã do dia 10 (não pelo inútil serviço dos correios brasileiros, claro, mas pela DHL, graças aos esforços da Casa del Libro espanhola), comecei a ler naquele dia mesmo e terminei na quarta-feira, dia 13. Que dias felizes! Termino de escrever esse registro hoje, 30 de setembro, véspera do plebiscito que poderá definir a independência da Catalunya e uns poucos dias antes do anúncio do prêmio Nobel de literatura (e eu sempre aposto no Marías, claro). Evoé Marías, evoé!
Registro #1218 (romance #326)
[início: 10/09/2017 - fim: 13/09/2017]
"Berta Isla", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2017), brochura 15x24 cm, 544 págs. ISBN: 978-84-204-2736-2

sexta-feira, 28 de abril de 2017

veneza, um interior

Um ano ser ler ou reler Javier Marías é um ano perdido. Quando soube que a editora portuguesa Relógio D'água havia reeditado algo antigo do Marías não perdi tempo e logo encomendei o livro. Nele estão incluídos dois mimos, crônicas que falam de Veneza e dos venezianos. Ambas foram publicadas originalmente em jornal e depois reunidas em livros. A mais recente é "O que cada um leva consigo", que  foi publicada em 2009 na revista El País Semanal (e depois incluído na coletânea "Ni se les ocurra disparar"). Nela Marías fala dos cinco anos em que viveu em Veneza, dos livros que lá escreveu, de sua rotina e das amizades que fez. Fala sobretudo sobre o tempo, sobre como o espaço é o depositário do tempo, o suporte de nossas lembranças (como Proust já nos ensinou). Sempre um frasista cativante, Marías diz "que só se perde realmente aquilo que esquecemos ou rejeitamos, o que preferimos apagar e já não queremos conosco, o que não fica incorporado na vida que contamos a nós próprios". O texto mais antigo, "Veneza, um interior", é um longo ensaio, tão robusto e bem escrito quanto completo. Um paradoxo, pois milhares de páginas e imagens podem ser escritas sobre a cidade sem esgota-la, porém Marías alcança no familiarizar com ela, sem ser pedante ou detalhista. Foi publicado em capítulos no jornal El País, em 1988 (e depois incluída na coletânea "Pasiones pasadas"). Nele acompanhamos as deambulações e digressões de Marías, com calma, atenção, encantamento. Ele fala das gentes e das ilhas, da luz e da noite, dos pintores e arquitetos; conta causos curiosos, entretêm o leitor transportando-o em transe para as pedras daquela cidade flutuante. Ah!, um sujeito não pode nunca se cansar de Veneza. Procurando, encontrei algo que compartilho com os leitores curiosos: o texto completo de "Veneza, un interior", que pode ser acessado aqui. Bom divertimento. 
[início -  fim: 11/04/2017]
"Veneza, um interior", Javier Marías, tradução de José Bento (Venecia, un interior) e Manuel Alberto (Lo que uno lleva consigo), Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 57 págs., ISBN: 978-989-641-685-0 [edição original: El País, 22, 23, 24, 25 e 26 de agosto de 1988; El País Semanal, 14 de junho de 2009]

terça-feira, 12 de julho de 2016

el quijote de wellesley

Neste 2016 celebra-se os 400 anos da morte de Cervantes (o 400cervantes.es é um dos bons sites dedicado as comemorações que seguem ao longo do ano). A Alfaguara participou dos festejos com a publicação de um pequeno - e inédito - caderno de notas utilizado por Javier Marías num curso sobre o Quijote que ele ministrou no Wellesley College, no outono de 1984. Quem conhece a biografia de Marías sabe que ele morou em Wellesley quando ainda era recém nascido, pois seu pai, Julián Marías, havia conseguido uma posição temporária lá em 1951. Deve saber também que um dos autores aos quais Marías devota mais respeito, Vladimir Nabokov, também morou em Wellesley e também ministrou um curso sobre o Quijote lá (já escrevi aqui sobre isso no: "Curso sobre el Quijote"). As notas de Marías são bem mais sintéticas que aquelas de Nabokov. Correspondem apenas as anotações básicas que ele utilizava a cada dia e não a transcrição exata do material que era lido e desenvolvido nas aulas. De qualquer forma sabemos o formato do curso: as aulas começaram num 04 de setembro e terminaram num 06 de dezembro. A cada uma das vinte e seis aulas as alunas (pois o Wellesley é um colégio apenas para mulheres, cabe dizer) deveriam fazer a leitura dos capítulos indicados por ele, fazer comentários individuais e responder perguntas. A avaliação consistia em uma defesa oral sobre um tópico do livro, escolhido livremente pelas alunas, além da produção de duas monografias cujos temas foram escolhidos por Marías. Ele defende que o Quijote é o romance mais rico e complexo já escrito, talvez por oferecer uma miríade de leituras diferentes (e até contraditórias) ao longo do tempo. Mais do que a história propriamente, Marías enfatiza nas aulas os aspectos técnicos e temáticos, a sofisticada estrutura do livro, faz comentários sobre aqueles que, inseridos por Cervantes no livro (utilizando os distintos narradores), dão conta e justificam a forma dele narrar ou suas opiniões sobre a arte e a literatura. Nestes comentários Cervantes destaca as vantagens da ficção sobre a realidade, do romance sobre a história e joga com o leitor, que sabe tratar-se de invenções tudo o que está a ler, mas que é possível que as regras do ofício literário daquele autor talvez o obrigasse a fazer seus personagens defenderem ideias com as quais eventualmente não concordasse (todos estes temas são caros à Marías, que reiteradamente os explora em seus livros a ideia que mesmo a realidade deve ser inventada). Se as notas são breves (o livro mal tem cem páginas) os argumentos e defesa de seus pontos de vista são quase sempre seminais. Vale. É certo, um sujeito sempre aprende algo novo com Javier Marías.
[início: 16/06/2016 - fim: 01/07/2016]
"El Quijote de Wellesley: Notas para un curso en 1984", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2016), brochura 15x24 cm, 104 págs. ISBN: 978-84-204-2395-1

