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segunda-feira, 16 de março de 2020

a barata

Neste pequeno conto Ian McEwan nos oferece uma terrível fantasia, uma sátira contemporânea, uma narrativa irônica, uma descrição  alegórica dos desatinos aos quais se aferram quase sempre os homo sapiens, por mais educados, socialmente homogêneos e economicamente abastados que sejam. Invertendo a conhecida fórmula de Kafka, McEwan inventa uma barata cuja mente se apodera do corpo de um primeiro ministro inglês. E, a partir deste mote, oferece ao leitor imaginar um dos infinitos mundos possíveis decorrentes de nossas escolhas cotidianas (no caso específico dele, a decisão inglesa de romper com o Mercado Comum Europeu, o Brexit). Esse conto foi publicado antes que McEwan soubesse do desfecho das eleições inglesas de dezembro de 2019, eleições que confirmaram a maior vitória do partido conservador em sua história, e que garantiu a Boris Johnson, o atual primeiro ministro inglês, ampla maioria parlamentar, caminho fácil para oficializar a saída definitiva do Reino Unido da união europeia. Caso soubesse do real tamanho da derrota trabalhista McEwan provavelmente seria ainda mais sarcástico e cruel em seu livro, sobretudo com a personagem que representa o tolo Jeremy Corbyn (já sabemos que a realidade sempre será muitas vezes mais surpreendente que qualquer invenção literária, não nos iludamos). Não há muito sobre o que falar deste livro sem roubar o prazer individual e solitário da leitura. McEwan povoa seu texto com críticas ao populismo e a ignorância do eleitorado inglês, fala num tom amargo das regras de conduta e hábitos dos ingleses, ilustra nossa especial vocação para destruição e morte, pulsão que quase sempre nos domina, nos define. Dificilmente um leitor pouco familiarizado com o Brexit e as circunstâncias que regram as eleições gerais na Inglaterra poderá aproveitar adequadamente este livro, mas quem se importa. Divertir-me à beça com as amalucadas associações de Ian McEwan, mas a vida segue, as baratas estão em todas as partes e certamente sobreviverão aos homo sapiens. Vale! 
Registro #1501 (contos #171) 
[início: 05/03/2019 - fim: 07/03/2019]
"A barata", Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 102 págs., ISBN: 978-85-359-3310-9 [edição original: The Cockroach (New York: Anchor Books Knopf Doubleday Publishing Group) 2019]

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

blues do fim dos tempos

Esse curto ensaio foi preparado originalmente como uma palestra na Stanford University, em 2007. McEwan parte da invenção da fotografia, que congela imagens e tempo desde meados do século XIX, para refletir exatamente sobre o fluir do tempo, sobre nossa mortalidade, sobre o porvir, o futuro, futuro de cada um de nós e de toda a humanidade. Calcado sobretudo num livro de Norman Cohn, The Pursuit of the Millennium, McEwan discute o apocalipse cristão, o milenarismo e sobre as inúmeras seitas que ao longo dos séculos apregoam a iminência do final dos tempos, da morte completa e extinção dos homo sapiens. Trata-se de um ensaio produzido por alguém imune à fé religiosa, da ideia de exista um deus que povoe os céus e nos vigie, controle ou puna. Sua palestra basicamente oferece à audiência, sugere, talvez seja o termo mais apropriado, que não há evidência em nosso passado que possa nos fazer crer em um futuro predeterminado, fixo, previamente decidido por alguma deidade e descrito em algum livro santo ou por alguma revelação mística, que indivíduos possam ter experimentado. Os homens deveriam para ele, emprestando as palavras do biólogo e entomologista americano, Edward Osborne Wilson, conhecido por seu trabalho com ecologia, evolução e sociobiologia, divorciar-se da religião, pois um homem sozinho não consegue produzir um sistema moral de valores e tampouco competir com a exuberante descrição dos apocalipses e finais do tempo engendrados por poetas e artistas visuais  vinculados a todos os grupamentos humanos que desenvolveram sistemas mitológicos sofisticados, porém simples de serem apropriados, entendidos, pelo mais limitado dos fiéis. Morrer é fácil, viver é difícil. Vamos em frente meu caro McEwan, não será desta vez que o milenarismo será esquecido pelos pobres homo sapiens deste periférico e frio planeta. Vale!
Registro #1493 (ensaio #267) 
[início 20/01/2020 - fim: 22/01/2020] 
"Blues do fim dos tempos", Ian McEwan, tradução de André Bezamat, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Biblioteca Antagonista #29), 1a. edição (2019), brochura 12x18 cm., 164 págs., ISBN: 978-85-92649-53-1 [edição original: End of The World Blues (Stanford University) 2007]

quinta-feira, 12 de julho de 2018

meu livro violeta

Em qualquer lugar do mundo há edições que são meros caça-níqueis, volumes produzidos para atacar o leitor consumidor quando entra inadvertidamente em uma livraria. É esse o caso de "Meu livro violeta", de Ian McEwan. Todavia, pelo menos desta vez, trata-se de um caça-níqueis com certo pedigree. Paciência. Mas, para o leitor incerto e menos perdulário com seus tostões, sugiro que leia esse conto completo na The New Yorker (foi publicado originalmente no volume de 28 de março de 2016, aqui segue o link) e estamos conversados. O volume incluí também o libreto de uma ópera em dois atos, que dura aproximadamente 140 minutos, intitulada "For You", que foi composta por Michael Berkeley e produzida originalmente em 2008 (o leitor pode encontrar vários trechos da composição no site oficial de Berkeley, segue aqui o link). As duas narrativas de McEwan, conto e libreto, compartilham os mesmos temas, um mesmo mundo de ideias: ascensão e queda, tensão sexual, a fronteira turva entre admiração e inveja. Em "Meu livro violeta" acompanhamos uma espécie de confissão, a descrição de como um escritor rouba o livro e a fama de um outro, um amigo de juventude e que inicialmente fez muito mais sucesso que ele. McEwan faz chamar-se Sparrow o escritor pirata e Jocelyn o escritor pirateado, piadas fáceis. A trama lembrou-me imediatamente um magnífico filme, protagonizado por Terence Stamp, "Tiré à part", de 1996, dirigido por Bernard Rapp e baseado em uma história original de Jean-Jacques Fiechter. Já "For You" conta a história de um mercurial e lúbrico maestro e compositor, Charles, enredado em uma trama de sexo, amor e morte da qual participam sua mulher, Antonia, o médico e amante dela, Simon, sua governanta, Maria, e seu assistente, Robin. A leitura do libreto é fácil, mas como não reproduzimos na leitura silenciosa os sentimentos e epifanias que os intervalos, ritmo e clima da apresentação da Ópera são capazes de provocar num espectador, perdemos algo da experiência. Há símbolos, associações e provocações suficientes para alegrar o leitor curioso. E por fim, há um curto vídeo no YouTube onde ambos, McEwan e Berkeley, falam do projeto e analisam seu resultado: clica aqui! Investi mais tempo procurando informações sobre essas duas histórias que efetivamente as lendo. Paciência. Segue o baile. Vale! 
Registro #1287 (contos #149) 
[início: 07/07/2018 - fim: 08/07/2018]
"Meu livro violeta", Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2018), capa-dura 12,5x18 cm., 127 págs., ISBN: 978-85-359-3123-5 [edição original: My Purple Scented Novel (New York: Vintage / Penguin Random House Group) 2016; For Your (New York: 2008]

