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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

l'art del menjar a catalunya

Num dia estival e mágico, de um ano que não quero esquecer, voltei ao Mercat de la Boqueria (Mercat de Sant Josep, na verdade). Como já contei em um velho registro, visitei pela primeira vez esta fundamental catedral dos sentidos no final dos anos 1980. Entre 2006 e 2011, por sorte voltei várias vezes a Barcelona, afinal lá estavam morando as meninas, Natália e Helga. Na primeira vez que voltava a percorrer aqueles corredores apinhados de turistas e barceloneses da gema, a rever as cores e os exóticos produtos, a experimentar inebriado todos os aromas e sensações que brotavam do lugar, eis que meus velhos e perenes amigos, os livros, fizeram-se saber. Era um final de tarde. Quando me preparava para me despedir da Boqueria vi por acaso uma pequena livraria escondida no segundo andar, acessível apenas por uma escada de metal contígua a um daqueles sujos e deprimentes corredores laterais (todo mercado tem um lado especialmente feio, que mesmo o mais entusiasta prefere não denunciar). Era mesmo muito pequena a livraria, mas os livros dali eram maravilhosos, quase todos eles dedicados a nobre arte da culinária, da eterna luta contra o fogo. Folheie vários com calma, mas não havia me decidido a comprar nenhum (minha cota de bagagem já estava mais do que comprometida, claro, e como sempre). Após um tempo disse para a moça que cuidava do lugar qualquer coisa sobre voltar em um outro dia, mas ela alertou-me que aquele era o último dia, que a livraria seria fechada definitivamente. Contou-me sobre certos aborrecimentos dos donos, do que entendi ser uma briga de casal ou desentendimento entre os sócios. A bem da verdade ela, funcionária nova, não sabia muita coisa, nem se seria paga realmente pelos dias em que ficou ali encerrada, quase sem clientes, olhando de cima o movimento dos turistas do lugar. Truque de vendedora malandra, logo pensei? Real preocupação de alguém que precisava contar (para um pobre diabo latino-americano, aferrado aos livros, como não) suas misérias? Dei uma última olhada e decidi comprar um volume recém publicado de Manuel Vázquez Montalbán, autor que já conhecia, graças à Eliana Sturza, mas de quem nunca havia lido nada em seu catalão fundamental. Trata-se de um volume de 2004, reedição de um original de 1977, quase um livro de arte, repleto de ilustrações e fotografias. O texto não esconde um entusiasmo que talvez seja exagerado, mas que é produto de seu tempo. A Espanha vivia os primeiros anos de redemocratização, após quase quarenta anos de ditadura franquista. Montalbán defende a particular identidade catalã, o fato da arte culinária ali praticada ser distinta das demais províncias espanholas, eventualmente até mais antiga e senhorial que todas as demais (ele cita o legendário libro de Sent Soví, talvez o primeiro livro de culinária europeu, publicado no século XIV). Montalbán percorre a geografia da Catalunya, fala dos pães, arrozes e pastas, das sopas e dos caldos,  das ervas e verduras, dos peixes, das carnes de caça, dos embutidos, dos vinhos e da confeitaria, das sobremesas, de possíveis menus catalães autênticos, não contaminados pela cupidez associada ao turismo de massa. Metade do livro é dedicada a receitas, não exatamente receitas que possam ser reproduzidas automaticamente, pois não há tempos de cozimento exatos, quantidades precisas, definição correta dos procedimentos. Fazia mais de dez anos que  este volume enfeitava a sessão de gastronomia de minha biblioteca. Meses atrás decidi ler cousas atrasadas com calma, testar minha paciência com o catalão. O texto cobra seu tempo, mas a força e o humor de Montalbán recompensa qualquer esforço. Aprende-se um bocado. Montalbán morreu em um 18 de outubro, como hoje. Ele faria hoje 80 anos. Morreu muito cedo, com certeza. Grande sujeito, grande espanhol, grande catalão. Vale!
Registro #1460 (gastronomia #41) 
[início: 01/08/2004 - fim: 16/09/2019]
"L'art del menjar a catalunya: el llibre de la identitat gastronòmica catalana", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Salsa Books / Edicions 62 (Grupo Planeta), 1a. edição (2004), capa-dura 17x24,5 cm, 256 págs. ISBN: 84-9787-059-X

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

la cocina del mestizaje

Há muito tempo registrei algo aqui sobre Saber o no saber" e, bem recentemente, algo sobre "La cocina de los finisterres", volumes de uma coleção de livros dedicados a gastronomia presente nas histórias do detetive Carvalho, genial invenção de Manuel Vázquez Montalbán. Nas férias de julho, pensando em como seria bacana uma nova viagem para o sul espanhol, li este "La cocina del mestizaje", que trata da culinária que Montalbán entende como típica e entranhada de quatro comunidades autonómicas espanholas: Murcia, Andalucía, Extremedura y Canarias. Essa eleição, para ele, implica reconhecer que a arte culinária destas quatro regiões foram especialmente afetadas pelo contato entre povos muito distintos, culturas muito díspares, gentes muito diferentes, que em algum momento se fundiram ou se alicerçaram juntas, enfim, se mesclaram de uma forma bastante particular. Canárias recebeu gente das Américas e da África, aventureiros, e também era utilizada como porto de abastecimento e conexão com os magrebinos africanos; Andalucía e Murcia sobretudo recebeu séculos de influência dos povos árabes e dos judeus; Extremadura, por conta de sua acidentada geografia, recebeu gente de todas as partes, que vinham como que se afastar do mundo em pequenos povoados, e também foi um dia mais portuguesa do que é hoje, parte da reconquista portuguesa da península. O formato de apresentação deste volume é idêntico ao do "La cocina de los finisterres": ele digressa sobre os pratos típicos, as particularidades que distinguem uma região da outra, sempre com um olho na geografia e no clima, sempre com um olho na história e tradições do lugar. No caso específico deste volume ele fala da influência árabe e judaica na culinária de Murcia, Andalucía e Extremedura, assim como na influência dos produtos que vieram das índias ocidentais, das Américas espanholas, na culinária típica das ilhas Canárias. Múrcia é descrita como o território do arroz, o celeiro do Sul espanhol. Andalucía como a morada do Sol, das laranjas, dos doces. Extremadura se destaca pelos produtos derivados do porco, pelo jamón ibérico. As Canárias, além dos produtos alcançados no mar que as cercam, também tem uma culinária bastante influenciada pelos africanos do noroeste, Marrocos, Saara Ocidental, Argélia. Os textos dedicados a cada uma das autonomias são curtos, mas as receitas são numerosas. Livro bom mesmo para se ler enquanto se prepara algo para pessoas queridas, enquanto viajamos no tempo, sentimos o aroma dos cozimentos, ouvimos os risos e os copos que se chocam, fisgamos fragmentos de memória, que encantam, num turbilhão de sensações. Vale! 
Registro #1435 (gastronomia #40) 
[início 22/07/2019 - fim 01/08/2019]
"La cocina del mestizaje: viaje por las cazuelas de Murcia, Andalucia, Extremadura y Canarias - Carvalho Gastronómico, vol.3", Manuel Vázquez Montalbán, ediciones B (Zeta Bolsillo) Penguin Random House Group (1a. edição) 2008, brochura 12,5x20, 271 págs. ISBN: 978-84-9872-110-2 [edição original: 2002]

