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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

cuadros del londres victoriano

Em "Cuadros del Londres victoriano" estão reunidos onze crônicas de viagem produzidas por Natsume Soseki sob inspiração dos dois anos em que viveu em Londres. Algumas são factuais, diretas, escritas como apontamentos de um diário, pelo menos duas originalmente foram cartas enviadas a amigos no Japão, já outras têm tratamento diferente, mais literário, flertam com o conto, com a invenção. Os textos foram inicialmente publicados numa revista tradicional japonesa do início do século passado chamada Hototogisu e posteriormente reunidas em livro, entre 1901 e 1909. Cabe registrar que neste ano se comemora os cem anos de morte de Soseki. Os registros de Soseki são realmente vívidos, ele fala de suas experiências no cotidiano londrino com assombro e bom humor. Observador refinado ele consegue contrastar o impacto da experiência na vida londrina com as tradições japonesas. Ele nunca é invisível. Chama a atenção a presença de um rapaz baixo e "amarelo", que se expressa com educação, sempre economiza dinheiro para comprar livros, veste roupas ocidentais e tem uma curiosidade de criança por todas as coisas. Já registrei nesse blog quatro crônicas, pois foram publicadas em dois pequenos volumes que já li anteriormente ("Cartas de Londres" e "Diario de la bicicleta" num volume e "La Torre de Londres" e "El museu Carlyle" em outro). As demais ("Habitaciones"; "El olor del pasado", "Un cálido sueño", "Impresión", "Niebla", "Hace muito tiempo" e "El profesor Craig") li agora pela primeira vez. Essas sete narrativas são híbridas de realidade e sonho. Soseki decifra o complexo arranjo social de uma pensão da periferia; conhece um outro japonês expatriado, mas que vive em condições econômicas muito melhores que as dele; sonha com uma viagem numa carruagem pelas ruas de Londres; acompanha a multidão matinal de pessoas que se deslocam para trabalhar, mas o faz noutro ritmo, como se fosse um escolho perdido num mar raivoso; perde-se na noite londrina, encantado com os ruídos de máquinas e equipamentos urbanos; visita o campo de batalha de Killiecrankie (nas terras altas escocesas) e imagina as operações de guerra e deslocamentos daquele confronto sangrento; descreve as aulas de conversação que mantém com um respeitado especialista em Shakespeare. Quando os dois anos de bolsa de estudos acaba Soseki volta ao Japão com quinhentos livros de literatura inglesa na bagagem. Quem de nós, bibliófilos praticantes como Soseki, não voltou de uma viagem com malas cheias de livros que amávamos mais que os demais pertences que trazíamos? Que não acumulou experiências sem fim em viagens e não as decanta à luz dos livros de outros viajantes. Vale. 
[início: 03/01/2016 - fim: 06/01/2016]
"Cuadros del Londres victoriano", Natsume Soseki, tradução de Fernando Ortega e Abel Vidal, ensaio de Jordi Fibla, Palma/España: José J. de Olañeta, Editor (coleccíon El Barquero), 1a. edição (2014), brochura 13x21 cm., 209 págs., ISBN: 978-84-9716-913-4 [edição original: A la deriva por el espacio (1906) / El Cuco (1901-1903) / Piezas breves para dias largos (1909) (Tokyo: Hototogisu,  ホトトギス]