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

enclausurado

Em "Enclausurado" encontramos um bebê já no fim de seu terceiro trimestre dentro da barriga de sua mãe tentando entender os sucessos que o esperam após seu nascimento. Qualquer leitor das "Memórias póstumas de Brás Cubas" aceita o jogo proposto, o de um narrador improvável, que fala de um lugar e tempo ao qual jamais teríamos acesso consciente. Ian McEwan faz seu bebê refletir sobre as consequências dos atos de seu pai (imprevidente), sua mãe (perversa) e do idiota tio e/ou padrasto (o irmão de seu pai e amante de sua mãe). O feto em gestação acompanha os desdobramentos do livro, como se estivesse vendo o filme em tempo real de sua vida pré-parto. Já se educa, ouvindo documentários de televisão que a mãe assiste. Consegue interferir na trama dando alguns chutes na barriga da mãe (mas sabe que não pode exagerar, pois o elemento mais frágil daquele corpo disforme sempre será ele). Os paralelos com o Hamlet de Shakespeare são óbvios e explicitados ao longo de todo o livro. Claro, há papéis trocados, alegorias cruzadas, um jogo de McEwan com o leitor. Talvez por ser filho de seu tempo (esse terrível final dos anos 2010) o loquaz feto de McEwan, justamente ao nascer e ver os olhos verdes da mãe, afirma: "o resto é caos"; enquanto o indeciso Hamlet termina sua jornada lamentado-se com Horatio dizendo: "o resto é silêncio". Por mais habilidades estilísticas que McEwan tenha, por melhor que seja o controle de seu modus narrativo, o que ele nos oferece é apenas um Hamlet travestido em um curioso e bom romance policial. As cenas de sexo, sempre um ponto alto em seus demais livros, continuam realmente boas. Os demais mimos (comentários sobre vinhos, especulação imobiliária, política europeia contemporânea, poesia,  tráfego urbano, estágios de uma gravidez e sexo) fazem parte daquilo que um bom manual de técnicas narrativas costuma ensinar que um escritor neófito deveria incluir sempre em seus livros, para dar a eles mais estofo. Nada fora do convencional. Trata-se de um romance bem escrito, que tem umas passagens interessantes, oferece um jogo bacana (que um leitor brasileiro já conhece muito bem, pois agrada sua memória afetiva), mas para mim está longe de arrebatar mesmo o mais fiel do entusiastas de Ian McEwan (a fidelidade de um leitor a seus gurus literários é sempre impressionante, mas convenhamos, deveria haver limites à toda forma de escravidão literária, notadamente as voluntárias). Talvez "Enclausurado" funcione melhor como uma peça (como aquela peça dentro da peça que Shakespeare faz Hamlet montar, para o aborrecimento de sua mãe e padrasto). Isso talvez um dia veremos. Vale.
[início: 05/11/2016 - fim: 23/11/2016]
"Enclausurado", Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 200 págs., ISBN: 978-85-359-2801-3 [edição original: Nutshell (New York: Nan A. Talese (Knopf Doubleday / Penguin Random House) 2016]

quarta-feira, 25 de março de 2015

a balada de adam henry

Já li um bocado de livros de Ian McEwan (os registros podem ser encontrados aqui). Me parece que esse último que li, "A balada de Adam Henry" é de longe o menos interessante deles. Em algumas passagens pensei estar lendo uma versão moderna de "O pequeno príncipe" e noutras uma vulgarização - quase um plágio - daquele conto fascinante de Joyce incluído no Dublinenses: "The dead". Vamos a ver. O livro é bem escrito, claro, tem passagens realmente boas e apresenta um dilema moral interessante, mas no final tudo parece artificial demais, esquemático demais, aborrecido demais, envelhecido demais. O tema geral do livro é realmente contemporâneo e importante, já que se trata de uma discussão sobre as fronteiras de atuação da ciência e da força do estado (das leis), em contraposição ao pensamento mágico (ou outras formas de conhecimento, digamos assim) e o direito a privacidade e/ou crença de qualquer indivíduo. Enfim, na trama do livro a Fiona Maye, uma atarefada e eficiente juíza de uma alta corte do sistema judiciário inglês, cabe o papel de interpretar a lei no caso de um jovem não emancipado que precisa forçosamente receber uma transfusão de sangue e cujos pais se recusam a autorizar tal procedimento por conta de suas convicções religiosas. A juíza decide pela autorização (e obviamente salva a vida do rapaz) mas num processo clássico de transferência o rapaz cobra da juíza um relacionamento contínuo, uma troca, como se ela fosse a partir daquela decisão responsável para sempre por seu renascimento. O livro inclui várias passagens onde diferentes processos jurídicos e demandas são decididas pela juíza (o código de leis inglês segue um procedimento bastante diferente do brasileiro, portanto soa estranho à nossa experiência o ritmo e a sequência lógica das decisões da juíza). Em paralelo às muitas questões jurídicas que a protagonista da história precisa resolver (sobretudo a principal, que dá estrutura ao livro) o leitor é apresentado as dificuldades da protagonista para manter um relacionamento afetivo, continuar com sua paixão pela música e planejar adequadamente seu futuro. Acho que James Joyce consegue apresentar em "The Dead" o mesmo dilema experimentado por Fiona Maye com mais força e sutileza que Ian Macwen alcançou fazer, mas claro, trata-se de uma covardia minha esse tipo de associação. Vamos em frente. É tempo.
[início: 09/03/2015 - fim: 11/02/2015]
"A balada de Adam Henry", Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 196 págs., ISBN: 978-85-359-2513-5 [edição original: The Children Act (New York: Nan A. Talese (Knopf Doubleday / Random House Group)