quinta-feira, 25 de julho de 2019

la cozinha de los finisterres

Há mais de dez anos li "Saber o no saber", primeiro dos volumes de uma coleção de livro dedicados a gastronomia presente nas histórias do detetive Carvalho, genial invenção de Manuel Vázquez Montalbán. Aos poucos, durante esta década de aventuras e prazeres, de aborrecimentos e fracassos, encontrei, procurando eu mesmo em balaios de velhos sebos espanhóis, ou por encomenda, os demais quatro volumes da coleção. "La cocina de los finisterres" é o quinto e último dos volumes. Nele Montalbán trata da culinária das autonomias do norte espanhol: Galícia, Astúrias, Cantábria e País Basco. Montalbán não é um iniciante, um neófito, um diletante. Ele escreve sobre o que bem conhece, oferece boas referências, contextualiza cada um de seus argumentos. O texto é super rico, informativo, gostoso de ler. Mais da metade do livro é dedicado as receitas, que podem ser facilmente encontradas ou pela função em uma refeição (entradas, acompanhamentos, pratos principais e sobremesas), ou por ordem alfabética. Uns poucos trechos de seus romances policiais ilustram o quê ele fez o detetive Carvalho dizer sobre cada culinária. Para cada uma das autonomias ele digressa sobre os pratos típicos, as particularidades que distinguem uma região da outra, sempre com um olho na geografia e no clima, sempre com um olho na história e tradições do lugar. A arte culinária para ele implica tanto em aprender-se o quê fazer em uma cozinha e quanto ao como se portar em uma mesa de refeições. O leitor é conduzido para o mar e a montanha, para o campo e os rios que correm para o mar, para as hortas e fazendas, para os mercados públicos, as festas típicas de cada uma das autonomias. Os capítulos dedicados a culinária galega e a do principado de Astúrias têm a mesma extensão, um quarto do livro; aquele dedicado a cozinha da Cantábria é um tanto menor (Montalbán alerta que durante séculos Cantábria era apenas a saída para o mar da hegemônica Castilla. O capítulo sobre a culinária do País Basco é o mais extenso e detalhado. Já nos anos 1980, quando conheci algo da cozinha basca, ela já se destacava no cenário gastronômico mundial. Lembro-me da primeira vez que a conheci, num longínquo final dos anos 1980, lá em Donostia/San Sebastián, quando tudo parecia acontecer em ritmo lento, de contos de fada, de encantamento e magia, quando saímos de copas, em busca de tapas e zuritos, que custavam "cinco duros", uma pechincha, "Drowning in honey, stingless", sempre, mas esta é outra história. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1433 (gastronomia #39) 
[início 01/06/2019 - fim 20/06/2019]
"La cocina de los finisterres: viaje por las cazuelas de Galicia, Asturias, Cantabria y el País Vasco - Carvalho Gastronómico, vol.5", Manuel Vázquez Montalbán, ediciones B (Zeta Bolsillo) Penguin Random House Group (1a. edição) 2008, brochura 12,5x20, 320 págs. ISBN: 978-84-9872-108-9 [edição original: 2002]

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

las cuevas del orotava

Há livros que compramos e que ficam nos guardados, nos acompanhando de longe, anos a fio, antes que seja possível nos dedicarmos verdadeiramente a eles. Comprei esse volume em uma da viagens que fiz a Barcelona para ver Helga e Natália, tempos atrás, há pelo menos um lustro, cinco anos, diria um espanhol com mais facilidade do que nós, mas que existe no léxico português e também funciona bem. Trata-se de um registro produzido em 2004 em homenagem aos 75 anos de um restaurante que fez história em Barcelona, o "Orotava", mas que logo depois deixaria de funcionar. Fundado em 1929, em seu apogeu foi respeitado tanto pela gastronomia quanto por ser um local de encanto, de encontros, de arte, de tertúlias memoráveis. Era ponto de encontro de escritores e artistas plásticos e seu proprietário, José Maria Luna, era um entusiasta das artes plásticas e tornou seu restaurante uma espécie de galeria informal. Durante o período da ditadura franquista o restaurante foi obrigado a mudar de nome (chamou-se El Hostalillo, pois o catalão estava proibido oficialmente).  Em 1979, novamente com sua denominação original, já na redemocratização espanhola e para os festejos do cinquentenário do restaurante, seus proprietários produziram um livro arte, uma espécie de catálogo ilustrado de seu famoso cardápio. Não se tratavam de ilustrações ordinárias, comuns, e sim obras de arte produzidas especialmente para a ocasião, obras de artistas identificados com a Catalunha naquela época, como Llorens Artigas, Salvador Dalí, Jorge Castillo, Josep Maria Subirachs, Eduardo Arroyo, Salvador Espriu, Modest Cuixat, Montserrat Guriol, Pablo Picasso, Joan Tharrats, Alfonso  Pérez Esquivel, Antoni Clavé, Riera Aragó, Antoní Tápies, Oswaldo Guayasamín, Xavier Corberó, Josep Guinovart, Eduardo Chillida, Antonio Vives Fierro, Ràfols Casamada, Joan Miró, Amélia Riera e Benjamín Palencia. Miró produziu também um mosaico, que ainda pode ser visto na fachada do prédio número 335 da carrer Consell de Cent. O livro arte de 1979 foi organizado por Manuel Vázquez Montalbán, um dos grandes escritores catalães do século passado. O livro de 2004 inclui fac-símiles daquele livro arte original,  dezenas de fotografias, assinadas por Toni Catany, e vários textos curtos, produzidos por antigos frequentadores do restaurante. O longo texto de Montalbán se destaca. Segundo os editores trata-se do último texto produzido por ele, que morreu no final de 2003, na Tailândia, antes de ver o livro impresso. Os demais textos incluídos no livro também tem seu encanto. Pois o Orotava encerrou suas atividades em 2005 e as centenas de obras de artes e antiguidades reunidas nele foram leiloadas. Restou esse belo livro que guarda algo da magia que devia acontecer todas as noites em seus salões. Curiosamente o volume que comprei contém uma dedicatória do próprio José Maria Luna, endereçada a Joan Laporta, antigo presidente do Barcelona. Pelo jeito as palavras gentis de Luna na dedicatória, "amb tot el meu reconixement i afecte", não encontraram em Laporta o devido acolhimento. Sorte a minha. Como registrei no último livro que incluí no "Livros que eu li" em 2018, um ano sem voltar a Espanha é um ano perdido, ainda mais se Barcelona, a bela feiticeira do Mediterrâneo, não estiver no roteiro de viagem. Começo assim, com um livro dedicado à Barcelona, minha jornada pelos livros em 2019. Vale!
Registro #1355 (perfis e relatos #85)
[início: 01/06/2018 - fim: 25/11/2018]
"Las cuevas del Orotava: 75 anos de buen comer en Cataluña", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Editora Planeta, 1a. edição (2004), capa-dura 30x30 cm, 351 págs. ISBN: 978-84-08-05510-0

