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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

a filosofia da adúltera

De Luiz Felipe Pondé já havia lido "Contra um mundo melhor: Ensaios do afeto", livro marcadamente autobiográfico, interessante e poético na medida certa. Esse "A Filosofia da adúltera: Ensaios selvagens" é dedicado a reflexões sobre o pensamento de Nelson Rodrigues. Não se trata de uma análise crítica e/ou literária de toda a obra de Nelson, mas sim reflexões pontuais sobre o uso dramatúrgico da mulher adúltera em sua obra, bem como dos desdobramentos deste (digamos assim) arquétipo, na sociedade brasileira contemporânea. Pondé fala sobre democracia e  ciências sociais, sobre política e educação, sobre mídia e cultura, sobre feminismo e sexo. Enfim, seu livro se equilibra entre o jornalismo de costumes e a filosofia, usando a mulher adúltera como representação da condição humana, da escravidão mental, do tédio da repetição, da tristeza da mentira social. Trata-se de um livro pequeno, formado por capítulos curtos, que se não são aforísticos, ao menos tendem a clareza e a concisão. O livro inclui várias fotografias de mulheres em poses fetichistas, sensuais, típicas dos anos 1950 ou 1960, uma provocação explícita às convenções do mundo politicamente correto. Pondé pergunta menos do que afirma, do que responde. Ele não se preocupa em convencer ou justificar completamente para o leitor as suas verdades (ou as verdades que parece extrair dos livros de Nelson Rodrigues). De qualquer forma ele alcança fazer o leitor pensar sobre temas que por demasiado óbvios nos escapam na correria dos dias. Num país como o Brasil, onde praticamente ninguém pensa com independência, preferindo repetir mecanicamente idéias prontas dos outros (de políticos, jornalistas, professores, religiosos e outros farsantes) pessoas como Pondé são normalmente classificadas como politicamente incorretas, quando não achincalhadas com dureza. Não é o meu caso. Gosto de seu estilo. Ele não é hipócrita ou tenta seduzir o leitor com argumentos dúbios. Tampouco tem medo em nos lembrar que tudo o que está ou não institucionalizado no Brasil, das regras de conduta que aceitamos aos juízos de valor que praticamos, certamente irá se esgarçar, piorar, destruir-se até, e muito, muito mesmo, antes de melhorar. Diminuir um tanto o pântano em que vivemos deveria ser a ambição genuína dos jovens brasileiros, caso eles tivessem interesse em viver no futuro em um país menos patético, tosco e ridículo como o Brasil é hoje, mas, paciência, o desejo, até esse meu, é sempre triste.
[início: 16/11/13 - fim: 19/11/13]
"A filosofia da adúltera: Ensaios selvagens", Luiz Felipe Pondé, São Paulo: editora LeYa, 1a. edição (2013), brochura 16x22,5 cm., 190 págs., ISBN: 978-85-8044-862-7

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

contra um mundo melhor

Nos dois últimos dias do ano passado li este "Contra um mundo melhor", de Luiz Felipe Pondé, divertindo-me à beça. Enquanto cozinhava e enfrentava o fogo vez ou outra até ensaiva umas boas gargalhadas, pois o sujeito sabe criar argumentos fortes que não deixam a ironia e o sarcasmo de lado. Já tinha lido uma ou outra crônica dele na Folha de São Paulo, mas só agora, lendo estes "Ensaios do afeto", como ele mesmo chama estes textos, alcancei apreciar de fato seu trabalho. Que sujeito. Poético e erudito na medida certa. Ele fala da relação entre homens e mulheres; da vida em sociedade; da universidade brasileira; do judaísmo e da bíblia. Seus argumentos partem de seu cotidiano, de sua biografia, mas alcançam aquele território franco do universalismo. No fundo ele apresenta questões que incomodam o leitor e o levam a pensar. Nem sempre é isto o que um leitor acomodado e apático quer. Sua descrição de encontros e jantares "inteligentes" é impagável; sua crítica ao trabalho acadêmico frouxo, que se traveste de moderno, de pós-moderno, repleto de rótulos vazios, é muito pertinente; a forma como ele execra o provincianismo e a condescêndencia, expondo a hipocrisia das relações sociais é muito apropriada. O livro inclui muitas fotografias que criam uma atmosfera de sonho, gostei delas. Mas como em todo texto marcadamente confecional não sabemos se o que o autor conta representa um apenas um recorte de sua vida, reflexões que vão se modificar, se transformar, ou é algo perene, consolidado (afinal de contas cada um deve construir suas próprias idéias a partir do que está exposto por Pondé). Ao final do livro o leitor deixa o autor em um deserto, refletindo sobre possíveis religiosidades, sobre seu titubeante gnosticismo. Apesar de honesto (o livro é honesto como poucos) isto me parece algo artificial, algo pernóstico, pois lembra o isolamento de um Moisés, de um são Jerônimo, de um Buda (a vaidade é mesmo sempre onipotente nos homens). Mas isto não é exatamente um problema. "Contra um mundo melhor" é um livro que agradou-me como poucos, como só alguns livros o fazem, de tempos em tempos. [início 30/12/2010 - fim 31/12/2010]
"Contra um mundo melhor: Ensaios do afeto", Luiz Felipe Pondé, São Paulo: editora Leya, 1a. edição (2010), brochura 16x23 cm, 216 págs. ISBN: 978-85-62936-69-2