terça-feira, 7 de abril de 2015

la torre de londres

Nesse volume encontramos dois textos curtos de Natsume Soseki. Ambos tem uma vocação diferente da que encontramos no outro volume dele que já resenhei aqui (onde estão reunidos "Carta de Londres" e "Diario de la bicicleta"). Se nesses os textos são dirigidos a amigos em Tóquio que posteriormente foram reproduzidos numa revista quando Soseki retorna ao Japão, "La Torre de Londres" e "El museo Carlyle" certamente foram escritos já no Japão, baseado em registros de seu diário e de sua memória (e também editados numa revista). Soseki, que morou em Londres entre 1990 e 1903,  visitou a Torre de Londres uma única vez. Ele enfatiza que uma segunda ou mais visitas destruiria lamentavelmente a rica lembrança da primeira. Ele percorre os vários prédios do conjunto arquitetônico (pois a Torre de Londres não é uma torre isolada), descreve as instalações, mobiliário, inscrições gravadas nas paredes e conta rapidamente os sucessos mais terríveis que ocorreram ali. Ele confessa que as descrições que faz tem muito de invenção, de recriação dramática, sobretudo quando fala das circunstâncias de algumas das mortes mais célebres, como a de Edward IV, Lady Jane Grey, Edward V e seu irmão (os jovens príncipes). Contrastando com a escala grandiosa e os feitos lúgubres associados à Torre, Soseki descreve no segundo texto uma visita que fez a casa/museu de Thomas Carlyle, o renomado escritor e historiador inglês do século XIX. Se na visita à Torre a natural curiosidade dos demais visitantes com o inusitado de um oriental bem vestido fazer turismo não chegou a incomodá-lo, na visita à casa de Carlyle ele foi acompanhado por um guia que incomodou-o o tempo todo. Esse guia infernal insistia em dar explicações sobre a origem dos móveis e disposição deles pela casa, enquanto Soseki queria apenas ter acesso a biblioteca e conhecer o andar onde estava instalado o escritório original do escritor (que de resto projetou a casa e o escritório para ter paz e silêncio quando trabalhava). O texto é bem humorado e quando Soseki consegue livrar-se do guia e passeia só pelo jardim dos fundos da casa também nós, os leitores, sentimos algum alívio e ficamos mais dispostos a desfrutar as delícias daquele belo lugar. Vale.
[início: 14/03/2015 - fim: 16/03/2015]
"La Torre de Londres: seguido de El Museu Carlyle", Natsume Soseki, tradução de Fernando Ortega, Palma/España: José J. de Olañeta editor (coleccíon Centellas), 1a. edição (2013), brochura 9,5x14 cm., 125 págs., ISBN: 978-84-9716-865-6 [edição original: 倫敦塔 (Tokyo: Hototogisu,  ホトトギス) 1905]

sábado, 4 de abril de 2015

diario de la bicicleta

Já li quase todos os romances de Natsume Soseki (ainda há um inacabado, "Mei An", que foi publicado postumamente e está fora de minha lista). Recentemente soube da publicação em espanhol de algumas de suas cartas e crônicas de viagens. Encontrei dois desses volumes em Madrid (um terceiro terei de garimpar virtualmente). Homem cerebral e focado nos estudos, Soseki, que já pertencia ao quadro de professores da Universidade de Tóquio, ganha uma bolsa do governo japonês para uma estadia em Londres. Lá ele permanece por quase trinta meses, de outubro de 1900 a janeiro de 1903. Como o valor monetário da bolsa era muito baixo Soseki economiza morando em alojamentos e pensões afastados do centro, recluso. Sua vida é modesta, espartana. Quase todo o dinheiro que recebe é convertido em livros de segunda mão (como ele fez para levar quase 500 volumes que adquiriu em Londres para o Japão não é contado nos livros que li dele). Nesse volume estão reunidos dois textos. O mais curto é "Diario de la bicicleta", onde Soseki conta seu fracasso em aprender a conduzir uma bicicleta. Ele é levado a aprender a dirigir uma bicicleta pois seus senhorios, preocupados com sua sanidade mental, praticamente o obrigaram a sair de casa, parar de estudar tanto, num outono de dias ainda quentes. O humor de Soseki é algo contagiante e o leitor é levado à Londres vitoriana pela palavras dele. O texto mais longo é "Carta de Londres", na verdade uma espécie de diário onde é descrita sua rotina de estudos, deslocamentos pelo metro, cafés da manhã com seus senhorios, visitas aos sebos e aos parques. Ambos são dirigidos a dois amigos não nominados (a edição não precisa quem dentre seus amigos em Tóquio chegou a receber os textos, se é que eles foram de fato enviados). Posteriormente, quando Soseki retorna ao Japão, os textos foram reproduzidos em uma tradicional revista chamada Hototogisu. As duas narrativas são muito boas. Soseki é um mestre da ironia e não é nem um pouco auto indulgente, sabe rir de suas trapalhadas e do assombro que é viver num país muito diferente do seu. Ele é capaz de fazer observações muito interessantes dessas diferenças. Soseki nos lembra que a experiência de viajar sempre é seminal, mesmo quando sofremos a privação dos prazeres oferecidos pelo hábito, o fiel camareiro de nossas vidas.
[início: 18/03/2015 - fim: 21/03/2015]
"Diario de la bicicleta", Natsume Soseki, tradução de Abel Vidal, Palma/España: José J. de Olañeta editor (coleccíon Centellas), 1a. edição (2013), brochura 9,5x14 cm., 117 págs., ISBN: 978-84-9716-868-7 [edição original: (Tokyo: Hototogisu,  ホトトギス) 1901 e 1903]