sábado, 30 de março de 2013

serena

Publicado em meados de 2012, "Serena" é o romance mais recente de Ian McEwan. Já li um bocado de coisas dele (os registros podem ser encontrados aqui). Confesso que gosto particularmente dos romances e contos mais antigos, principalmente "O jardim de cimento" e "Primeiro amor, últimos ritos (textos que lhe valeram imediato reconhecimento e a alcunha de Ian "macabro", por serem sombrios, violentos, agressivos). "Serena" não tem nada de sombrio, trata-se antes de uma história de amor, ainda que algo disfarçada (uma versão feminina de "O inocente", um outro dos livros antigos dele, outra imersão no universo das histórias de espionagem dos tempos de guerra fria). Ainda há uma outra diferença fundamental entre eles: "Serena" é produto de um escritor que domina muito melhor seus recursos, que faz melhor uso de procedimentos metaliterários, que sabe controlar aquilo que oferece ao leitor (e com isso torna o livro um tanto mais interessante que a banalidade do tema pode de fato, e intrinsicamente, oferecer). A protagonista da história é Serena Frome, que conta acontecimentos de sua vida quarenta anos atrás, quando era uma típica garota inglesa do início da década de 1970, época de crises financeiras e políticas, dos conflitos mais sangrentos entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte (e também os anos que antecedem a guerra do Yon Kipur e a primeira grande crise de abastecimento de petróleo). Após formar-se sem muitos méritos na universidade ela se envolve com um sujeito mais velho (que ficaremos sabendo depois tratar-se de alguém que vazava segredos aos russos) e é recrutada pelo Serviço Secreto Britânico. Esse, com poucos recursos, desaparelhado, uma sombra de seu congênere norte-americano, envolve a garota em um projeto obviamente condenado ao fracasso: seduzir um promissor jovem escritor para que ele - sem o saber - seja subsidiado pelo governo, escreva livros "anti-comunistas", favoráveis às políticas britãnicas daquela época e, com isso, influencie a opinião pública. Serena não é exatamente talhada para o ofício e acaba se apaixonando (antes pelos contos e logo pelo autor dos contos, o tal jovem escritor, Tom Healy). O fracasso do projeto é fácil de explicar. Qualquer sujeito que tenha lido um tanto de marxismo sabe como o aburguesamento de parte das classes proletárias é algo intrínsico na lógica do capitalismo, já que o arrivismo sempre faz com que o sujeito renegue - ou reinvente - seus projetos e sonhos de juventude. E é isso que acontece com Tom e Serena, que passam a viver uma vida de prazeres, hedonista, às custas do erário público. McEwan inclui longas descrições dos contos de Healy (talvez 10% de todo o livro) que são terrivelmente tediosas (mesmo me parecendo remeter exatamente aos primeiros contos do próprio McEwan). Em "Serena" McEwan fala de mundos literários possíveis, de carreiras literárias possíveis, como aquela de um escritor mediano que desloca suas histórias para temas que justificam e explicam as escolhas morais que faz após alcançar o sucesso inicial, ou a de um escritor forte que entende a armadilha em que se meteu e a inverte, transformando-a em uma ficção poderosa, ou talvez, numa terceira de muitas possibilidades, talvez a dele próprio, que afinal de contas nunca deve ter encontrado uma espiã/musa inspiradora como Serena em sua vida, mas que construiu uma carreira de sucessos. Sem seus registros pós-modernos o livro é de uma chatice dos diabos. Na história que se conta, após muito sexo e mais que melosas cenas de amor, chegamos a um desfecho e descobrimos o truque que acaba por explicar a existência do livro que acabamos de ler (que obviamente não posso detalhar ainda mais aqui, por mais canalha que acabem sendo estes meus registros). Bobagem. "Serena" é apenas um livro apenas mediano. Paciência.
[início: 17/03/2013 - fim: 28/03/2013]
"Serena", Ian McEwan, tradução de Caetano W. Galindo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm., 382 págs., ISBN: 978-85-359-2121-2 [edição original: Sweet Tooth (London: Jonathan Cape) 2012]

segunda-feira, 14 de maio de 2012

entre lençóis

Todos os contos de Ian McEwan foram publicados, em um único volume, em 1995 (The short stories, London: Johatahn Cape, 1995). Eles já haviam sido publicados separadamente, em 1972 e 1978. A primeira série (First love, Last rites) li em uma tradução espanhola, há dois anos. A segunda série (In between the sheets) só encontrei já incluída no volume dos contos completos dele, em uma boa edição da Rocco, de 1998. São sete histórias, muito inventivas, onde há quase sempre tensão sexual entre os personagens e aspectos da produção ficcional, do ofício do escritor (isso fica subentendido no título original - between the sheets, donde pode-se inferir tanto as delícias de se estar entre lençóis quanto a reflexão sobre o que está entre folhas de papel. Em uma das histórias um sujeito infecta suas duas amantes com uma doença venérea e experimenta a vingança delas; noutra um macaco conta os dias monótonos de sua dona, uma escritora em crise, incapaz de escrever um segundo romance, após o sucesso do primeiro; na terceira história McEwan inventa um mundo pós-apocalíptico, onde um sujeito tenta manter alguma rotina com sua filha pequena e sua amante; na quarta história, uma fantasia curiosa, um sujeito fica progressivamente louco, apaixonado por um manequim; na quinta história um escritor separado da mulher tenta se aproximar da filha adolescente e fica intrigado com a melhor amiga dela, uma anã sexualmente poderosa; na sexta história um sujeito sonha/rememora fragmentos de sua vida conjugal com a mulher e a vida afetiva com os filhos; na última um escritor inglês, em férias nas praias da Califórnia, encontra excêntricos, experimenta o ritmo frenético de seus amigos locais e reflete sobre as diferenças entre ingleses e americanos, num conto realmente impressionante. Todas as histórias ficam no limite do fantástico (e do grotesco). Há um clima de sonho nas histórias, onde há quase sempre confronto entre o novo e o velho, o mundo das crianças e dos adultos. McEwan é irônico, abusa na análise psicológica dos personagens que inventa, provoca o leitor com o inusitado de suas histórias, e acaba por nos convencer da hiper-realidade que nos apresenta. Realmente muito bom esse escritor. [início 05/05/2012 - fim 10/05/2012]
"Entre lençóis", Ian McEwan, tradução de Roberto Grey, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (1998), brochura 14x21 cm, 308 págs. ISBN: 85-325-0917-7 [edição original: In between the sheets (Londres: Jonathan Cape) 1978]

