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domingo, 1 de novembro de 2020

poesie

Esta antologia de poemas de Augusto de Campos foi produzida pela Demônio Negro e lançada durante a exposição "Poesie ist Risiko", de poesia concreta, que aconteceu em Zurique, na Suíça, entre outubro e novembro de 2019 (tratava-se de uma colaboração com a Universidade de Zurique e com curadoria dos poetas e professores Eduardo Jorge de Oliveira e Vanderley Mendonça). A antologia é bilíngue. Simone Homem de Mello assina a tradução dos poemas de Augusto de Campos para o alemão e também um detalhado prefácio (valei-me meu são Goethe, o Alzheimer parece que comeu o que restava de meu alemão, preciso estudar mais, definitivamente). Paciência. Em "Poesie" encontramos trabalhos criados num período longo, de quase seis décadas, desde o primeiro volume publicado ("O rei menos o reino", de 1951) até propostas da primeira década do século XXI, como Contemporâneos, de 2009. Cabe dizer que Augusto continua ativo e produzindo, fazendo notável uso de várias mídias e/ou suportes digitais. Um neófito da poesia concreta tem chance de ilustrar-se um bocado com este livro. Encontramos várias daquelas propostas que provocam espantos e encantam o leitor até hoje: Poetamenos (de 1953); Ovonovelo (de 1956), Pluvial (de 1959); Cidade/City/Cité (de 1963); Luxo (de 1965); Viva Vaia (de 1972), Não (de 1990), dentre tantas outras. Na falta desta bela edição à mão, a melhor forma de "ver" a poesia de Augusto de Campos é procurá-la no Google (experimente, por exemplo, clica aqui!). Bom divertimento. Em tempo: esse volume será lançado oficialmente no Brasil no próximo dia 03/11, terça-feira, no Instituto Goethe Paulista, e que pode ser acompanhada pelo Facebook (clica aqui!). Vale!
Registro #1584 (poesia #136)
[início: 01/10/2020 - fim: 30/10/2020]
"Poesie", Augusto de Campos, edição bilíngue (português e alemão), tradução de Simone Homem de Mello, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2019), capa-dura 16x23 cm., 115 págs., ISBN: 978-85-66423-70-9

sábado, 15 de junho de 2019

panorama do finnegans wake

Há dois dias falei de "Finnegans Wake: a plot summary", de John Gordon, um dos muitos livros dedicados a decifrar o inventivo romance final de James Joyce. Hoje, como parte dos festejos para o Bloomsday 2019, vou registrar algo sobre o primeiro projeto de tradução de Finnegans Wake para o português.  Augusto de Campos e Haroldo de Campos começaram a se interessar pelo tema no final dos anos 1950, ao publicarem fragmentos do livro no Suplemento Literário do Jornal do Brasil. Em 1962 eles publicaram em uma edição não-comercial, hors commerce, distribuída pela Conselho Estadual de Cultura de São Paulo, onze fragmentos do "Finnegans Wake". Na primeira edição comercial, de 1971, que inaugurava a hoje mítica coleção SIGNOS, da editora Perspectiva, o conjunto de fragmentos cresceu, alcançando 16 trechos. Em 1986, na terceira edição, o conjunto alcançou 19 e nesta, a quarta e última produzida ainda antes da morte de Haroldo de Campos, o conjunto de fragmentos de "Panorama de Finnegans Wake" chegou a 22, além de numerosas adições e reinterpretações às demais. São propostas muito bacanas, gostosas de ler, que povoam o cérebro do leitor com imagens e inspirações. As muitas dificuldades (diria até intransponibilidades) do livro parecem desaparecer após a leitura das propostas dos irmãos Campos, um trabalho de perfeccionismo comparável ao do original. Além dos fragmentos, que são acompanhados por extensas notas de tradução, o leitor encontra neste volume vários outros mimos, na forma de uma bibliografia completa sobre Joyce e sua obra; uma síntese biobibliográfica; uma sinopse do livro, que ajuda o leitor a localizar no original os fragmentos traduzidos; uma longa apresentação; várias ilustrações (assinadas por Gerty Saruê, uma gravadora, desenhista, artista multimídia austríaca que radicou-se em São Paulo nos anos 1950) e cinco longos ensaios sobre o Finnegans Wake, um assinado por Joseph Campbell e Henry Morton Robinson, três por Augusto de Campos e um por Haroldo de Campos, cinco jóias raras, artigos realmente seminais. Lembro-me de quando encontrei em um sebo paulista um surrado volume da edição de 1971 (que inclusive tinha uma paginação errada, que dificultava a leitura). Estou seguro que "Panorama do Finnegans Wake" é o melhor início para a aventura que é ler Finnegans Wake. Bom divertimento. Domingo é 16 de junho, é Bloomsday novamente, vamos ler Joyce, Ulysses, Finnegans Wake, vamos ler sem medo "(...) riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs". Evoé.
Registro #1416 (crônicas e ensaios #260)
[início: 02/02/2019 - fim: 16/06/2019]
"Panorama do Finnegans Wake", Augusto de Campos e Haroldo de Campos, São Paulo: Perspectiva, 4a. edição (2001), brochura 15x20,5 cm, 221 págs., ISBN: 978-85-273-0270-5