domingo, 7 de dezembro de 2014

o portal

Com "O portal", publicado originalmente em 1910, Natsume Soseki encerra uma trilogia que começa com "Sanshiro" e passa por "E depois", já resenhados aqui. Esses três romances não têm personagens compartilhados mas os temas discutidos são similares. Soseki discute o papel dos indivíduos numa sociedade em rápida transformação. Em "Sanshiro" acompanhamos um sujeito simples que sai do campo para a capital para estudar numa universidade. No admirável mundo novo que se apresenta, através das novas amizades e dos desafios a que se submete, a mundanidade e a hipocrisia tanto fascinam quanto assustam, deixando-o imobilizado (nunca é fácil administrar emoção e razão, responsabilidades públicas e o desejo). Em "E depois" um outro sujeito, membro de uma família rica e poderosa, forma-se numa universidade mas não se decide sobre qual carreira seguir. Descobrir-se apaixonado pela mulher de um amigo apenas reforça sua imobilidade, sua incapacidade de agir e avançar, de assumir um papel honrado na sociedade. A narrativa de "O portal" é um tanto mais amarga que a dos dois romances que o antecedem. Somos apresentados a um casal de meia idade, Sosuke e Oyone, que passam por dificuldades financeiras, tem problemas recorrentes de saúde, vivem apenas um para o outro. A exclusão da sociedade de ambos parece auto imposta, mesmo considerando-se as rígidas convenções morais da sociedade japonesa do início do século XX. Sosuke pertencia a uma família abastada que proporcionou sua ida para a universidade, mas se afasta dos estudos e cai em desgraça após se envolver e casar-se com Oyone, a irmã mais nova de um colega que já estava prometida em casamento. A repentina morte do pai e sua inabilidade natural para os negócios (antes sua recusa em pensar nos problemas, deixando sempre que o pior aconteça, ao ponto de ter sido enganado por um de seus tios) acabam por obrigá-lo a receber em casa seu irmão mais novo (Koroku). Ele parece incapaz de impedir que também o irmão abandone seus estudos universitários. A presença do irmão perturba a rotina do casal e as dificuldades financeiras se agravam. Oyone e Sosuke lamentam o fato de não terem filhos. Quando tudo parece sem solução, pois Sosuke precisa encontrar um jeito de fazer com seu irmão volte para a universidade e se formar, para não tornar-se um quase pária como ele, Sosuke parte em busca de ajuda em um mosteiro Zen budista. Seus dias ali lhe fazem bem, mas é por puro acaso, através da ajuda de um vizinho que afeiçoou-se a ele, que seus problemas são de fato resolvidos. Assim como nos demais romances da trilogia o final é aberto, podemos ser otimistas ou não sobre o destino dos personagens (Soseki parece especular sobre as possíveis metamorfoses pelas quais passa a sociedade japonesa, que enriquece, passa por rápida industrialização e militarização). Soseki tem um estilo interessante. Lê-se o livro e parece que quase nada factual de verdadeira importância acontece, até que de repente nos damos conta das complexas repercussões dos conflitos que seus personagens experimentam e aqueles conflitos nos absorvem. Soseki não moraliza a discussão, nem se utiliza de um narrador que descreva a psicologia dos personagens, mas a tensão alcançada por ele é notável. Ainda prefiro seu livro de estréia ("Eu sou um gato"), mas nenhum livro dele que já li é ruim. Soseki sempre alcança provocar reflexões poderosas a partir de suas histórias. Vale.
"O portal", Natsume Soseki, tradução de Fernando Garcia, São Paulo: editora Estação Liberdade (1a. edição) 2014, brochura 16x23, 240 págs. ISBN: 978-85-7448-241-5 [edição original: Mon () Tokyo, 1910]