sábado, 5 de maio de 2012

o inocente

Inspirado em um fato verídico da guerra fria, em "O inocente" Ian McEwan apresenta ao leitor uma experiência limite, uma leitura daqueles momentos da vida onde todos os envolvidos se redefinem, se descobrem. Dez anos após ofinal da segunda grande guerra, um jovem espião, especialista em telecomunicações, é enviado a Berlin. Ele participa do projeto de construção de um túnel de interceptação de uma importante linha de transmissão telefônica das tropas de ocupação soviética. Esta operação envolve muitos recursos financeiros e logísticos, numa colaboração entre os serviços secretos ingleses e americanos. A operação realmente aconteceu (foi conhecida como Operação Ouro) e antecede a construção do muro de Berlin, que é de 1961, mas o que McEwan explora (metaforicamente) é a reconstrução alemã, e a progressiva aproximação de americanos, ingleses e alemães, à luz do envolvimento afetivo de Leonard (o jovem engenheiro inglês) com uma jovem alemã, Maria. McEwan constrasta o comportamento de Leonard com o de um espião americano, responsável pela segurança do projeto, Bob Glass. Berlin ainda é uma cidade de escombros e vergonha; as relações entre os indivíduos sempre tensas e artificiais; a comunicação, engessada pela memória dos anos terríveis da grande guerra, inviável e codificada. Como sempre nos livros de McEwan não há enfeites ou concessões, seus personagens são vívidos, experimentando com naturalidade as delícias do sexo e as agruras da dor. Não é o melhor McEwan que já li, mas ainda assim é um bom livro. [início 01/05/2012 - fim 04/05/2012]
"O inocente", Ian McEwan, tradução de Claudia Martinelli Gama, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (1992), brochura 14x21 cm, 258 págs. ISBN: 85-325-0122-2 [edição original: The innocent (Londres: Jonathan Cape) 1990]

domingo, 22 de abril de 2012

a criança no tempo

Ambientado principalmente na Londres dos anos 1970, "A criança no tempo" parte de um fato violento e trágico, mas o que interessa e prende a atenção do leitor não é a solução do enigma ou crime associado a este fato, mas antes a habilidade de Ian McEwan de manipular o tempo das histórias que narra, de apresentar simultaneamente causas e efeitos, contrariando o que geralmente associamos à correta ordem temporal das coisas. A descrição de processos quase inconscientes, a relação destes com o tempo que se dilata nos pensamentos dos personagens também são utilizados de forma muito original por McEwan. O protagonista da história é Stephen, um escritor de livros infanto-juvenis de algum sucesso. Numa manhã de sábado ele vai ao supermercado com sua filha de três anos e se perde dela. O leitor nunca ficará sabendo se ela foi simplesmente sequestrada ou morta, nem se houve uma motivação específica para seu desaparecimento. Ele e sua mulher reagem à perda com dor e depressão. Separam-se. O leitor é apresentado a tudo isto em umas poucas páginas, menos que um quinto do livro. A criança (Kate) fica congelada no tempo, na memória dos demais, mas o livro segue. Há muito mais para o deleite do leitor. Stepehn faz parte de uma comissão governamental que objetiva escrever um documento orientador das políticas governamentais sobre cuidados de saúde e de educação das crianças inglesas. As reuniões são monótonas e burocráticas, mas servem ao propósito de afastar a filha desaparecida de suas lembranças. McEwan contrasta o papel ordenador do estado com a realidade caótica das famílias. Há uma ironia terrível na leitura de McEwan dos trabalhos desta comissão. A pediatria e a pedagogia parecem apenas exercícios patéticos de manipulação de massas. McEwan fala das relações de Stephen com o curioso casal formado por uma física quântica e o mentor literário e político de Stephen, um sujeito complexo chamado Charles Drake. As memórias dos pais de Stephen, nos anos duros do pós-guerra, povoam a história, pontuando as reações dele à perda da filha e seu processo depressivo. Ainda mais curioso é o papel protagonizado pelo primeiro-ministro inglês, personagem que parece apaixonado pelo amigo de Charles e que procura em Stephen uma forma de se relacionar com ele. McEwan apresenta várias questões interessantes: sobre loucura e bipolaridade; sobre a contenção emocional inglesa; sobre o papel das ciências na sociedade civil; sobre os contrastes entre a cidade e o campo inglês; sobre a irreversibilidade de todas as decisões, mesmo as mais irrelevantes. Os deslocamentos dos personagens parecem jogar com as contrações da distância e dilatação do tempo da teoria da relatividade, mas isto não é forçado no livro, nem soa artificial em momento algum. O humor, ou antes, os vários trechos da narrativa que são bem humorados, parecem indicar ao leitor que é preciso relaxar dos assuntos áridos antes de seguir a leitura. Devemos refletir sobre o que é dito pelos personagens. Livro muito interessante mesmo. [início 16/04/2012 - fim 19/04/2012]
"A criança no tempo", Ian McEwan, tradução de Geni Hirata, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (1997), brochura 14x21 cm, 151 págs. ISBN: 85-325-0732-8 [edição original: The child in time (Londres: Jonathan Cape) 1987]

sábado, 10 de março de 2012

cães negros

Nos livros de Ian McEwan algo de violento sempre é implícito, subliminar ao que é narrado. Em "Cães negros" McEwan apresenta uma história que o leitor pode aceitar como relato de um casamento que fracassa (por incompatibilidade de um casal com a evolução da política de seu tempo ou o entendimento distinto da viabilidade do modelo comunista na economia européia do século XX), mas o que realmente importa no livro é a discussão sobre como situações extremas afetam indivíduos e a coletividade. O livro é pequeno, compacto, McEwan muito inventivo na sua construção, nada linear e previsível. A introdução é realmente muito boa. O narrador de McEwan tem uma empatia muito especial com sua sogra e acredita que a história de vida dela pode tornar-se material bruto para um bom romance. Esta mulher, muito ativa e inteligente, concomitantemente ao casamento e a educação dos filhos, viveu longos períodos de sua vida adulta em uma zona rural da França. Após muitos anos de isolamento e meditação ela sofre um colapso e é internada em um asilo na Inglaterra, onde passa a relatar fragmentariamente suas memórias para o genro. As personagens de McEwan descrevem o impacto da queda do muro de Berlim, falam de suas experiências sexuais nos anos 1960, visitam um campo de concentração na Polônia, fazem longas caminhadas pelo campo, relembram os anos duros, de privações materiais e espirituais, do pós-guerra na Europa. Mas quem domina o romance são os "câes negros" do título, metafóricos do mal absoluto e da depressão, do mal estar geral da civilização. McEwan retarda habilmente o momento em que explica sua metáfora. Ficamos enredados em sua poderosa narrativa ainda por muitas páginas antes de perceber que viver é uma espécie de confronto permanente com nossos "cães negros" pessoais. Grande livro. [início 05/03/2012 - fim 07/03/2012]
"Cães Negros", Ian McEwan, tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (1993), brochura 14x21 cm, 151 págs. ISBN: 85-325-0417-5 [edição original: Black Dogs (Londres: Jonathan Cape) 1992]