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

juro no decir nunca la verdad

Em "Juro no decir nunca la verdad" encontramos 95 crônicas publicadas originalmente no El País Semanal entre 10 de fevereiro de 2013 e 01 de fevereiro deste terrível 2015 que se encerra. Mesmo passados os muitos meses de sua publicação nenhuma das crônicas parece datada ou envelhecida, nenhuma soa incongruente ou irrelevante. O estilista Javier Marías dos romances e contos é também um inventor inspirado em suas crônicas. Marías sobretudo argumenta, defende uma posição, contrasta seu entendimento das coisas com o senso comum ou com opiniões de terceiros. Ele sempre é implacável em seu juízo, mas nunca mal educado ou descortês. É justo (como sabem ser Eáco, Minos e Radamanto, os juízes do inferno), seja com os políticos de seu país, com o patético ex-treinador do seu time de futebol, com os funcionários de um aeroporto em Londres que roubaram pertences seus, com  colegas escritores, ou ainda com vizinhos de bairro e conterrâneos madrilleños. Trinta ou quarenta por cento dos textos são marcadamente políticos, onde Marías interpreta o momento político e econômico do seu e dos demais países da comunidade européia, mas há um número maior de textos sobre outros assuntos, como seu ofício, suas influências literárias, sua família e amigos, sua memória das coisas da infância ou juventude, seu azedume em relação a onipresença da igreja no cotidiano espanhol, sua paixão pelo cinema ou sua prática como acadêmico nas reuniões da Real Academia Española de la Lengua. Dos disparates que presencia ou lê brotam crônicas nada ligeiras. Produzidas para emular falsa simplicidade, elas se deixar ler nos domingos pela manhã ora com sorriso ora com esgar. Nelas encontramos argumentos vigorosos e complexos, seminais e definidores. Ele nunca é panfletário ou engajado (no mau sentido da palavra, ou seja, no sentido que experimentamos, por exemplo, na quase totalidade das opiniões de intelectuais e escritores brasileiros contemporâneos). Ele nunca se ilude com a aparência do que vê, reproduz versões oficiais, aceita as promessas ou regras dos jogos de poder (coisa que os servis jornalistas brasileiros, quase todos escravos mentais de alguma forma pagos com dinheiro público, fazem rotineiramente). Quando ele acusa um erro ou atenta para um problema sempre encadeia seus argumentos com lógica e método. Ele antecipa movimentos e/ou desdobramentos dos fatos aparentemente corriqueiros que registra. Apesar de reiteradas mostras de sabedoria Marías nunca é pedante (seu humor é algo que encanta o leitor mesmo quando o assunto é árido, complicado, de entendimento sutil). Como não rir do sarcasmo de um "Si los tontos volaran no se vería el sol"? Pois então. Quer ler algo não ficcional de Javier Marías? Experimente a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombraSeré amado cuando falteA veces un caballeroHarán de mí un criminalEl oficio de oír lloverDemasiada nieve alrededorNi se les ocurra disparar e Tiempos ridículos. Em todos encontramos aulas exemplares da história recente da Espanha. Bom divertimento. Cabe aqui uma última nota. Há um causo que vou lamentar por muitos anos ainda. Acontece que perdi a oportunidade, em fevereiro último, de cumprimentar don Javier Marías. O vi na Calle Cava Baja, em Madrid. Estávamos Lola, Manolo e eu saindo da Taberna e Posada de la Villa, onde havíamos tomado umas copas e fazíamos planos para jantar. Lola chamou nossa atenção e disse que o Marías estava ali, na diagonal, do outro lado da rua, fumando calmo seu cigarro debaixo do dintel de uma porta. Fiz menção de irmos lá cumprimentá-lo, porém Lola lembrou do quão zeloso de sua privacidade era ele. Estava frio naquele inverno e o lusco-fusco do início da noite fazia as luzes bruxulearem. Ficamos uns minutos ali parados, indecisos, em quase transe. Manolo bromeava como sempre faz, nos incentivando a cruzarmos a rua e eventualmente recebermos nossa cota de impropérios marianos. Lola lembrou de uma amiga que não foi exatamente bem recebida em circunstâncias parecidas. Fomos covardes, ai de nós, decidimos deixá-lo na paz de seu santo cigarro. Seguimos no sentido oposto, Cava Baja abaixo e ficamos um bom tempo falando dele e de seus livros. Manolo ria de nossa continuada timidez. Nem Lola nem eu sabíamos explicar o que de fato nos impediu. Era tarde. Como teria sido divertido ter ao menos balbuciado um par de frases com ele naquele dia. Vale.
[início: 07/10/2015 - fim: 05/12/2015]
"Juro no decir nunca la verdad", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2015), brochura 14x22 cm, 378 págs. ISBN: 978-84-204-1210-8
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Balanço final [25.12.2015]
Ninguém intelectualmente honesto pode dizer que 2015 foi um bom ano para o Brasil e para os brasileiros. E mais não digo sobre a irreversível miséria mental e moral que se abateu sobre esse desgraçado país. Ponto. Li um bocado, 109 livros, mas não consegui produzir as resenhas no mesmo ritmo das leituras (o fato de mudar de apartamento e queimar meu computador semanas atrás explica um tanto, mas não tudo deste descompasso). Estou devendo escrever registros de livros que li ainda no início de novembro. Paciência. Esse foi o ano dos romances. Foram 41 (38% do total). Só em 2009 havia lido tantas narrativas longas (talvez para compensar o fato de ter-me dedicado no ano passado a ler muitos ensaios e outros volumes de não-ficção). Nessa cota de romances quase um terço é invenção do Patrick Modiano, prêmio Nobel do ano passado, que li com disciplina e método (a obra dele é mesmo um interessante mosaico de livros curtos e potentes). Li um bom conjunto de livros em espanhol e vários em inglês comprados em Dublin, livros que tratam do mundo de James Joyce, pomos de ouro colhidos numa viagem há tanto tempo planejada. Li volumes do Haruki Murakami que não me agradaram nada, coisas da Natalia Ginzburg que me agradaram um bocado e reli o ciclo Fundação do Asimov com pouco mais que tédio (Noigandres, eh noigandres). Gostei dos vários Joseph Roth que li e fiquei realmente impressionado com o poder da narrativa do romeno Mircea Cartarescu (haverá vários dele em 2016, seguro que sim). Dediquei bom tempo ao robusto conjunto de ensaios sobre J.M. Coetzee editado pelo Lawrence Flores e a Kathrin Rosenfield. Aproveitei cada minuto da leitura da tradução que o Lawrence fez do Hamlet. Ouro puro. Li vários livros independentes (digamos assim), livros editados por pequenas editoras, de gente que acredita sobretudo no poder da palavra e de sua capacidade de contribuir com algo seu no mar revolto da literatura (autores que ou são vaidosos o suficiente ou muito seguros de si para se atreverem-se a publicar algo numa época em que a maioria das pessoas mais se orgulha de ser imbecil e/ou analfabeta do que qualquer outra coisa). Fiz 109 registros de leitura, um tanto acima da média dos três anteriores, mas algo abaixo da média histórica, iniciada em 2007, que é agora de 113 livros por ano. Foram 41 romances; 17 de crônicas e ensaios; 14 de contos; 7 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 6 novelas; 5 de poesia; 3 de perfis, biografias, memórias e relatos; outros 3 de ficção científica; 2 de fotografias e 2 de turismo; além de apenas um dos seguintes nove gêneros: romances policiais; infanto-juvenis; gastronomia; arte; didáticos; dramas; cartas; catálogos e de divulgação científica. Abandonei uma miríade de projetos, desisti de coisas que sabia serem fundamentais, importantes até demais, mas que não resistiram a meu caótico processo de leitura. Ultrapassei a mítica marca dos 1000 livros lidos desde que comecei a fazer esses registros (sabe-se lá quantos livros li antes, entre meados dos anos 1970 e o final de 2006, mas sei que foram mais de 2000). Falei sobre a vertigem de fazer essa lista de livros lidos num artigo publicado na Revista Cândido (da Biblioteca Pública do Paraná). Fizemos a festa dos 90 anos para meu pai, o original Aguinaldo Severino, grande festa, grandes alegrias. O Sr. BB, o mais jovem de nossos gatos, morreu. A Pato, a nova mais jovem gata, apareceu. Helga e Natália seguem bem. Estamos a sair do #403 para o #902, animados. Organizei com ajuda da CESMA e do Ponto de Cinema mais uma edição do Bloomsday Santa Maria, a vigésima-segunda da série. No ano que vem faremos a edição número 23 e comemoraremos os cinquenta anos da tradução que o Antônio Houaiss fez do Ulysses (o Galindo até reclamou da escolha, mas para ele já tenho planos, em 2022). Viajei para Dublin, Pamplona e Madrid. Em Dublin tive a sorte de conhecer dois arquitetos, o Kevin e seu irmão John, esse último um sujeito que sabia um bocado de coisas sobre o Joyce e me abriu um bocado de portas mágicas (sem ele não teria conhecido o mercurial Brendan e sua James Joyce House, nem as casas onde viveu James Joyce, nos subúrbios ao sul de Dublin, Rathgar e Rathmines). Conhecer o adorável P.J. Murphy, o industrioso Conor Fennell e o povo amigo da Martello Tower também foram experiências dos diabos. Nunca há timidez quando se trata de verdadeiros viciados em James Joyce e sua obra. A cidade tratou-me com cortesia e eu soube bem minha cota de Guinness. Sláinte. Ah! E em 2016 começo o décimo ano desta série de registros de leitura. Veremos.
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