domingo, 30 de março de 2014

botchan

Publicado em 1906, "Botchan" rapidamente tornou-se um dos livros mais populares no Japão. Há quem o compare com "O apanhador do campo de centeio", de J.D. Salinger. Para mim trata-se de um Bildungsroman clássico, um romance de formação ou aprendizado, no qual o leitor acompanha as experiências de uma personagem de ficção na transição entre sua juventude e sua maturidade (muito embora ao final do livro não sabermos se aquelas experiências realmente modificaram a forma com que o personagem entende o mundo). Botchan é um jovem nascido em Tóquio que ao formar-se em ciências naturais resolve dar aulas em uma escola pública de uma região bastante afastada (Shikoku, a menor das quatro grandes ilhas do Japão, que fica aproximadamente 600 Km ao sudoeste da capital). Lá ele é forçado a aprender a interagir socialmente com pessoas de moralidade bem distinta da sua, processo pelo qual passa por inúmeros aborrecimentos. Sendo o professor mais jovem da escola ele não conquista o respeito nem de seus colegas (que o vêem como imaturo e irresponsável), nem dos alunos (que o vêem apenas como mais um velho e rígido representante da instituição escolar). Botchan alterna confiança e desprezo por dois professores mais velhos (Akashatsu e Yamaarashi), já que ele não consegue perceber as sutilezas do comportamento de ambos, seja a retidão moral e senso de justiça deste último ou o maquiavelismo e dissimulação do primeiro. Logo no início do livro o leitor já sabe que a experiência de ser um "professor de províncias", um professor que sai de uma cidade cosmopolita como Tóquio e experimenta pela primeira vez o provincianismo da vida rural não dará certo, mas Soseki alcança manter a atenção do leitor o tempo todo sobre o destino de seu protagonista. O que mais gostei nesse livro é a facilidade com que Soseki descreve as mudanças de opinião de Botchan. Gostei também de ter agora como exemplificar, ao menos literariamente, aquilo que sempre me pareceu uma idealização demasiado forçada: o respeito automático que os japoneses - e de resto outros povos - têm pela educação e por seus professores (como usualmente lê-se na mídia hoje em dia, como forma de contrastar a atrasada e medíocre educação formal dos brasileiros com aquela já alcançada por outros povos). Para mim, que me considero suficientemente iconoclasta, é claro que hipocrisia, violência, mentira e artifícios condenáveis para não se submeter às regras de conduta vigentes de uma sociedade é algo comum a todos os homens, em qualquer tempo e lugar. Mas essa é uma discussão para um outro tempo e lugar. Enfim, Soseki não é nem um pouco panfletário em seu livro, apesar de Botchan ser exemplarmente moral e ético. Bom romance. Cabe-me ainda registrar que cronologicamente "Botchan" é o segundo livro de Soseki, publicado um ano após sua estréia, como "Eu sou um gato" (1905) e antes de "Sanshiro" (1908), "E depois" (1909) e "Kokoro" (1914), já resenhados aqui.
[início: 22/03/2014 - fim: 25/03/2014]
"Botchan", Natsume Soseki, tradução de José Pazó Espinosa, Madrid: Editorial Impedimenta (1a. edição) 2012, brochura 13x20 cm., 237 págs., ISBN: 978-84-935927-7-6 [edição original: Botchan (坊っちゃん) Tokyo, 1906]

