Mostrando postagens com marcador Antonio Tabucchi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antonio Tabucchi. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

mulher de porto pim

Nos livros de Antonio Tabucchi sempre alguém viaja e com esse alguém segue o leitor. No caso das histórias reunidas em "Mulher de Porto Pim" o destino dos sucessos é o Arquipélago dos Açores, o conjunto de nove ilhas que forma a parte mais a oeste de Portugal (O italiano Tabucchi teve uma relação especial com Portugal, viveu lá muitos anos, tornou-se um especialista em Fernando Pessoa, traduziu autores portugueses e italianos de uma língua para a outra, encantou-se com o lugar, ou melhor, com os muitos lugares que chamamos de Portugal). Para simplificar vou classificar esse livro como de contos, mas como sempre acontece com Tabucchi há algo cifrado em seu estilo. Algumas histórias parecem crônicas de viagem, registros objetivos de uma sensação, de uma experiência. Noutras o leitor se convence da pura invenção, da realidade de uma ficção curiosa, das habilidades de um autor criativo. Enfim, são oito narrativas curtas. Lemos sobre um homem que imagina uma nova Grécia nos Açores, com deuses, mitos e heróis; a história de um casal entreouvida num barco, sem início ou fim; o censo dos bares de uma das ilhas dos Açores, lugares construídos com restos de naufrágios, destino de deserdados e solitários do mundo; o resumo rápido da vida do poeta Antero de Quental, filho da Ilha de São Miguel, nos Açores. Encontramos também duas crônicas sobre a caça as baleias: uma delas quase científica, produzida dos fragmentos de diversos autores que já se interessaram pelo assunto; a segunda inventiva, na qual um narrador acompanha o capitão de longo curso de um barco baleeiro e as façanhas que resultam na morte de uma grande baleia (como se fosse a última de sua espécie a ser cruelmente abatida, como se apenas um réquiem nos redimisse da culpa). O conto que dá nome ao livro é a história de amor e morte que um velho músico de uma taberna das ilhas conta para um ouvinte curioso (sempre aquele sujeito que nas histórias de Tabucchi está no local certo para experimentar algo transcendental). O livro termina com uma história contada por uma baleia, que vê os homens na praia e estranha o comportamento daqueles seres bizarros e tristes. Especial. O leitor termina o livro e já se imagina num cais, preparando-se para zarpar rumo àquelas ilhas. Livro para se ler com calma, ouvindo o barulho do mar e do vento, dos peixes e dos pássaros. Vale.
[início: 21/12/2016 - fim: 22/12/2016]
"Mulher de Porto Pin e outras histórias", Antonio Tabucchi, tradução de Maria Emília Marques Mano, Alfragide/Portugal: Publicações Dom Quixote (Grupo LeYa), 1a. edição (2016), capa-dura 12x19 cm., 126 págs., ISBN: 978-972-20-6017-2 [edição original: Donna di Porto Pim (Palermo/Italia: Sellerio Editore ) 1983]

sábado, 15 de agosto de 2015

viajes y otros viajes

Neste interessante "Viajes y otros viajes" estão reunidos mais de setenta textos curtos de Antonio Tabucchi publicados originalmente em jornais ou revistas. O período de publicação é longo, os textos mais antigos são de 1984, os mais recentes de 2009. Tabucchi os chama de "ilhas de um arquipélago flutuante" e afirma que os textos nunca foram pensados original e propositadamente como narrativas de viagens, com intuito de serem um dia publicadas, mas que de fato surgiram, naturalmente e vívidas, após algumas de suas longas viagens. O verdadeiro viajante não é aquele que acumula fotografias e registros, mas sim aquele que recupera tudo o que importa de um lugar, duma cidade, dum país quando está sós consigo mesmo, quando volta para o território do hábito e da normalidade, tempos depois das viagens que fez. Os textos estão organizados em capítulos temáticos. Num primeiro capítulo encontramos vinte e seis crônicas ligeiras que se passam em doze países diferentes: Itália; França; Grécia; Suiça; Turquia; Espanha; Japão; Egito; Estados Unidos; México; Canadá e Brasil. Tabucchi sabe ser generoso e também cruel. Rimos de sua ironia e avaliamos sua alegria com as coisas simples que descobre. Os três capítulos seguintes reúnem histórias e experiências surgidas na Índia (país que ele explora como um brinquedo novo, intuitivamente); na Austrália (numa abordagem mais cerebral, quase como num guia de viagens, objetivamente) e em Portugal (o mais pessoal e lírico conjunto de todo o livro, demonstrando os porquês de Portugal ter sido o país que adotou como segunda e fundamental pátria). No último capítulo estão reunidas histórias que envolvem leituras e/ou experiências de terceiros, onde ele faz crítica literária, reflete sobre a obra de autores que o estimularam, lembra de lugares que visitou também através dos livros. Há muitas menções ao Brasil e a brasileiros (ele fala não apenas de poetas como Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes e escritores como Mário de Andrade, Guimarães Rosa e Oswald de Andrade, mas também de Berta Ribeiro (uma etnóloga), de Cândido Rondon, de Aleijadinho). Ao contar suas viagens Tabucchi fala de seus livros mais conhecidos (Noturno indiano; Requiem; Anjo negro; Afirma Pereira), das palestras que fez em congressos acadêmicos, das idéias que desenvolveu ou ouviu em mesas de restaurantes. O jovem escritor e jornalista italiano Paolo Di Paolo assina uma espécie de entrevista, onde as perguntas são retiradas dos textos originais de Tabucchi, de sorte que, afinal, é ele próprio que desenvolve as questões que seus personagens fizeram. Se tivéssemos o talento de Tabucchi talvez seria num livro como esse que registraríamos aquelas experiências que acumulamos e que desaparecem, aí de nós, a cada dia. 
[início: 05/08/2015 - fim: 13/08/2015]
"Viajes y otros viajes", Antonio Tabucchi, tradução de Carlos Gumpert (edição de Paolo Di Paolo), Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #802), 1a. edição (2012), brochura 14x22 cm., 271 págs., ISBN: 978-84-339-7832-5 [edição original: Viaggi e altri viaggi (Milano: Giangiacomo Feltrinelli Editore) 2010]

