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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

maravalha

Cláudio B. Carlos é poeta, prosador, editor e também apresentador do bom podcast Balaio de letras. Recentemente ele lançou "Maravalha", uma inventiva e divertida novela. Lê-se com folga em menos de uma hora, sempre com um sorriso nos lábios. A edição é muito bem cuidada, com ilustrações de Thassiel Mel. A narrativa gravita, suja e sensual, umas poucas horas frias, amalucadas e ébrias em um bar vagabundo do interior profundo do Rio Grande do Sul. Linguagem, jogos verbais, filosofices e frases feitas gaudérias povoam as doidas dúvidas e conversas entre dois sujeitos: um narrador inominado e seu amigo Romualdo. Eles falam sobretudo de um terceiro amigo, conhecido como o Maravalha do título, e sobre o que aconteceu com ele em uma noite sem lua de sexta-feira. No bar onde estão (o bar do Dedé), uma vintena de personagens/nomes entram e saem, em seus afazeres e/ou rotina de final de semana de trabalho. O leitor acompanha o passar do tempo e o transe dos viventes. Mais não conto. Vale mesmo a pena ler esse pequeno livro. Diversão garantida.  Um último registro. Vale a pena conferir de Cláudio B. Carlos os bons "O homem do terno de vidro", "Um arado rasgando a carne" e "O uniforme". E segue o baile. Vale!
Registro #1592  (novela #79)
[início - fim: 06/11/2020]
"Maravalha: uma novela grunge gaudéria", Cláudio B. Carlos, ilustrações de Thassiel Melo, Cachoeira do Sul, RS: Saraquá Edições, 1.a edição (2020), 11x18 cm., 154 págs., ISBN: 978-65-991937-0-5

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

relatos póstumos de um suicida

Segundo o próprio Cassionei Niches Petry, seus livros "Arranhões e outras feridas", de 2012, "Os óculos de Paula", de 2014, "Cacos e outros pedaços", de 2017, e agora "Relatos póstumos de um suicida", formam um tetralogia, sua tetralogia do fracasso. Nesta sua proposta mais recente ele oferece ao leitor 44 relatos curtos, alguns que podem ser lidos como contos independentes, mas eu vou classificar o volume como novela (problema meu). O leitor é apresentado a um jogo, em que narrador e personagens trocam de papel em algum momento, invertem o protagonismo das histórias. O narrador é um professor que sonha eliminar todos aqueles que detesta, todos aqueles que lhe fazem mal, vive suas misérias, sua rotina, e é assombrado por seus fantasmas. Uma das personagens do livro, apresentada inicialmente como uma de suas ex-alunas, que sonha em aprender a escrever, logo passa a dominar as ações da trama. O narrador tenta convencer o leitor de sua particular leitura da realidade, sobretudo sua idealização do ofício de escrever e de se expressar-se, mas vamos combinar, no mundo real só os neófitos não percebem que no mundo do livro, no mundo da literatura ou do mercado editorial, não há lugar para ingenuidade, bom mocismo ou amor incondicional ao prazer de ler um livro. A ideia e/ou necessidade do suicídio paira sobre todo o livro. Outros temas interessantes também são igualmente perenes: a função do sexo pago na sociedade e, mais que tudo, a armadilha do ensino fundamental e médio (onde ninguém educa de fato, onde todos os atores - alunos, pais, professores e gestores - apenas engana e se esconde ou tergiversa com a hipocrisia da coisa). Descrever mais sobre a trama roubaria do leitor boa parte do prazer de ler o livro. Claro, é um jogo literário. Cassionei explora o sarcasmo de Enrique Vila-Matas, que em muitos de seus livros faz uso recorrente da ideia de "literatura portátil", a jocosa teoria de que na literatura, algo acidental, de um erro de interpretação qualquer, força indivíduos a associar aos grandes acontecimentos do mundo aspectos banais de suas próprias vidas. Enfim, interessante. Mas eu acho que o Cassionei exagera um tanto na tecla do fracasso, da inevitabilidade da ruína no ofício de escrever, força o leitor a ter pena de sua escolha. Na verdade ninguém, nenhum leitor, está nem aí para os medos e fantasmas, ego ou superego, ou sonhos, de qualquer escritor. Assim como Vila-Matas, Cassionei navega entre ambiguidades e ironias portáteis para enfeitiçar o leitor. Divertido, afinal de contas. Vale! 
Registro #1571 (novela #78)
[início: 17/08/2020 - fim: 18/08/2020] 
"Relatos póstumos de um suicida", Cassionei Niches Petry, Porto Alegre: Class, 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 82 págs., ISBN: 978-65-990301-1-6

quarta-feira, 29 de abril de 2020

ensaio sobre o louco por cogumelos

A obra de Peter Handke é vastíssima (para o padrão dos escritores contemporâneos) Desde 1966 ele já publicou mais de setenta trabalhos diferentes, entre romances, contos, peças de teatro, ensaios, diários, novelas e roteiros para cinema. Cinco trabalhos, publicados entre 1983 e 2013, são explicitamente identificados nos títulos como Versuch no original alemão, ou seja, ensaios, mas não me parece que sejam narrativas que possam ser citadas como exemplos canônicos deste gênero. Já falei aqui algo sobre "Ensaio sobre a jukebox", de 1990, uma curta e estranha novela que trata sobretudo de obsessões e do ofício de escrever, de como inventar histórias e do distanciamento que um autor precisa ter dos avatares que se tornarão personagens das cousas que cria. Neste "Ensaio sobre o louco por cogumelos", o mais recente dos Versuch, publicado originalmente em  2013, acompanhamos a história de uma outra obsessão, a que um sujeito tem pelo ato de colher cogumelos, sobretudo as admiráveis trufas. Handke faz um narrador inominado, que o leitor pode ou não identificar como sendo ele mesmo, Handke, contar fragmentos da vida deste sujeito, deste amigo, desde sua infância, provavelmente nos anos do pós segunda grande guerra, até o dia de seu aniversário, no início da segunda década deste século XXI que vivemos. Nestes fragmentos o narrador conta que seu projeto é escrever um livro sobre o tal "louco por cogumelos", mas a fonte de quase todo o trabalho são as anotações que o sujeito fez sobre sua vida, pois era ele, um advogado de relativo sucesso, quem tinha como projeto escrever um tratado definitivo sobre a arte de colher cogumelos, e enriquecer com isso. Essa obsessão o faz afastar-se de todos, da mulher, do filho recém nascido, do emprego, dos amigos, até literalmente desaparecer. O narrador, nas páginas finais, nos conta qual é o desfecho de seu livro, qual foi o destino de seu biografado, que de alguma forma lembra os finais deus ex machina, os finais dos contos de fada, mas é de uma beleza realmente singular, um louvor ao exercício da amizade e da vida. Difícil de ler, mas muito interessante. Vale! 
Registro #1521 (novela #77) 
[início: 07/03/2020 - fim: 02/04/2020] 
"Ensaio sobre o louco por cogumelos: uma história em si", Peter Handke, tradução de Augusto Rodrigues, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2019), brochura 14x19 cm, 160 págs. ISBN: 978-85-7448-278-1 [edição original: Verusuch über den Pilznarren (Berlim: Suhrkamp Verlag) 2013]

