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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

rainha do castelo de ar

Neste último volume da trilogia Millennium Stieg Larsson tenta resolver todos as questões que ficaram em suspenso nos volumes anteriores. Comparado com a correria do final do segundo volume no início deste há mais descrição, mais reflexão sobre os problemas e muitos, muitos mesmo, telefonemas. Os personagens que já conhecemos, o jornalista Mikael Blomkvist e a hacker-heroína Lisbeth Salander, bem como a maioria dos demais, dezenas de coadjuvantes, seguem por hospitais, delegacias, promotorias, redações de jornal, cada um cumprindo seu papel na trama. Após um início tranquilo as reviravoltas do roteiro começam a aparecer e o círculo de envolvidos aumenta, incluíndo a sede do governo sueco, o presente e o passado dos serviços de espionagem, o universo do hackers anônimos amigos de Salander. A chave de todo o livro está na cabeça da heroína, presa em uma instituição psiquiátrica. O jornalista consegue de forma mirabolante que ela tenha acesso a um "palm book" e com ele, mesmo atrás das grades, a moça consegue coordenar todos os esforços por destrinchar a trama, desmascarando os maus, punindo os canalhas, desnudando os corruptos. Quando, já na parte final do livro, inicia-se o julgamento de Salander - previamente orquestrado para prejudicá-la definitivamente - eis que toda a maquinaria montada por ela e Blomkvist desmascara todo o grupo de envolvidos nos crimes descritos nos três volumes da saga. Muitas cabeças cairão, o leitor fica feliz em alcançar um final feliz. A moça é libertada. Se reconcilia com o jornalista, física e espiritualmente. Tudo muito bonito, muito ajeitado, muito esquemático. Há algumas horas que o sentido fica vago e nos deparamos com termos algo obtusos, acredito que por conta da tradução ser de segunda mão, feita a partir de uma tradução francesa. O autor utiliza um procedimento para acelerar a trama que me incomoda: vários capítulos terminam com estruturas do tipo "conversaram por duas horas"; "combinaram que"; "falaram sobre como fariam tal coisa"; "ele explica tudo em cinco horas"; "e assim ambos ficaram sabendo que". O texto fica truncado demais e esquemático demais para o meu gosto. De qualquer forma é um bom "thriller", um livro que ajuda o leitor a entender melhor como funciona a engenharia social nos países escandinavos, sem muitas concessões ou glamurização. [início 13/10/2009 - fim 20/10/2009]
"A rainha do castelo de ar - Millennium 3", Stieg Larsson, tradução de Dorothée de Bruchard, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2009, brochura 16x23, 685 págs. ISBN: 978-85-359-1520-4

quinta-feira, 21 de maio de 2009

menina que brincava

Como havia gostado muito do primeiro volume da trilogia Millennium de Stieg Larsson, não esperei muito para comprar e ler este segundo volume assim que ele foi publicado. Todavia este "A menina que brincava com fogo" não me agradou da mesma forma. Se no primeiro volume a falta de ambiguidade ajudava um tanto a entender os papéis representativos da complexa sociedade sueca, neste segundo o jogo do bem contra o mal é esquemático e repetitivo demais. O primeiro capítulo é apenas um prólogo dispensável, sem conexão algum com a história principal, um tanto ao estilo dos filmes de espionagem, onde algo com muita movimentação e violência antecede a entrada dos créditos iniciais. Há também longos capítulos que servem apenas para prolongar um clímax que nunca chega e retardar o fato do leitor já estar certo de saber que a mocinha vai se safar, que a verdade virá a tona, que os maus e perversos serão desmascarados. Os personagens principais, a jovem hacker e o astuto jornalista, continuam os mesmos que deixamos ao terminar o volume anterior, apesar de terem se envolvido emocionalmente e se separado abruptamente. As coincidências e acasos abundam pelo livro, sem eles nenhuma ação poderia se desenvolver adequadamente. Um novo personagem, misterioso e com ligações políticas no alto escalão do governo, domina o livro todo, até aparecer como um demônio encarnado nos capítulos finais. Não há remissão para o sujeito. Muito do passado da jovem heroína do livro é agora explicado e justificado, mas ela não ganha muito em profundidade psicológica, como se esperaria de um personagem forte. O final da história acontece rápido demais, como se o autor estivesse cansado dos tantos desvios que fez para chegar aquele ponto. Há coisas que são irritantes: acreditar que uma mocinha possa se livrar de dois fortes motociclistas suecos, uns marginais que são típicos vikings modernos, apenas usando o fator surpresa, é mesmo inverossímel demais. Há uns erros de tradução meio bobos acho eu. A menina vai comprar bebidas em um "monopólio dos espirituosos", que eu acho ser uma tradução ruim para um trivial "loja de bebidas" e várias vezes a heroína faz menção a uma "bomba de gás lacrimogênio" que possui, mas eu acredito que se trata de um simples e funcional "spray de pimenta". Como eu não sei sueco (e a tradução foi feita a partir de uma versão francesa) jamais saberei se estou certo. Paciência. Vamos a ver como Stieg Larsson termina a trilogia. Se o mundo inventado por ele for mesmo esquemático como eu imagino devemos no terceiro volume ser apresentados a história pregressa do herói jornalista e seus sucessos. Veremos. [início 19/04/2009 - fim 04/05/2009]
"A menina que brincava com fogo - Millennium 2", Stieg Larsson, tradução de Dorothée de Bruchard, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2009, brochura 16x23, 607 págs. ISBN: 978-85-359-1422-1