quarta-feira, 3 de junho de 2015

requiem

Escrito originalmente em português, "Requiem" é um romance que impressiona mais pela forma que pela história que se narra. Tabucchi, num posfácio datado de 1998 e que está incluído no volume editado pela Cosac Naify, dá conta da gênese do livro, de como ele apareceu primeiro na forma de um sonho que teve com seu pai, já morto, e depois como escrita automática (em português) num bistrô onde almoçava, quando se lembra do que havia sonhado. A construção posterior do romance (que é bastante curto, compacto) é muito mais cerebral, esquemática, faz bom uso da técnica. A história se passa em Lisboa. Um homem, italiano, escritor, talvez o próprio Tabucchi, mas podemos imaginar que não, experimenta uma série de encontros amalucados num dia quente de julho, no verão europeu. A cada encontro, que também é um desvio, uma digressão, o protagonista estabelece com seus interlocutores momentos de reflexão, de discussão de temas filosóficos, de análise de seu passado, onde faz perguntas que só ele mesmo poderá responder. Assim como em seu "Noturno indiano" Tabucchi lista no início do livro os locais de uma série de encontros, em "Requiem" ele lista seus personagens, como numa peça teatral. Esses personagens, quase todos  gente simples da cidade (um taxista, um garçom, uma cigana, uma camareira, um cobrador de bonde, entre tantos outros) são românticos, acolhem o narrador/protagonista com carinho. Mas ele também fala com fantasmas de seu passado (um amigo, uma namorada, seu pai). O clima é mesmo de sonho e poesia, de transe e de imobilidade, uma história moderna das mil e uma noites, uma espécie de ajuste de contas com o pai, uma análise selvagem de sua morte. No encontro final do livro o sujeito está num jantar (com um outro escritor que só pode ser Fernando Pessoa ou seu fantasma), mas o leitor pode imaginar que esse encontro é apenas uma das histórias de um outro sujeito que o narrador encontrou na tarde daquele dia amalucado: um vendedor de histórias. É um livro gostoso de ler, no qual os enigmas se acumulam mas o leitor não se sente na obrigação de desvendá-los todos (se é que é possível alcançar compreensão total num livro de Tabucchi). O posfácio dá conta de toda a ambição do romance, entretanto o leitor pode prescindir dele sem prejuízos. Ainda tenho dois conjuntos de contos de Tabucchi para ler. Vamos em frente.
[início: 17/05/2015 - fim: 19/05/2015]
"Requiem: uma alucinação", Antonio Tabucchi, tradução de Wander Melo Miranda, São Paulo: editora CosacNaify, 1a. edição (2015), brochura 13x19 cm., 125 págs., ISBN: 978-85-405-0622-0 [edição original: Requiem (Lisboa: Quetzal Editores / Grupo Bertrand Círculo) 1991]