sexta-feira, 3 de abril de 2020

retrato de shunkin

"Retrato de Shunkin" foi publicado originalmente em 1933, quando Jun'ichiro Tanizaki já era um respeitado escritor e já vivia radicado em Kobe, após seus anos em Tokyo e Kyoto. Trata-se de um texto notável, que explora temas complexos, conduzindo o leitor a uma série de reflexões sobre beleza, estética, talento musical, vaidade, o ofício da docência, inveja, sexualidade, obsessões, ornitologia, crueldade, automutilação e submissão. Um narrador inominado conta o que sabe sobre Shunkin, uma mulher do início do século XIX, famosa por sua beleza e excelência musical na arte do koto e do shamisen, instrumentos de corda japoneses. Filha de uma rica família burguesa, que viveu nas últimas décadas do xogunato (ou seja, antes da Restauração Meiji, que mudou radicalmente o Japão, em 1868), Shunkin, fica cega aos oito anos e passa a dedicar-se ao aprendizado musical, tornando-se uma virtuose. O narrador conta a espécie de escravidão humana que se estabelece entre Shunkin e um rapaz mais jovem e simples, Sasuke, ligado a sua família, que é encarregado de conduzi-la a escola. Shunkin e Sasuke tornam-se mutuamente dependentes, estabelecem uma relação de mestre e discípulo, alcançam respeito e relativa fama em sua área de atuação, e também amantes, pais de crianças que são entregues à adoção, compartilham seus destinos por décadas (Sasuke sobrevive a sua mestre por vinte anos). O leitor é conduzido a uma miríade de reflexões. O texto é belíssimo, lê-se cada parágrafo imaginando como um artífice pode fazer parecer simples o ato de construir frases, produzir imagens, provocar reações, invocar associações. No final o narrador pergunta: "o prezado leitor concorda com ele?". Para saber com o quê deve-se ou não concordar o leitor precisa ler essa maravilhosa novela. Bom divertimento. Vale! 
Registro #1511 (novela #76) 
[início: 21/01/2020 - fim: 24/01/2020]
"Retrato de Shunkin", Jun'ichiro Tanizaki, tradução de Andrei Cunha, Ariel Oliveira, Lídia Ivasa, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 160 págs. ISBN: 978-85-7448-290-3 [edição original: Shunkinsho 春琴抄(中央公論), 1933]

quinta-feira, 26 de março de 2020

a ponte flutuante dos sonhos

"A ponte flutuante dos sonhos" foi publicado originalmente em 1959, poucos anos antes da morte de Tanizaki. Trata-se de uma narrativa calma, povoada por imagens de jardins, de sons que são filtrados por uma floresta, de estímulos artísticos e musicais, de poemas, que conduzem o leitor sem pressa. O narrador, Tadasu Otokuni, é um jovem advogado, mas isso só descobriremos no final da leitura. Ele conta fatos de sua vida no início do século XX, quando era bem jovem, relata a vida com seus pais, membros de uma família tradicional japonesa, a morte de sua mãe, o casamento de seu pai com uma jovem cujo passado guarda um segredo e uma miríade de outros sucessos. Há uma perene sensualidade na história, um delicado rendilhado erótico. No início lembrei do jovem Marcel, de Proust, que conta sua dificuldade de dormir sem ser ninado/mimado pela mãe, em "No caminho de Swann". Mas Tanizaki não explora exatamente a psicologia de Tadasu, como faz Proust para falar depois sobre o destino de Charles Swann. Antes descreve como o amor filial de seu protagonista pela segunda esposa de seu pai confunde-se com o desejo, sempre sublimado, sempre algo envergonhado. Tadasu, ainda menino, percebe de alguma forma que aquele arranjo fora antecipado por seu pai e praticamente imposto a ele. Acompanhamos no livro algo sobre o tabu do incesto, o contraste entre classes sociais, as rígidas regras sociais japonesas do início do século passado. Lê-se "A ponte flutuante dos sonhos" em um par de horas, mas as sensações que o livro provoca parecem  fundir-se às lembranças mais caras que temos de nós mesmos, de nossa infância, do momento em que encontramos o sublime na arte, a beleza, de quando descobrimos nossa própria sexualidade. Muito bonito. ÔBeleza! Vale! 
Registro #1507 (novela #75) 
[início - fim: 19/01/2020]
"A ponte flutuante dos sonhos", Jun'ichiro Tanizaki, tradução de Andrei Cunha, Ariel Oliveira, Lídia Ivasa, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 160 págs. ISBN: 978-85-7448-290-3 [edição original: Yume no Ukibashi 夢の浮橋(中央公論), 1959]

