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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

valerian 3

Esse é o terceiro volume das aventuras de Valerian e Laureline, invenção genial de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières. Já contei algo aqui sobre os dois primeiros álbuns, bem editados pela Editora Sesi-SP (volume #1 e volume #2). As três histórias reunidas neste terceiro álbum, a exemplo do que se vê nos anteriores, são icônicas dos tempos de contracultura e transformações sociais dos anos 1970. Em "O embaixador das sombras", publicado originalmente em 1975, o leitor acompanha uma destemida Laureline, comprometida em resgatar Valerian, que foi sequestrado por um povo estranho, antiquíssimo e sábio, e cuja função no universo é conter a arrogância natural e despotismo dos terráqueos. Há uma miríade de curiosos seres alienígenas na trama, habitantes de uma espécie de ONU galática, lugar onde são debatidos temas de interesse tão complexos e contraditórios quanto aqueles que povoam a nossa, real. Christin e Mézières são otimistas, fazem seus personagens lutar pelo bem comum e a livre determinação dos povos da galáxia. Em "Nas terras falsificadas", de 1977, Laureline é novamente protagonista frente a um empalidecido Valerian (já existia empoderamento feminino nos anos 1970, esqueceram de avisar para as feminazis do século XXI). Acompanhamos o diletantismo de uma pesquisadora terrestre que usa Valerian para emular infinitas alternativas históricas para os séculos XIX e XX, nas quais clones dele repetidamente morrem. Trata-se de uma espécie de pesquisa acadêmica estéril e irrelevante. A história explicita críticas às universidades, ao afastamento entre o mundo acadêmico e o mundo real, das pessoas comuns, que são afetadas por descobertas científicas e processos de engenharia social engendrados por pesquisadores que mal conhecem as necessidades verdadeiras de seus concidadãos. Já na terceira das histórias deste álbum, "Os heróis do equinócio", o tema principal é o envelhecimento e a educação dos filhos. Valerian junta-se a três outros alienígenas numa competição que visa escolher quem melhor fecundará um planeta, repovoando-o. A história metaforicamente contrasta três alternativas de organização social, igualmente perigosas e perversas: o fascismo, o comunismo e a alienação pelas drogas, a fuga da realidade, a vida de contemplação. Muito interessante. Espero mesmo que a SESI-SP continue editando estas curiosas histórias. Vale! 
Registro #1324 (graphic novel #71) 
"Valerian Integral (volume #3)", Pierre Christin, Jean-Claude Mézières, cores de Évelyne Tranlé, tradução de Fernando Paz, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2018), brochura 22,5x29 cm., 172 págs., ISBN: 978-85-504-0668-8[edição original: Valérian Intégrale - tome 3 (Paris: Dargaud) 1978]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