sábado, 3 de março de 2012

amsterdam

Após uma enfermidade muito debilitante uma mulher morre. Logo após seu funeral a vida de seu marido (George) e três de seus antigos amantes (Clive, Vernon, Julian) parece seguir dominada e enredada por ela. Há um jogo muito interessante neste curto romance de Ian McEwan. Ele alterna (mais do que opor ele contrasta) digressões sobre música clássica e jornalismo político, pragmatismo e arte, amizade e inveja, individualismo e altruísmo. Claro, apesar de algum humor contido, os temas abordados no livro são todos sombrios, o leitor percebe logo que não se trata de um livro para distração leve dos aborrecimentos do dia a dia. Sem ser maçante McEwan descreve algo do processo de construção de uma peça musical sofisticada (Clive é um compositor respeitado, comissionado pelo governo britânico para compor uma sinfonia). Para os melômanos este é mesmo um livro inspirador. Ao mesmo tempo McEwan dá uma idéia de como funciona a redação de um jornal sensacionalista. Cada personagem só se preocupa mesmo com seus problemas e agenda, eventuais pensamentos sobre os outros ocorrem apenas quando estes outros são necessários para seus objetivos imediatos. A frieza e as estratégias mentais que os indivíduos utilizam se justificam pelo hábito apenas. McEwan sabe desnudar a hipocrisia como poucos. O pacto de morte que parece unir todos (especialmente Clive e Vernon) apenas ilustra mais enfaticamente o enorme egoísmo deles. Bom livro. Ainda tenho um ou dois McEwan para ler. Cousa boa saber disto. [início 17/02/2012 - fim 02/03/2012]
"Amsterdam", Ian McEwan, tradução de Paulo Reis, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (1999), brochura 14x21 cm, 181 págs. ISBN: 85-325-1049-3 [edição original: Amsterdam (Londres: Jonathan Cape) 1998]

domingo, 1 de maio de 2011

amor sem fim

"Amor sem fim" de Ian McEwan é um romance que sutilmente contrapõe ciência e religião, mas talvez seja mais correto dizer que apresenta ao leitor um jogo onde se confrontam a maneira de se entender o mundo cientificamente e as maneiras como quaisquer outras formas de conhecimento entendem o mundo. Estes jogos estavam na moda no final do milênio, como é o caso de quando o livro foi publicado originalmente, 1997. Agora, finda a primeira década deste século XXI, pode-se dizer sem medo que o obscurantismo e o anti-cientifismo dominam com folga, como a tempos não dominavam, o cenário dos projetos de entendimento do mundo, imersos que estamos nesta espécie de reinado da imbecilidade em que vivemos (e não digo isto olhando apenas para o Brasil). Bueno. Um sujeito, Joe Rose, físico de formação, trabalha com jornalismo científico e, apesar de lamentar-se um tanto ter abandonado o mundo da ciência pura, alcançou sucesso e reconhecimento em suas atividades. Ele é casado com uma acadêmica da área de letras, Clarissa Mellon, especialista em Keats. Um bizarro incidente em um dia estival no campo inglês transforma radicalmente sua vida. Um balão de ar quente perde o controle. Joe e um grupo de outros três ou quatro sujeitos tentam segurar o balão próximo ao solo para evitar que ele suba sem controle, levando embora uma pequena criança. Por azar um dos sujeitos que tentavam evitar que o balão se perca o segura por tempo demais e acaba caindo do balão e morrendo. O livro seria banal caso descrevesse apenas o dilema moral de Joe, que em um primeiro momento sente-se culpado por ter sido o outro e não ele o sujeito que segurou por tempo demais a corda do balão e que por conta disto morreu. McEwan faz com que um dos sujeitos que partilhou a tentativa de socorro ao balão passe a desenvolver uma curiosa patologia em relação a Joe. A partir daquele evento o outro sujeito, Jed Parry, entende-se completamente apaixonado por Joe e entende que esta paixão é recíproca (o que escrevo aqui não é exatamente um spoil, pois estes dois eventos, acidente e paixão, são descritos por McEwan nas primeiras trinta ou quarenta páginas). O que acompanhamos no livro são as várias estratégias que os personagens do livro desenvolvem para resolver o conflito em que se meteram. Acompanhamos os desdobramentos destas estratégias, pois todos, o casal, o sujeito apaixonado, a polícia, a viúva do sujeito que morreu, reagem de formas distintas a estas estratégias. McEwan acrescenta ao livro (mas faz parte dele, como um truque metalinguístico) uma espécie de artigo científico, um paper, onde descreve a síndrome erotomaníaca de Clérambault, que é a doença de que padece seu personagem. O livro é repleto de discussões que remetem ao mundo acadêmico e científico. Não é o melhor Ian McEwan que já li (gosto mais de "O jardim de cimento" e "A reparação", ou mesmo dos contos de "Primeiro amor, últimos ritos"), mas é um livro que se lê com prazer. Ao ler o livro lembrei do Fernando Landgraf, que sempre se perguntava porque não havia um livro decente que tratasse do mundo da academia, da vida universitária. A meu juízo o melhor desta classe de livros ainda é "Todas as almas", do Javier Marías, mas este "Amor sem fim" tem lá seu valor. [início 07/04/2011 - fim 14/04/2011]
"Amor sem fim”, Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2011), brochura 14x21cm, 291 págs. ISBN: 978-85-359-1835-9 [edição original: Enduring love, Jonathan Cape, 1997]