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

ensaio sobre a jukebox

Publicado originalmente em 1990, "Ensaio sobre a jukebox" é uma curta e estranha novela, que trata sobretudo de obsessões e do ofício de escrever, de como criar literatura e do distanciamento que um autor precisa ter dos avatares que se tornarão personagens das cousas que cria. Esse volume faz parte de um conjunto de cinco ensaios publicados entre 1984 e 2013 por Peter Handke, austríaco que recebeu o prêmio Nobel de 2019. O narrador conta a história de um sujeito obcecado por jukeboxes, um sujeito que prefere seguir seu projeto de escrever um livro sobre os significados que as jukeboxes tiveram em diferentes fases de sua vida, ao invés de experimentar in loco as transformações decorrentes da queda do Muro de Berlim. O narrador percorre cidades espanholas: Soria,  Burgos, Zaragoza, San Sebastian, Logroño, mas também faz o censo de todas as cidades do mundo que frequentou e encontrou jukeboxes (que, convenhamos, já era um objeto difícil de se encontrar no final dos anos 1980, convenhamos). Lembrei-me dos meses em que vivi na Espanha, justamente neste mesmo final dos anos 1980, e de meu estranhamento com as máquinas de jogos de azar, uns caça-níqueis luminosos, coloridos e barulhentos que encontrava em todos os botecos de tapas e restaurantes que frequentava. Lembrei-me de Cees Nooteboom, que também viajou curioso e encantado pela meseta castelhana, de Javier Marías, também ele um frequentador de Soria, do tempo onipotente com sua ampulheta, das cicatrizes físicas e morais que todo corpo que envelhece guarda. Haverá mais Handke por aqui. Vale!
Registro #1489 (novela #74) 
[início 28/01/2020 - fim 29/01/2020] 
"Ensaio sobre a jukebox", Peter Handke, tradução de Luis S. Krausz, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2019), brochura 14x19 cm, 112 págs. ISBN: 978-85-7448-310-8 [edição original: Verusuch über die Jukebox, Suhrkamp Verlag (Frankfurt am Main, Alemanha), 1990]

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

benito cereno

"Benito Cereno" é uma novela que realmente prende o leitor. Trata-se de uma história curta na qual acompanhamos o relato do experiente capitão de um navio baleeiro americano, chamado Amasa Delano, sobre as circunstâncias de seu encontro com um navio negreiro espanhol comandado pelo jovem capitão Benito Cereno. Os sucessos da narrativa acontecem basicamente nas proximidades de uma ilha na extremidade sul do Chile, na costa do Pacífico Sul portanto, no final do século XVIII. Prefiro não contar nada da trama, que se baseia em um duelo psicológico, em como o capitão Delano lentamente compreende os conflitos reais e imaginários do capitão Cereno e as razões para seu errático comportamento e ambivalente boas maneiras. Melville alcança manter o suspense sobre o quê de factual aconteceu ao navio do capitão Cereno antes de aproximar-se da ilha, bem como daquilo que decorre a partir do momento em que os dois ficam juntos no navio negreiro. A história propriamente dita é contada (compreendida talvez seja o termo mais correto para se usar) em pouco menos de doze horas, que é o tempo em o capitão Delano fica a bordo do navio do capitão Cereno. Em umas poucas páginas finais, cerca de um quinto ou um sexto do livro, Melville faz uso literário de relatórios, declarações juramentadas, cartas e transcrições de relatos para sugerir ao leitor os últimos desdobramentos da trama e propor verossimilhança ao que Delano apurou sobre Cereno. Com nossa sensibilidade contemporânea é fácil enquadrar esta novela na categoria de criações politicamente incorretas, discriminatórias, xenófobas, o que seria uma solene bobagem. O método de Delano, quase científico, de sutil observador e capaz de poderosa capacidade de síntese, parece contaminar o leitor, que seguimos a narrativa como se fosse um artigo acadêmico. De resto, Melville sabe provocar no leitor reflexão madura sobre temas complexos. Muito interessante. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, das quais já li: "Mathilda","Michael Kohlhass", "A ilha de Falesá", "O homem que queria ser rei", "O homem que corrompeu Hadleyburg", "O colóquio dos cachorros", "Stempenyu: O romance judaico", "A lição do mestre", "A pedra de toque", "A briga dos dois Ivans" e "O véu erguido"). Haverá mais das boas novelas da Grua por aqui. Vale!
Registro #1363 (novela #73)
[início: 03/01/2019 - fim: 04/01/2019]
"Benito Cereno", Herman Melville, tradução de Bruno Gambarotto, São Paulo: Grua livros (Coleção a Arte da Novela), 1a. edição (2018), brochura 13x18 cm., 148 págs., ISBN: 978-85-61578-73-2 [edição original: Benito Cereno (New York: Putnam's Magazine) 1855]

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

o outro lado

"O outro lado", de Aldyr Garcia Schlee, deixa-se ler sem pressa, porém é difícil termos a paciência de abandoná-lo em algum ponto, sem sabermos como sua historieta terminará. Schlee chamou esse seu último livro publicado em vida de "noveleta pueblera". Ele nos informa que o escreveu ainda nos anos 1990, mas resolveu deixá-lo inédito até recentemente pois via nele semelhanças temáticas com um filme de Roberto Benigni, "O pequeno diabo", lançado justamente um pouco antes dele ter finalizado seu livro. Trata-se de uma narrativa curta, onde se fala basicamente de uns poucos sucessos de um casal: um estranho sujeito, José Jacinto, que vive na fronteira entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai, e, Marita, sua mulher. Em 22 curtos capítulos o leitor é apresentado é fragmentos das biografias entrelaçadas dos dois: as andanças de José como bom changueiro (transportador, biscateiro) na região dos departamentos do nordeste uruguaio (Cerro Largo e Treinta y tres) e também na cidade de Jaguarão, no sul do Brasil; o encantamento que ele experimentou ao ver uma mulher quando viajava de trem com um grupo de artistas de circo; a forma como ele conheceu e depois fugiu com sua companheira, Marita; as circunstâncias de como ele encontrou dinheiro em um trem e apossou-se esse dinheiro; o passeio que eles dois fizeram a um circo onde ela conheceu o que era um picolé; o dia em que do outro lado do rio, em Jaguarão, viram um trapezista - que bem poderia ser um diabo que cuidava daquela mesma mulher que José viu no trem - cair no palco de um teatro. A novela gravita esses cinco ou seis acontecimentos fundamentais das vidas de José Jacinto e de Marita. O narrador repetidas vezes os descreve, como se fosse um aedo que contasse de forma diferente uma epopeia para seu público, modificando e ajustando as passagens de forma a alcançar um melhor efeito cênico, melhor escandir sua poesia, prender a atenção dos ouvintes. José Jacinto e Marita são quase uma unidade, um casal que se funde, silenciosos e cúmplices em tudo, sem jamais olharem para o passado. Enfim, trata-se de uma história simples, comum, uma metáfora da banalidade de qualquer vida, de qualquer escolha, de qualquer destino. O narrador faz um personagem dizer a José Jacinto que ele "seria muito rico sem sabê-lo". Talvez seja assim com quase todos os homos sapiens, que vivem vidas inteiras fazendo planos, guerreando, eliminando inimigos reais e imaginários, submetendo-se a inúmeras vilezas, sem dar-se conta das maravilhas cotidianas, das cousas que de fato fazem à alma um grande bem. Enfim, cabe registrar aqui que Schlee lançou "O outro lado" há poucos meses (foi em meados de setembro, em sua Jaguarão fundamental) e que morreu no último 15 de novembro. Seguem o rio e o barco. Segue a vida. Vale!
Registro #1351 (novela #72)
[início 08/11/2018 - fim: 12/11/2018]
"O outro lado: noveleta pueblera", Aldyr Garcia Schlee, Porto Alegre: Editora Ar do Tempo, 1a. edição (2018), brochura 14x21cm, 152 pág. ISBN: 978-85-62984-53-2