domingo, 17 de maio de 2015

noturno indiano

Nos romances de Antonio Tabucchi o leitor corre sempre o risco de se deixar iludir por aquilo que o autor apresenta em curtos prólogos (coisa de uma página, se tanto). Ele sempre propõe uma espécie de jogo autoral, de definição de quem é o narrador afinal de contas, mas sendo ele senhor e árbitro das regras e dos prêmios, sabe que sempre exercerá total e implacável controle do que oferece ao leitor. Seus livros sempre são curtos. No caso de "Noturno indiano" Tabucchi diz na nota que antecede o texto que ele (um A.T., que pode não ser Tabucchi, claro) também percorreu os caminhos de seu protagonista, os caminhos serpeantes do narrador da história que começaremos a ler, como se isso desse maior verossimilhança ao texto. Ele lista também os doze lugares da Índia que correspondem as doze noites vividas pelo protagonista naquele país e aos doze capítulos do livro que o leitor irá experimentar. Após a lista eis que surge um narrador dizendo estar em Bombain, na Índia, num táxi, rumo a um hotel onde imagina poder ter notícias de um amigo português chamado Xavier. Nesse hotel encontra uma prostituta que havia lhe enviado uma carta onde o alertava o quão doente Xavier estava. A sequência de eventos é vertiginosa, a cada dia o sujeito que procura Xavier se hospeda em um hotel ou pousada diferente ou embarca em num meio de transporte diferente (um trem ou ônibus), de Bombain a Madras, de Madras a Mangalore e daí a Goa (o antigo enclave português no continente indiano). O Xavier que ele procura parece se metamorfosear ao longo do livro (de doente a estudante de uma sociedade teosófica, asceta em um velho mosteiro, homem de negócios). Como os temas do livro são as questões de identidade, do duplo, do doppelgänger o narrador também passa por transformações importantes, afetado pelas informações fragmentárias e pistas que segue, pistas que recebe da prostituta que o recebe no primeiro capítulo, de um colega de viagem num trem, de um médico, de um monge, de um filósofo, de uma estelionatária, dos recepcionistas e garçons dos hotéis em que se hospeda, de um carteiro amalucado e, por fim, de uma fotógrafa com quem flerta, no último capítulo do livro. O que permanece obscuro no livro pode ser interpretado de várias maneiras, o que é revelado não é exatamente a mais original das soluções possíveis. Paciência. Gostei mais de "Afirma Pereira", mas "Noturno indiano" tem lá seu valor. E Vamos em frente. Vale.
[início: 03/05/2015 - fim: 05/05/2015]
"Noturno indiano", Antonio Tabucchi, tradução de Wander Melo Miranda, São Paulo: editora CosacNaify, 1a. edição (2012), brochura 13x19 cm., 94 págs., ISBN: 978-85-405-0227-7 [edição original: Notturno indiano (Milano: Feltrinelli editore) 1984]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

anjo negro

Após ter lido o bom "Afirma Pereira" decidi procurar outros livros de Antonio Tabucchi. Encontrei esse "Anjo negro" num garimpo por Porto Alegre, acompanhado pela feliz e quase diáfana Natália (como foi bom aquele dia de aventuras). Bueno. Nos seis contos reunidos neste livro um narrador conta algo sobre uma pessoa (ou cousa, ou situação) essencialmente má ou perversa. Talvez "L'angelo nero" seja em italiano uma metáfora para a depressão (como "Black dogs" o é em inglês). Não sei. São histórias algo fantásticas, inquietantes, onde pouco importa seu desfecho quando comparadas com o clima etéreo e intimista criado para ser o habitat dos personagens inventados por Tabucchi. Em "Vozes trazidas por alguma coisa, impossível dizer o quê" um sujeito ouve frases que pela sincronicidade com seus pensamentos o faz perseguir a idéia louca de que um amigo seu - já morto há muitos anos - o espera no alto de uma torre e lá lhe entregará os segredos de como escrever um livro. Em "Noite, mar ou distância" um grupo de jovens participam de uma tertúlia literária com um escritor mais velho. Ao saírem do lugar são abordados por agentes da polícia secreta (de Salazar, no Portugal de 1969) e passam a ser agredidos, humilhados e ameaçados. Uma das garotas agredidas volta para a casa do sujeito. Em "Boi, boi, boi, boi da cara preta..." uma jovem escritora rouba um livro de um sujeito e ganha alguma fama. Ao ir receber um prêmio literário ela flerta com um velho senhor num trem, uma espécie de anjo vingador. Em "O bater das asas de uma borboleta em Nova York pode provocar um tufão em Pequim?" um sujeito é interrogado por um policial que sabe todos os detalhes de um crime que cometeu há muitos anos. O policial parece mais interessado em fazer com que o sujeito sinta culpa e se arrependa de seu crime do que efetivamente condená-lo. Em "A truta que pula entre as pedras lembra-me da sua vida" um velho escritor devaneia sobre duas mulheres com quem se envolveu quarenta anos antes. Ao ser acordado para o jantar e sair do transe propõe a uma jovem escritora - que é a única pessoa que o visita - entregar-lhe suas poesias inéditas para que sejam publicadas aos poucos, por vários anos após sua morte, como uma forma de manter vivo o interesse do público por sua obra. Na última história (e que Tabucchi afirma numa curta nota ter sido o que restou de um projeto baldado de um romance) um sujeito lembra dos atos algo perversos que pratica em sua infância: caçar de ratos, esconder coisas, roubar a correspondência dos vizinhos, ouvir conversas que a mãe conta aos outros. Lembra também das cartas que escrevia para seu herói infantil, o capitão Nemo, personagem de Júlio Verne, como se essas cartas o mantivessem congelado naquela idade, naquele mundo. Interessante. 
[início: 14/12/2014 - fim: 16/12/2014]
"Anjo negro", Antonio Tabucchi, tradução de Mário Fondelli, Rio de Janeiro: editora Rocco (1a. edição) 1994, brochura 14x21 cm., 145 págs., ISBN: 85-325-0466-3 [edição original: L'angelo nero (Milano: Feltrinelli) 1991]