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

outro

Há nem trinta dias estava eu "drowning in honey, stingless", lá na Casa das Rosas paulista, animado com a perspectiva de receber um autógrafo em meu exemplar de "Outro", o volume mais recente de poesias de Augusto de Campos. Foi uma noite especial. Don Frederico Barbosa sempre sabe ser um anfitrião dos bons, montou uma tenda de maravilhas no pátio da Casa e dentro dessa tenda, bruxuleante, o augusto Augusto autografava os exemplares do livro, recebia tatibitates elogios e eram projetados seus poemas "verbivocovisuais", seus quadros com vocação para clips. Em meio aos festejos e as libações (sim, havia álcool e alegria no ambiente) encontro, bem na minha frente na fila, o industrioso JAA Torrano, que me apresentou o não menor artífice dos livros e das letras José de Paula Ramos. Conversamos os três um bocado, sobre a vida e as viagens, os planos de tradução, São Paulo e, como não, sobre a arte de Augusto de Campos e a oportunidade deste seu novo livro. Depois encontrei don Marcelo Tápia, que justamente tinha planos gregos com o Torrano e o Paula Ramos. Mas é sobre o "Outro" que devo falar aqui. Augusto reúne nele os poemas que produziu nos últimos doze anos (desde "Não", de 2003). São três séries, uma de seus poemas inéditos mais convencionais (se é que é possível falar em convenções com o Augusto), uma do que ele chama de "intraduções" (releituras/readaptações de poemas de outros poetas, como Catulo, Marianne Moore, Longfellow e Mallarmé) e uma do que ele chama de "outraduções" (remixes visuais, experimentações sobre poemas e imagens poéticas de terceiros, como Antonio Vieira, Euclides da Cunha, Bernardo Soares e Raul Pompéia). O livro inclui também uma bibliografia definitiva dos livros dele e sobre ele, além de links para as versões "clipadas" de seus poemas (há vários no genial site Erratica (tvgrama3; tvgrama4; deuses/pó; change words; colidousecapo) e também no Youtube (Novos poemas e intraduções). O leitor curioso poderá achar os clip poemas de seu livro anterior, "Não", na página que fica hospedada no UOL. Difícil não ficar enfeitiçado por eles. No prefácio do livro (Outronão) Augusto soa melancólico, como se não fosse capaz de oferecer outros "Outros" mais (ele explicíta: "E é com este OUTRO, que pode ser também o último bônus de meu trabalho poético, que ouso ex-pôr estes novos poemas."). Esperamos que ele esteja bem enganado, sim senhor. Evoé Augusto, evoé. 
[início: 04/08/2015 - fim: 01/09/2015]
"Outro", Augusto de Campos, São Paulo: editora Perspectiva (coleção Signos #56), 1a. edição (2015), brochura 23x23 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-273-1032-1