sábado, 16 de dezembro de 2017

barcelonas

Lá em maio, ainda quando lia o bom "Homenagem a Barcelona", de Colm Tóibín, resolvi começar a folhear "Barcelonas", mimo que carrego comigo há décadas. Ato contínuo "I was drowning in honey, stingless", como sempre deve ser. Manuel Vázquez Montalbán escreveu o robusto  texto desse livro, que inclusive inspirou e foi confessadamente utilizado por Tóibín na elaboração do seu, como material de divulgação dos Jogos Olímpicos de Barcelona, que seriam celebrados em 1992. Mas se o que escreve Montalbán é seminal, rico e detalhado, repleto de informações e poesia, são as ilustrações, reproduções fotográficas, desenhos e imagens incluídas no livro que nos enfeitiçam, conduzem nosso olhar, quase nos impedindo acompanhar cada página de leitura até o fim. Talvez esse prodígio seja culpa do desenho gráfico do livro, assinado por Ferràn Cartes, um respeitado artista plástico catalão. Montalbán divide seu livro em seis grandes seções. "Desde as colinas", onde treina o olhar do leitor, fazendo-o acompanhar a geografia da cidade quando vista do alto, do Tibidabo, de Vallvidrera (habitat de Pepe Carvalho, seu personagem icônico), de Montjuïc, e também de suas sete modestas colinas, como as de Roma em número (os catalães são sempre tremendos em suas ambições): Monterols, Putxet, Creueta del Coll, Carmel, Rovira, Peira e Modollell. "Las ciudades sumergidas" percorre o tempo, as camadas de povos e culturas que se fixaram naquela região onde hoje vivem os catalães, importante centro comercial do Mediterrâneo desde tempos remotos. Em "El hombre libre en la ciudade libre" quem se sobressai são os indivíduos, em número anônimos, mas quando são identificados tornam-se na visão de Montalbán quase heróis, fadas, portentos (Montalbán descreve aqui e nas duas seções seguintes os períodos trágicos da cidade, sempre as voltas com um desejo de independência baldado; as fotografias destas três seções são soturnas, pesadas, carregadas de mágoa). A seção seguinte, "La Bem Plantada", conta a arquitetura, a engenharia, a distribuição dos equipamentos urbanos, a vocação da cidade para aceitar planejamentos que a modificam sem que a magia original se perdesse; fala dos bares, teatros e museus, dos desastres que a guerra civil provocou nas ruas, nas esculturas, nos bairros, nas edificações, e nas gentes, claro. "La ciudade ocupada" fala de como corações e mentes catalãs se resignaram nos anos da ditadura franquista, de como se operou o milagre da transição para a democracia, a reconstrução moral da cidade ocupada, como o título explicita. "Milênio" encerra o volume, prospecta um futuro, um porvir, uma possibilidade. Montalbán fala sobretudo dos projetos urbanos que serão feitos para os Jogos Olímpicos (a decisão havia sido tomada há pouco, em 1986), mas também fala do reerguimento da auto estima da cidade, da oportunidade, da possível volta da magia, da renovada utopia. Quase tudo o que foi escrito em 1987 ainda vale hoje, trinta anos depois. Inegavelmente os Jogos Olímpicos foram um sucesso e a cidade tornou-se um local de turismo privilegiado e marcante. Montalbán foi também um poeta, foi um homem otimista, sempre acreditou na capacidade de uma coletividade vencer qualquer obstáculo, qualquer desafio. Ele filtra com esses seus olhos confiantes uma sociedade complexa, que talvez tivesse mais matizes sociais do que ele era capaz de aceitar. Reli esse livro sobretudo por conta do que aconteceu na Catalunha neste ano. A tentativa da Generalitat de Catalunya (capitaneada por Carles Puigdemont) de forçar sua separação do Estado Espanhol, declarando unilateralmente a independência, em outubro, implicou em uma intervenção na Generalitat, a fuga de Puigdemont  e vários outros diputats independentistas para a Bélgica e a convocação de eleições gerais para o próximo 21 de dezembro. Ninguém sabe dizer hoje qual será o resultado prático das eleições. Ganhem os grupos nacionalistas ou os independentistas a questão da identidade catalã não se tornará por mágica menos complicada, menos tensa, menos humilhante para os catalães. Logo saberemos. Talvez eu acrescente um post-scriptum nesse registro, contando os sucessos das eleições. Vamos ver. Vale!
Registro #1248 (perfis e memórias #83)
[início: 10/05/2017 - fim: 15/12/2017]
"Barcelonas", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Editorial Empúries / Grup62, 1a. edição (1987), capa-dura 31,5x31,5 cm., 247 págs., ISBN: 84-7596-145-5

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

cuentos blancos

Junto com "Cuentos Negros", que já resenhei aqui, esse "Cuentos Blancos" é um generoso presente para os entusiastas das narrativas de Manuel Vázquez Montalbán. Encontramos nele 21 contos, publicados originalmente em jornais. O mais antigo é de 1982, o mais recente de 1999. O texto introdutório assinado por Georges Tyras apresenta a obra de Montalbán (não se trata do mesmo texto dos "Cuentos Negros", mas sim um outro, complementar a ele, muito bom mesmo). Nesses contos não há aventuras do cínico e cético Pepe Carvalho, mas encontramos aquelas digressões e descrições que acompanham todos os romances policiais de Montalbán. Talves aí esteja a magia destas narrativas, um poderoso equilíbrio entre a maquinaria típica das histórias de detetives e o olhar revelador sobre as virtudes e vícios da sociedade espanhola. Os temas são variados. Há textos irônicos, que brincam com aspectos da história da Espanha; textos engajados, que quase assumem uma função jornalística e/ou política, de denúncia; textos amalucados, inventivos mesmo, que brincam com a curiosidade do leitor; memórias sentimentais e líricas; textos que evocam festas populares, hábitos e tradições; textos que contrastam a cultura popular e a arte que se pensa mais sofisticada. O leitor eventualmente se surpreende ao encontrar material similar ao utilizado em alguns dos demais romances de Montalbán: "El estrangulador", "Yo maté a Kennedy", "El pianista", "El señor de los bonsáis". O mundo de Vazquez Montalbán é vasto e provocador. Suas histórias de detetives apenas a porta de entrada. Fico feliz em ter tido a chance de conhecer seus livros (foi doña Eliana Sturza quem me fez este regalo, tempos atrás, cousa boa). Agora só me restam as compilações de seus textos políticos, publicados recentemente. Vou guardá-los para os dias aborrecidos do próximo inverno. Agora parto por outras aventuras, pela meseta espanhola, pela Castilla - La Mancha. É tempo. [início 14/08/2011 - fim 30/08/2011]
"Cuentos blancos", Manuel Vázquez Montalbán, edicíon e introducción de Georges Tyras, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Circulo de Lectores), 1a. edição (2011), capa-dura 13,5x21,5 cm, 254 págs. ISBN: 978-84-8109-916-4