sábado, 23 de junho de 2018

noite escura

Apesar de pequeno esse "Noite escura" é poderoso. São apenas 72 páginas no formato A6, o tamanho de um cartão postal (para quem não se lembra, cartões postais eram uma forma de mídia que utilizávamos para nos comunicar, mas essa é outra história). Rodrigo Ungaretti Tavares, que assina literariamente R. Tavares, nos conta os sucessos de uma noite, desde pouco antes da meia noite até o arrebol da manhã seguinte. Marco, um matador de aluguel, precisa resolver um trabalho que não foi bem finalizado e, junto com seu ajudante Juvêncio, toma rumo a uma fazenda na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Nada mais escrevo para não furtar do leitor o encanto de acompanhar como a questão prática e profissional daquele matador acaba se resolvendo. O texto é limpo, objetivo, sem muitas digressões. O ritmo é cinematográfico, lembra obviamente westerns antigos, revistas Tex, as cousas reinventadas por Quentin Tarantino, sobretudo pela estilização da violência, sempre gratuita, mesmo quando é pura ficção. Tavares não cai em armadilhas morais, nem oferece ao leitor o lenitivo de, por exemplo, uma redenção mítica. Baita livro, diria um gaúcho do campo, da fronteira, tão bem cantada por Tavares neste pequenino livro. Ojo, seguro que se ouvirá falar deste sujeito por aí. Em tempo: quase esqueço de dizer que o sujeito é apadrinhado literariamente por Alcy Cheuiche, que assina um prefácio. Só isso já vale uma missa, mas descobri que ele é primo do Botelho! Só me faltava agora ele ser parente do Giuseppe. Aí sim. Vale! 
Registro #1272 (novela #71) 
[início-fim: 17/06/2018]
"Noite escura", Rodrigo Ungaretti Tavares, Porto Alegre: Martins Livreiro Editora, 2a. edição (2018), brochura 10x15 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-7537-272-2

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

fiesta al noroeste

Nessa pequena novela se conta uma história sobre o orgulho, a soberba, sobre a dificuldade que temos de entender todas as facetas da vida, sobretudo quando somos muito jovens e influenciáveis. Um titereiro mambembe, Dingo, ao passar próximo à uma cidadezinha do áspero e montanhoso noroeste espanhol (região das Astúrias, León, Cantabria, Galicia), onde nasceu, atropela por acidente uma criança e a mata. Forçado a responder pelo crime, ele pede ajuda a um velho amigo de infância, senhor das terras do lugar e homem poderoso, Juan Medinao. Trinta anos antes Dingo e Juan planejavam fugir juntos da cidade, mas Dingo traiu seu amigo e fugiu com as moedas de prata que acumulavam em segredo. O reencontro entre os dois provoca em Juan uma sucessão de lembranças, sobretudo sobre si, sua forma de agir e pensar, seus atos pregressos, o pai, a morte da mãe, sobre Pablo, um meio irmão seu, sobre o resultado de suas ações, suas culpas e ambições baldadas. Muito bem escrito, sem truques literários bestas e auto indulgência. Ana María Matute foi uma das mais respeitadas escritoras espanholas do século XX, fazia parte da Real Academia Española e recebeu vários prêmios literários importantes, inclusive o Cervantes, em 2010. "Fiesta al Noroeste" foi seu segundo livro publicado, no longínquo 1952. Acho que é o caso de procurar mais livros dela. Vale!
Registro #1232 (novela #70)
[início: 20/10/2017 - fim: 25/10/2017]
"Fiesta al Noroeste", Ana María Matute, Barcelona (España): Editorial Planeta (Ediciones del Destino / Austral Básicos), 1a. edição (2015), brochura 10x15 cm., 117 págs., ISBN: 978-84-233-4902-9 [edição original: Fiesta al Noroeste (Madrid: Afrodisio Aguado Editores Libreros) 1952]