valerian 2

Nesse segundo volume das aventuras de Valerian e Laureline encontramos três histórias que são mesmo fruto dos anos 1970. Nelas são discutidos temas caros àquela época, assuntos polêmicos que começaram a ser debatidos também pelo grande público, como o de cuidado com meio ambiente, a busca por fontes alternativas de energia, a igualdade de gênero, as relações entre ideologia e poder, o caminho dos excessos com drogas ilícitas. Pierre Christin e Jean-Claude Mézières desenvolvem três histórias curiosas, que se não são tão contundentes quanto as três iniciais (volume #1) tem lá seu valor. Em "O país sem estrela", de 1972, somos apresentados a Ukbar, um bizarro mundo dividido entre homens e mulheres, habitantes de duas cidades-estado, nas quais os líderes escravizam sempre o gênero oposto e fazem uso de uma mesma fonte de energia em suas seculares contendas e guerras. Uma das funções de Velerian e Laureline, como agentes do Império Terrestre, é garantir o fluxo contínuo de matérias primas para Galaxity, sua capital. Para alcançar esse objetivo eles intervêm na disputa entre os dois povos. Em "Bem-vindos a Alflolol", também de 1972, repete o tema de exploração dos recursos naturais de um planeta. Valerian e Laulerine tomam partido dos habitantes de Alflolol, um povo alegre e nômade, que nem tinham ciência que seu planeta natal estava sendo explorado pelos terráqueos, pois suas viagens de férias duravam quatro séculos. Em "Os pássaros do mestre", de 1973, o tom é mais sombrio. Mézières e Christin provocam reflexões sobre a manipulação religiosa e política que populações inteiras podem experimentar, tornando-se escravos de um "guia genial", de um "mestre". Valerian e Laulerine ajudam a população a organizar uma resistência, uma revolta contra essa sociedade opressiva, libertando-os. Mesmo quando aborda temas complexos o tom é sempre bem humorado, de tal forma que são sutis, porém efetivas, a crítica social, a análise política e as reflexões sociológicas. As ilustrações são poderosas, monumentais. Assim como no volume anterior, neste encontramos uma entrevista recente com os autores, uma curta biografia deles e um posfácio onde se conta algo sobre a influência de Mézières e Christin nas gerações seguintes de cartunistas franceses. Vamos a ver se o SESI-SP continuará a produzir esses volumes (a produção completa em francês envolve mais de vinte álbuns). Logo veremos. Vale! 
Registro #1258 (hq's, cartuns e mangás #68)
[início: 25/10/2017 - fim: 22/11/2017]
"Valerian Integral (volume #2)", Pierre Christin, Jean-Claude Mézières, cores de Évelyne Tranlé, tradução de Fernando Paz, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 22,5x29 cm., 172 págs., ISBN: 978-85-504-0413-64[edição original: Valérian Intégrale - tome 2 (Paris: Dargaud) 1973]

terça-feira, 7 de novembro de 2017

valerian

"Valerian" é uma história em quadrinhos que começou a ser publicada no final dos anos 1960, na icônica revista francesa Pilote. Desde então a equipe de criação dessas histórias bem humoradas de ficção científica, coordenada por Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, já produziu mais de vinte álbuns. Recentemente uma das histórias mais antigas, "O império de mil planetas", foi adaptado para o cinema, dirigido por Luc Bresson. Aproveitando o momento do lançamento dessa versão em filme a editora SESI-SP lançou dois volumes caprichados da edição integral das histórias de Valerian e sua companheira de aventuras Laureline. Nesse primeiro volume encontramos três histórias independentes: "Os maus sonhos", de 1967; "A cidade das águas movediças", de 1970 e "O império dos mil planetas", de 1971. O enredo das histórias segue um padrão narrativo. Valerian é um agente do espaço-tempo do século XXVIII, cujas missões envolvem basicamente evitar distorções na história da civilização, explorar mundos que possam fornecer matéria prima e energia, antecipar acontecimentos que possam prejudicar a idílica sociedade de seu tempo (na qual praticamente ninguém trabalha, usufruindo das benesses de um estado de bem estar social absoluto). O impacto visual do volume é mesmo algo poderoso. Certamente George Lucas pirateou um bocado de ideias e até enquadramentos inteiros que já estavam ali nas histórias de Christin e Mézières. Trata-se de experimentos de ficção científica, mas o foco é sempre no comportamento moral, no questionamento das ações dos protagonistas. Divertido mesmo. Por uns momentos voltei àqueles tardes vagabundas, onde o tempo parecia cansado e lento, que alternava a leitura de meus preciosos gibis com a dos livros do Monteiro Lobato, que recortava tirinhas dos jornais que meu pai sempre comprava (aos domingos havia tirinhas coloridas, mais aguardadas e disputadas). Cousas boas. Vale!
Registro #1235 (hq's, cartuns e mangás #66)
[início: 25/10/2017 - fim: 27/10/2017]
"Valerian Integral (volume #1)", Pierre Christin, Jean-Claude Mézières, cores de Évelyne Tranlé, tradução de Fernando Paz, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 22,5x29 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-504-0279-6 [edição original: Valérian Intégrale - tome 1 (Paris: Dargaud) 1970]