domingo, 3 de julho de 2011

cuentos negros

"Cuentos Negros" é um presente para todos os aficcionados na prosa de Manuel Vázquez Montalbán. São textos que foram publicados originalmente em jornais. Todos tem Pepe Carvalho como protagonista. O mais antigo é de 1974 e o mais recente de 1997. Mais da metade deste livro corresponde a novela "La muchacha que pudo ser Emmanuelle", publicada originalmente na forma de folhetim, no jornal El país. Nesta novela somos apresentados a uma trama que antecede imediatamente os sucessos do livro "Quinteto de Buenos Aires". Sou daqueles que sempre fiquei curioso sobre a real motivação de Carvalho em se deslocar da España para a Argentina naquele livro. Montalbán usa sua novela para discutir as desgraças do governo militar argentino, a atuação dos grupos paramilitares, as relações entre os aparelhos de repressão franquista e argentino daquele período. Apesar do tema terrível Montalbán consegue com sua prosa irônica e tiradas filosóficas tornar a leitura agradável. A novela é repleta de boas sessões gastronômicas. Biscuter, Charo, Fuster e os demais personagens das novelas policiais de Montalbán aparecem em passagens divertidas. Além da novela o livro inclui cinco contos curtos e dois ensaios. São textos típicos da poética carvalhiana, onde há doses bem distribuídas de história, sociologia, filosofia e literatura. Carvalho também viaja nestas histórias. Além da Argentina e ele vai a Itália (em um divertido texto sobre espionagem) e Portugal (em um belo texto sobre a revolução dos cravos). Este livro (e seu irmão gêmeo, Cuentos Blancos, que também inclui textos inéditos de Montalbán, mas não relacionados às histórias de Pepe Carvalho) é um presente realmente especial. O texto introdutório assinado por Georges Tyras apresenta com paixão a obra de Montalbán (mesmo um leitor já familiarizado com sua obra aprende um bocado). Cabe um último registo. Comprei este livro pela Abebooks e o recebi em menos de dez dias. De Madrid a Santa Maria, sem a intermediação dos correios brasileiros, sem aborrecimentos e por um preço ridículo. Há algo mesmo podre com os correios brasileiros para que isto seja possível. [início 03/06/2011 - fim 26/06/2011]
"Cuentos Negros", Manuel Vázquez Montalbán, edicíon e introducción de Georges Tyras, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Circulo de Lectores), 1a. edição (2011), capa-dura 13,5x21,5 cm, 250 págs. ISBN: 978-84-8109-923-2

sexta-feira, 3 de junho de 2011

joan manuel serrat

Publicado originalmente em 1973 este pequeno livro ficou muitos anos sem ganhar uma reedição. O pacote de mimos que consegui trazer de Madrid no ano passado incluiu este livreto, mas só agora tive o tino de lê-lo. Conheci as músicas de Joan Manuel Serrat através de Oscar Torales, um amigo argentino, físico e bom músico, de quem perdi contato há quanto tempo? Vinte anos? O problema do tempo e da memória é este acumulo de escolhos e saudades. Bueno. Manolo Montalbán inclui nos relatos biográficos deste livro apenas o que ele pode apurar dos primeros anos de Serrat, aqueles anos em que sua biografia se confunde com a luta do povo catalão pelo direito de se expressar em sua língua. A morte de Franco e a redemocratização da Espanha não estavam muito longe no horizonte. Este livro faz parte de um projeto maior de Montalbám, o livro de análise da Nova Cançó catalana e da música dos anos duros da ditadura de Franco, que ele publicou no início dos anos 1970, chamado "Cancionero general do franquismo". Ele descreve a origem e a biografia de Serrat, sua sucesso inicial, o desafio de passar a cantar em castelhano (um achincalhe e traição segundo muitos catalães), a difícil decisão durante o Eurovision de 1968, os anos de ostracismo provocado pela política cultural de franco. Montalbám sabe criticar e apontar os equívocos de Serrat, mas sabe também não perder a ternura, não perder o carinho que tem pelo jovem cantor catalão, de origem proletária, que havia conquistado legiões de admiradores tão rapidamente. O livro é repleto de canções de Serrat e vale como iniciação a sua obra. O que me impressiona em Manolo Montalbám é a forma como ele antecipa em uma década o ufanismo (e quase xenofobismo) que contaminará toda a Catalunha durante os jogos olímpicos de 1982. Grande sujeito. Sempre. Haverá mais Montalbám por aqui neste ano. [início 13/05/2011 - fim 27/05/2011]
"Joan Manuel Serrat", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: editorial Nortesur, 1a. edição (2010), brochura 10x17 cm, 111 págs. ISBN: 978-84937357-9 [edição original: Ediciones Júcar (Barcelona) 1973]

sábado, 5 de fevereiro de 2011

tres historias de amor

Este é o último volume da série Carvalho que restou-me ler. Veio de Madrid, pela Iberlibros. Que facilidade tudo isto! Demorei para começá-lo, pois queria ainda ter por mais tempo a ilusão de um futuro com vários livros de Manuel Vázquez Montalbán, com várias aventuras de Pepe Carvalho ainda tentadoras no horizonte. "Tres historias de amor" reune três contos curtos onde o amor se apresenta em registros diferentes. "Las cenizas de Laura" é a história da investigação sobre a morte de um amor fugaz do passado de Carvalho. Apesar de breve a ligação entre eles foi intensa. Descobrir quem a matou é uma questão pessoal e algo dolorosa. O amor é sempre primo da morte. "De lo que pudo haver sido y no fue" conta um caso mais sórdido. Um velho e caractural roqueiro morre. Carvalho deve pesquisar o passado deste sujeito, se envolver com seus amigos e inimigos envelhecidos, sua trajetória musical errática e as circunstâncias de seus últimos dias, antes de descobrir quem mais ganharia com sua morte. Às vezes a morte aparece como um quase favor para o pobre diabo que lamenta a vida que tem, alguém que quase sorri ao encontrá-la. "La muchacha que no sabía decir no" é um jogo de espelhos, que lembra algo "The lady of Shanghai", do Orson Welles". Carvalho é o álibi de um assassinato. Esta incômoda situação pode fazer com que ele perca sua licença de trabalho. De alguma maneira ele se apaixona pela mulher envolvida no assassinato (sempre devemos ser mais gratos as mulheres más que àquelas que apenas nos proporcionam felicidade - mas esta é outra história). Reencontramos Biscuter e seus deliciosos truques culinários; Charo e sua voluptuosa presença; Fuster e seu bom senso catalão; Contreras e suas manias de policial; Bromuro e sua discreta arte nas Ramblas catalanas. Carvalho está cínico e irônico como sempre nestas três historias de amor que o são também de desamor, histórias de desenlaces ambíguos, mas que convencem o leitor. Sou um sujeito diferente daquele que se surpreendeu pela primeira vez, quatro ou cinco anos atrás, com a prosa vigorosa de Vázquez Montalbán. Não é exatamente pena o que sinto. Mas há algo de pena por já ter percorrido todos estes vinte e tantos volumes. Talvez o certo seja deixar o tempo e o Alzheimer fazer-me esquecê-lo completamente e eventualmente tentar recomeçar. Ya veremos. [início 17/01/2011 - fim 19/01/2011]
"Tres historias de amor", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: editorial Planeta, 1a. edição (1987), brochura 12,5x20 cm, 167 págs. ISBN: 84-320-6921-3