sábado, 26 de agosto de 2017

na ilha de falesá

Depois de ler os relatos de Stevenson sobre as viagens solitárias e as Cévennes, eis que encontrei essa sua história de aventuras dos mares do sul. O enredo lembra um tanto o fundamental "Coração das Trevas", mas não ele não alcança o tom trágico da história de Joseph Conrad, muito embora faça uma potente descrição do encontro de civilizações partindo do comportamento e escolhas de homens comuns (as "civilizações", lembremos, são apenas abstrações que inventamos para poder definir com algum apuro aquilo que lembramos da história de nós mesmos). Stevenson narra a chegada de um sujeito (Wiltshire) que assume um entreposto comercial em uma remota ilha do Oceano Índico (certamente um lugar semelhantes as ilhas Samoa, para onde ele emigrou, em 1888, pouco mais de seis anos antes de morrer). A ideia é vender aos ilhéus quinquilharias em troco da polpa seca dos cocos da região, para que seus contratantes ingleses possam posteriormente extrair deles óleo, um produto de grande valor no século XIX. Wiltshire chega à ilha após a morte de pelo menos três outros homens antes dele, mortes por loucura, doenças inexplicáveis ou suicídio. Trata-se de um mundo corrompido por missionários, padres, religiosos e agentes coloniais (da Inglaterra, Holanda, França, Alemanha, que competem entre si). Sem saber exatamente os costumes do lugar ele descobre-se estar sob a marca de mau olhado, uma proibição tribal, que impede que os ilhéus façam negócios com ele. Com engenho, diplomacia, alguma violência e arte ele descobre a origem das intrigas que fizeram com que ele fosse hostilizado desde sua chegada. A narrativa que se conta é retrospectiva. Já sabemos, no início do livro, que é um velho Wiltshire quem conta os sucessos desta fase remota de sua vida, de como não conseguiu jamais retornar a Londres, abrir uma taverna como planejava, tornando-se um velho das colônias, criando filhas mestiças, que imagina ser possível casar com homens brancos. Há uma não disfarçada melancolia neste final. Se pessoas como ele não forem para o inferno, filosofa ele, é porque o inferno não existe. Interessante. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, das quais já li: "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass", "O véu erguido", "O homem que corrompeu Hadleyburg", "O homem que queria ser rei", "A pedra de toque" e "Stempenyu: um romance judaico"). Vale.
Registro #1207 (novela #69)
[início: 05/06/2017 - fim: 01/08/2017]
"Na ilha de Falesá", Robert Louis Stevenson, tradução de Bernardo Ajzenberg, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2017), brochura 13x18 cm., 136 págs., ISBN: 978-85-61578-62-6 [edição original: (London: The Illustrated London News) 1892]

terça-feira, 16 de maio de 2017

stempenyu: um romance judaico

Li "Stempenyu" enquanto velava meu pai num hospital, exatamente num 23 de abril, dia do livro, dia de se lembrar de Shakespeare e Cervantes. Meu pai se recuperou bem de sua cirurgia e ambos continuamos a viver para lermos mais um tanto. Escrito originalmente em iídiche, no final do século XIX, essa novela de Sholem Aleichem fixa em palavras algo da vida dos judeus asquenazes nos "Shtetlech", bairros ou cidadezinhas da Europa oriental, no interior do Império Russo, cuja população era predominantemente judaica. Stempenyu é um violinista virtuoso, cuja música enfeitiça que a ouve. Músico principal de uma orquestra, viaja de vilarejo em vilarejo para tocar em festas religiosas e casamentos. É um sujeito sedutor, acostumado a provocar paixão nas garotas da região, sem nunca se envolver completamente com elas. A história não é contada cronologicamente. Aos poucos ele se lembra de um ou outro detalhe das aventuras ora verossímeis ora fantasiosas de seus personagens. Sendo assim, Aleichem antecipa ao leitor alguns sucessos, para logo voltar no tempo e justificar as razões dos protagonistas e os caminhos que os levaram até aquele ponto da narrativa. O tom é bem humorado, mas com o toque característico do melhor humor judaico, ou seja, que antes ri de si mesmo, perscrutando bem suas próprias limitações e defeitos, ao invés de ridicularizar um oponente ou interlocutor. O destino de Stempenyu será definido por duas mulheres, Rochalle e Freidel, mas não darei nenhum detalhe aqui. Ao longo do texto o narrador da história se dirige pontualmente ao leitor advertindo-o dos porquês de suas escolhas, sobre os sucessos da trama, as motivações dos personagens. Cabotino, diz ao leitor que seu romance não é interessante, por não conter cenas de ação ou descrever acontecimentos extraordinários, ou por não abusar do romantismo ou do melodrama. Mas o que Sholem Aleichem cria é algo poderoso, que faz o leitor descansar da loucura do cotidiano e sonhar. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, das quais já li: "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass", "O véu erguido", "O homem que corrompeu Hadleyburg" e "O homem que queria ser rei" e "A pedra de toque"). Vale.
[início: 23/04/2017 - fim: 24/04/2017]
"Stempenyu: Um romance judaico", Scholem Aleichem, tradução de Adriana de Oliveira, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2014), brochura 13x18 cm., 216 págs., ISBN: 978-85-61578-36-7 [edição original: (St. Petersburg: Folks-bibliotek) 1888 e (London: Methuen and Co.) 1913]

domingo, 7 de maio de 2017

a pedra de toque

Nunca havia lido nada de Edith Wharton, mas sei agora que já conhecia algo dela, a história "A idade da inocência", que vi filmada no início dos anos 1990. "A pedra de toque" é seu primeiro romance, publicado em 1890, mas vou classificá-lo aqui como novela, pois esta coleção da Grua assim o definiu. Trata-se de uma história moral, no sentido em que o leitor é apresentado a um dilema moral sobre o qual deve refletir e ponderar como se estivesse na situação dos protagonistas do livro. Quando ainda bastante jovem, um medíocre advogado do interior nova-iorquino (do estado, não da cidade), Stephen Glennard, flertou com uma mulher mais velha, recentemente enviuvada, Margaret Aubyn. Ela emigra para a Inglaterra e se torna um escritora de sucesso. Durante todo o tempo em que viveu fora dos Estados Unidos enviou cartas para Stephen, cartas de um amor nunca correspondido. O tempo passa, Margaret morre, Stepehn está enamorado de um jovem, Alexa Trent, mas não tem os recursos necessários para se casar. Stephen fica sabendo por meio de um amigo que os biógrafos de Margaret pagariam um bom dinheiro por informações referentes ao período em que era desconhecida do grande público, quando ainda vivia nos Estados Unidos. O livro descreve muito bem o dilema e suas consequências, sobretudo pressão psicológica e culpa que a decisão de utilizar-se destas cartas, traindo a memória de Margaret para no fundo apenas proporcionar algum conforto material a Alexa, é um um subterfúgio sórdido demais para tolerado. Muito interessante. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, das quais já li: "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass", "O véu erguido", "O homem que corrompeu Hadleyburg" e "O homem que queria ser rei"). 
[início: 30/03/2017 - fim: 31/03/2017]
"A pedra de toque", Edith Wharton, tradução de Bernardo Ajzenberg, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2015), brochura 13x18 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-61578-52-7 [edição original: The touchstone / (New York: Charles Scribner's Sons) 1900]