terça-feira, 4 de maio de 2010

o sonhador

Este é o tipo de livro infanto-juvenil que não insulta a inteligência dos jovens e das crianças (nem dos adultos tampouco). São sete contos (como as vidas de um gato) onde acompanhamos os sonhos bastante realistas de um garoto, Peter. Nestes sonhos, um misto de magia e invenção, imaginação, mergulhamos no mundo interior de um rapaz que se sabe crescendo em um mundo que não é exatamente acolhedor. As histórias são comuns, como aquelas que partilhamos com os amigos quando relembramos nosso passado e percebemos de pronto quão similares elas são. Peter pensa falar com as bonecas de plástico de sua irmã; pensa trocar de corpo com o velho gato da família, que tem uma última experiência felina, com a alma renovada pelo garoto; pensa encontrar um creme de invisibilidade; pensa confrontar e vencer mentalmente o garoto forte e agressivo de sua escola; pensa ser um detetive que resolve o mistério de furtos na vizinhança de sua casa; num lance de mágica troca o corpo de um primo chato com o de um bebê dos vizinhos; reencontra amigos na praia que serão seus amigos na vida adulta e se percebe subitamente mais velho, realmente adulto. Tudo acontece neste mundo de fantasia, mas McEwan sabe recuperar estas experiências bem juvenis, estas memórias que brincam com o real, de uma forma realmente inovadora. É um belo livro para se presentear aos filhos dos amigos, aquelas criaturas maravilhosas que ainda sabem sorrir e se divertir sem culpa, criativos sonhadores que são. [início 15/04/2010 - fim 19/04/2010]
"O sonhador", Ian McEwan, ilustrações de Anthony Browne, tradução de Roberto Grey, editora Rocco, 1a. edição (1998), brochura 16x23 cm, 103 págs. ISBN: 85-325-0860-X

terça-feira, 13 de abril de 2010

ao deus-dará

"Ao deus-dará" conta uma curta história que se passa na sereníssima Veneza. Um casal em férias flana pela cidade divertindo-se mas também um tanto entediados. Eles não são casados oficialmente apesar de manterem uma relação há seis ou sete anos. Ela tem filhos do primeiro casamento e suas férias parecem servir como uma espécie de fuga da rotina e uma chance de reflexão sobre eles mesmos. Uma noite eles se perdem no labirinto de ruelas e canais da cidade. Um sujeito os ajuda a encontrarem o caminho até um bar. Passam a noite ouvindo histórias curiosas sobre a família do sujeito, suas ligações com o passado glorioso da cidade. Este veneziano bastante sedutor acaba convidando-os para no dia seguinte conhecerem sua mulher e seu palacete. Eles passam ali dias divertidos, mas onde sua intimidade é desnudada . Sem que um ou outro saibam ambos sofrem pequenas violências físicas e psicológicas (coisas que parecem brincadeiras entre amigos de longa data, mas que não escondem algo de perverso). O contraste entre os dois casais é grande, mas o casal em férias parece se excitar com o clima de mistério e sofisticação que encontram. É como se flertar com o desconhecido fosse o ingrediente que faltava à suas vidas. Dias depois e aos poucos o casal se dá conta de que tanto o sujeito quanto sua mulher acompanharam seus passos pela cidade desde o primeiro dia em que lá chegaram. Há algo de perigoso naquilo tudo, ambos concordam, mas como acontece nas relações entre presa e predador, o controle mental da situação é sempre do predador. Eles ficam uma semana passeando sozinhos pelas praias e canais da cidade, mas o sujeito os convida para um jantar de fim de férias. Incapazes de reagir ao assédio do sujeito o casal se enreda uma vez mais. A história tem um final previsível, mas isto não é exatamente um demérito ao livro ou ao autor. McEwan publicou este livro em 1981. Ele sabe mesmo contar uma história, mas os livros mais recentes dele (Sábado, Na praia, Reparação) me parecem melhores. De qualquer forma ainda preciso ler mais coisas deste sujeito. [início 22/03/2010 - fim 31/03/2010]
"Ao deus-dará", Ian McEwan, tradução de Waldéa Barcellos, editora Rocco, 1a. edição (1997), brochura 14x21 cm, 128 págs. ISBN: 85-325-0710-7

sexta-feira, 9 de abril de 2010

o jardim de cimento

Neste pequeno livro Ian McEwan conta uma história curiosa. Há algo nela que lembra "O senhor das moscas", de Willian Golding, mas de uma forma mais doce, mais sexualizada, não tão brutal. Talvez o mundo inglês de ambos (McEwan e Golding) tenha passado por uma transformação deste tipo entre os anos 1950 e 1980, mas isto é apenas uma idéia. Publicado originalmente em 1978 "O jardim de cimento" conta como crianças reagem à experiências limite, experiência de sexo, doença e morte. A história começa com uma família típica: pai, mãe e quatro filhos com idades entre 6 e 18 anos. O pai morre repentinamente, mas os filhos estão mais preocupados com o destino de todo o material de construção que ele havia comprado para fazer reparos na casa do que propriamente entender o porque de sua morte anunciada (ele já era aposentado por conta de seus problemas no coração). A mãe esconde dos filhos mais novos que está também ela à morte (de um câncer não tratado) e definha lentamente enquanto os filhos tentam continuar a rotina de suas vidas. Com a morte da mãe os filhos decidem não comunicar às autoridades sua morte e decidem escondê-la em um grande baú de viagem, que cimentam (algo porcamente) usando o material de construção deixado pelo pai. Curioso como McEwan descreve a recepção da morte pelos filhos, como se ela apenas fosse dormir para sempre e não exatamente morrer. Trata-se de uma decisão tácita, não exatamente discutida entre eles, sem que as implicações e riscos fossem avaliados. Eles apenas entendem que o mais acertado é continuar suas vidas como se a mãe permanecesse apenas doente na cama e não morta e cimentada em um baú no porão. O luto é algo que se deve construir individualmente e a partir deste ponto McEwan descreve sem julgamentos ou moral como os filhos se auto governam. Tudo é muito alegórico e inverossímel, mas é interessante como as crianças acreditam estar certos à cada situação que se apresenta. As implicações da experiência de vida sem pais ou sem controle social se fazem sentir rapidamente. A escola é abandonada por todos. A divisão do dinheiro, deixado pela mãe aos cuidados da filha mais velha, se revela falha e parcial. O caos e a sujeira rapidamente se instalam na casa. As diferenças entre eles se aprofundam e se radicalizam. Para o narrador (o maior dos meninos da casa) tudo se dá em tom de farsa: entender a sexualidade do irmão mais novo; aceitar o envolvimento da irmã mais velha com um rapaz; absorver o lirismo dos diários mantidos pela outra irmã; participar de ocasionais encontros com terceiros, ainda ignorantes da morte da mulher. Ao mesmo tempo como vemos como a infância é algo frágil que se perde irremediavelmente, acompanhamos também como é cruel e perverso qualquer mundo novo construído pelos homens. A metáfora da vida em sociedade como um jardim organizado é antiga e muito utilizada literariamente. De qualquer forma McEwan parece nos ensinar, de forma poderosa e rica, que não há fronteiras estanques entre o que é viver e o que é aprender a viver. Um tanto mórbido e que lembra o clima lúgubre daqueles velhos livros de mistério ingleses que eu lia quando era garoto, mas mesmo assim é um livro bom de se ler. [início 21/03/2010 - fim 29/03/2010]
"O jardim de cimento", Ian McEwan, tradução de Luiza Lobo, editora Rocco, 1a. edição (1996), brochura 14x21 cm, 132 págs. ISBN: 85-325-0652-6