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

la boqueria

Quando foi que vi este livro pela primeira vez? Acho que foi na biblioteca pública do Montbau, mas pode ter sido também na La Central, vai saber. Mas certamente era quando eu estava a aprender um tanto sobre Manolo Vázquez Montalbán, apresentado por doña Eliana, vale a pena registrar. Já tinha percebido que o sujeito era um entusiasta da gastronomia e este belo livro impressiona de cara, tanto pelo texto quanto pelas fotografias, belíssimas. Depois de uns anos lendo seus livros, tanto aqueles da série Carvalho, quanto os demais, sempre bem convincentes e estruturados, já posso dizer que de Montalbán eu entendo. Mas me faltava reencontrar este livro de gastronomia, este livro que fala de um mercado fundamental, a verdadeira catedral para os sentidos - que frase! - que é o La Boqueria de Barcelona, o La Boqueria de las Ramblas. Claro, Barcelona tem uns cinquenta bons mercados públicos, cada um interessante e acolhedor a seu modo, mas qualquer sujeito que tenha tido a oportunidade de visitar a Boqueria entende este estusiasmo particular que ele provoca. Trata-se de um mercado amplo, onde são oferecidos todas as delícias de um gastrônomo, onde são permitidos excessos e extravagâncias, comilanças e invenções. O livro é bem editado, o papel é de boa qualidade, o texto de Montalbán é laudatório, mas muito informativo e original. As fotografias são assinadas por três pessoas (Eva Guillament, Antonio Lajusticia, Txema Salvans). Há também várias fotos antigas (do início do século XX), ilustrando as passagens onde Montalbán fala da história dos mercados de Barcelona (ok, são 46, e todos merecem uma visita). Ter encontrado este livro não representa a felicidade, mas não tê-lo era mesmo insuportável. [início 2007? - fim 14/09/2010]
"La Boqueria: la catedral dels sentits", Manuel Vázquez Montalbán, Eva Guillamet, Antonio Lajusticia, Txema Salvans, tradução de Jordi Curell e Valerie Collins, Editora do Ajuntament de Barcelona, 1a. edição (2002), brochura 30,5x30 cm, 211 págs. ISBN: 84- 7609-948-7

domingo, 5 de setembro de 2010

historias de fantasmas

Nestas férias de inverno consegui garimpar bons livros nos sebos espanhóis. Dos dois Montalbán que me faltavam eis que um consegui amelhar. Cousa boa. "Historias de Fantasmas" é um pequeno livro, onde estão reunidas três histórias que na verdade pouco têm de transcendentais ou misteriosas, antes ilustram bem como os homens podem se aferrar a lendas urbanas, se auto-enganar com os mitos que construímos para viver em sociedade, como preferimos explicações mágicas, por pedestres que sejam, ao invés de alguma racionalidade. Na ilusão, na farsa, na penumbra e nos mistérios parecem se esconder os homens. Na primeira delas Carvalho, o sempre irônico detetive criado por Montalbán, é contratado para solucionar o inusitado de um encontro, entre dois agnósticos comunistas e uma garota-fantasma. Esta última os alerta de uma curva perigosa na estrada e logo some, o que os atormenta e os leva a fraquejar em suas convicções políticas. Na segunda Carvalho descobre o que há de estranho e assustador no desaparecimento de um navio pesqueiro e toda sua tripulação. Uma história sórdida que envolve grandes interesses financeiros, tanto da Europa do norte quanto do longínquo Japão. Na última das histórias Carvalho desvenda como um casal de hippies (já anacrônicos - mesmo na Espanha - em meados dos anos 1980) se envolve um importante esquema de contrabando. São contos rápidos, movimentados, contos de viagem. Carvalho está fora de sua cativante Barcelona. Ele se movimenta ou bem perto da costa do Mediterrâneo ou nas encrespadas ilhas Canárias. Longe de seus usuais pontos de referência Carvalho se presta nestas histórias a conhecer a culinária dos locais que visita. As histórias estão assim repletas de boas referências culinárias e também algo antropológicas. Haverá ainda outros Montalbán para se ler, mas apenas um deles terá este curioso e cerebral detetive como personagem. Será que devo mesmo me esforçar por encontrar o último volume? Veremos. [início 26/08/2010 - fim 31/08/2010]
"Historias de Fantasmas", Manuel Vázquez Montalbán, Editorial Planeta (serie Carvalho - vol.8), 1a. edição (1987), brochura 12,5x20 cm, 175 págs. ISBN: 84-320-6919-1

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

el premio

"El premio" foi publicado originalmente em 1996 e pertence ao último ciclo de histórias do detetive Pepe Carvalho, criação do industrioso Manuel Vázquez Montalbán. Os "hechos" do romance se dão na fase final do governo socialista de Felipe González (que ficou 14 anos no poder). Contam um tanto da conturbada transição para o governo liberal de José María Aznar (que ficaria seus 8 anos no poder). Foram anos onde escandalos de corrupção, crimes de grupos para-militares atuando à margem da lei, incertezas sobre o futuro da Espanha apontavam para a necessidade imperiosa de alguma renovação política. Certamente estes anos foram de desgosto para Montalbán, um sujeito que não suportava governos despóticos e populistas e teve de amargar o volta de um governo conservador à Espanha. Ele não chegou a viver para ver como os atentados terroristas em Madrid contribuiram para a derrota de Aznar nas eleições de 2004. Seguro que ele sairia pelo Raval pagando rodadas de Cava aos amigos. A história do romance é o que menos importa (trata-se de descobrir quem matou um rico empresário, um típico problema do crime na sala fechada, sempre utilizado em histórias de detetive). O tempo no romance vai e vem. Primeiro acompanhamos os sucessos dos momentos que antecedem a entrega de um importante prêmio literário, patrocinado pelo empresário, ainda rico, mas tecnicamente em risco de perder seu patrimônio e sem o respaldo político oficial que sempre teve em tempos mais favoráveis; depois o romance nos conta como Carvalho chegou a Madrid, contratado para proteger o sujeito que será morto na noite seguinte; na seqüência acompanhamos como o corpo do morto aparece, como é feito o censo dos principais suspeitos, todos presentes no salão de entrega do prêmio literário; volta-se novamente o tempo e seguimos Carvalho em um almoço glorioso (a gastronomia sempre presente em suas histórias) com o empresário; e assim segue o romance, indo e vindo no tempo, apresentando as impressões de Carvalho antes e depois da morte - inevitável, afinal sabemos, quase uma libertação para o enredado empresário. O romance serve para Montalbán refletir sobre a instabilidade dos anos finais do governo socialista, nos explicando como a vontade de manter-se no poder a qualquer custo, lentamente contamina a moral e a ética do mais despreendido e bem intencionado dos governantes. É algo muito parecido com o que vemos atualmente no Brasil. Não há aliança, não há apoio que seja constestado pelos ideólogos e dirigentes do atual governo. Tudo vale para dar continuidade ao modelo de gestão, péssima afinal de contas, e principalmente para manter os milhares de cargos públicos fartamente distribuídos aos amigos, quase sempre inéptos e despreparados. Montalbán nos ensina que a História não é uma ciência exata mas é o tipo de conhecimento que poupa muitos aborrecimentos a quem se dá ao trabalho de estudá-la, sem cabrestos ideológicos ou servilismos típicos do fascismo. A alternância no poder - nas democracias de fato - não é apenas desejável, mas profilática e saneadora. No romance Carvalho reencontra uma bela mulher, que já conhecemos do "Assassinato no Comitê Central", publicado em 1981. Nas conversas com ela e seu filho adolescente Montalbán nos apresenta como também a sociedade espanhola (não apenas o mundo político) estava em crise, como a "movida madrilleña" já era apenas um simulacro dos sucessos e do auge nos tempos de pós-redemocratização. "El premio" vale a leitura. Agora só me ficaram faltando "Tres historias de amor" e "Historias de fantasmas". Seguro que estes volumes me encontrarão um dia. Paciência então. [início 09/08/2009 - fim 28/10/2009]
"El prêmio", Manuel Vázquez Montalbán, editora Planeta (1a. edição) 005, brochura 15x23, 347 págs. ISBN 978-84-08-06001-7