sábado, 22 de junho de 2013

quase borges

Neste pequeno livro encontramos vinte poemas de Jorge Luis Borges "transcriados" por Augusto de Campos. A edição é bilíngue, portanto o leitor tem a chance de explorar os poemas originais e comparar seu entendimento deles com as escolhas e propostas de tradução que lhe são oferecidas. Além de uma apresentação assinada pelo próprio Augusto de Campos o livro inclui o relato de dois encontros entre Omar Khouri (um respeitado acadêmico, professor da UNESP), o poeta Augusto de Campos (acompanhado por sua mulher Lygia e seu filho Roland) com um Borges já octagenário, em Buenos Aires, no já longínquo fevereiro de 1984. Augusto e os demais são recebidos com generosidade por Borges e a conversa entre eles é focada na produção poética deles e naquela dos autores que ambos apreciam. Deve ter sido uma experiência realmente mágica. Qualquer poeta gostaria de fazer uma visita deste tipo. Bueno. Os vinte poemas são apenas uma pequena mostra da produção borgiana, mas que bela escolha Augusto de Campos fez. A erudição e a riqueza de imagens típicas de textos borgianos estão ali: os espelhos, os mundos imaginários, os saxões, o labirinto, o eco dos textos antigos. Que maravilha os ler. Já sou um velho e pequeno anão, que lembra dos anos 1980 como quem fala dos tempos pré-cambrianos. Pois eu também vi Borges de perto naquele ano (mas nem de longe sonhei em falar com ele). Estive no auditório do MASP em agosto de 1984, em meio de uma legião de aficionados e aprendi que - a exemplo daquilo que nos ensinava o professor Mário Schenberg - era possível ouvir melhor com os olhos fechados. Talvez fosse o caso de pedir a alguém recitar os poemas e ouvi-los. Que belo livro. Nota bene: curiosamente, esta edição da Terracota/Musa Rara é numerada. Sou o proprietário do exemplar 0782 de 1000. Não é mesmo uma bela proposta?
[início: 01/06/2013 - fim: 03/06/2013]
"Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista", Jorge Luis Borges, tradução de Augusto de Campos, São Paulo: editora Terracota (selo Musa Rara), 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 90 págs., ISBN: 978-85-62370-83-0 [edição original dos poemas: Obra poética 1923-1977 (Buenos Aires: Alianza editorial) 1977; Los conjurados (Buenos Aires: Alianza editorial) 1985]

sexta-feira, 21 de junho de 2013

poemóbiles

São doze objetos-poemas ou poemas-objetos, ditos Poemóbiles. O leitor, ao abrir algo açodado a caixa que os enfeixa, como quem está prestes a descobrir um tesouro, imediatamente começa a brincar com as folhas de papel que, superpostas, dobradas e recortadas, grafadas com tipografia e cores distintas a cada prancha, iniciam com ele um diálogo mágico e curioso. Trata-se de uma obra produzida por dois sujeitos: o multitalentoso poeta Augusto de Campos (que assina os textos, as palavras) e o artista plástico multitalentoso Júlio Plaza (que assina os iconogramas, os objetos). Júlio Plaza nasceu em Madrid, mas escolheu o Brasil para trabalhar, criar e viver. Seus primeiros objetos, onde a técnica utilizada nos Poemóbiles é utilizada, foram produzidos em 1968. Em 1974 surgiu a colaboração com o poeta Augusto de Campos, paulista e paulistano, e deste trabalho conjunto surgiu a primeira edição da caixa com 12 Poemóbiles, que são quase esculturas feitas de papel. Os industriosos editores da Annablume e os não menos industriosos criadores do selo Demônio Negro, através do poeta Wanderley Mendonça, recentemente ofereceram, generosamente e quase quarenta anos depois, uma nova edição deles. Que experiência boa. Cada vez que abro a caixa e os encontro: "Abre", "Open", "Cable", "Change", "Entre", "Impossível", "Luzcor", "Luxo", "Reflete", "Rever", "VivaVaia" e "Voo", descubro algo novo. Cada um deles oferece um jogo, um diálogo, um salto, um assombro. Há vezes em que mostro a caixa para os amigos, com ao Juca noutro dia, que logo começou a tentar entender os cortes, as dobras e a colagem, e a imaginar uma aplicação deles em sua área de trabalho. No início desta semana, após os sucessos do Bloomsday, que comemorei no domingo, lembrei de uma efeméride funesta, os 10 anos da morte de Júlio Plaza, morto em um 17 de junho (logo após um Bloomsday). Resolvi brincar com aquelas folhas novamente e a festa para os sentidos foi garantida. Que beleza! Evoé Júlio Plaza, evoé!
[início - fim: 17/06/2013]
"Poemóbiles", Augusto de Campos e Júlio Plaza, São Paulo: editora Annablume (coleção Demônio Negro), 3a. edição (2010), caixa 19x21 cm., 12 pranchas, ISBN: 978-85-6319804-4 [edição original: Poemóbiles (São Paulo: edição dos autores) 1974]