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

afirma pereira

Afirma Pereira é um romance muito bom. O narrador de Tabucchi começa o livro com a descrição de como um personagem surgiu como um fantasma em sua vida e fez-lhe lembrar de um jornalista português exilado em Paris que ele havia conhecido nos anos 1940. O narrador passa a contar o que soube de sua história. Pereira é um jornalista de meia idade, viúvo, católico, algo acima do peso, experimentado repórter policial, recém contratado por um pequeno jornal vespertino de Lisboa como responsável pelo caderno de cultura. Pereira traduz e edita sobretudo contos franceses. A história se passa no verão de 1938. Os dias são da ditadura salazarista, às vésperas da segunda grande guerra. Na vizinha Espanha a guerra civil está quase no fim, com as forças do ditador Franco já sobrepujando as do governo republicano com o apoio explícito dos governos italiano e alemão (além do apoio discreto do ditador português). Pereira é um jornalista que parece ser sempre o último a saber das coisas. As informações que tem sempre são de segunda mão, recebidas de um garçom, de seus médicos, de seu padre confessor e amigo, de seu chefe na redação, de uma secretária (que ele sabe trabalhar para a polícia política de seu país). Entusiasmado com um texto sobre a morte publicado em uma revista ele resolve convidar seu autor, um jovem chamado Monteiro Rossi, a escrever obituários de escritores famosos para seu caderno de cultura. Os necrológicos que Rossi escreve são sempre panfletários, libertários, algo impossível de ser editado num país onde a censura prévia da imprensa é norma. Pereira descarta as contribuições de Rossi, mas, algo paternal, continua a pagar pelos trabalhos e a dar conselhos ao jovem. Pereira lentamente percebe que Rossi deve estar envolvido com algum tipo de atividade clandestina contrária ao regime. Esgotado fisicamente Pereira resolve passar alguns dias em uma clínica de repouso junto ao mar. Lá ele conhece um jovem médico, de formação francesa, com quem discute uma provável origem psicológica de sua exaustão. Pereira volta a Lisboa e reencontra o agora foragido Rossi, acolhendo-o em seu apartamento. Contar mais sobre o livro é estragar o prazer de um eventual leitor. É mesmo uma pequena jóia, repleto de ironias e metáforas. Trata-se de um livro que pode ser transportado para qualquer tempo e lugar. A corrupta Itália de Berlusconi parece merecer muitas das ironias, já que Tabucchi publica seu livro em 1994, nos tempos de ascensão de Berlusconi como primeiro-ministro italiano. É um livro que nos faz lembrar do valor intrínseco da democracia e liberdade, que nos faz resistir, nos ensina a dizer não, simplesmente não, a qualquer tentativa de dominação, de controle social, censura ou opressão. Nos dias que correm muitos brasileiros parecem estar seduzidos com a idéia de viabilizar regimes de exceção, tanto de esquerda quanto de direita, mas esquecem, tolos e canalhas que são, que a tortura e a morte nunca escolhem ideologias, destroem sim tudo e a todos que tocam.
[início: 06/11/2014 - fim: 05/12/2014]
"Afirma Pereira: um testemunho", Antonio Tabucchi, tradução de Roberta Barni, São Paulo: editora CosacNaify, 1a. edição (2013), brochura 13x19 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-405-0517-9 [edição original: Sostiene Pereira (Milano: Feltrinelli editore) 1994]