las huellas dispersas

Neste volume não há textos inéditos. Todos podem ser encontrados nos demais livros de Javier Marías, principalmente aqueles onde estão compilados seus artigos escritos para jornais e revistas. Todavia trata-se de um livro que propicia algo precioso, a imersão nas narrativas de Marías diretamente relacionados a seu Ciclo de Oxford, ou seja, ao conjunto de romances: "Todas las almas", "Negra espalada del tiempo" e "Tu rostro mañana". A organização e apresentação do livro é assinada por Inés Blanca, uma conhecida especialista na obra de Marías, que nos informa que a primeira pessoa a investigar esses volumes como um conjunto foi José María Pozuelo Yvancos (no "Figuraciones del yo in la narrativa"). São cinquenta e sete textos, organizados tematicamente. Em "Los que sí han cruzado el mundo" encontramos 17 narrativas de Marías dedicadas a personagens reais que foram incorporados de alguma forma à sua ficção (ele é um mestre neste tipo de aproveitamento); em "Un país de novela" 5 textos que falam de sua experiência em viver na Inglaterra; em "Reino de redonda" 4 textos onde ele explica o acaso de sua investidura como rei Xavier I (da ilha de Redonda). A parte mais interessante do livro é a seção "El autor ante sus libros", onde encontramos 11 ensaios nos quais Marías explica um tanto de seu ofício como escritor, seu método de trabalho, a gênese de suas histórias (especificamente das três citadas acima). Na seção "Los tiempos y sus hechos" estão reunidas 11 crônicas sobre os aborrecimentos decorrentes da versão cinematográfica de "Todas las almas" e também alguns textos sobre política, história e economia do período que começa na queda do muro de Berlim (1989) e termina com o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque (2001), temas que dão fundamento os romances desse ciclo. Na seção "El autor se asocia y callejea" Marías fala de sebos e antiquários, de sociedades e festividades literárias. O volume se encerra com dois contos (já incluídos no "Mientras ellas duermen") e diversos apêndices, de procedência e estilos variados, quase todos produzidos por terceiros (há resenhas e apresentações de Ángeles García, Eduardo Mendoza e Cabrera Infante por exemplo), além de uma lista atualizada da aristocracia do reino de Redonda, dos ganhadores do prêmio literário de mesmo nome concebido por Marías e algumas entrevistas. O texto mais antigo é de 1985, o mais recente de 2013. O leitor que já tenha experimentado aqueles três romances aproveita melhor esse livro, mas ler Javier Marías nunca aborrece ninguém, mesmo um eventual, porém curioso, neófito. Vale.
[início: 15/11/2014 - fim: 25/11/2014]
"Las huellas dispersas", Javier Marías, organização de Inés Blanca, Barcelona: Debolsillo (Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2013), brochura 12,5x19 cm., 388 págs., ISBN: 978-84-9032-781-4