quarta-feira, 10 de março de 2010

primer amor, últimos ritos

Em 1975, com pouco mais de vinte e sete anos, Ian McEwan publicou este livro de contos e foi imediatamente reconhecido como um dos melhores escritores ingleses de sua geração, ganhando vários prêmios literários nos anos seguintes. São oito contos poderosos, que lembram a força de um outro grande livro de estréia (Goodbye, Columbus), de um outro grande escritor (Philip Roth). Os temas são variados: ora é a solidão que domina o enredo dos contos; ora a juventude e sua potência, para o bem e para o mal; em alguns há um clima de mistério e magia, noutros humor e ironia, explícitos. A força do sexo e do amor percorre a maioria das histórias. A ambientação delas se concentra nos bairros de classe média baixa, na periferia inglesa pobre dos anos 1970, ou ainda no campo inglês, onde é possível passar alguma tempo das férias de verão sem se gastar muito. É difícil eleger um conto em particular como melhor que os demais. Em "Mariposas" um jovem conta sua versão de como encontrou uma garota afogada. Em "Fabricación casera", o primeiro, um outro jovem conta sobre sua iniciação sexual. "Disfraces", o último, é terrível em sua descrição de como indivíduos de duas gerações podem ser tão antagônicos. Nos contos a inocência é sempre aparente e não pode escusar, não pode eximir, não pode justificar. Apesar da violência (contida ou não) das histórias, todas alcançam uma leveza incomum, são divertidas, levam o leitor a um mundo muito particular. Ian McEwan soube mesmo como arrebatar seu público desde o primeiro livro. [início 22/02/2010 - fim 06/03/2010]
"Primer amor, últimos ritos", Ian McEwan, tradução de Antonio Escohotado, editorial Anagrama, 1a. edição (2008), brochura 14x21 cm, 144 págs. ISBN: 978-84-339-7323-8

domingo, 19 de outubro de 2008

sábado

Sábado foi publicado em 2005 e descreve pouco mais de 20 horas de um sujeito, ou melhor, de uma família inglesa contemporânea. Em uma comparação ligeira poderíamos pensar em Ulysses, de James Joyce, no Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf ou nos Ratos, de Dyonélio Machado. Há ecos do 11 de setembro neste livro, ou seja, a idéia do terrorismo e do poder do estado pairam sobre o enredo e os personagens. Mas McEwan nunca é pedestre e nos oferece uma história onde podemos refletir um tanto sobre o quê é mesmo viver com medo e se vivemos com medo pelos motivos certos (se é que existem estes motivos.) Descrever o enredo é estragar boa parte do livro. Prefiro fazer só um resumo rápido, na forma que se segue: um sujeito acorda cedo em uma manhã de sábado e vê pela janela um avião em chamas sobre sua Londres quieta e escura (este fato aconteceu mesmo no início de 2003, com um avião de carga russo, cujos tripulantes genuinamente russos foram confundidos com árabes, xenofobismo comum nestes tempos bicudos em que vivemos.) Neste mesmo dia aconteceu também a maior manifestação de rua em Londres, um protesto contra o envolvimento da Inglaterra na guerra do Iraque. O personagem principal, um neurocirugião respeitadíssimo, sua mulher, seus filhos, seu sogro, têm planos de se encontrar na noite deste dia para um jantar de uma comemoração mundana qualquer. Ele tem compromissos corriqueiros neste dia: jogar squash, comprar peixes e especiarias; preparar o jantar, gelar os vinhos preferidos de seu sogro, pagar contas para sua mulher que está muito atarefada, visitar a mãe (que sofre de Alzheimer) em um asilo, assistir a um ensaio de seu filho músico, receber sua filha que volta a Londres após um longo período na França. Um acidente automobilístico besta entre ele e um grupo de sujeitos que parecem gângsters vai provocar no início da noite um reviravolta na vida desta família. Nada absurdo (como acontece mais comumente na vida real, mas o suficiente para fazê-los refletir sobre a redoma em que vivem.) Mais que nos mostrar como se passa um dia na cabeça de um personagem, McEwan nos mostra um panorama denso do homem moderno, com suas esperanças, seus medos, suas fragilidades mais entranhadas. Gostei particularmente do contrastre entre a descrição do que um sujeito pensa e as detalhadas descrições de intervenções cirúrgicas no cérebro feitas pelo neurocirurgião. Técnicas ao extremo, mas belíssimas de se ler. É um livro super bem escrito. Este sujeito é mesmo um excelente escritor.
"Sábado”, Ian McEwan, tradução de Rubens Figueiredo, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2005), brochura 14x21cm, 336 págs. ISBN: 978-85-359-0746-9