quinta-feira, 23 de março de 2017

ouça a canção do vento, pinball 1973

Neste volume estão reunidas duas novelas de Haruki Murakami. São suas duas primeiras publicações. Com "Ouça a canção do vento" ele ganhou um concurso literário importante, promovido pela revista literária japonesa Gunzo. "Pinball, 1973" foi publicado logo após a boa recepção do primeiro livro. Esses dois volumes e um terceiro ("Caçando carneiros") formam um trilogia, pois compartilham um protagonista, "Rato", e algo da temática, centrada na solidão e em nosso apego a bobas idiossincrasias. Foram escritos quando ele ainda era dono de um bar em Tokyo. Em "Ouça a canção do vento" acompanhamos três semanas de verão na vida do narrador, seu amigo Rato, um sujeito que tenta escrever romances, e o dono chinês de um bar à beira-mar que ambos frequentam. Eles vivenciam situações comuns, discutem temas banais e colecionam trivialidades. O narrador está de férias da universidade, lembra de uma antiga namorada que cometeu suicídio, se envolve com uma garota que conheceu no bar e trabalha em uma loja de discos, toma cerveja em demasia. Em "Pinball, 1973" o leitor reencontra os três personagens da novela anterior: o narrador, Rato e J (o dono de bar chinês). O narrador ganha a vida como tradutor, mas trata-se de uma atividade provisória, um cotidiano improvisado. Divide sua casa e cama com duas gêmeas, arranjo que gera cenas surreais e cômicas ao livro. Ele relembra coisas de seus dias de universidade (como o suicídio da antiga namorada) e conta algo sobre a complicada vida afetiva e familiar de seu amigo Rato. Também toma cerveja, lê Kant, ouve música clássica, passeia com as gêmeas por um campo de golf contíguo a sua casa nos finais de tarde de outono. No último terço do livro descobrimos que o narrador é um sujeito obcecado por máquinas de fliperama (Pinball, em português). Ele conta a história de seus recordes e de como um dia foi levado às instalações de um galpão onde um excêntrico colecionador armazena dezenas de máquinas de fliperama, de diversos modelos. Após terminar de jogar sua última partida em sua máquina favorita (momento em que, como num transe, parece ter sido suspensa a passagem do tempo) ele retoma sua vida. Nas duas novelas o importante não é exatamente o que se narra, a história, mas sim a sensação ambígua de familiaridade e estranhamento que os livros produzem no leitor. Nada importante parece acontecer, a solidão não é algo que incomoda as pessoas, a apatia do narrador parece refletir a de seus interlocutores, o tempo passa, as pessoas passam por uma metamorfose lenta. Interessante. 
[início: 13/02/2017 - fim: 22/02/2017]
"Ouça a canção do vento / Pinball, 1973", Haruki Murakami, tradução de Rita Kohl, Rio de Janeiro: Alfaguara Grupo Penguin Random House, 1a. edição (2016), capa-dura 15,5x24 cm., 267 págs., ISBN: 978-85-5652-029-6 [edições originais: Kaze No Uta O Kike - 風の歌を聴け (Tokyo: Gunzo) 1979 / Sen-Kyūhyaku-Nanajū-San-Nen no Pinbōru - 1979 1973年のピンボール (Tokyo: Kodansha) 1980]

quinta-feira, 2 de março de 2017

a gata, um homem e duas mulheres

Neste volume encontramos duas novelas de Jun'ichiro Tanizaki. Elas foram escritas há mais de oitenta anos e é difícil dizer qual das duas é melhor. Em "A gata, o homem e duas mulheres" acompanhamos como, utilizando-se de uma gata, uma mulher ardilosamente pretende recuperar o marido que a havia rejeitado. Aprendemos um bocado como eram, no Japão do início do século XX as convenções matrimoniais, dentre outros rituais familiares e amorosos. Ao começar a história encontramos Lily, a gata, vivendo com o indolente Shozo e sua segunda mulher, Fukuko, uma rica e mimada herdeira. A primeira mulher, Shinako, costureira diligente e trabalhadora, que nunca havia sido aceita completamente pela sogra, encontra uma forma de forçar o casal a desfazer-se de Lily, como subterfúgio para atrair de volta o ex-marido, mas logo veremos que os encantos da gata mostrar-se-ão mais perenes, fortes e significativos. Eu, um legítimo senhor de gatos, adorei a história, principalmente pela forma como  Tanizaki registra todo o encantamento que os felinos alcançam conjurar quando enfeitiçam os humanos. Ao mesmo tempo, a vívida descrição do dia a dia da sociedade japonesa como que provoca um feitiço adicional, que prende o leitor à narrativa. "O cortador de juncos", a segunda novela do volume, tem um desfecho menos realista que a primeira, mas é igualmente bem escrita e interessante. Acompanhamos duas narrativas que se superpõe e se complementam, paralelas e especulares ao mesmo tempo. Tanizaki evoca uma antiga história do Japão feudal, para contar duas outras, sobre o amor de um homem por duas mulheres, duas irmãs. O leitor é transportado para as coxias do palco de um teatro, e parece viver junto com os dois narradores das histórias os destinos cruzados dos protagonistas. Essa história é repleta de notas assinadas pelos tradutores, que dão conta das muitas referências poéticas e dramáticas incluídas na narrativa. Segundo elas Tanizaki era um estilista da língua japonesa. Que beleza de histórias. Que livro.
[início: 01/02/2017 - fim: 03/02/2017]
"A gata, um homem e duas mulheres; O cortador de juncos", Jun'ichiro Tanizaki, tradução de Andrei Cunha, Clicie Araujo, Lidia Ivasa, Maria Luísa Vanik Pinto e Tomoko Gaudioso, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2016), brochura 14x20,5 cm., 190 págs., ISBN: 978-85-7448-276-7 [edição original: Neko to Shozo to Futari no Onna / 猫と庄造と二人の女, 1936; Ashikari / 蘆刈, 1932]