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

así empieza lo malo

Se eu recebesse esse livro sem título ou nome do autor identificado na capa bastaria ler uns poucos parágrafos para que descobrisse que se trata de um legítimo Javier Marías. Seu estilo é inconfundível, mas certamente difícil de ser reproduzido, copiado ou emulado. Seus narradores nunca nos apresentam invenções lineares, cronológicas, fáceis de ler, mas sim uma história que parece banal, mas a qual é, aos poucos, acrescentado um novo aspecto de um determinado assunto, uma história que recebe camadas novas de sentidos e sugestões, de possibilidades e sutilezas, de associações e detalhes, que fazem com que o leitor eventualmente acabe por organizar e entender como uma totalidade argumentativa, um bloco conceitual, uma epifania dos diabos, um diamante literário, uma magia (javiermariesca). Mesmo quando seus narradores parecem ter esgotado uma via de argumentação, exaurido um caminho rico em digressões, eis que percebemos que estávamos (o narrador e nós mesmos, afortunados leitores) enganados, pois havia ainda um último aspecto que deveria ser ali investigado e discutido, que ainda seria possível extrair dali alguma nova maravilha. Javier Marías cria personagens que identificamos de alguma forma com aqueles seus que já conhecemos de outros livros, uma ilusão similar aquela produzida pelos atores de cinema - mais frequentemente atores de antigamente, dos anos 1940, 1950 e 1960- que se especializaram em um determinado tipo de papel (de vilão, sedutor ou atlético, de ingênuo, moral ou ladino, de pérfido, cômico ou misterioso) e nos faziam automaticamente associar ao personagem interpretado por ele num determinado filme todas as características que já conhecíamos do mesmo sujeito quando ele havia interpretado um outro papel num outro filme. De forma similar, quando um grande diretor de cinema, um Hitchcock por exemplo, criava cada um de seus filmes com personagens distintos, adaptados às circunstâncias das diferentes histórias, criava também personas que sabíamos imediatamente aparentadas entre si, como se fossem arquétipos de homo sapiens sapiens, de modelos de seres humanos, de padrões esquemáticos do comportamento humano. Pouco importava se os atores que interpretavam os papéis fossem James Stewart, Cary Grant ou Sean Connery, Kin Novak, Grace Kelly ou Tippi Hedren, assim que os víamos em cena sabíamos que eram atores em um filme de Hitchcock. Com Javier Marías não é diferente (não por acaso o cinema tem um papel importante na maioria de seus livros, desde o primeiro deles, o divertido "Los dominios del lobo", de 1971. Começamos a ler "Así empieza lo malo" e seu personagem principal, Juan de Vere, parece alguém que tem o mesmo estofo do Jacobo Deza do Ciclo de Oxford: "Todas las almas", "Negra espalada del tiempo" e "Tu rostro mañana". É como se fosse um experimentado ator que é contratado para interpretar um papel diferente (em um livro diferente) de Marías. Juan é o jovem assistente de um diretor de cinema, Eduardo Muriel. Produz para ele versões em inglês de cartas, documentos e roteiros cinematográficos. Esse Muriel é casado com uma mulher muito bonita, Beatriz Noguera, mãe de três filhos. Nos meses em que fica hospedado na casa dos Muriel (os meses de verão de 1980, meses da icônica movida madrilenha) ele acaba se envolvendo numa questão que remete ao início do relacionamento de Eduardo e Beatriz, nos anos da guerra civil espanhola, uma questão que será protagonizada, vivenciada e absorvida por Juan de Vere completamente, que o modificará completamente. O narrador (Juan de Vere) conta sua história retrospectivamente. Ele é no livro um narrador de quase 60 anos que lembra dos acontecimentos de quando tinha pouco mais de 20 anos, ou seja, ele fala de uma encarnação que mal conhece ou respeita. Marías utiliza esse intervalo enorme de tempo (desde os anos de guerra civil espanhola, passando pelos anos da movida madrilenha - de redemocratização, pós-morte do ditador Franco, até chegar aos anos de incerteza que conhecemos todos, os anos de Zapatero e Rajoy, de Obama e Putin) para refletir sobre aquilo que cada indivíduo precisa saber discernir o mais rapidamente possível na vida - para que não sofra muitos aborrecimentos -, ou seja, precisa descobrir logo as sutilezas dentre aquilo que dizemos ser e que se sabe de nós, na vida mundana, social; ou daquilo que somos só para nós mesmos e não compartilhamos com mais ninguém, nem o mais cúmplice dos atores de nossos círculos de amizade, nem para um padre ou psicólogo, nem para um diário ou texto de ficção; e daquilo que gostaríamos de ser psicológica e socialmente falando, enfim, aquilo que projetamos como meta ambicionada para nossa vida futura. Nem Marías (nem o narrador) contam uma história fechada, factual, precisa, definitiva. O que Marías faz é conduzir o narrador por situações que possibilitam que o leitor se identifique com algumas questão e se posicione, que reflita sobre o que faria caso estivesse nas situações descritas como vivenciadas por cada um dos protagonistas de sua história. O livro começa e termina com uma metáfora náutico literária, começa com a presença das brumas por onde cruza um navio baleeiro antes de possibilitar a visão de sua presa, como a névoa que antecede a visão de Moby Dick pela tripulação do "Pequod" pela primeira vez. A epifania final, o entendimento final do narrador sobre sua condição (que é especular àquela vivida por Eduardo Muriel trinta anos antes) repete a sensação de estarmos a cruzar um mar de névoas e incertezas, de opacidade e dúvidas. Nunca ninguém sabe a extensão e implicações definitivas de tudo o que verbalizamos nessa vida.  