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sábado, 8 de outubro de 2011

o duplo

São numerosas na literatura aparições de personagens que se duplicam, personagens que encontram e passam a ser assombrados por um sósia, um outro eu, um "Doppelgänger". Claro, não se trata apenas um fenômeno restrito à literatura. Também no folclore, nas mitologias (como por exemplo a germânica e a escandinava), ou na cultura popular de muitos países é recorrente a idéia de um espírito que antecipa notícias funestas ou personifica a morte. Fiódor Dostoiévski, logo em seu segundo livro, "O duplo", trata desse tema curioso. O resultado é um poderoso romance psicológico, onde acompanhamos o processo de dissociação mental do funcionário público Yakov Petrovich Golyadkin. Dostoiévski descreve como operam transtornos mentais, esquizofrenias, paranóias e alucinações. Seu personagem principal, Golyadkin, nos é apresentado no início do romance preparando-se para ir a um jantar de gala, uma recepção, oferecida em homenagem a filha de seu antigo preceptor. Logo ao sair se aborrece ao encontrar um colega de trabalho que aparentemente também irá a mesma recepção. Indignado ele resolve consultar seu médico. Esse médico insiste na necessidade de Golyadkin diversificar sua vida social, entreter-se com regularidade e continuar tomando seus medicamentos como já havia sido prescrito. Acompanhamos como Golyadkin se desloca até a recepção e é inicialmente barrado, mal chega às escadarias, mas consegue, após muito esperar em uma porta lateral, misturar-se com os convidados. Ato contínuo ele tenta se aproximar da filha de seu preceptor e dançar com ela, mas é expulso do local. O que se segue é uma vertigem, uma sucessão de capítulos densos e movimentados, que sufocam o leitor. Podemos entender que a partir desse ponto lê-se as fantasias de um sujeito enlouquecido, preso em algum sanatório, divagando sobre sua condição. Ou podemos continuar a leitura linearmente e acompanhar como a esquizofrenia progressivamente se manifesta, na forma de um duplo de Golyadkin. Esse sujeito é idêntico a ele (na verdade é ele mesmo, claro), mas é um sujeito que opera maravilhosamente bem as regras e a etiqueta das relações sociais. Como se estivesse comprometido com sua destruição, seu olvido, o duplo assume todas as suas funções, se apropia de todas suas relações pessoais e profissionais, mostrando-se eficiente, solícito, prestativo, até divertido. Alcança por fim a intimidade de toda a hierarquia ao qual está subordinado. O final do livro obviamente é terrível, assustador. Mas eu já escrevi demais. Leitura indispensável, muito inspiradora. Poucas coisas substituem o verdadeiro prazer que os textos clássicos, de um autor forte, podem proporcionar. O livro inclui ilustrações (desenhos) intensas, expressionistas, produzidas ainda no início do século passado por Alfred Kubin. Há um pequeno ensaio de Samuel Titan Jr. descrevendo o contexto histórico dessas ilustrações, feitas especificamente para "O duplo" e estabelecendo com o texto do livro uma associação realmente poderosa. Por fim encontramos um posfácio muito bom, escrito por Paulo Bezerra, o tradutor do livro afinal de contas, que ilumina as passagens mais estranhas e obscuras. Haverá mais cousas de Dostoiévski aqui nesse ano. [início 14/09/2011 - fim 29/09/2011] 
"O duplo", Fiódor Dostoiévski, tradução de Paulo Bezerra, desenhos de Alfred Kubin, São Paulo: editora 34, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 255 págs. ISBN: 978-85-7326-472-2 [edição original:  Dvoinik (Двойник. Петербургская поэма) «Отечественные записки» São Petersburgo (Russia) (1846)]