sábado, 26 de setembro de 2009

historias de padres e hijos

"Historias de padres e hijos" reúne três contos. Neles Carvalho mais do que resolver os enigmas, solucionar os crimes, tem oportunidades de refletir sobre sua juventude, relembrar seu pai, preso durante a ditadura franquista. No primeiro Carvalho se envolve por iniciativa própria no assassinato de um conhecido seu de juventude, um sujeito que tinha ambições no mundo do boxe, mas que se desgraçou e tornou-se um daqueles loucos típicos de uma cidade grande, de um bairro decadente (no caso o Raval barcelonês). Nas ruas do Raval Carvalho revisita as academias de boxe, os restaurantes, os botecos, os sabores de pratos de um passado distante. O sujeito que morreu tem um filho que vive de pequenos biscates, pequenos crimes. Carvalho se afeiçôa ao rapaz e tenta descobrir o paradeiro de sua mãe (que se afastou de pai e filho logo que este nasceu). Logo após descobrir como morreu o sujeito (um azar banal) Carvalho consegue fazer mãe e filho se reencontrarem, mas eles preferem seguir seus caminhos de forma independente. Não há mesmo espaço para sentimentalismos no mundo real. Na segunda história uma senhora contrata Carvalho para descobrir o paradeiro de uma moça que sumiu durante uma viagem no mediterrâneo. Carvalho a descobre prostituída em Gibraltar, o enclave britânico na península ibérica, motivo de disputas diplomáticas e políticas entre Inglaterra e Espanha até hoje (os espanhóis se lamentam há trezentos anos a perda da "rocha" de Gibraltar, terra de Molly Bloom, mas está é outra história). Entre as idas e vindas de Carvalho a Gibraltar, o reencontro e a ajuda recebida ali de agentes americanos amigos teus dos tempos em que era guarda costas do presidente Kennedy, conversas cínicas com os agenciadores de sexo que sequestraram a moça, Carvalho consegue fazê-la voltar a Barcelona, mas por um tempo curto demais, pois ela prefere a vida dura das ruas e da prostituição à voltar a viver com sua mãe. A última história é a mais dramática, mais teatral, todavia é bastante previsível. Um rapaz e sua noiva são mortos na noite de núpcias. O casamento é detalhadamente descrito. A viagem até a cidade natal dos pais do rapaz, filho de um rico empresário, ao interior profunda e provinciana Catalunha também é boa de acompanhar. É a mãe quem contrata Carvalho para descobrir as razões do assassinato. Carvalho descobre rapidamente a vida dupla que o rapaz mantinha, sua amante, seu envolvimento com a jogatina, suas conexões com o submundo e a máfia catalã, mundos muito diferentes da casa bancária e do construtora onde ele trabalhava com o pai. Sem muita divagação Carvalho soluciona o crime. O curioso nestas três histórias é o contraste entre o mundo das aparências e o mundo real dos personagens. Bons contos para se ler sem pressa, sem paixão. [início 09/09/2009 - fim 10/09/2009]
"Historias de padres e hijos", Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta DeAgostini (1a. edição) 2000, capa-dura 13,5x20,5, 179 págs., ISBN: 84-395-8469-5

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

saber o no saber

Os livros de Vázquez Montalbán sempre me encantam. Este primeiro volume da coleção Carvalho gastronômico é dedicado aos prazeres das comidas e dos sabores, do tempo dedicado à preparação e ao desfrute daquilo que é mais que simplesmente alimento e energia para um vivente, enfim, aquilo tudo que diferencia homens civilizados e bárbaros (sempre lembro daquel capítulo do Ulysses do Joyce onde Leopold Bloom perde o apetite ao ver uns sujeitos almoçando feito bestas em um pub dublinense). A primeira edição "Saber o no saber" foi publicada um ano antes da morte de Vázquez Montalbán. O formato é interessante. Há uma longa seção inicial na forma de dicionário, onde verbetes de A a Z explicam porque o ato de comer e o saber gastronômico são igualmente importantes, como a memória do paladar nos ajuda a fixar passagens de nossa infância, de nossa família, de nossa tribo, de nossa cidade. Em uma segunda seção há verbetes biográficos curtos, detalhando um tanto a vida de grandes chefs, cozinheiros, escritores que cultivaram o conhecimento gastronômico. A bibliografia do livro é extensa e generosa. O texto é sempre divertido, entremeado nele há trechos curtos dos muitos livros de Montalbán onde a culinária aparece, exuberante. No dia em que achei este volume (no mercado de san miguel, um lugar simpático de Madrid) só consegui encontrar um outro volume, o terceiro, dedicado a cozinha espanhola de mestiçagem (na definição do autor aquela de Murcia, Andalucía, Extremadura e das ilhas Canárias). Conseguirei encontrar os demais? Veremos. [início 21/07/2009 - fim 21/08/2009]
"Saber o no saber: manual imprescindible de la cultura gastronómica - Carvalho Gastronómico, vol.1", Manuel Vázquez Montalbán, ediciones B (Zeta Bolsillo) (1a. edição) 2008, brochura 12,5x20, 253 págs. ISBN: 978-84-9872-106-5

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

política ficción

Os contos de "Historias de política ficción" poderiam ser chamados sem perda de precisão de histórias de velhinhos. Carvalho, o gastrônomo detetive galego inventado por Vázquez Montalbán é chamado para descobrir os sucessos envolvendo três velhos senhores que estão as voltas com problemas decorrentes de suas atividades políticas. São três histórias, três contos curtos, onde estes velhos senhores, veteranos de embates, de refregas terríveis como a guerra civil espanhola ou a guerra mais subterrânea e fria da redemocratização espanhola se deparam com seus fantasmas. No primeiro conto um velho louco que acredita ter direito a casa real espanhola descobre tarde demais que é utilizado como massa de manobra por um bando de golpistas. Carvalho e o delegado Contreras exageram no sarcasmo ao discutirem sobre as diferenças entre democracia e ditadura. No segundo, em um monastério transformado em asilo nos arredores de Barcelona, Carvalho descobre em que circunstâncias um velho foi morto por seus companheiros de quarto. Trata-se de uma história envolvendo traições e sectarismos ocorridos quarenta anos antes, durante a guerra civil. No último, o golpe de estado real perpetrado pelo tenente coronel Tejero no vinte e três de fevereiro de 1981 serve como oportunidade para dois sobrinhos sequestrarem e torturarem um avô que havia sofrido muito nos tempos do regime franquista. São histórias que se resolvem com presteza, onde Carvalho usa mais sua perspicácia e conhecimento da alma humana que exatamente analisando os fatos propriamente ditos. A gastronomia e a análise política de seu tempo dominam o cenário dos três contos. Biscuter e Bromuro, Charo e Fuster, Contreras e a ideal Barcelona de Montalbán aparecem, coadjuvantes mas fundamentais, auxiliando Carvalho na solução das tramas. [início 08/08/2009 - fim 10/08/2009]
"Historias de política ficción", Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta DeAgostini (1a. edição) 2000, capa-dura 13,5x20,5, 169 págs., ISBN: 84-395-8471-7