Javier Marías discute como pequenos gestos, acasos e circunstâncias podem provocar transformações definitivas em nossas vidas. Ele fala do neoconservadorismo espanhol, de como a política e a religião estão entranhadas naquela sociedade. Ele fala das diferenças entre a sociedade espanhola e alemã, dizendo que essa última discutiu e absorveu seu passado condenável de uma forma muito mais razoável e saudável que a primeira, que ainda prefere conviver com seus fantasmas despóticos e/ou criminosos, como numa cumplicidade algo amalucada entre prisioneiros e verdugos. Ele fala uma vez mais sobre o poder da linguagem, das construções mentais que verbalizamos (voluntariamente ou através de atos falhos), da força da língua como a ferramenta que mais nos condena e ou que mais eficientemente pode nos salvar. Ele fala dos tempos da guerra civil espanhola, retomando questões já discutidas em vários de seus livros, onde percebe-se que pouco importa o que foi factual, verdadeiro ou real, mas sim o que foi historicamente construído (por força do poder, do despotismo, do ardil, da mentira, da hipocrisia ou até mesmo do acaso), pois é isso que acaba sendo majoritariamente aceito como válido. Qualquer brasileiro intelectualmente honesto deveria ser capaz de entender isso. Uma pessoa inescrupulosa sempre poderá construir para si um passado socialmente aceito (e economicamente vantajoso), desde que disponha dos meios e das oportunidade para fazê-lo. Ao mesmo tempo, trata-se de um romance doméstico, leve (digamos assim), pois os temas principais e os vários personagens podem ser confundidos/espelhados às vivências ou a pessoas reais, conhecidas e próximas de Javier Marías. A construção do protagonista da história, Eduardo Muriel, deve muito a biografia do tio de Marías, o cineasta Jesús Franco; o divertido Francisco Rico - já metamorfoseado como personagem nos livros de Marías diversas vezes - não é outro que o respeitado acadêmico Francisco Rico, da Real Academia Española, dileto amigo de Marías; e a esses pode-se acrescentar a menção explícita (entre pessoas reais e personagens bem inventados) de Peter Wheller, Dr. Arranz, Miguel Deverne e Flavia Manóia (seus personagens em outros livros) ou de Juan Benet, Vidal Secanell, Fernando Savater e Carmen Zapater (que são/foram amigos de Marías). Deve-se acrescentar também a essas minhas ilações a vívida inspiração no livro de vários acontecimentos da vida de sua mãe (Dolores Franco) e de seu pai (Julián Marías). Confundir essa estratégia com autoficção é uma bobagem, esse termo não dá a real dimensão do valor da prosa de Javier Marías e da qualidade de suas invenções. Javier Marías produziu uma vez mais um romance poderoso, que se desfruta completamente, nunca aborrece ou entedia. Pouco importa a trama, que é simples e não vou detalhar aqui para não afastar do leitor o prazer de suas próprias interpretações e descobertas. Para mim o que enfeitiça é a forma como camadas contínuas de entendimento vão brotando da trama, fazendo-nos aceitar verdades que não exatamente se contradizem, mas que são incompatíveis uma com as outras. Trata-se de um romance que reflete sobretudo sobre nossa incapacidade de tomar decisões (e conviver satisfatoriamente com aquelas que já tomamos). Esse tema, claro, remete ao "Hamlet", de Shakespere, pois Hamlet é um sujeito que simplesmente não consegue agir para viabilizar a decisão que tem tomada desde o início da peça (vingar a morte de seu pai). Cabe registrar que o título do livro brota de uma cena do terceiro ato de "Hamlet": "I do repent; but heaven hath pleas'd it so / To punish me with this, and this with me, / That I must be their scourge and minister. / I will bestow him, and will answer well / The death I gave him. So again good night. / I must be cruel only to be kind. / Thus bad begins and worse remains behind.". Ao menos como proposta inicial podemos pensar que deve ser feito previamente algum mal para que algum bem eventualmente possa florescer (ao menos para que algo muito pior fique no passado de nossas vidas). Por fim, uma última associação: "Así empieza lo malo" deve também algo ao Dante da "Divina Comédia", pois Javier Marías parece querer povoar sua literatura com menções ainda que elípticas e veladas àqueles viventes que praticaram ou praticam o mal, a todos aqueles que prejudicaram a ele, seus parentes, amigos, a seu país (sua guia pelo inferno não é outra que uma versão balzaquiana da Beatrice dantesca - não consigo escolher um bom Virgílio no livro). Li e reli esse livro como quem tateia um mapa do tesouro. "Así empieza lo malo" foi publicado há pouco mais de dois meses, no último 23 de setembro. Comprei a versão eletrônica do livro naquele dia mesmo e só quando já havia lido quase metade do livro - umas boas 250 páginas - foi que o volume físico chegou até mim. Um mês demorado de espera para algo que deveria levar uns poucos dias: Os correios brasileiros já foram uma instituição eficiente e confiável, paciência. Já com o livro físico nas mãos recomecei a leitura do início pois meu método de leitura implica em contínuas marcações nas páginas, anotações mil, registro de dúvidas. Rabisco coisas nas páginas que nem o mais eficiente dos e-readers alcançaria emular para mim. Terminei de ler o livro ainda em Brasília, durante uma missão de trabalho, há exatamente um mês, mas fiquei assombrado por ele, a consultá-lo e relê-lo, a percorrer algumas passagens como quem quer extrair delas algo mais que faça a alma um grande bem. Neste mês javiermarianesco li também "Las huellas dispersas", uma coleção de textos dele relacionados a seu Ciclo de Oxford (já mencionados acima, no início desse registro). Esses textos, sobretudo as entrevistas feitas com Marías transcritas nele, me ajudaram muito a entender melhor suas obsessões, sua inspiração e seu método. Haverá tempo neste ano para registrar algo sobre esse livro também. Essa é a centésima resenha do ano. Cousa boa. Ave Marías!
[início: 23/09/2014 - fim: 11/11/2014]
"Así empieza lo malo", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2014), brochura 15x24 cm, 534 págs. ISBN: 978-84-204-1627-4