domingo, 11 de dezembro de 2011

e depois

De Natsume Soseki já resenhei aqui três bons livros: "Eu sou um gato" (seu livro de estréia, de 1905), "Kokoro" (um de seus últimos, de 1914) e "Sanshiro" (publicado em 1908). "E depois" é de 1909, faz parte de uma trilogia que começa com "Sanshiro" e termina com "Mon", uma trilogia onde Soseki discute as transformações (rápido crescimento econômico, reforma agrária, industrialização e modernização, com forte impacto nas tradições, convenções e relações sociais) pelas quais o Japão passou do final do século XIX para o início do século XX. Em "E depois" Soseki nos apresenta Daisuke, rapaz que recebeu a melhor educação possível, é poliglota e bom leitor, interage com diplomatas estrangeiros, homens de negócios importantes, amigos de sua família, mas não encontrou alguma ocupação fixa, vivendo das mesadas generosas que recebe de seu pai. Ele leva uma vida reflexiva, mantém elípticas e cifradas (no sentido que nunca expõe verdadeiramente suas opiniões) com seu irmão, sua cunhada, seus amigos. Seu pai tem interesse que ele trabalhe nos negócios da família e se case com a filha de um rico produtor rural. Daisuke reencontra dois de seus grandes amigos dos tempos de escola. Um deles, Hiraoka, casou-se com uma garota, Michiyo, por quem ele, Daisuke, teve algum interesse, mas não atreveu-se a avançar. Esse amigo envolveu-se em uma confusão financeira e teve de abandonar sua promissora carreira adminstrativa, tornando-se um rancoroso jornalista. O outro, Terao, tinha planos de tornar-se um escritor importante, mas tem dificuldades em publicar seus textos e reclama reiteradamente do pragmatismo da sociedade japonesa de seu tempo e das bruscas transformações sociais que vivenciam. Daisuke sabe que é incapaz de prover seu próprio sustento, mas também não se vê ocupando-se dos mesmos afazeres mundanos de seus amigos. Ao tentar conciliar suas dificuldades financeiras com aquelas de seus dois amigos, conseguindo empréstimos com sua cunhada e seu irmão, Daisuke acaba percebendo-se apaixonado pela mulher de seu amigo e que essa paixão é correspondida por ela. Nos termos em que o personagem imagina, essa relação é claramente algo difícil de ser aceito pela sociedade japonesa em que vive. Dividido entre suas obrigações morais e o desejo, sua responsabilidade filial e a individualidade, Daisuke antecipa todos seus movimentos, suas palavras, as reações das pessoas com quem interage, como se a vida pudesse ser controlada e racionalizada. Sua mente ansiosa o impede de interpretar corretamente o alcance de seus atos, as consequências de suas decisões. O título já sugere que um enredo como esse pode ter múltiplos desfechos, menos manter-se indefinidamente congelado (e essa seria a principal metáfora de Soseki no livro: ele parece insinuar que o Japão que se ocidentaliza - e não perde a essência, as tradições - é incapaz de antever as consequências sociais da rápida transformação da sociedade). Como na vida real, as coisas não se resolvem sozinhas, o tempo não costuma afastar para sempre aquilo que nos aflige e assusta. Soseki é mesmo um escritor poderoso. [início 28/10/2011 - fim 11/12/2011] 
"E depois", Natsume Soseki, tradução de Lica Hashimoto, São Paulo: editora Estação Liberdade (1a. edição) 2011, brochura 16x23, 280 págs. ISBN: 978-85-7448-201-9 [edição original: Sorekara (それから) Tokyo, 1909]