domingo, 9 de agosto de 2009

asesinato en prado del rey

Achei este legítimo Montalbán da série Carvalho, junto com Natália, leitora das boas, em um dos sebos que se reunem aos domingos no "Mercat de sant Antoni" de Barcelona. Este volume e outros dois, sorte das grandes, agora são poucos os Carvalhos distantes dos meus domínios. São quatro contos curtos ambientados principalmente em Madrid, para onde Carvalho se desloca apenas profissionalmente, quase nunca por desfrute e prazer. Como diz o subtítulo do livro são histórias basicamente sórdidas. São histórias que Carvalho conta retrospectivamente, enquanto prepara pratos delicados para seu vizinho Fuster ou sua amante Charo, ou ainda seu ajudante Biscuter e com cada um deles divide garrafas de vinhos brancos suaves ou tintos encorpados. No primeiro dos contos (e que dá nome ao livro, pois se passa nos arredores da região da antiga sede da Rede de Televisão Espanhola) Carvalho tem de resolver o assassinato de um sujeito de origem vasca, diretor de filmes para televisão populares e de longas metragens sofisticados, mas sem público. A lista de prováveis suspeitos é grande. Carvalho acaba se envolvendo com o mundo articial e glamourizado das produções televisivas, onde as amizades e as escolhas profissionais são temperadas sempre pela mentira, por traições, pela inveja. Ao final ninguém, nem mesmo a polícia, tem interesse em descobrir quem foi o assassino. A dinâmica do jornalismo e da comunicação é sempre fornecer ao público novas crises, novos problemas, novos crimes e soterrar o que não tem mais importância ou poder. No segundo dos contos a ação se dá em uma casa noturna sofisticada e exclusiva, daquele tipo que atrai todos os moderninhos de plantão, cai logo no gosto popular, faz sucesso na mídia, vira "case" de designers e publicitários, torna-se insolvente e fecha as portas em pouco mais de três semanas. Carvalho consegue solucionar o crime antes que o público troque de bar, tudo muito divertido. O terceiro conto obriga Carvalho a se envolver com uma rica família catalã e o submundo da prostituição e das drogas. A família tem interesse em acobertar a morte violenta de uma garota, filha do patriarca. Carvalho descobre rápido quem são os hipócritas de plantão e encontra um desfecho lógico para os acontecimentos. O último dos contos envolve uma série de assassinatos aparentemente não correlacionados: uma prostituta que estuda nas horas vagas, um professor medíocre, um turista argentino e um cachorro de rua. Carvalho descobre logo quem é o rapaz louco responsável pelos crimes. São histórias realmente sórdidas, no sentido que revelam a irrelevância do destinos das gentes que vivem nas bordas das cidades, marginalizadas, entretidas em seus devaneios e sonhos. Nem a polícia, nem o sistema judicial têm interesse em resolver casos desta natureza. Carvalho faz suas investigações quase por curiosidade profissional mas sabe que tudo tem um quê por quixotismo, uma quase certeza de irrelevância. [início 02/08/2009 - fim 07/08/2009]
"Asesinato en prado del rey y otras historias sórdidas", Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta DeAgostini (1a. edição) 2000, capa-dura 13,5x20,5, 187 págs., ISBN: 84-395-8467-9

sábado, 18 de julho de 2009

el pianista

Este "El pianista" foi-me emprestado por Jesús González ainda em junho de 2008. Fiquei de ler e devolver antes de minha viagem a Espanha deste ano mas acabei deixando-o no Brasil apesar de já tê-lo lido (fazer o quê com os impulsos, devo esta para o Jesús). Trata-se de um livro que não faz parte do ciclo de romances e contos onde Montalbán utiliza o detetive Carvalho para defender suas idéias e posições. Publicado em 1985, logo após o volume "El balneário" da série Carvalho, mas iniciado de fato ainda em 1972, Manuel Vázquez Montalbán conta em "El pianista" uma história curiosa sobre um pianista que é afetado pelos acontecimentos da guerra civil espanhola. São três grandes partes: na primeira o pianista, Alberto Rosell, já está velho, trabalhando praticamente incógnito e desconhecido em um cabaret onde se apresentam travestis, na noite de uma Barcelona tímida frente à famosa movida madrilhenha daqueles dias. Na segunda parte voltamos no tempo, e encontramos o pianista, ainda jovem, mas alquebrado, logo após sua saída de uma cadeia franquista, onde passou seis anos sem tocar seu instrumento, obcecado com a idéia de voltar a tocar. Na terceira parte, somos apresentados ao jovem estudante de piano Rosell, que vive na Paris da segunda metade dos anos 1930, dividido entre sua arte e vocação, o piano, e seu desejo de voltar a Espanha e participar da guerra civil que se aproxima. São três momentos do mundo espanhol: o antes da guerra civil, o imediatamente após a segunda grande guerra, e os anos de distensão e redemocratização, posteriores à morte de Franco. Nestes três momentos um outro sujeito, Luís Dória, faz as vezes de um duplo de Rosell, mas um duplo que fez a outra escolha possível, ou seja, manteve-se exilado durante a guerra, continuou estudando música e voltou a Espanha consagrado e influente, durante os anos da ditadura franquista. Claro que sentimos mais carinho pelo perdedor e fracassado Rosell, mas sabemos que os Dórias são sim sempre muito mais frequentes nesta vida, (apesar de também a seu modo serem perdedores, mas apenas perdedores morais.) Talvez esta questão ainda não esteja totalmente digerida na Espanha de hoje, tão dividida entre os liberais pragmáticos e os socialistas algo inconsequentes. Basta folhear qualquer jornal atual para ver o quanto é crispado e dividido o mundo político e jurídico de lá (a população comum parece estar alheia a tudo que se passa, mas eu diria genericamente que eles são mais conservadores social e politicamente do que aparentam ou querem ser). Gostei particularmente da descrição de um passeio noturno que vários personagens fazem, desde a parte alta da cidade até a Barceloneta anterior às obras das Olimpíadas de 1982. Ele também fala dos bares da cidade, como o Boadas, que finalmente visitei nesta última viagem. É um livro para melômanos, pois ele fala da música sempre com paixão, um livro onde se discute se o fracasso ou o sucesso individual são de fato julgados pela história, um livro sobre a ausência de imanência naquilo que acreditamos ser as vanguardas, a modernidade. É por fim um livro pessimista, mas que a meu juízo vale a pena ser lido. [início 13/06/2009 - fim 30/06/2009]
"El pianista", Manuel Vázquez Montalbán, Plaza & Janes editores (1a. edição) 1993, brochura 11,5x18, 287 págs., ISBN: 84-01-42276-0