sábado, 30 de agosto de 2014

cuando fui mortal (over again)

Na primeira semana de todos os semestres letivos da ufesm (como sói dizer don Ronái Rocha) há uma perda generalizada de força vital na universidade: a maioria das turmas ainda não está completamente formada; os ajustes de matrículas nunca terminam; os sistemas de comunicação e telefonia colapsam; o ruído resultante das vozes que se encontram é infernal; os trotes reiteram a inutilidade da incerta educação prévia do corpo social que passa a frequentar a instituição (mas onde rapidamente encontram seus precursores abúlicos). É uma semana inútil. Simples assim. Como lenitivo aproveitei para ler um bocado e encontrei nos guardados esse "Cuando fui mortal", de Javier Marías. Foi um dos primeiros livros que li dele. Cada um dos contos é uma pequena jóia, o tempo com ele um verdadeiro descanso na loucura. Já escrevi aqui o impacto da primeira leitura desses contos, em janeiro de 2008. São doze histórias originalmente publicadas em jornais ou revistas, entre 1991 e 1995. As narrativas sempre envolvem o desdobramento de uma situação concreta que não é igualmente interpretada pelo narrador e pelos protagonistas das histórias. "Cuando fui mortal" e "No más amores", as duas histórias de fantasmas do conjunto, são boas; a mais longa das histórias, "Sangre de lanza" continua minha favorita; "Menos escrúpulos", "En el viaje de novios", "Domingo de carne" e "Prismáticos rotos" igualmente incríveis, pela linguagem, invenção e concisão. Nenhum dos demais: "El médico nocturno", "La herencia italiana", "Figuras inacabadas", "Todo mal vuelve" e "En el tiempo indeciso" é irrelevante, dispensável ou tolo. Você acaba de ler um dos contos e não se incomodaria de voltar a relê-lo, tamanho o impacto. Bueno, se um sujeito ainda precisar de incentivo para começar a ler Javier Marías reafirmo: os contos de "Cuando fui mortal" irão arrebatá-lo.
[início: 11/08/2014 - fim: 16/08/2014]
"Cuando fui mortal", Javier Marias, editorial Debolsillo (Contemporánea) Randon House Mondadori, 1a. edição (2007) brochura 13x19 cm, 168 pág., ISBN: 978-987-566-257-5 [edição original: Cuando fui mortal (Madrid: Punto de lectura) 1996]