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

sanshiro

"Sanshiro" é um romance do mesmo autor de "Eu sou um gato" e "Kokoro" que já resenhei aqui. Gostei dos dois livros anteriores e gostei deste também. São temáticas e tratamentos distintos, mas o autor sabe contar sua história e ensinar algo ao leitor. É incrível com um bom romance sobrevive ao tempo (Sanshiro foi publicado em 1908). Esta leitura deu-me um prazer adicional, pois ganhei o livro de presente de Helga catalana, senhora das livrarias e espaços culturais barceloneses. Foi mesmo um grande presente. A história que se conta é curiosa: um rapaz sai da província e chega a capital Tóquio para estudar na universidade. O mundo cosmopolita e sofisticado da cidade grande enfumaça a percepção que este rapaz tem das experiências pelas quais passa. Um sujeito da mesma cidade do narrador estuda ciências (física especificamente) e tem um relacionamento com a cidade e com a universidade que é mais pragmático e objetivo que aquele escolhido pelo narrador. Os outros interlocutores importantes do narrador são um colega dispersivo e algo inconsequente (que lembra o Bloch de Proust); um pintor de relativo sucesso (que lembra o Elstir de Proust); um tolo professor de universidade (que lembra o Cottard de Proust); uma moça (por quem se apaixona a primeira vista, claro, e que lembra a Gilberte de Proust); uma outra moça (que ajuda e com quem tenta estabelecer uma relação de amizade, que lembra a Albertine de Proust). É um romance que descreve como um sujeito aprende a decodificar o mundo, ou seja, aprende a interagir com as sutilezas do comportamento humano e se conhecer propriamente falando. As muitas confusões e situações nas quais o narrador se envolve são típicas de quem está tentando conhecer o mundo real a seu redor, sem as máscaras da ignorância e/ou do preconceito. Incrível como neste romance, anterior ao poderoso Proust que domina minhas melhores lembranças literárias, Soseki consegue construir personagens verossímeis e ao mesmo tempo tão atuais. Talvez eu exagere um tanto nos paralelos entre este livro e aqueles do ciclo "Em busca do tempo perdido", mas trata-se de um romance que não deixará nenhum leitor indiferente. Belo presente este de doña Helga. Vamos a ver se leio agora "Botchan", romance que deu fama perene a Soseki. Veremos. [início 18/09/2009 - fim 06/10/2009]
"Sanshiro", Natsume Soseki, tradução de Yoshino Ogata, Editorial Impedimenta (1a. edição) 1999, brochura 13x20, 330 págs., ISBN: 978-84-937110-0-9

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

coração

"Kokoro", coração em japonês, é o nome deste bom livro, escrito por Natsume Soseki, autor de "Eu sou um gato", que li feliz no ano passado. Coração foi publicado em 1914, mas tem a força dos livros realmente perenes, que suportam bem as viagens no tempo e no espaço. Li em algum lugar que Soseki teve influências semelhantes as de nosso Machado de Assis (Laurence Sterne por exemplo, ou ainda William James) e lendo este livro não tenho como discordar. É um livro bom de se ler. O enredo acompanhamos os sucessos de um triângulo amoroso que é contado retrospectivamente (e muito elipticamente, quase até o final), por um casmurro (porque não) senhor de meia idade para um jovem estudante universitário. Dois temas são importantes no livro: a relação entre mestre e discípulo, que mesmo quando dissimulada é marcante; e a rivalidade entre jovens pelo amor de uma mulher, mesmo quando ambos não sabem ao certo expressar se o que sentem é mesmo amor, ou apenas o desejo de partilhar ou competir por algo com o companheiro. No passado o sujeito havia sido enganado financeiramente por um tio o que tornou-o egoísta e incapaz de relacionar-se francamente com os demais. O sujeito conta aos poucos sua trágica história para o jovem, mas este é susceptível demais e se deprime com as tribulações alheias, afetando seu próprio comportamento. O sujeito não tem exatamente uma dúvida que o atormente (como no caso do Machado de Assis) mas se pergunta sobre cenários distintos para sua vida e do outro casal caso ele tivesse um entendimento melhor do que é mesmo a maturidade e o que é mesmo a capacidade de ouvir as pessoas que o cercam. "Escondi meus pontos fracos na palavra humano", ele diz. E é isto o que fazemos quando queremos escusar nossas misérias. No prefácio aprendi que o livro metaforicamente fala das transformações pelas quais o Japão estava passando, com a rápida industrialização alcançada após a restauração Meiji. Soseki critica também (metaforicamente) o progressivo expansionismo japonês, que levará o país posteriormente para os desastrs da segunda grande guerra. A edição é bem cuidada. O texto foi traduzido diretamente do japonês, há um bom prefácio assinado por um especialista na literatura de Soseki e curtas notas de rodapé dirimem os termos japoneses mais herméticos. Gostei do conjunto, das cerimônias de chá, dos jogos poéticos na casa rural dos pais do estudante, dos crisântemos em flor. [início 05/01/2009 - fim 07/01/2009]
"Coração: Kokoro", Natsume Soseki, tradução de Junko Ota, editora Record (1a. edição) 2008, brochura 14x21, 279 págs. ISBN: 978-85-250-3351-2