domingo, 1 de março de 2009

el hermano pequeño

Este livro de Manuel Vázquez Montalbán foi escrito em 1994 e reúne oito contos onde o detetive Pepe Carvalho é o protagonista. O primeiro conto (e que dá nome ao livro) "El hermano pequeño" pode entrar na categoria de novela curta, pois trata-se de uma estória que tem pouco fôlego para virar um romance, mas é interessante e movimentada. Nela Carvalho já é um sujeito cansado. Depois de vinte anos ele já é um tanto mais suave, cerebral, não tão violento e cínico como costumava ser (principalmente com as mulheres). Neste primeiro conto Carvalho resolve o caso de um sindicalista que aparentemente se suicidou. O sujeito estava envolvido com os problemas advindos da retração econômica espanhola pós olimpíadas de Barcelona de 1992. Seu desaparecimento é conveniente para tanta gente que até a realidade do suicídio poderia ser considerada. Em um outro conto o mais interessante são os desvios da narrativa, onde Pepe rememora seu passado e ilustra um tanto seus dias na CIA e de como, nas suas próprias palavras: "yo maté a Marylin (Monroe)". Aqueles curiosos sobre seus anos de aprendizado no mundo da espionagem vão encontrar algum material (ainda que nebuloso) neste livro. Aparentemente há um "doppelgänger" dele preso em Zaragoza até hoje. Sujeito difícil de classificar este Carvalho. Os demais contos são como exercícios de um escritor hábil. Em dois deles ele emula Agatha Christie (e são a ela dedicados), noutro Dickens, noutro Raymond Chandler. Sempre são histórias que se resolvem sem que Carvalho tenha mesmo que participar, trabalhar muito. Ele é mais um observador discreto e sutil de fatos relacionados ao mundo dos seres que atraem problemas e se envolvem em situações embaraçosas ou mesmo perigosas. Ora estes personagens deixam que ele intervenha, noutras o proibem. Charo e Biscuter aparecem de longe, a primeira já está exilada e manteúda em Andorra, o último se preparando para o tal curso de sopas e caldos na "Le Cordon Blue" francesa. Lê-se o livro com prazer. Este é décimo-sétimo livro da série que consegui encontrar e ler. Agora só mesmo uma sorte livreira para conseguir os seis outros volumes que me faltam. Paciência então. [início 20/12/2008 - fim 21/01/2009]
"El hermano pequeño", Manuel Vázquez Montalbán, editora Planeta (1a. edição) 2003, brochura 15x23, 221 págs. ISBN 978-84-08-05956-1

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

os alegres rapazes de atzavara

Após tantos livros de Montalbán o que eu posso ainda dizer? É sempre um prazer renovado encontrá-los, como este, publicado em Portugal (o que dá extranhas sonoridades à leitura), achado em um sebo portoalegrense noutro dia mesmo. Este Os alegres rapazes de Atzavara não pertence aos da série Carvalho, mas deixa transparecer a mesma preocupação de Montalbán em contar um tanto da história da Espanha. Se nas novelas policiais aprendemos algo sobre as mudanças econômicas e políticas espanholas pós morte de Franco neste mais diretamente acompanhamos as mudanças sociais, as mudanças de hábito da sociedade. No romance quatro narradores distintos comentam os fatos do verão espanhol/catalão de 1974, aquele em que o país descobre que Franco está muito mal de saúde, hospitalizado (sua agonia duraria ano e meio ainda, o que deu chance para todos os democratas oprimidos por décadas se abastecerem com garrafas de cava - espumantes - para comemorar o esperado passamento do sujeito, o que de fato aconteceu em novembro de 1975). Na ficcional cidade litorânea de Atzavara (Sitges talvez?) vive-se uma espécie de revolução sexual catalã (ecos algo tardios do que acontecia já a uma década nas demais grandes cidades européias e nos Estados Unidos). Os personagens são burgueses catalães algo heterogêneos: há os homossexuais liberados, mulheres divorciadas e senhoras de seu destino, casais convencionais talvez algo permissivos, profissionais liberais e intelectuais, além de dois pares de observadores externos a este grupo: dois operários simples e dois artistas plásticos jovens. Os quatro narradores comentam aspectos variados das relações entre eles e os outros, discutem os sucessos daquele verão, analisam como tudo aquilo influenciou suas vidas e seu futuro. É um Montalbám com suas obsessões de sempre mas desta vez sem a gastronomia e as visitas inspiradoras a restaurantes promovidas pelo detetive Carvalho. É um livro melancólico e triste, onde ao final vence a hipocrisia e o acomodamento. Difícil não simpatizar com Montalbám e suas escolhas morais, pois o livro é quase o testemunho de uma época, um estudo do coração humano. Em um trecho um personagem diz: "Finalmente ela também descobriu a mediocridade obscena da realidade. O que não evita que tenhamos de assumí-la, com todas as consequências, quando a ocasião o requer." Duro mas verdadeiro. Ainda tenho mais Montalbán nos guardados, mas eles vão ficar para a fornada do ano que vem.
"Os alegres rapazes de Atzavara", Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Helena Ramos e Artur Ramos, publicações Don Quixote (1a. edição) 2001, brochura 15.5x23.5, 246 págs. ISBN: 978-972-20-1969-4

domingo, 2 de novembro de 2008

los pájaros de Bangkok

Em geral vou lendo meus livrinhos e fazendo rabiscos, anotando passagens nas guardas do volume, registrando impressões várias. Neste poderoso “Los pájaros de Bagkok” não fiz nada disto: comecei a história e “presto!”, em dois dias já tinha terminado. O “Tatuaje” resenhado abaixo é o segundo livro da série Carvalho e este é o sexto. Com ele Montalbán ganhou o Prêmio Nacional de Literatura espanhol do ano de sua publicação, 1983. Como sempre em Montalbán o enredo interessa mas não é realmente tão importante quanto a forma: uma amiga de Carvalho lhe telefona dando conta que está em dificuldades na distante Bangkok. A família e a embaixada espanhola confirmam a gravidade do caso. O detetive está quase sem assunto em sua Barcelona. Tenta ser contratado por um industrial para resolver um caso de desfalque familiar, mas o sujeito prefere ser enganado (isto acontece.) Ao mesmo tempo se envolve na investigação de um assassinato inusitado que descobriu pelos jornais. Interroga um grupo grande de pessoas, mas ninguém parece estar interessado em pagar por seus serviços (no final, apesar dos fatos terem sido compilados por ele quem vai solucionar este caso serão Charo, Bromuro e Biscuter). Esta história toma mais que um terço do livro e em nada se relaciona com o caso da amiga desaparecida. Para este acaba sendo contratado e parte em viagem. Mais que ajudar sua amiga a voltar de uma Tailândia exótica e perigosa, o que Carvalho faz é refletir longamente sobre a vida e a morte (até com monges budistas ele se encontra no caminho.) A violência, a doença e a morte estão o tempo todo rondando o detetive. Há contrastes interessantes no livro, como a descrição das camadas turísticas que todo país tropical tem e sua imersão nos subterrâneos verdadeiros porém duríssimos de sua população; ou a coexistência de poderes paralelos e conflitantes no sistema legal e policial dos países subdesenvolvidos; a óbvia dicotomia ocidente/oriente; ou também os ritmos diferentes das viagens para o exterior do mundo e pelo interior das gentes; e a irrelevância da razão quando estamos envolvidos afetivamente de fato com alguém (ou com alguma causa.), pois afinal de contas o ser humano sabe matar e também sabe morrer por amor. De qualquer forma percebe-se na narrativa que o Carvalho que volta à Barcelona está mudado. Continuará sabendo ser sarcástico e objetivo, mas ao passar pelas fronteiras da idade da razão perdeu mais que um tanto de frescor (e se fosse possível, de inocência.) Em “Milênio” Carvalho voltará a estes problemas, ao existencialismo, a esta região, mas desta feita sendo ele a pessoa que se persegue. Ula-lá. Agora é tarde, mas que bom teria sido se eu tivesse tido a chance de ler todos estes livros na ordem em que Montalbán os inventou. Paciência. Já é hora de mudar de rumo e de tom.
"Los pájaros de Bangkok”, Manuel Vázquez Montalbán, editora Planeta, 2a. edição (2007), brochura 15x23cm, 406 págs. ISBN: 978-84-08-05043-8