quinta-feira, 19 de junho de 2014

si yo amaneciera otra vez


"If there be grief, then let it be but rain, / And this but silver grieg for grieving's sake, / If these green woods be dreaming here to wake / Within my heart, if I should rouse again. //  But I shall sleep, for where is any death / While in these blue hills slumbrous overhead / I'm rooted like a tree? Though I be dead, / This earth that holds me fast will find me breath." Para mim Javier Marías é uma espécie de rei Midas, um Midas literário. Não há texto dele que deixe de me arrebatar de alguma forma; tudo que brota de seu talento leva o leitor por caminhos mágicos e seminais. Encontramos em "Si yo amaneciera otra vez" doze poemas de William Faulkner, publicados originalmente em 1933. Javier Marías os traduziu em 1979. Em 1997, no centenário de nascimento de Nobokov, os poemas foram revistos e reeditados numa bela edição da Alfaguara (edição que faz par com uma outra, dedicada aos poemas de Vladimir Nabokov, que já resenhei aqui). Além dos poemas encontramos no livro três ensaios curtos assinados por Marías [um inédito: "Lo que no escribió Faulkner (Presentación o arenga)" e dois já publicados em livro: "William Faulkner a caballo" (em "Vidas escritas")" e "Faulkner habla" (em "Vida del fantasma")]. Esses ensaios são tão reverentes como aqueles dedicados por Marías a Vladimir Nabokov. Mas há neles uma ironia contida, como se Marías desdenhasse antecipadamente da curiosidade dos leitores pela vida de Faulkner (no lugar de se interessar apenas por seus livros). Aprendemos que Faulkner começou como poeta mas percebeu que não atingiria a excelência que ambicionava e passou logo a experimentar textos em prosa (apesar de sempre identificar mesmo seus romances mais longos como poesia em prosa). O livro inclui também um registro de viagem assinado por Manuel Rodríguez Rivero ("Notas de Viaje por Faulkner, Mississippi") onde é descrito um percurso pelo sul dos Estados Unidos, misto de homenagem literária e busca de vestígios do curioso mundo inventado por Faulkner em seus livros. Gostei do texto de Rivero, um romancista espanhol contemporâneo de Marías, de quem nunca havia lido nada. Mas "Si yo amaneciera otra vez" é um volume de homenagem a Faulkner através de seus poemas, de sua iniciação literária. Os poemas falam da noite e da lua; da mulher e da morte; das transformações que experimentamosao longo da vida; do homem que se assusta e sucumbe frente a natureza; das viagens; de mitologia e religião. A exemplo de seus romances, nestes poemas encontramos um bom leitor da Bíblia. A edição, bilíngüe, permite que o leitor teste as soluções propostas por Javier Marías (e que tente encontrar nos originais o ritmo e as modulações de entonação). Gostei. Talvez fosse o caso de reler os romances poderosos de Faulkner, aqueles que li ainda menino, neófito das sutilezas, alegrias e aborrecimentos da vida. Quem sabe?
[início: 06/06/2014 - fim: 10/06/2014]
"Si yo amaneciera otra vez (William Faulkner: Un entusiasmo)", William Faulkner, tradução de Javier Marías, ensaios de Javier Marías e Manuel Rodríguez Rivero, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de Ediciones), 1a. edição (1997), capa-dura 19x27,5 cm., 85 págs., ISBN: 978-84-204-7957-8 [edição original: William Faulkner, A Green Bough (New York: Harrison Smith and Robert Haas) 1933, edição original da tradução: revista Poesía, n0. 5-6, inverno de 1979 (Madrid, Espanha)]

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

la religión de un médico

Esse volume reúne três textos de Sir Thomas Browne e um apêndice (divertido, cabe dizer) assinado por Javier Marías, também tradutor e editor dos textos (por sua diminuta porém seminal Reino de Redonda). "Religio Medici - La religión de un médico" é o texto mais longo (e o mais importante, chegou a ser colocado no index papal de obras proibidas). Publicado originalmente em 1643 Religio Medici reúne reflexões sobre a fé cristã, mas longe de ser um manual de cristianismo oferece ao leitor boas digressões sobre a prática da medicina, o estudo da filosofia, da astrologia e da alquimia. Browne é basicamente um cientista natural de seu tempo, que adequa seu ofício às conveniências religiosas da Inglaterra do século XVII, mas cuja curiosidade intelectual o faz explorar com algum rigor fenômenos físicos, claro, no limite do esoterismo se comparamos sua prática com o que se entende por ciência hoje em dia. Hydriotaphia (Urn Burial, or a Discourse of the Sepulchral urns lately found in Norfolk) é de 1658. Trata-se de um texto onde Browne descreve urnas funerárias (que ele imaginava serem de romanos, mas sabemos hoje serem de saxões) e dos hábitos de sepultamento (a queima ritual do corpo e o enterramento das cinzas e dos ossos - procedimento utilizado pelos povos antigos - em contraposição ao enterramento do corpo - prática mais comumente utilizada pelos homens de seu tempo). Browne discute basicamente a questão da mortalidade (ou não) dos corpos e das almas, além de propor curiosas reflexões sobre a melancolia - antecipando algo da psicologia (clínica) necessária para entender este estado de espírito. "On Dreams - De los sueños" é um opúsculo na forma de carta, publicado postumamente, em 1682. Browne digressa sobre a função dos sonhos. Defende um ponto de vista racionalista, retirando dos sonhos qualquer poder de influir no mundo real vivido pelos homens. Ele exemplifica (a partir dos registros de textos bíblicos e clássicos) o quão aleatórios e indomáveis são os sonhos. Fala também da passagem inexorável do tempo, que retira de nossos atos corriqueiros qualquer valor ou importância. Sua prosa é muito rica, repleta de citações e associações interessantes. As extensas notas que estão incluídas na edição ajudam o leitor a acompanhar o texto. A imaginação que brota dos texto é vasta e poderosa. Seu estilo e humor são inspiradores. Sua retórica propicia ao leitor partilhar de suas dúvidas (antes de suas certezas), o quê é sempre bom que um autor faça. Talvez seja o caso de não nos surpreendermos do fato que um sujeito do século XVII alcance reunir reflexões ainda importantes sobre a psicologia humana, afinal de contas estamos sempre as voltas com os mesmos temas e conceitos (e os homens são mesmo uns tolos, que pouco aprendem, pouco lembram e pouco sabem, ai de nós). Javier Marías publicou originalmente estas traduções em 1986. No apêndice ele descreve a divertida confusão que provocou (com uma das notas da primeira edição de sua tradução) ao citar a provável invenção de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, também eles tradutores de Browne, de um trecho de Hydriotaphia. Comecei a ler este livro ainda no ano passado, mas após terminar Religio Medici achei que precisa decantar aquelas idéias e associações por uns tempos. Não tinha ciência que o retomaria somente tanto tempo depois. Sorte minha.
[início: 30/08/2012 - fim: 27/09/2013]
"La religión de un médico, El enterramiento en urnas", Sir Thomas Browne, tradução de Javier Marías, Barcelona: Editorial Reino de Redonda (coleccíon Debolsillo Clásica), 1a. edição (2012), brochura 12,5x19 cm., 287 págs. ISBN: 978-84-9989-753-0 [edição original Religio Medici (Londres, 1643); Hydriotaphia (Londres, 1658); On Dreams (Londres, 1682)]