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

na praia

Na praia é o segundo livro de McEwan que eu leio. "Reparação" foi um assombro, belo livro mesmo. Este é um curto livro que trata quase exclusivamente de um tema: a posssibilidade de um homem e uma mulher expressarem seu amor mútuo sem a necessidade do sexo. Escrevo amor mas poderia até mesmo citar companheirismo, amizade, admiração, e por aí vai. Mas amor é mais fácil de escrever e mais difícil de separar do sexo. Em nossa economia psicológica o amor e o sexo têm funções distintas, mas como prescindir de um ou até de ambos? O enredo de McEwan se desenvolve nas poucas horas de um fim de dia em um balneário inglês do início da década de 1960. O livro começa com um jovem casal que acabou de se casar e jantam em um hotel à beira mar. Eles nunca trocaram mais que carícias tímidas e estão algo apreensivos com a trepada (conjunção carnal diria o conselheiro Acácio, mas para mim é trepada mesmo) que afinal de contas é natural que aconteça após o jantar. É um livro descritivo, escrito em uma forma direta e elegante; há algo de Proust nas descrições das frases musicais que a moça dedilha em um piano e a descrição de como pensamos e agimos, a descrição de nosso mundo interior, é joyceana na medida certa. Há uma tensão dos diabos nos diálogos e nos movimentos dos dois personagens, aliviada por uma divisão curiosa de capítulos, onde o autor alterna os momentos no quarto do hotel com as histórias de cada um (os dois não são da mesma classe social, mas ambos são bons estudantes universitários e têm vários interesses em comum). Bom, não temos a força de "Reparação" aqui, mas é um belo livro, que se lê com prazer. O livro é curtíssimo, pouco mais de cem páginas, lê-se quase de uma sentada só. Ian McEwan mostra neste livro do que é capaz um escritor de verdade quando quer trabalhar o conceito de tempo em uma obra literária, comprimindo os segundos as vezes e noutras alargando os anos numa vertigem, em longos parágrafos que lemos sem tomar fôlego. Ao final ficamos refletindo sobre os infinitos mundos possíveis que cada uma de nossas decisões permitiriam serem criados. De tudo o que é possível, a realidade nos aferra a apenas um dos destinos, um dos mundos, que é afinal nossa própria história de vida, para o bem ou para o mal, sem remissão.
Na praia, Ian McEwan, tradução de Bernardo Carvalho, Editora Companhia das Letras, 1a. edição (2007) brochura 14x21cm, 128 pág. ISBN:978-85-359-1042-1

quinta-feira, 13 de março de 2008

reparação

Em algum ponto destas férias santamariense fui a uma festa na casa de minha amiga Vera, tudo muito divertido. Em algum momento fiz uma aposta boba envolvendo quem era Jack Johnson (para mim era o boxeador que recebeu uma homenagem do meu guru Miles Davis; mas para Betina era um músico americano que esteve recentemente no Brasil). A ambiguidade depõe contra o cara que aceita então comprei e fiz chegar "Reparação" do Ian McEwan às mãos de Betina, leitora contumaz e apostadora sábia, para quem perdi a aposta (explicar porque uma conversa sobre música nos fez chegar a uma aposta envolvendo um livro é algo mais transcendental.) Mas vamos a este belo livro. Nunca havia lido nada dele, mas vez ou outra já havia lido sobre ele com bastante entusiasmo. O Daniel Piza escreveu em seu blog de final de ano que Reparação tinha sido uma de suas melhores leituras do ano anterior. Aquilo estava ainda fresco na lembrança. Para quem gosta de uma história bem contada difícil encontrar algo melhor. A história principal envolve a interpretação de uma moçinha de uma cena que ela vê de longe, envolvendo sua irmã mais velha e um rapaz simples que é protegido de seu pai. A influência óbvia de McEwan é "Pelos olhos de Maisie", belo livro que li já há tantos anos. Algo acontece no livro e o desfecho é habilmente postergado. Há também algo que me lembra o "Memórias de Brideshead" e pinceladas sobre o comportamento dos homens e mulheres com seus atos falhos. Mas claro, estamos falando de um livro, e um livro é apenas uma obra de arte, não é a vida mesmo, pulsante e real, por mais fiéis e detalhistas que pretendemos ser. Há um truque no livro. Você não vai se importar de saber isto se continuar a ler. Esta é apenas uma opinião minha. O truque envolve escrever todo o livro e ao final mudar o autor, pois na verdade ao chegarmos a quarta parte do livro percebemos que quem escreve as três partes do livro que acabamos de ler é uma personagem do autor McEwan. Aí ele fala um tanto sobre como se dá o processo literário de inventar e gerenciar personagens, que por vezes são hábeis demais para se confinarem nas páginas de um simples livro. Ele confessa que poderia fazer o que quiser, a solução atribuída a autora das três primeiras partes é só uma entre várias outras. Enfim, o ser humano é multifacetado à exaustão, tudo o que ele faz é real e só isto importa, milhares de livros podem ser escritos sobre a mesma história, mudando passagens, modificando escolhas, invertendo os papéis. Não há perda de unidade entre as partes (que de fato são bem distintas entre si). O livro mostra que literatura digna do nome é mais que contar uma história banal. Em um certo sentido o livro mostra como uma pessoa pode tentar expiar seus pecados através da arte (claro, é um personagem que faz isto, mas será que nós também não tentamos isto o tempo todo, através da arte, da paternidade, do bom mocismo, da humanidade). O que dizer da trama? Mais tarde, depois da tal cena inicial vista de longe ela testemunha um outro encontro entre sua irmã mais velha e o rapaz, desta vez na biblioteca da família e, ato contínuo, uma cena noturna envolvendo uma de suas primas. Há muitas peripécias a partir desta sucessão de testemunhos (pensando retrospectivamente os azares da vida também são assim, mesmo o inverossímel teima em acontecer de vez em quando, mesmo a mais cruel e ríspida das situações ficcionais não têm a exuberância da vida real de cada um de nós). Finda a primeira parte (que ocupa mais da metade do livro) passamos as duas seguintes: uma descrição dos horrores da segunda guerra mundial (particularmente do desastre inglês na batalha de Dunquerque, no norte francês) e o período dos bombardeios sobre a Londres conturbada dos primeiros anos da década de 1940. Vários dos personagens são novamente apresentados nestes caminhos posteriores e discutem as situações tensas e seminais descritas na primeira parte. Todos envelheceram e reinterpretam as situações do passado à luz de um mundo mais complexo e cruel que o anterior. Mas devemos expiar nossos pecados afinal. Para uma das personagens a única forma de entender o que se passou é escrever um livro sobre o assunto. Belo truque metalinguístico do autor, é este o livro que nós acabamos de ler. Mesmo a arte tem lá suas limitações. Comentários rápidos: um filme foi produzido baseado neste livro, mas não o vi ainda (pobre Santa Maria, sem cinema há 280 dias.); a orelha do livro é mais ou menos ridícula e dispensável, para dizer o mínimo; há muito sobre as diferenças de gênero tanto na vida privada quanto no mundo acadêmico da Inglaterra da primeira metade do século passado, interessante; vou tentar ler mais livros deste sujeito, diz a hagiografia que ele, ganhador de prêmios importantes como o Booker Prize de 1998, é um tanto mais pesado nos demais livros. Veremos.
"Reparação", Ian McEwan, tradução de Paulo Henriques Britto, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2002) brochura 14x21cm, 444 pág., ISBN: 978-85-329-0235-8