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quinta-feira, 16 de abril de 2020

um fausto

O texto - anônimo - que deu origem ao mito de Fausto foi publicado em 1587. Christopher Marlowe escreveu a primeira versão dramática deste mito entre 1589 e 1592, mas não é certo que a peça chegou a ser encenada em vida do autor (sabe-se que foi publicada após sua morte, em diferentes versões, em 1604 e 1616). De qualquer forma esse mito literário tem sido reimaginado e reinventado desde então. Há versões para todos os gostos (de Goethe a Thomas Mann, de Fernando Pessoa a Puchkin, de Murnau a Berlioz, de Gounod a Liszt, de Paul Valéry a David Mamet, dentre tantos outros). A história é citada ou homenageada em uma miríade de mídias, formas e contextos da cultura. Tempos atrás fiz um registro de um romance de Sidney Garambone ("Fausto tropical"), jornalista  e escritor carioca, que adaptou a história a seu Rio de Janeiro fundamental. Mas hoje quero fazer o registro de uma versão curitibana, produzida a quatro mãos, pelos poetas Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos: "Um Fausto", publicado provavelmente em 1994. Esta adaptação acompanha de perto os sucessos da primeira parte da versão de Goethe (bem diferente da versão de Marlowe e sem a conclusão popularmente conhecida, com Deus vencendo a aposta que fez com Mefistófeles pela alma de Fausto, elevando-a aos céus, mas isso pouco importa). Na primeira das dez cenas em que "Um Fausto" é dividido, um editor, "à beira da falência, tenta convencer seu melhor poeta a escrever um best-seller" e o leitor descobre como esse poeta é estimulado por sua musa a aceitar o encargo. Após espiar o pacto entre Mefistófeles e Deus, o poeta nos conta como Mefistófeles apresenta-se a Fausto e oferece seus serviços, e como a menina Margarida é vagarosamente seduzida pelas artes infernais até por fim cair em desgraça e ser aprisionada. É um texto gostoso de ler, bem divertido, movimentado. Por ser uma versão debochada, em versos e curta, e por ser o resultado de boas leituras, de sujeitos que sabem equilibrar registros eruditos e populares, a cousa me parece funcionar, ou seja, me parece encenável, conferindo dignidade e valor à longa tradição de adaptações deste mito literário. Evoé rapazes, Evoé. O livro inclui algumas ilustrações de Roberto Carlos Jubainski. Bacana. Sigamos o baile macabro deste outono. Quem viver, lerá. Vale! 
Registro #1516 (drama #19) 
[início: 06/04/2020 - fim: 07/04/2020] 
"Um Fausto", Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos, Curitiba: Lagarto Editores, 1a. edição (1994?), brochura 12x18 cm, 48 págs., sem ISBN

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

poemas de amor ainda

No último 20 de setembro, dia da Revolução Farroupilha, feriado no Rio Grande do Sul e dia do gaúcho para os íntimos, estava eu longe de casa, em uma missão de trabalho. Em Curitiba, folheando um jornal digital (pobre Curitiba, não mais afeita a jornais impressos), descobri que haveria um lançamento de dois livros de poesia, justamente naquele 20 de setembro, em um bar/boate do centro, não muito longe de meu hotel. Resolvi experimentar, e dei sorte. Conheci um bocado de poetas em fúria (já resenhei aqui um deles, o bom "A caverna dos destinos cruzados", de Sergio Viralobos, Monica Berger e Leonardo Chioda; ouvi boa música; conversei com muita gente bacana; entre elas o industrioso Vanderley Mendonça - mas esta é outra história). O outro livro lançado naquela noite foi esse "Poemas de amor ainda", de Antonio Thadeu Wojciechowski, experimentado poeta (e publicitário, e professor, e pescador, e compositor, como ele mesmo se define) curitibano, de seus quase 70 anos. Se é que eu contei bem, este volume é o  trigésimo quarto de uma vasta produção. Nele estão incluídos seis conjuntos de poemas. Cinco são da lavra dele mesmo, Wojciechowski, e um sexto, de poemas traduzidos por ele, poemas de Szymborska e Dickinson, Rimbaud e Maiakóvski, Hölderlin e Baudelaire, Poe e Gandhi, cummings e Yeats, e de Shakespeare. Nos cinco conjuntos autorais - quase sempre líricos - ele faz uso de várias formas poéticas: as fixas (sonetos e haikus, talvez baladas, talvez trovas, talvez rondós, talvez odes) e também versos livres, mas quem disse que eu sei escandir poemas? Seus poemas explicitam uma alegria de viver, quase sempre são confessionais, transbordam fé na humanidade, no caótico inerente das paixões que nos conduzem nesta vida. Sou o menor dos anões neste assunto, ai de mim, mas da leitura dos poemas brota um sujeito que parece explorar o mundo sempre com olhos de menino, curioso, pleno, whitmaniano. Claro, eu precisaria conhecer mais cousas dele para ter a ambição de classificá-lo corretamente, mas quem disse que um poeta precisa ser entendido em todos seus matizes, em todas suas sutilezas. Vamos a ver se no futuro encontro mais cousas deste polonês errante. Vale! 
Registro #1469 (poesias #121) 
[início: 20/09/2019 - fim: 09/11/2019]
"Poemas de amor ainda", Antonio Thadeu Wojciechowski, Florianópolis: Bernúncia Editora, 1a. edição (2019), capa-dura 16x23 cm., 324 págs., ISBN: 978-65-80391-00-4