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

eu sou um gato

Li este livro ainda em agosto, marquei aqui no blog uma entrada para ele mas não escrevi nada na época, pois ainda estava impressionado com o final do livro. O tempo passou, o livro ficou ali na prateleira me olhando e só agora (estou já no início de setembro) resolvi escrever algo. Sou um dono de gatos e estou exatamente com um no colo agora, enquanto escrevo. Ao menos dois deles tem por hábito tentar um colo quando fico muito tempo no computador. Talvez por conta disto tenha gostado deste livro imediatamente. Mas deixe eu falar do livro que li, não de meus gatos reais. Natsume Soseki foi um escritor japonês bastante respeitado que nasceu em meados da década de 1860, no século XIX. Ele foi durante alguns anos professor catedrático de crítica literária e de literatura inglesa na Universidade de Tokyo, mas optou por tornar-se professor nas escolas secundárias após a publicação de seus primeiros romances. Os especialistas o comparam a Dickens, por suas afinidades na descrição ficional das pessoas de seu tempo, ao mesmo tempo interpretando-as como cidadãos e criticando-as em seus convencionalismos. Outros o comparam a nosso Machado de Assis, também por sua vez um tributário de Dickens, mas isto é assunto para os especialistas, não para mim. "Eu sou um gato" foi publicado inicialmente em forma seriada e depois em livro em 1905, mais de cem anos já, e foi desde o início um sucesso de público e de crítica. Ele é escrito na primeira pessoa, mas esta voz pertence a um gato. Segundo é citado na guardas do livro este artifício nunca havia sido utilizado na alta literatura japonesa antes, o que provocou muita polêmica. É um livro delicioso de se ler. O dono do gato é um professor de escola secundária que tem pretensões intelectuais mas é artificial e vazio como somente as pessoas tristes sabem ser. O livro tem onze longos capítulos. Cada um se desenvolve em torno de um tema, em geral banais, introduzidos no enredo como as situações bobas que acabam chamando a atenção de um gato real, tão distraídos quando querem ser. As passagens são de fato interpretadas sempre pelo humor particular do gato, mas suas reflexões são sarcásticas demais para que não nos identifiquemos com ele de pronto. O professor/dono do gato recebe com regularidade um grupo singular de amigos: um esteta pernóstico e mentiroso, um ex-aluno com ambições literárias, um filósofo já alquebrado, uma sobrinha casadoira mas sábia, alguns vizinhos mais ricos e mais pretensiosos do que ele. Até um ladrão aparece na trama, mas apenas o gato o vê e sabe de sua identidade. O gato vagueia pelas casas vizinhas, ouve comentários sobre seu dono, lamenta que este seja tão obtuso e tolo, mas não tem como se comunicar com ele. Na família do professor só há mulheres (sua esposa e três filhas pequenas). Há passagens muito divertidas: em uma ele e sua mulher discutem sobre as dificuldades da vida e os projetos para o futuro; noutra o professor tem problemas com os alunos de uma escola que fica ao lado de sua casa; noutro ainda ele dá conselhos para o ex-aluno, que pretende ou terminar sua tese doutoral (é um químico) ou casar-se com uma prometida que ainda mora em sua cidade natal. Há um fina ironia contra as convenções do mundo universitário. Ele fala muito de ciência e dos avanços tecnológicos de sua época. Os sucessos da recente guerra russo-japonesa são louvados acidamente pelo gato/narrador. As discussões do professor com seu grupo de amigos também são divertidíssimas. Em uma oportunidade eles vão a um banho coletivo ou sauna e têm conversas bastante espirituosas sobre o asseio de cada um e suas técnicas de ablução. O livro termina com a descrição da morte de seu narrador, o gato. Acredito que é escrito com um lirismo que emociona mesmo quem não gosta ou não se identifica com gatos. Muito divertido. Recomendo sem medo.
"Eu sou um gato", Natsume Soseki, tradução de Jefferson José Teixeira, editora Estação Liberdade, 1a. edição (2008) brochura 16x23cm, 486 pág. ISBN: 978-85-7448-138-8