sábado, 28 de maio de 2016

puro erotismo

Descobri Mempo Giardinelli há poucos anos e desde então sempre compro sem medo qualquer livro dele que encontro, seguro de que lerei cousa boa. Essa seleção de suas histórias é chilena e inclui textos com vocação erótica, lasciva, sensual. São seis narrativas curtas, seis fantasias (uns contos e alguns fragmentos de novelas). Três delas eu já conhecia muito bem: "Luna Caliente" (só os trechos mais picantes de sua ótima novela, que é de 1983); "La noche del tren" (um divertido conto sobre um rapaz que viaja de trem com sua tia balzaquiana numa véspera de Natal, publicado em 2006) e  "Sentimental Journey" (também conto, que trata dos sonhos compartidos de dois desconhecidos, que juntos fazem uma curta viagem de ônibus, já incluído em uma outra seleção dele, de 2009). As outras três narrativas eram inéditas para mim.  "El cielo con las manos" é uma novela, de 1981; o fragmento incluído nesta antologia trata de uma bela e completa trepada que termina numa angústia terrível, que é a descoberta da perda da antecipação do sexo, da estimulante dúvida que um sujeito tem quando não sabe se a pessoa que deseja cederá ao flerte, à sedução. "Rosita, la vida se acaba" e "Silvina" parecem ser contos independentes, mas não soube localizar a data da primeira publicação deles. O primeiro dá conta do sexo duro e traumatizante que experimenta uma mulher reiteradamente violentada pelo marido. O segundo associa fragmentos de filmes americanos antigos, quadros de museus e a atmosfera mágica de uma grande cidade ao encontro furtivo de um casal de mexicanos que comete adultério longe de casa, em New York. Don Giardinellli sabe mesmo contar suas histórias. Vale a pena consultar sua página pessoal, repleta de informações sobre sua obra e sobre seu ofício (ele é também um respeitado professor universitário, um verdadeiro estudioso da arte que pratica).
[início: 22/05/2016 - fim: 26/05/2016]
"Puro erotismo", Mempo Giardinelli (Oscar Alfredo Giardinelli Alfaro), Santiago/Chile: LOM ediciones, 1a. edição (2011), brochura 9x17 cm., 68 págs., ISBN: 978-956-282-185-8

quarta-feira, 20 de abril de 2016

o homem que corrompeu hadleyburg

Mark Twain conta nesta pequena história um rito de vingança, uma parábola sobre a queda do homem, uma descrição de como funciona uma sociedade disfuncional, povoada por pessoas inescrupulosas, uma sociedade incapaz de reconhecer seus muitos defeitos, sua vocação para o erro e a mentira. O narrador de Twain fala da sociedade norte-americana do final do século XIX, mas aos olhos de um leitor brasileiro, já acostumado com a podridão irreversível em que afundou esse desgraçado país, trata-se de uma história bastante ingênua, um conto de fadas infantil. Bueno. A trama da história é um bocado intrincada e não vale a pena eu detalhada toda aqui. Um sujeito decide expor a enorme hipocrisia e falta de caráter dos moradores de uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Para acabar com a reputação da cidade e de seus moradores ele deixa aos cuidados de um casal um saco de ouro e instruções para que ele seja entregue a única pessoa dali que num passado remoto emprestou-lhe dinheiro e o fez largar o vício do jogo. Num envelope selado, que deveria ser aberto pelas autoridades da cidade, em uma cerimônia pública, o sujeito escreve uma frase que apenas ele e o bom samaritano que o acolheu deveriam saber e decifrar. O morador que assim fosse identificado, assim revelar-se, teria direito ao ouro. O caso ganha repercussão nacional e todos os probos cidadãos da cidade de alguma forma imaginam ser merecedores do prêmio. Twain mantém o suspense até os parágrafos finais, mas o leitor não tem tempo de afeiçoar-se a qualquer um dos personagens para poder torcer para que um deles seja o vencedor. O curioso da história é o procedimento do autor em ir revelando só aos poucos, em episódios algo cômicos, algo sarcásticos, as falhas de caráter dos personagens, as tentações que experimentam, os argumentos que utilizam para se auto-enganar. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, da qual já li "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass", "O véu erguido" e "O homem que queria ser rei"). 
[início: 16/04/2016 - fim: 17/04/2016]
"O homem que corrompeu Hadleyburg", Mark Twain, tradução de Ronaldo Bressane, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2015), brochura 13x18 cm., 95 págs., ISBN: 978-85-61578-50-3 [edição original: The man that corrupted Hadleyburgh / (New York: Harper & Brothers) 1900]