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

o eterno marido

O eterno marido é um curto romance muito bom de se ler, uma belo livro de Dostoiévski. Trata-se de uma história perturbadora, violenta mesmo, que se deixa contar pelo autor como se fosse coisa corriqueira e fácil. Na história é narrado o reencontro de um sujeito chamado Páviel Pávlovitch Trussótzki (os nomes em russo são sempre curiosíssimos) com Aleksiéi Ivânovitch Vieltchânimov (Aleksei Ivanovitch é o nome do personagem principal de "o jogador", mas acho que não se trata do mesmo personagem). Este último havia sido amante da falecida mulher do primeiro. Enquanto o ex-amante é um jovem frívolo, fútil e indeciso o viúvo é agressivo, alcoólatra e violento. O reencontro é pleno de emoções, ódios represados, sofrimento psíquico, mas tudo é apresentado com um humor-negro que torna as situações socialmente toleráveis. Páviel faz saber Aleksiéi que sua mulher (Natália Vassílievna) havia tido uma filha (Lisa) com ele, ou seja, que ele Páviel sabia desde muito tempo da indiscrição de ambos, mas apenas agora, dez anos passados, tinha a coragem de confrontá-lo. Na verdade só teremos certeza disto no final, mas a história é perturbadora demais para que o personagem não se envolva com o viúvo e a jovem criança. A menina tem a saúde bastante frágil e, apesar dos esforços de Aleksiéi para salvá-la, acaba morrendo na casa de alguns amigos. Pouco tempo depois o viúvo aparece a Aleksiéi dizendo estar com planos para se casar com uma das filhas de ricos proprietários do campo. Em um exercício, talvez, de auto-punição, Aleksiéi acompanha o viúvo à propriedade da pretensa noiva, mas acaba por tornar o caráter pusilânime e tolo de Páviel ridiculamente visível a todos da família da pretendente. De volta a São Petersburgo Páviel ajuda Aleksiéi com um problema de saúde e ato contínuo tenta matá-lo em uma noite tensa, onde sonho e realidade se confundem. Pela manhã Páviel desaparece. Anos mais tarde Aleksiéi reencontra Páviel em um trem, casado com uma jovem do campo (talvez tão igualmente rica, quanto aquela que Aleksiéi demoveu de casar-se com Páviel). O eterno marido continua o mesmo tolo e bufão de sempre, aparentemente envolvido em um triângulo amoroso entre sua mulher e um jovem cadete, vagamente aparentado a ele. O trem com o casal parte e Aleksiéi fica na estação rumindo todo o patético desta curiosa história. O texto foi traduzido diretamente do russo por Boris Schnaiderman, que assina um bom e curto ensaio no final. Esta edição é mesmo super bem cuidada. Agora que tirei os escolhos da frente preciso afiar os dentes para enfrentar os tijolos de "os demônios", "crime e castigo" e "os irmãos karamazov". Veremos.
“O eterno marido”, Fiódor Dostoiévski, tradução de Boris Schnaiderman editora 34, 2a. edição (2003), brochura 14x21cm, 210 págs. ISBN: 978-85-7326-283-4

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

uma criatura dócil

Estive na Bienal do livro de São Paulo e, claro, fui ao estande da Cosac & Naify. Don Renato Cohen sempre me pede para esperar a queima de livros da Cosac que acontece em novembro dentro do campus da USP, mas eu sou um incorrigível gastador. Namorei uns tantos, mas acabei comprando apenas dois, um romance curto de Samuel Beckett e este "Uma criatura dócil", romance igualmente curto de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. Já faz tempo que ando pensando nos russos e estou devendo o início desta travessia literária, mas contorno a montanha e não me atrevo a enfrentá-la. Sou o fiel depositário de três tijolos de don Renato: Os demônios, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, ainda vou cumprir a promessa e lê-los na seqüência. Para afiar os dedos peguei "uma criatura dócil", romance que o autor chamou de "narrativa fantástica". A edição é muito bonita, claro, com ilustrações de Lasar Segall e dois ensaios que contextualizam o texto e as ilustrações. A história é simples, um sujeito ganha a vida em uma casa de penhores, explorando clientes e desesperos. Uma moçinha penhora um ícone da Virgem e para resgatá-la (pois trata-se do único objeto importante para ela) acaba por se casar com o vil proprietário da casa de penhores. Mais que um casamento o que se pactua é um sistema de humilhações cotidianas e degradações morais, pois há mais assimetrias entre eles que um afeto pode mitigar: assimetrias de classe, de idade, de poder (e claro, sexo.) O narrador é o agiota, transtornado, louco. Retrospectivamente ele tenta explicar como seguiu (por vezes acredita ter sido quase a contragosto) a espiral de assédio moral que obrigou sua mulher a buscar desesperadamente saídas radicais. Dostoiévski nos ensina como a opressão funciona mesmo nas relações mais cotidianas e como é difícil para um tirano e sua vítima escaparem da sina que os une. Belo livrinho.
"Uma criatura dócil", Fiódor Dostoiévski, tradução de Fátima bianchi, editora Cosac & Naify, 1a. edição (2003) brochura 13.5x20cm, 96 págs., ISBN: 978-85-7503-197-X