quinta-feira, 2 de abril de 2009

os homens que não

Este "Os homens que não amavam as mulheres" é mais um dos livros indicados por minha amiga Cristina Goméz Polo, moradora das terras altas de Navarra. Um dia ela me perguntou se Stieg Larsson era um best-seller por aqui e eu não soube responder. Olhei uma lista de mais vendidos e lá estava este volume. Curioso, comprei para ler durante o feriado de carnaval, dias medonhos para um cético incorrigível como eu. Este livro é o primeiro volume de uma trilogia que foi publicada originalmente em sueco em 2005 e que alcançou rapidamente grande número de entusiásticos leitores na Europa. Uma versão cinematográfica já foi produzida na Suécia. Por conta de uma daquelas coincidências caras ao Jung o autor morreu jovem e imediatamente após entregar os originais a seu editor, o que só aumentou a aura de livro maldito desde o início. Trata-se de um romance policial, um thriller, uma história de suspense, mas que é recheada de informações muito precisas sobre a sociedade atual. Não se trata de uma descrição muito generosa. Stieg Larsson nos apresenta uma Suécia falsa, inconstante, hipócrita, cruel, xenofobista, perversa mesmo. Estes adjetivos todos poderiam ser aplicados a toda sociedade ocidental contemporânea, acredito eu, inclusive a brasileira, tão mesquinha e tacanha. O enredo é movimentado. Dois personagens fortes são apresentados: o primeiro é um jornalista investigativo cuja ética e disciplina moral o leva a desvendar casos e negociatas escabrosas que envolvem os grandes grupos financeiros, políticos e de comunicação, os donos de plantão do poder; a segunda personagem é uma jovem investigadora, "hacker" nas horas vagas, anarquista ao extremo, no espírito e nas ações, mas que tem de lutar para manter-se, com alguma honestidade intelectual, à margem da sociedade, sem ser incomodada. Os destinos de ambos se cruzam ao investigarem o passado (e o presente) de uma sólida e tradicional família sueca. É um livro poderoso. Certamente vou tentar encontrar os dois volumes que o seguirão (mas que certamente envolverão outras histórias, outros problemas). É fácil lembrar de Bergman ou fazer uma associação entre este livro e o excelente "Festa de família", filme de Thomas Vinterberg lançado em 1998, um dos filmes feitos sob o espírito do projeto cinematográfico Dogma95. Eu, que estive na Suécia em um idílico passeio no íncio dos anos 1990, fiquei arrebatado com a crueza com que o autor revela o quão sombria é aquela sociedade. Dueña Natália Diacoyannis, também uma viajante e dona de um fino juízo tem razão: "Uma coisa é ser turista, pois todo o mundo te trata com respeito por ver que você é turista e está dando seu dinheiro para o país deles, outra coisa é viver com eles por algum tempo...". [início 23/02/2009 - fim 24/02/2009]
"Os homens que não amavam as mulheres - Millennium 1", Stieg Larsson, tradução de Paulo Neves, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2008, brochura 16x23, 522 págs. ISBN: 978-85-359-1324-8