quarta-feira, 9 de março de 2016

a conexão bellarosa

Li tudo o que podia de Saul Bellow nos anos 1980 (acho que nessa época eu só lia autores americanos, com as exceções dos bons Proust e Joyce, e dos gregos, claro). Lembro-me bem do último que li, "A mágoa mata mais", um livro de capa amarelada, editado pela Rocco, pois eu deixei cair meu volume em uma poça d'água quando voltava para casa tarde da noite, algo intoxicado, e até hoje o vejo enrugado na estante, envergonhado, o pobre. Tempos atrás um amigo, um disciplinado leitor, Charlles Campos, reclamou de não haver Bellow por aqui. Pois agora tem. Neste volume estão reunidas as últimas quatro narrativas de Bellow. São textos realmente bons. Ele sempre apresenta personagens e situações rapidamente, mas sabemos que o ponto importante das histórias nunca é revelado tão rapidamente assim. Parece que Bellow é um habilidoso malabarista que equilibra dinamicamente várias maçãs no ar antes de segurar firmemente uma delas. Quando essa questão principal fica explícita o leitor sente um assombro, quase suspira de contentamento. Nas suas histórias sempre há uma espécie de inversão de culpa; uma relação complexa entre efebo e mentor (ou ao menos entre um sujeito que conta uma história e alguém cuja vida mereça ter sua vida contada); um exercício de mundanidade, de prática na vida em sociedade; alguém que é um bom observador ou que possui excelente memória; um homem ou mulher cuja profissão seja mais próxima das ciências naturais em contraste com um homem ou mulher que trabalhe nas áreas de humanidades. Em "Um furto" acompanhamos a forma como uma mulher administra emocionalmente a perda de um anel e aprende algo novo sobre si e as pessoas com quem convive; já em "A conexão Bellarosa", novela que dá nome ao volume, sabemos de um homem que imagina ter a obrigação moral de conhecer pessoalmente o sujeito que possibilitou sua fuga do massacre nazista durante a segunda grande guerra, mas o que Bellow discute mesmo são as diferenças entre a cultura judaica na América do Norte e na Europa (e também aquela construída no pós guerra em Israel); "Uma afinidade verdadeira" parece uma versão erudita de "Emma", de Jane Austen, pois trata de como um homem muito rico possibilita o reencontro de um sujeito com uma antiga namorada, sujeito que ele conhece superficialmente, mas por quem desenvolve forte afinidade após um incidente banal numa festa. "Ravelstein" é o texto mais poderoso do livro, o mais intrincado, um romance completo. Um escritor famoso, já idoso e muito rico, Abe Ravelstein, sabendo que sua morte é iminente, solicita a um amigo, que é só um pouco mais jovem, Chick, que escreva sua biografia. A princípio esse amigo reluta em aceitar a tarefa, pois conhece muito bem o quão controverso e mercurial é o caráter de Ravelstein, mas o leitor sabe que aquilo que tem em mãos já é a biografia solicitada. Bellow alcança manter o leitor curioso nas muitas reviravoltas da história alternando os sucessos de Ravelstein com os de Chick, fazendo-os cruzar o Atlântico várias vezes, incluindo digressões sobre estoicismo, cultura americana, judaísmo, política universitária, niilismo, decadência física e morte. E pensar que Bellow escreveu essa última história com 85 anos. Incrível. 
[início: 19/02/2016 - fim: 01/03/2016]
"A conexão Bellarosa: 4 novelas", Saul Bellow, tradução de Caetano W. Galindo e Rogério W. Galindo, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2015), brochura 16x23 cm., 417 páginas, ISBN: 978-85-359-2611-8 [edição original: A Theft (New York: Penguin Books) 1989; The Bellarosa Connection (New York: Penguin Books) 1989; The actual (New York: Viking/Penguin Books) 1997; Ravelstein (New York: Viking Press) 2000]

quarta-feira, 2 de março de 2016

a casa de papel

Li esse pequeno livro de Carlos María Domínguez em 2007, uma edição da finada editora Francis, e não fiquei muito impressionado (o registro está aqui). Mas quando vi essa reedição em português, traduzida pelo bom Joca Reiners Terron, repleta de umas ilustrações muito bonitas (assinadas por Helena Campos), resolvi experimentar novamente. Aquilo que me incomodou há dez anos continua no texto, claro, a cada encarnação ou época os livros sempre acabam se defendendo sozinhos, pouco importa os cuidados de quem os inventou e dos leitores entusiastas ou críticos que já os louvaram. A idéía é mesmo curiosa, trata-se dos desdobramentos da obsessão de um bibliófilo por sua enorme coleção de livros. Todo aquele que ama demasiadamente seus livros sabe que um dia eles serão perdidos, esquecidos, destruídos e seus esforços por preservá-los apenas retardam um processo irreversível e aleatório. Assim como naquela primeira leitura acho que a história ganharia força caso fosse simplesmente mais curta, concentrando seu dilema ou se fosse estendida ao formato de um longo romance. Tonteria minha. Quem sou eu além do menor dos anões de uma província do sul que por acaso gosta de falar dos livros que lê? Avanti.
[início - fim: 18/02/2016]
"A casa de papel", Carlos María Domínguez, tradução de Joca Reiners Terron, Santos/SP: Realejo edições, 1a. edição (2014), brochura 12x17 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-99905-68-5 [edição original: La casa de papel (Montevideo/Uruguay: Ediciones de la Banda Oriental) 2002]

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

o homem que queria ser rei

Em "O homem que queria ser rei" Kipling cria um narrador que nos conta a história de dois ingleses, Peachy Carnehan e Daniel Dravot, que empreendem a façanha de tornarem-se reis em um pequeno vale nos confins do Afeganistão. A história se passa na primeira metade do século XIX, quando a Inglaterra já controla e administra os territórios atuais da Índia, Paquistão, Bangladesh e Mianmar. O narrador é um jornalista que encontra por acaso um dos sujeitos ambiciosos em uma viagem de trem. Este o convence a entrar em contato com um seu colega e transmitir-lhe uma mensagem cifrada. Antecipando os riscos envolvidos no planos dos dois sujeitos o jornalista num primeiro momento consegue impedi-los de cruzar a fronteira em direção ao Afeganistão quando alerta as autoridades da presença dos dois aventureiros na região. Os dois posteriormente o procuram na redação do jornal e conseguem dele mapas e informações atualizadas sobre a geopolítica da região. Entediado no tórrido verão indiano e sem notícias importantes para divulgar dessa vez ele se diverte alimentando o mirabolante plano dos dois, já que no fundo pouco acredita em sua viabilidade. Despede-se dos dois quando ambos já estão disfarçados de peregrinos muçulmanos em uma caravana rumo à fronteira. Anos mais tarde, Carnehan, bastante ferido e visivelmente endoidecido, aparece na redação do jornal, conta detalhes de suas aventuras e as circunstâncias da morte de Dravot. Trata-se de uma novela engajada, moral, metafórica, através da qual Kipling denuncia os métodos de dominação inglesa do subcontinente indiano. A história faz várias alusões aos ritos e à simbologia maçônica (Carnehan e Dravot utilizam princípios e técnicas dos maçons para fazerem-se passar por deuses encarnados e submeterem os habitantes do longínquo e miserável vale afegão). A história é movimentada e divertida. Lembro-me de ter visto uma versão cinematográfica dela em meados dos anos 1970 (Sean Connery no papel de Dravot e Michael Caine no de Carnehan, John Houston assinou a direção do filme). Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, da qual já li "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass" e "O véu erguido").
[início: 02/12/2015 - fim: 03/12/2015]
"O homem que queria ser rei", Rudyard Kipling, tradução de Sérgio Flaksman, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2015), brochura 13x18 cm., 74 págs., ISBN: 978-85- 61578-49-7 [edição original: The Man Who Would Be King / The Phantom 'Rickshaw and Other Eerie Tales (Allahabad/India: A.H. Wheeler and Co. of Allahabad) 1888]