sábado, 20 de julho de 2013

tiempos ridículos

Em "Instigations", um livro seu publicado em 1920, Erza Pound escreveu: "Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.", ou seja, numa tradução frouxa, "Os artistas são as antenas de uma raça, mas a maioria dos cabeças ocas nunca aprenderão a confiar nos grandes artistas". Javier Marías é certamente um dos grandes artistas de nosso tempo, não porque saiba tudo sobre todas as coisas passadas e futuras (obviamente), mas sim porque é um sujeito que entende particularmente bem a complexidade do comportamento humano e, a exemplo de Henry James e Flaubert, enumerados por Pound para exemplificar seu ponto de vista, oferece reiteradamente através de seus textos oportunidades para que seus leitores compreendam melhor as metamorfoses e as sutilezas do comportamento humano. Isso é importante pois (citando Pound novamente), "é sempre fácil para as pessoas desaprovarem o que não são capazes de compreender". Em "Tiempos ridículos" encontramos 96 crônicas, publicadas no "El País Semanal" entre fevereiro de 2011 e fevereiro de 2013. São textos recentes, que não perderam nada de seu vigor e atualidade. Vários tem algo de premonitórios, de uma clarividência que quase chega a humilhar o leitor. E isso se dá tanto no campo da política (nos artigos dedicados a descrever os sucessos do governo de Mariano Rajoy), quanto no futebol (quando é sobre treinador de futebol José Mourinho que Marías escreve), ou mesmo na cultura (seus artigos sobre o uso maciço da tecnologia como ferramenta de controle social - ao qual a população voluntariamente se afeiçoa - são incríveis). Claro, há artigos que são mais inspirados que outros, mas a qualidade dos textos é sempre muito boa. Seu sarcasmo, feroz, nunca é dirigido aos leitores ou a população espanhola indistintamente, mas qualquer sujeito que leia os artigos identifica rapidamente o tipo de pessoa e/ou comportamento e/ou atitude que está sendo dissecada. Sua ironia garante gargalhadas sem fim. Sua inteligência nos obriga a procurar mais informações, melhorar nossa educação, aprimorar nosso gosto. Ele provoca no leitor um misto de admiração, espanto, assombro, reverência e fascinação. Já tive a chance de comentar várias vezes aqui a abrangência de sua visão, a completude de sua crítica, a implacabilidade de seus argumentos. Dos 96 artigos acredito que uns setenta poderiam ser adaptados facilmente para descrever o que acontece e/ou aconteceu no Brasil recentemente, há similaridades incríveis entre a Espanha e o Brasil quando se trata da depressão diária que as notícias trazem, quando se trata da má fé objetiva dos políticos, da estupidez cúmplice da população, da cegueira coletiva do país, a incapacidade da maioria entender coisas simples da economia, da política, das relações e compromissos sociais. Poderia aqui citar páginas e páginas que me impressionaram, mas transcreverei algo que pode ser utilizado para entender a paralisia e o transe que assombra a cidade onde moro, Santa Maria, onde aproximadamente 250 jovens morreram em um incêndio: "Nadie olvidará lo sucedido en Nueva York y Washington en 2001, ni lo acaecido en Madrid y Londres algún tiempo después. Pero nadie pude pensar en ello continuamente, eso tampoco. Excepto, quizá, los familiares y allegados de los muertos, marcados para siempre, asimismo "muertos" por su desgracia. ¿Continuamente?  No sé. Sí en un día como hoy, desde luego, cuando se conmemora oficialmente a las víctimas, y "oficialmente" quiere decir con artificialidad y no excesiva sinceridad, como quien cumple con un deber de calendario. En 1658, el médico inglés Sir Thomas Browne, a quien traduje al español, escribió lo seguiente (y sé que he citado estas frases muchas veces, pero es que acuden a mi mente a menudo): "Apenas recordamos nuestras dichas, y los golpes más agudos de la pena nos dejan tán solo punzadas efímeras. El sentido no tolera las extremidades, y los pesares nos destruyen o se destruyen. Llorar hasta volverse piedra es fábula: las aflicciones producen callosidades, las desgracias son resbaladizas, o caen como la nieve sobre nosotros; lo cual, sin embargo, no es un infeliz entumecimiento. Ignorar los males venideros, y olvidar los males pasados, es una misericordiosa disposición de la naturaleza, por la cual digerimos la mixtura de nuestros escasos y malvados días; y, al no recaer nuestros liberados sentidos en hirientes remembranzas, nuestras penos no se mantienen en carne viva por el filo de las repeticiones". A experiência de ler esses textos é intransferível, portanto, para quem pretende conhecer algo não ficcional de Javier Marías recomendo sem medo a leitura de Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover, Demasiada nieve alrededor e Ni se les ocurra disparar. E bom divertimento.
[início: 20/06/2013 - fim: 09/07/2013]
"Tiempos ridículos", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2013), brochura 14x22 cm, 367 págs. ISBN: 978-84-204-1440-9